15 de outubro é uma data emblemática: dia dos professores. E por ser emblemática, sempre me deixa reflexiva. Sou professora desde que me entendo por gente. Muito antes de ter formação, eu já era a pessoa que tirava as dúvidas das pessoas ao meu redor. Quando tinha 9 anos, alfabetizei a minha irmã (que tinha 3, na época), porque brincávamos de “professora e aluna”. Ensinar está tão na minha alma que não me vejo fazendo outra coisa e, ainda que tenha outras profissões também (revisora, leitora crítica, escritora), ser professora sempre vem primeiro.
Sou uma professora que sonha. Quando comecei a trabalhar com educação popular, conheci Paulo Freire e li toda a sua obra. Esperançar proporcionando um ambiente em que as pessoas se sentem livres o suficiente para questionar e para trazer o saber do dia a dia, aquele não acadêmico, que é tão importante quanto o científico. Naquela época lutávamos para uma sociedade mais digna, em que crianças pudessem brincar numa praça limpa, sem presença de lixo ou de ratazanas e outros animais — muitas vezes peçonhentos. Hoje ainda seguimos na luta.
Quando entrei na graduação, estava certa de que seria uma professora como muitas das que tive: viveria uma carreira longa e feliz no chão de sala, até me aposentar — já velhinha, com rugas e cabelos brancos. Minha professora de Didática e Currículo dizia que éramos para pensar em um plano de carreira porque “ninguém aguenta a sala de aula por muito tempo”. Ela havia feito de tudo: professora da educação infantil, do fundamental, coordenadora escolar, diretora escolar, supervisora na Diretoria Regional de Ensino, professora no ensino superior. Eu ouvia discordando. Eu seria a professora de sala de aula para todo o sempre. Ledo engano.
De fato, fui professora em escola por muitos anos e isso foi uma realização e tanto. Fiquei em chão de sala por pouco mais de uma década. Fui professora homenageada em formatura. Criei chances para que meus alunos se sentissem capazes — o que incluiu um intercâmbio virtual com duas escolas mexicanas, para que os meus alunos pudessem praticar o inglês com outras pessoas que também têm esse idioma como segunda língua. Fiz o que podia e o que estava além de mim, até que eu fui me exaurindo: fiquei exausta de ser a professora que os pais dos meus alunos descredibilizavam (a única professora negra e que ainda lecionava inglês. Como pode?); cansei da violência dos estudantes (que além de verbal, chegou a ser física); estava exausta das exigências de relatórios e provas que efetivamente não nos levavam — a mim e aos alunos — a lugar algum. Estava ficando doente e veio a pandemia. Me lembro da fala da minha psicóloga à época: “você está resistindo e isso está te levando a um burnout”.
Não pensava que minha carreira em sala de aula acabaria no meio de um ano letivo, mas no meio de 2020