Mostrando postagens com marcador intertextualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador intertextualidade. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de setembro de 2025

Defenestração

domingo, setembro 07, 2025 3


Fenestra é janela em latim. De- é um prefixo, também latino, que significa movimento de cima para baixo. Logo, podemos descrever a ação de atirar algo pela janela como defenestrar, e o ato, em si, como defenestração.

Embora seja professora de língua portuguesa, não estou aqui para dar aula sobre a origem das palavras. Tampouco, para dizer que aprendi a etimologia de defenestração nas aulas de latim ou lendo algum dos (maravilhosos!) livros do Caetano W. Galindo. Escrevo hoje na tentativa de defenestrar no papel algumas palavras carinhosas a pessoa que me ensinou o significado do vocábulo de uma maneira muito mais engraçada do que o primeiro parágrafo metódico do meu texto. Tal pessoa é Luis Fernando Veríssimo.

Quando criança, meu pai trabalhava na editora Abril. Ele sempre trazia um exemplar da Veja e da Veja SP para casa. Eu, por minha vez, sempre folheava as revistas nada atrativas para uma criança e lia aquilo que conseguia compreender: a última página, a página das crônicas. 

Claro que, naquela época, eu não entendia que crônica era um gênero discursivo que, como explicou o Antônio Cândido no famoso texto publicado na coleção Para Gostar de Ler, fala sobre temas ao rés do chão. Lia porque a simplicidade me divertia. 

Anos mais tarde, já frequentando a biblioteca, descobri aquele autor meio careca, meio gordinho, que tinha muitos — mas muitos MESMO — livros publicados em que narrava cenas do cotidiano. As tais das crônicas. Comecei com as Comédias para se ler na escola e não parei mais. Veríssimo, pra mim, tornou-se sinônimo de verdade, uma verdade íntima que me revelou uma epifania solar: também queria escrever acerca dos causos e mais causos que tanto observara. 

No meio de todos aqueles textos, lá estava a tal da Defenestração. 

Se hoje defenestro, do alto da minha caixola, palavras no papel, é porque antes de mim houve um Luis Fernando (veja só, Fernando, assim como eu!), que do alto de sua timidez não deixava de observar (!!!) tudo ao redor e que fazia questão de amar a língua como instrumento não só de trabalho, mas de vida. Por isso, a notícia de sua passagem, me deu um nó no peito. Perdemos um dos grandes!

O nó veio por saber que ele é eterno; mas, agora, etéreo. Sublimou-se em sua presença física, não vai mais defenestrar palavras sobre nós, ainda que seu legado se sustente firme, forte, sorridente, crítico e bem-humorado. 

Certa vez ouvi o Mick Jagger dizendo que só se sente velho quando ele vê alguém que ama partindo. A idade pesou por aqui, no dia em que o Veríssimo se foi.

Mas, para não terminar esta crônica de maneira tão solene e triste (acho mesmo que o Veríssimo detestaria isso), deixo abaixo a Defenestração, do próprio autor — muito melhor do que as minhas palavras, que de sinceras soam piegas. Divirtam-se:

Luis Fernando Veríssimo
(Imagem: Unesp/divulgação)


Defenestração

Luis Fernando Veríssimo

Certas palavras tem o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A falácia Amazônica. A misteriosa falácia Negra. 

Hermeneutas deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria. 

—Os hermeneutas estão chegando! 
— Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada... 

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisa recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto. 

— Alô... 
— O que é que você quer dizer com isso? 

Traquinagem devia ser uma peça mecânica. 

— Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto. 

Plúmbeo devia ser o barulho que o corpo faz ao cair na água.

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um som lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres: 

— Defenestras? 

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam. 

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria assim defenestradores profissionais. 

Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma ou outra vez, como em: 

— Aquele é um defenestrado. 

Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada era a palavra exata. Um dia finalmente procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino, ato de atirar alguém ou algo pela janela. 

Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal,não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração? 

Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo. 

— Les defenestrations. Devem ser proibidas. 
— Sim, monsieur le ministre. 
— São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios. 
— Sim, monsieur le ministre.
— Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos. 

Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes. 

— É essa estranha vontade de atirar alguém pela janela, doutor...
— Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar — diz o analista, afastando-se da janela.

Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.

Na lua-de-mel, numa suite matrimonial, no 17º andar.

— Querida...
— Mmmm?
— Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...
— Fala amor.
— Sou um defenestrador.

E a noiva, em sua inocência, caminha para cama:

— Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!

Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:

— Fui defenestrado...

Alguém comenta:

— Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!

Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar essa crônica. Se ela sair é porque resisti.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. Defenestração. In: O nariz e outras crônicas. 6.ed. São Paulo: Ática, 1998. p. 82-84.


_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Beleza

quarta-feira, agosto 16, 2023 6
Foto feita por mim. Para ver mais delas, clique aqui.


Flores são lembradas como natureza em expansão. Buquês, como amor e casamento. Coroas, como homenagem aos mortos. Flores secas envelhecem no tempo, na delicadeza e na distância: se esfarelam sem motivos grandiosos. Chegar à adolescência é tido como florescer. Há flores com espinhos. Há as carnívoras, armadilhas mortais aos mosquitos. Flores doces, cheirosas todo tempo. Flores que só se perfumam à noite. (A maior flor do mundo é fedida.) Floradas longas ou breves. Ipês colorem as ruas. A flor de cerejeira é símbolo do Japão. São Paulo tem a Casa das Rosas. Nasci na primavera porque minha mãe me pariu no Hemisfério Sul. Vinícius escreveu "A rosa de Hiroshima". Clarice descreveu os encantos do Jardim Botânico em um conto chamado "Amor". 

Elenco ideias. 

Quero escrever algo leve e bonito, mas como escrever algo leve e bonito quando as mazelas do mundo me atingem em cheio?

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 14 de maio de 2023

Gênese

domingo, maio 14, 2023 3
Imagem por Irina Iriser, via Pexels.

colho no fogo o material a ser talhado
me queimo por inteira
— fênix retornada —
dos encontros, a matéria-princípio:
luz, areia, mar, cosmos, fria-quentura

seguimos

muito e nada em frações de nanossegundos
disponibilidades que se desfazem e se renovam
no valor do vento, equilíbrio-oxigênio combustível das entranhas
e seus volumosos corpos de moléculas
— nem sempre tão poéticas ou contundentes —

seguimos

no alento destas ambidestras incertezas
frases ganham importância mesmo que não tenham sentido
— orações que outrem ouve e interpreta —
a visão da vasta vida e de seu parto
período composto por eternos recomeços
recomendados pelos cinco sentidos humanos
aprovados por mais outros dez ou quinze divinos
fé sendo confiança no reconhecimento da pureza

seguimos

na devoção há fome e dicionários de etimologias devorantes
me queimo por inteira já que sempre me disponho
nua corro vestida somente por vocábulos
significantes robustos de traduções e de significados
velhos descendentes de uma morte-vida latino-americana escancarada
potencial ponte, fonte fonética e frutífera
útero construindo gerúndios que se renovam e multiplicam

seguimos

num outono-inverno frio e poente
sou esculpida por vulnerabilidades sinceras
marcadas no tempo pelas ousadas páginas de telas e celuloses repletas de grafismos
rabiscos-rascunhos curiosamente curados de segredos sitiantes
conjunto que se lança em registros intergalácticos sem datações
metonímia de parte que é todo que se reparte

existo

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

{Aula Gratuita} Clarice Lispector e a Morte de uma Baleia: Leitura de uma Crônica

sexta-feira, outubro 23, 2020 14
Vem desvendar esse mundo com a gente!

Olá, pessoal! 
Tudo bem?! 

Escrevo para compartilhar com todos um projeto muito especial em que participei com a minha amiga e escritora, Aline Caixeta. Juntas nós gravamos uma aula chamada Clarice Lispector e a Morte de uma Baleia: Leitura de uma Crônica. Este encontro foi disponibilizado gratuitamente no canal Oficinas Culturais do Estado de São Paulo do YouTube e é a nossa homenagem neste ano de centenário de nascimento da autora.

(Eu sei, eu sei! Muita gente tem medo/receio da literatura clariceana. Mas vem comigo, garanto que você vai gostar!)

Estrutura da Aula



A crônica como gênero literário

Começamos o encontro tratando um pouco sobre o que é a crônica, resgatando as suas características, como ela nasceu. Também contamos um pouco como a crônica consegue absorver vários outros gêneros textuais, quem são os seus principais autores e por que esse é um gênero tão querido pelo leitor brasileiro.

Vida e obra de Clarice Lispector

A Clarice é uma escritora que muitos leitores tem um certo medinho, porque seus contos e romances são tidos por muitos como herméticos, difíceis de serem lidos. As crônicas vão na contramão disso, falando do cotidiano da autora. Sendo assim, apresentamos aos nossos expectadores a vida e a obra de Clarice para que todos possam se aproximar mais dos textos escritos por ela.

Morte de uma baleia

Por fim, fizemos a leitura da crônica "Morte de uma baleia" e batemos um papo trazendo uma análise crítica baseada nos pontos apresentados anteriormente, observando na prática como as características do gênero textual e da vida da autora estão presentes no texto.

Aperte o play! ;)


Para continuar estudando

Na descrição do vídeo há um link para o material utilizado na aula. Você pode fazer o download e continuar os seus estudos.


Espero que vocês gostem!
_____________________________________________________________

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Impossibilidades

quarta-feira, setembro 23, 2020 12
Foto por Bruno van der Kraan, via Unsplash.

No hibridismo entre poesia e jornalismo nasce uma crônica. O problema, talvez, seja que estou longe de ser jornalista — além de ouvir, gosto igualmente de falar. E, embora seja poeta, não ando flanando por aí. Tem sido difícil coletar miudezas.

Desde que terminei a grande faxina, tenho vivido no meu quarto. Durmo, acordo, trabalho, estudo e me exercito entre as quatro paredes e sua pequena janela. É difícil tirar grandes narrativas dessa rotina.

Já se foi um semestre inteiro de quarentena. Seis meses, alguns dias e um aniversário em casa. Meu carrinho da montanha russa das emoções continua em seu looping star eterno de alternância entre dias incríveis e terríveis. De qualquer forma, sigo.

Às vezes penso no futuro. Como seremos nós no final de tudo isso? Digo o final real e falo em um nós coletivo. Como seremos daqui alguns anos, depois que a população mundial for vacinada e o planeta estiver ainda mais quente (por conta dos biomas cada vez mais destruídos) e os sistemas econômicos atuais em ruínas? 

O dito popular afirma que em pouco tempo "muita água corre por debaixo de uma ponte". Resta saber qual é o estado dessa água. (A sensação que tenho é de que há cada vez mais lodo. É impossível ver o fundo.)

A vida muda o tempo todo. E eu, que tenho tentado sair do quarto ao menos para ver os telejornais na sala, hoje pulei esse momento. A falta da verdade me dói. Eu não vivo no mesmo país que foi descrito na reunião da ONU.

_____________________________________________________________

quinta-feira, 26 de março de 2020

Eu era silenciosa

quinta-feira, março 26, 2020 16
Una charla con Mafalda en Buenos Aires.
"Eu era silenciosa". A frase de Clarice solta, assim como quem não quer nada em seu volume de crônicas, me pegou de jeito. Logo eu, a nerd faladeira, cuja reclamação era certa nas reuniões de pais e mestres: "A Fernanda, a Fernanda é maravilhosa, mas fala pelos cotovelos...".

Eu era silenciosa. De um silêncio que assustou meus pais. Lá pelas tantas, cresci e não falava. Minha mãe, preocupada, aproveitou a visita à casa de minha avó e colocou o pobre do filhotinho da galinha para piar na minha boca. O pintinho fez "piu" e, com ele, as compotas foram abertas. Magia, superstição ou fé? Não sei. O que posso dizer é que foi assim que a minha vida de tagarela começou.

Eu era silenciosa. Mas depois que abracei quem eu sou, passei a lutar pelas minhas próprias ideias. Dizem por aí que falo alto demais. Talvez fale mesmo. Em um mundo racista e patriarcal, é preciso elevar a voz. Às vezes, ir além: faz-se necessário rugir. 

_____________________________________________________________

domingo, 25 de agosto de 2019

4 poemas de Paulo Leminski que você precisa conhecer | BEDA agosto/2019 #25

domingo, agosto 25, 2019 2
Paulo Leminski.
Ontem foi aniversário de nascimento do poeta curitibano Paulo Leminski e como ele é um dos meus poetas preferidos nesta vida, resolvi fazer deste sábado e domingo um final de semana leminskiano aqui no Algumas Observações. 

Fala de Paulo Leminski sobre os poetas, publicada na edição 248 da revista Cult.
Se no post de ontem eu abri o meu coração em uma carta, no de hoje eu resolvi separar quatro poemas do autor para que vocês possam conhecê-lo um pouco melhor. Selecionei parte dos meus textos preferidos, então espero que vocês gostem. Os poemas apresentados abaixo estão no livro Toda Poesia, publicado pela Companhia das Letras, entre parenteses seguem as páginas onde estão cada texto.



pareça e desapareça

      Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
      O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
       Até parece mentira,
tudo parecia alguma coisa.
      O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
      A dor, sobretudo,
parecia prazer.
      Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
      O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
      quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
      Mas vice-versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
      A fita não coincide
Com a tragédia encenada.
      Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.
                                      (página 207)

--------------------------------------------------------

     um bom poema
leva anos 
     cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
      seis carregando pedra, 
nove namorando a vizinha,
      sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
     três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
     uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
                                      (página 245)

--------------------------------------------------------

ouverture la vie en close

     em latim
"porta" se diz "janua"
     e "janela" se diz "fenestra"

     a palavra "fenestra"
não veio para o português
     mas veio o diminutivo de "janua"
"januela", "portinha"
     que deu nossa "janela"
"fenestra" veio
     mas não como esse ponto da casa
que olha o mundo lá fora,
     de "fenestra", veio "fresta",
o que é coisa bem diversa

     já em inglês
"janela" se diz "window"
      porque por ela entra
o vento ("wind") frio do norte
      a menos que a fechemos
como quem abre
     o grande dicionário etimológico
dos espaços interiores
                                      (página 248)

--------------------------------------------------------

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo 
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui.
                                      (página 356)

--------------------------------------------------------

E você? Conhece o trabalho do Leminski? Gosta das produções dele? Me conte nos comentários! Vamos conversar. ;) 

_____________________________________________________________

domingo, 18 de agosto de 2019

Ultimamente têm passado muitos anos | BEDA agosto/2019 #18

domingo, agosto 18, 2019 4
Rubem Braga. Imagem: Reprodução

Caro Rubem,
desculpe-me por dispensar as formalidades e não chamá-lo de Sr. Braga. Como compartilhamos do mesmo olhar de cronista, tomo a liberdade de tratá-lo pelo primeiro nome.

Tenho 32 anos e, ao contrário do poeta, os meus ombros não suportam o mundo. A humanidade pesa. Ela pesa em um grau que, às vezes, me faz desejar passar horas deitada em posição fetal, rogando um final feliz a todos nós (rogando a um Deus que hoje eu não tenho certeza que existe).

Assim como tomei a intimidade de chamá-lo de Rubem, roubo o título da sua crônica. Como  pode o tempo passar tão depressa? Não sei quanto a você, mas vejo a grande mão da velocidade me pressionar contra a parede. Isso me envelhece, velho Braga. Isso faz de mim uma anciã.

No final do ano passado, encontrei o primeiro fio branco, deslocado em meio à farta cabeleira. O golpe me desequilibrou e foi difícil focar no espelho. A genética aparenta que eu puxei à família do meu pai; contudo, a brancura dos meus cabelos desabrochou antes da do meu patriarca. Como lidar?

Aliás, Rubem, como lidar? Como lidar com a velhice turbulenta, que vê crianças sendo assassinadas nas escolas, políticos se autoexilando por terem um ponto de vista diferente, governantes jogando a segurança nas responsabilidades dos civis? Como você lidava, caro Braga, com o caos?

Sinto falta dos passarinhos, de sentar e observar o ir e vir sem ficar sabendo de uma barbaridade nova a cada minuto. Ultimamente têm passado muitos anos e eles não são felizes. Sinto que está a cada dia mais difícil conviver.

Há como cultivar a esperança?

Para ler o texto do Rubem Braga de onde roubei o título desta crônica, clique aqui.
_____________________________________________________________

sábado, 27 de outubro de 2018

Uma carta a Carlos Drummond de Andrade

sábado, outubro 27, 2018 8

Querido Carlos,

perdoe-me a intimidade de chamá-lo pelo primeiro nome. Acontece que não gosto de formalidades e, me parece, você também não. Ademais, quero conversar sobre o que anda transbordando do peito e isso também não combina com cerimonialismos.

Estava aqui pensando quando nos conhecemos e como foi o nosso primeiro encontro. Não consegui me lembrar ao certo, mas creio que isso aconteceu em uma sala de aula, há 17 anos. O poema que trazia as suas sete faces me despertou o desejo de entender mais da crítica literária e de querer esmiuçar cada verso, para lhe conhecer melhor. Dali, pulamos para "No meio do Caminho", "Quadrilha" e "Sentimento do mundo". Foi com "Sentimento do mundo" que você ganhou meu coração. Você mora nele até hoje.

Trecho de abertura do poema "Sentimento do Mundo", de Carlos Drummond de Andrade.
Alguns amigos lhe reconhecem no que eu escrevo, mesmo que eu não esteja pensando em você no momento da escrita. De algum modo mágico, seu texto se entranhou nas minhas veias. As crônicas, os poemas, o seu modo intenso de ver o mundo com uma simplicidade dolorosa... Não sei se aprendi com você a ser assim, ou se me reconheci em você justamente porque sou assim.

A resposta para esse dilema não importa. A confluência, sim. Principalmente quando ela é do amor. Tenho fé nas pessoas, Carlos, e não quero perdê-la. O mundo está de pernas para o ar; mas, ainda assim, quero manter fé nas pessoas. E é por isso também que lhe escrevo.

Carlinhos, você viveu o horror de presenciar as duas grandes guerras. Você também viu o que veio depois delas. Então, Carlos, me diga, como lidar com tanta gente se odiando? Como educar, como escrever, como encontrar forças para vencer o medo e o ódio que se espalham pelas ruas e ganham cada vez mais força? Como viver em uma sociedade que está polarizada? (Sim, de novo, Carlos. Em outro contexto decerto; contudo, aqui estamos nós, cada um de um lado.)

Poema "Congresso Internacional do Medo", de Carlos Drummond de Andrade.

Carlos, a amendoeira falou enquanto seus netos brincavam na praça. Será que voltarei a ver esta paz reinando novamente? Será que, de algum modo, a humanidade aprenderá com os seus erros e terá paz algum dia? Será que o José encontrará um consolo para o seu e agora?

Trecho do poema "As Sem-Razões do Amor", de Carlos Drummond de Andrade.

São muitas perguntas sem respostas, Drummonzinho. Muitas mesmo. De qualquer modo, por mais que eu conserve este nó no peito, quero lhe agradecer: suas crônicas e seus poemas sempre foram e sempre serão um abraço em meio ao caos.

Com carinho,
Fê
_____________________________________________________________

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Carta a Paulo Mendes Campos

segunda-feira, janeiro 29, 2018 8
Paulo Mendes Campos / Reprodução.

Caro Paulo Mendes Campos,

Já amei e não fui correspondida. Muitas vezes. Arrisco dizer todas elas. Sim, em trinta anos amando, em nenhuma das vezes fui correspondida. É loucura ou azar – cada um dá um nome, você pode escolher o seu – mas, independentemente de como nomearmos, a solidão é um fato na minha vida.

A forma como lidar com isso oscila: ora estou bem, autossuficiente, uma diva em pleno poder; ora estou no fundo do poço, na carência excessiva, no caos e na dor de quem sofre por estar só e por sentir pena de si mesma. É oito ou oitenta. Não tem jeito.

Foi em uma noite dessas, em meio à uma dessas crises de desamor, que nos (re)encontramos: você e eu. Estava na pós-graduação, na aula de crônica; e, depois de muito falar sobre o Vinícius de Moraes, lá veio você, me dizer, com todas as letras, que o amor acaba.

Eu acho que já conhecia esse seu texto. Tinha lido na adolescência, em alguma aula sobre prosa poética do Ensino Médio. Passado que piscou como um flash, já que o objetivo daquela época era falar de tudo rapidinho para focar na dissertação argumentativa dos vestibulares. Te conheci na adolescência, mas só agora eu pude compreender a magnitude de uma frase tão singela quanto a que intitula o seu texto. “O amor acaba”. Três letras. Quanta sabedoria.

A aula da pós aconteceu em uma quinta-feira gelada de outono e retomava a questão da prosa poética. Eu cheguei ali, alheia a dor, achando que havia me blindado. Então, lá veio o professor, começando a te ler, com a voz a enchendo a sala e o sentidos de quem ouvia as suas palavras. Lá fui eu, me entregando, me inundando por você, pela dor do arrebatamento de saber que aquilo que eu sempre quis é tão frágil, tão volátil. Será que há alguma forma de não acabar com a esperança?

Eu sei, Paulo, que os tempos são outros. E é justamente isso que me assusta, me faz encolher quase em posição fetal, chorando por dentro. Se na sua geração — a que andava nas ruas, conversava nos bares e se reunia para discutir literatura, música e arte —, o amor já acabava de forma tão singela; você consegue imaginar na minha, em que as pessoas mal se olham, presas ao imediatismo das telas de um celular?

Quando o professor chegou ao fim do texto, estava com os olhos embargados e com um aperto incomum no peito. Precisava de um abraço, de um aconchego que só este amor, que um dia acaba, poderia me dar. Naquela noite, tentei chorar e não consegui.

Ainda não sei. Talvez, lá no fundo, eu não acredite que exista amor, mesmo querendo um... Talvez meu impulso seja duvidar de você, seja de lutar contra o fim do amor que acaba. Por que a vida é tão complicada, Paulo? Você já chegou a alguma conclusão sobre isso?

Certezas não tenho e por isso, me despeço.

Um beijo de quem se fechou na luta para não desistir,

Fê

_____________________________________________________________

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sobre os livros mais vendidos no Brasil e o que eu tenho a ver com isso

sexta-feira, julho 07, 2017 4
Clique para ler a reportagem do Nexo.
Minha amiga, Carol Vayda, compartilhou comigo no facebook "O ranking dos livros mais vendidos no Brasil desde 2010", publicado pelo Nexo, escrito por Eduardo Maschio e Rodolfo Almeida. A reportagem aponta o crescimento da leitura de literatura infantil e dos livros religiosos/de autoajuda. Junto com o link, ela deixou a pergunta: "Sis, o que acha?". 

Pois é, o que eu acho. O questionamento tão pequeno me levou à uma reflexão maior. Primeiro, arrisco a dizer que os livros mais vendidos são apenas um reflexo da nossa sociedade. O Brasil está a cada dia mais confuso politica e economicamente falando. Os escândalos de corrupção e o desemprego atestam essa confusão melhor que eu. Então, não me surpreende que no topo dos mais vendidos estejam os livros escritos por líderes religiosos (Bispo Edir Macedo e Padre Marcelo Rossi). As pessoas andam tão desesperadas que se apegam à religião, para encontrar algum consolo.

No meio da lista tem alguns livros internacionais. Alguns deles, que viraram filmes. Boa parte deles faz parte daquele grupo que recebeu investimento pesado de marketing da editoras seja junto às livrarias, seja nas ruas (aqui em São Paulo, muitos outdoors nas estações de metrô) e parcerias com blogueiros. Resumindo, uma leitura que se dá pela curiosidade gerada pelo o buzz, não porque o autor tenha necessariamente algum tipo de qualidade literária.

Nesse limbo, aparecem também os livros de youtubers e os de literatura infantil. Começando pelos de youtubers, confesso que, de todos os que li (e foram vários!), os únicos livros em que vi qualidade foram os da Bruna Vieira (talvez porque antes de ser youtuber, a Bruna trabalhava com textos no Depois dos Quinze). Contudo, se por um lado a qualidade literária da maioria deles é muito questionável (e a escrita também, já que reza a lenda que alguns fazem uso de ghostwriters), por outro é por meio dos livros dos youtubers que muitas crianças e pré-adolescentes entram no mundo da leitura. A gente sabe que o sistema educacional brasileiro tem muito a desejar e que lutar contra a tecnologia não é a melhor estratégia para fazer com que as gerações mais novas leiam, então, os livros dos youtubers ajudam a abrir as portas; ganhando, assim, algum valor. 

Sobre os livros de literatura infantil, a conversa começa em um patamar anterior. As pessoas têm mania de ver a literatura feita para crianças como algo menor. Coisa que não é verdade. Há livros de literatura infantil com qualidade literária melhor do que muitos best sellers para adultos (em que se nota que o trabalho do escritor com estrutura das sentenças, com a sequência descritiva e com o desenvolvimento da trama e dos personagens são muito mais apurados). Assim como ocorre com os livros de youtubers, a literatura infantil vem para abrir as portas para os leitores. E, nesse quesito, fico feliz que a maior parte dos livros vendidos sejam os que são voltados para as crianças e adolescentes. Quem sabe não é essa a geração que vai aumentar o índice de leitura na fase adulta mais para frente?

Esses dados me trazem uma ambivalência de sentimentos. É ótimo ver que os brasileiros estão lendo. A sensação que me dá é que o número de leitores tem aumentado ainda que a passos lentos. Isso é incrível, porque, independentemente do que é lido, é melhor estar em contato com os livros do que não ler (e é aquela história: ninguém começa de cara com um Machado de Assis. Refinamos o nosso gosto literário aos poucos. Tenho consciência de que isso é um processo). Por outro lado, me entristeço quando vejo que neste ranking não há livros maravilhosos, escritos por autores nacionais (nenhum prêmio Jabuti ou SESC de Literatura, por exemplo). Encarar esta lista como o reflexo do mercado, que por sua vez, é reflexo da cultura que prega que só o que vem de fora é melhor e que só os autores gringos têm qualidade é desolador.

E é justamente aí que eu me pego pensando no que eu tenho a ver com tudo isso.

Eu sou professora, blogueira e escritora (na maior parte do tempo, de crônicas -- um gênero consagradamente brasileiro e consequentemente menosprezado por alguns). Isso tudo me leva a pensar no meu papel, perante à sociedade, de influenciadora dos meus alunos, amigos e leitores em relação a tudo isso. É errado ler livros de autoajuda, religiosos ou de youtubers? Não, não é, e como disse acima, eu mesma já fiz isso. A questão é como levar as pessoas a irem além. Como professora a melhor forma de fazer os alunos lerem é pelo exemplo. Ler para eles, com eles, conversar sobre as minhas experiências de leitura e me interessar genuinamente pelas experiências deles é um ótimo começo. Já tive alunos que deixaram de ter a professora de língua portuguesa como modelo, para vir me pedir indicações de leituras. É nesse ponto que o meu posicionamento como blogueira e escritora entram em ação também. Se eu conheço tantos livros nacionais maravilhosos, por que vou indicar um que esteja na modinha do marketing literário? Tenho que aproveitar as oportunidades que os meus alunos e amigos me dão para fortalecer sim, a literatura nacional. 

O mesmo eu venho tentando fazer isso ao longo das minhas últimas compras. É isso que venho buscando ao longo das resenhas que trago para o blog (e me enche de felicidade saber que uma das mais lidas é a de um livro do João Ubaldo Ribeiro). Sei que é trabalho de formiguinha, mas não consigo deixar de fazer a minha parte. 

Minha esperança é que em 2020 o Nexo tenha uma lista mais promissora.
_____________________________________________________________

sábado, 25 de março de 2017

Sobre a vida

sábado, março 25, 2017 8
Quais são os caminhos da sua plenitude?

Quis ser feliz a custo da honestidade. Fazia o que lhe dava na telha, cantava o que via no mundo, aquilo que acreditava ser verdade. Observava, pensava, em determinados momentos se calava. “Algumas brigas não valem à pena”, praticava.

Sentia orgulho a cada falha. Os tropeços eram convites: vamos ser melhor? De novo e de novo: reaprendia a cada dia. Frustração e perfeição podem ser lados da mesma moeda... ou não! Cada momento e sua singularidade na vida.

Achava injusta a cobrança que leva à falta de liberdade. Me deixe se mulher, me deixe viver à minha maneira. Minhas roupas, meus cabelos, meu modo de pensar, não são da sua conta! Bradava em silêncio, mas ainda assim, bradava. 



Uma vida em que não se pode ser honesto sobre quem você é, é como criar um inferno e viver nele. Vivo em paz. E, se isso incomoda, bem, que o inferno fique com os outros.

Este texto faz parte do Desafio Criativo proposto pelo Projeto Escrita Criativa, que reúne escritores e blogueiros para colocarem no “papel” suas ideias. Quem quiser conhecer mais, acesse a página ou o grupo do projeto. Lá há a lista com todos os links dos blogs participantes. 

_____________________________________________________________

terça-feira, 12 de abril de 2016

Fim de semana

terça-feira, abril 12, 2016 7
Livro do Tezza e a lanterninha para ler no escuro (uma das melhores compras que já fiz!)

Passei dois dias inteiros na cama. Não que estivesse doente, apenas queria um momento de paz e silêncio, já que trabalho em meio a tanto barulho. Acabei lendo os dois livros que comprei na sexta passada. Um de crônicas do Cristovão Tezza (A máquina de caminhar) e outro escrito a quatro mãos pela Leila Ferreira e pela Cris Guerra (Que ninguém nos ouça). Tirando os banhos e as refeições com a família, meu sábado e domingo foi na companhia destes três autores.

É engraçado como as coisas são. Tenho uma teoria de que os momentos em que vivemos atraem para si as leituras que precisamos fazer. Depois de um 2015 incrível, 2016 tem sido um tirano que não está nem aí para nada e para ninguém - para os meus sentimentos, menos ainda. E minhas leituras têm sido um reflexo disso: a busca eterna do meu "ser autor" e a constante procura do que me faz (ou seria fará?) feliz.

Na pós-graduação, professores, colegas e autores consagrados defendem a teoria de que o escritor precisa viver. É do dia a dia, do cotidiano que a inspiração surge para se transformar em ficção. Autor que é autor tem que pôr a cara nas ruas, escrever em bares, ouvir o palavrear dos transeuntes. Mas a verdade é que a minha vida de trabalhadora e estudante anda me consumido a tal ponto que, em um fim de semana, tudo o que mais quero é não viver, apenas respirar enquanto os meus olhos se dividem entre captar alguma história e se fechar em um sono profundo.

Talvez este seja um indício de alguma doença (estresse agudo ou depressão?), talvez seja só a falta de esperança e de coragem de sair e enfrentar o mundo. Contudo, enquanto a vontade não chega, escondo-me aqui, no meu porto seguro em meio a palavras.

_____________________________________________________________

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Aperto

segunda-feira, novembro 30, 2015 0
Poema de Charles Bukowski. Imagem por: Charles Bukowski Brasil

Me deu vontade de escrever e colocar para fora o aperto no peito que me acompanhou ao longo do dia. Sabe quando bate o medo? Pois é. E se der tudo errado? E se surgir mágoas? Ah, essa insegurança e fragilidade que eu insisto em esconder, mas que grita aqui dentro...

No fundo, eu só quero que tudo dê certo. Eu só quero felicidade e amor. E entre dizer o que sinto e me controlar, fico neste limbo. Aperto o sentimento dentro do peito, engulo o choro e sigo em frente. É mais fácil manter a pose de boa moça, durona e corajosa, do que tentar se explicar. Se expôr é se tornar vulnerável em demasia. Por isso, sigo avante e tento - à minha maneira - enfrentar o pânico que o medo de perder algo que mal tenho me traz...

Talvez isso seja insegurança que vem e vai, fruto de más recordações do passado, em que o tédio do domingo plantava a pulga atrás da minha orelha. A certeza - a única até agora - é que o sentimento que se esconde atrás do medo e que me faz apertar o coração é grande, quiçá, do tamanho do mundo...

_____________________________________________________________

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Eu ainda...

quinta-feira, setembro 03, 2015 6
Imagem por Love This Pic.

Now look at me instead of moving on, 
I refuse to see that I keep coming back
Yeah, I'm stuck in a moment that wasn't meant to last

Eu ainda te sinto por perto, mesmo te querendo longe. É engraçado, mas você ainda tem o meu último pensamento do dia. Mesmo sabendo que a recíproca não é verdadeira, parte da minha oração é dedicada a você. Carrego-te aqui e, por mais que não queira, tem um pedaço meu aí. Ironias da vida.

Fico pensando no que aconteceria se, depois de tantos anos, os nossos olhares se cruzassem. Será que eu desviaria ou falaria com você? Sorriso amarelo? Aceno com a cabeça? Não sei. Não sei quais instintos (selvagens) você ainda me provoca, se é que o faz.

Por mais que eu deseje ver o seu sorriso, por mais que eu queira que você tenha encontrado a sua felicidade, sei que isso não daria certo. É triste aceitar, mas o fato é que desde o começo nosso relacionamento estava fadado ao nada. Condeno-me, de certa forma, por ter ignorado algo tão óbvio. e me pergunto se realmente deveria ter entrado nessa. Se não tivesse me jogado de cabeça, o que aconteceria? Será que estaria liberta dos meus fantasmas agora?

Eu ainda me importo, apesar de tudo o que aconteceu. Eu ainda me importo apesar da distância. No fundo, eu só queria que você soubesse que, apesar da dor, eu lhe quero bem.

_____________________________________________________________

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O que não é o amor

sexta-feira, maio 22, 2015 17
Amar é luz, mas também é escuridão.


You say love is a temple, love a higher law
Love is a temple, love the higher law.
You ask me to enter, but then you make me crawl
And I can't be holding on to what you got, when all you got is hurt.
(…)
We're one, but we're not the same.
We get to carry each other, carry each other...
(One – U2)

Cinco letras e uma imensidão; simplicidade ortográfica e uma carga sentimental sem fim. Quando nos conhecemos, eu finalmente achei que entendia o que era sentir o tal do amor. Nada me abalava. Nada me entristecia. Sentia-me invencível. Talvez seja isso... Amar é sinônimo de se iludir.

Mergulhei de cabeça em um oceano escuro e profundo, mesmo sem saber nadar. Você me bastava. O seu olhar me guiava, e suas mãos nas minhas eram o meu sustento. Sentia-me segura. Dias cinzas, acordar cedo, TPM, chefe insuportável, metrô lotado, poucas horas de sono, melhor amiga se mostrando uma das piores pessoas, TCC na faculdade, falta de grana... Nada, absolutamente nada, poderia me arruinar. Você estava ali. Eu amava. Você me amava. Ou seria mais uma das minhas utopias?

De tanto falar que morreria sozinha, de tanto tentar me convencer – e convencer aos outros – de que o tal do amor não era para mim, você resolveu mostrar que eu “pagaria a minha língua” da maneira mais prazerosa possível: beijos, abraços, sorrisos e consolos nos momentos de desespero. Flutuei. O que mais poderia fazer se não voar? Vivia sob a sua hipnose. Estar com você era entrar em um universo paralelo em que poderia apertar um botão e pausar o caos, a dor, o tormento. Você era a ilha isolada em que habitava a minha paz.

Agora, enquanto escrevo esta carta, é estranho pensar em tudo isso. Como pode haver tanta decepção em uma história de amor? Reflito sobre a toda a beleza do que sentia e, ao mesmo tempo, isso me faz querer lhe esconder em algum lugar em que eu não tenha muito acesso. Dizem que a tristeza tem lá o seu lado belo, por isso, não é à toa que você ainda surge no meu subconsciente como um misto de nostalgia e suplício. Ao mesmo tempo em que lhe desejo, quero-lhe longe. Não há como remediar o impossível. Por sua vez, o inatingível é insuportável, e lá no fundo eu sempre soube que eu nunca alcancei a posição que queria: o seu coração, a morada do seu amor...

Não quero pensar no que o amor não foi para mim. Saber que todas as promessas que você me fez foram em vão, faz de mim uma idiota (mais uma vez). Não quero pensar nisso, nem nas lágrimas, nem culpa que carrego das vezes em que lhe desapontei e das vezes em que deixei de ser eu mesma para tentar ser alguém melhor para você. Aqui estou com um: “You gave me nothing, now it's all I got” repetindo em looping, porque novamente fiquei de coração vazio. Você roubou o amor que eu tinha aqui, a esperança de que um dia eu finalmente pudesse encontrar a reciprocidade no ato de amar.

Eu sei que agora é tarde para trazer o passado à tona. Provavelmente você nem só não deve se lembrar dele, assim como não deve ter sofrido com o fim ou ter se importado comigo. Às vezes me questiono se hoje – mesmo com outra pessoa – você sabe o que é o amor... Por que eu só consegui aprender com você o que ele não é.


Este texto faz parte do Projeto Escrita Criativa, que reúne escritores e blogueiros para colocarem no “papel” suas ideias. Quem quiser conhecer mais, acesse o link aqui. Lá há a lista de todos os blogs participantes. O tema desse mês foi O que não é o amor.
_____________________________________________________________

quinta-feira, 7 de maio de 2015

{Reflexões sobre o amor} O que é o tal do amor próprio?

quinta-feira, maio 07, 2015 4
Quando sabemos o que sentimos, podemos alçar longos voos.


A melhor coisa é receber um elogio que reconhece o quanto você está bem consigo mesmo. Por trás de um "você está mais bonita, mais feliz" sincero há zilhões de significados. O fato é que o principal - ou o mais importante dele - relaciona-se ao amor próprio, que, diga-se de passagem, é o mais puro que existe.

Não sei exatamente se todo mundo é capaz de reconhecer e, sobretudo sentir, este tipo de amor. O amor próprio só ganha cargo de importância quando há auto-reflexão, quando quem o sente tenta ser uma pessoa melhor. Por sua vez, este processo - de crescimento e amadurecimento - às vezes é doloroso e introspectivo. Olhar para dentro não é fácil, ainda mais em um mundo em que quase tudo está disponível no google. Como ser? Como se reconhecer?

O amor próprio é o reconhecimento da mudança, do esforço por novos hábitos, do sorriso que luta para acontecer em meio à luta do dia a dia egoísta e estressado que temos ao nosso redor. Ele é semeado por nós, nascendo timidamente até que ganha força e floresce.

Ah! E quando floresce, o faz com vigor! Ele é vibrante e vicia: quanto mais nos amamos, mais queremos espalhar o amor ao nosso redor... Talvez seja daí que vem aquela famosa ideia bíblica de "amai uns aos outros como a si mesmo". Se nos amamos, multiplicamos o amor e, consequentemente, somos amados de volta.

Que tenhamos todos a preocupação de nos amar independentemente das nossas conquistas ou dos nossos fracassos. Que consigamos ser aquilo que sempre sonhamos, sem medo e sem ficarmos comparando a nossa grama com a do vizinho (na foto ela até pode ser mais verde, mas você não sabe se a cor é fruto de algum photoshop da vida). Que não tenhamos vergonha das nossas imperfeições. Que o amor por nós mesmos reine, pois assim sorriremos. A vida é um espelho, então fica o convite: vamos refletir o que há de mais belo em nós? 

O tema da blogagem de hoje foi proposto pelo Rotaroots. "O Rotaroots tem o objetivo de resgatar a época de ouro dos blogs pessoais, incentivando a produção de conteúdo criativo e autoral, sem ser clichê e principalmente, sem regras, blogando pela diversão e pelo amor".
_________________________________________________________________
Observe também em: Facebook | Twitter | Instagram | Flickr | About me

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

{Resenha} Cartas de amor aos mortos, de Ava Dellaira

sexta-feira, fevereiro 13, 2015 8


Querida Ava Dellaira, 

O seu livro de estreia, Cartas de amor aos mortos, mexeu tanto comigo, que resolvi abandonar o formato tradicional de resenha e lhe escrever uma carta. Sei que você está bem viva e tenho uma pontinha de esperança que você leia isto um dia... Espero também que a Seguinte, que gentilmente nos enviou um exemplar do seu livro, não se importe pela forma que escolhi para falar... Escolhi lhe escrever, porque acredito que esta é a melhor forma de organizar as ideias sobre uma história tão complexa e tão tocante. 

A primeira vez que vi o seu livro foi em uma grande livraria daqui de São Paulo. Três pontos me deixaram extremamente curiosos: o projeto gráfico (que capa linda!), a sinopse que dizia sobre um trabalho pedido por uma professora e o destinatário da primeira carta: Kurt Cobain. Sou professora, então sempre me interesso por histórias que acontecem no cotidiano escolar. Quanto ao Kurt, além de sentir uma falta absurda da sinceridade que ele tinha na música, sinto falta do grunge. Este tipo de rock realmente me faz falta. Logo, decidi que Cartas de amor aos mortos entraria na minha lista de leitura. 

Quando comecei a ler, achei que seria só mais um livro de adolescente, desses água com açúcar em que uma garota problemática se apaixona por um cara qualquer e, após muitos desencontros, os dois vivem felizes para sempre. Ledo engano: a cada carta, a cada linha, fui me envolvendo com a história de Laurel. É lindo a devoção que ela tem por May. 

Seu livro começa com uma professora, a sra. Buster, pedindo à turma de Laurel que escrevesse uma carta para alguém que houvesse morrido. Ela sabia que Laurel havia perdido a irmã de forma trágica e que esta talvez fosse uma forma de desabafar. Incrível a sua sensibilidade para tratar sobre a morte. Genial a intertextualidade que você cria ao fazer com que Laurel escreva para diferentes personalidades. Sinceramente, dá vontade de ouvir todas as músicas do Nirvana, do Jim Morrison, da Janis Joplin e da Amy Winehouse. Dá vontade de ler todos os poemas da Elizabeth Bishop e de assistir aos filmes do Heath Ledger. Espero que os seus leitores que não os conheçam façam isso. Será um enriquecimento cultural e tanto. 

A maneira delicada que você narra a busca por si mesma de Laurel é linda. Gostei muito de como você consegue abordar tantos temas considerados polêmicos dentro de uma obra só. Se pararmos para pensar, além do luto, você fala de sexualidade, de religião, de estrutura familiar, de drogas, de violência e de amizade e amor. Tudo isso sem ser chata, sem ser chlichê. A maneira tocante como você abordou cada um destes aspectos me fez desejar que cada vez mais pessoas tenham acesso ao seu livro. Você foi extremamente humana, isso é algo que anda em falta ultimamente, infelizmente. 

Sobre isso de as pessoas terem acesso ao seu livro, não sei se você já parou para pensar nisso, contudo fiquei pensando o que aconteceria se a Frances Cobain lesse a sua obra. No fundo, isso que você diz sobre a visão que as pessoas têm do Kurt ser diferente da que ele tinha dele mesmo faz todo o sentido – não só para ele, como para todos nós, humanos e anônimos. Penso que o desabafo de Laurel também é um pouco meu. 

Voltando a falar da narrativa, tudo o que Laurel queria era se encaixar em uma nova escola e tentar viver como uma adolescente normal. Logo de cara, o leitor consegue se identificar com este traço psicológico, por que quem nunca quis ser considerado normal?! A forma como ela faz a amizades e como ela lida com o seu grupo é que é bonita e sensível. Mesmo com todo mundo vivendo as suas lutas e loucuras, todos eles cuidam uns dos outros – às vezes até mais do que a própria família cuidaria. De qualquer forma, o que mais me encantou mesmo é a maneira como, paulatinamente, você mostra ao seu leitor a importância do diálogo. Confiar em alguém é necessário, mesmo que este alguém seja “maluquinho” como Tristan, misterioso como Sky ou focada como Kristen. É impossível viver guardando tudo para si, e como a Laurel aprende isso é marcante. 

Sabe Ava, não sou uma pessoa de chorar com qualquer história que me contam. Entretanto, terminei Cartas de amor aos mortos em prantos (tanto é que nem consegui ler os agradecimentos). Definitivamente, eu não esperava que a morte de May tivesse sido pelo motivo que foi (nós sabemos qual é!) e que o final seria tão surpreendente. Você conseguiu escrever de uma forma tão clara, que as cenas ficam, uma a uma, passando na minha cabeça como se eu tivesse vivenciado aquilo tudo. Denso e incrível. 

Posso dizer que as Cartas de Amor aos Mortos de Laurel levam seus leitores a ver o mundo sobre outro prisma... Ainda bem! :) 

Beijos, 
Fernanda

Livro: Cartas de Amor aos Mortos 
Título original: Love Letters to the Dead
Autor: Ava Dellaira
Tradução: Alyne Azuma
Páginas: 344
Editora: Seguinte
Sinopse: Prestes a começar o ensino médio, Laurel decide mudar de escola para não ter que encarar as pessoas comentando sobre a morte de sua irmã mais velha, May. A rotina no novo colégio não está fácil, e, para completar, a professora de inglês passa uma tarefa nada usual: escrever uma carta para alguém que já morreu. Laurel começa a escrever em seu caderno várias mensagens para Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Elizabeth Bishop… sem nunca entregá-las à professora.
Nessas cartas, ela analisa a história de cada uma dessas personalidades e tenta desvendar os mistérios que envolvem suas mortes. Ao mesmo tempo, conta sua própria vida, como as amizades no novo colégio e seu primeiro amor: um garoto misterioso chamado Sky.
Mas Laurel não pode escapar de seu passado. Só quando ela escrever a verdade sobre o que se passou com ela e com a irmã é que poderá aceitar o que aconteceu e perdoar May e a si mesma. E só quando enxergar a irmã como realmente era - encantadora e incrível, mas imperfeita como qualquer um - é que poderá seguir em frente e descobrir seu próprio caminho.

Trecho disponibilizado pela editora. | Livro no skoob.

Mensagem da autora para os leitores brasileiros:



_____________________________________________________________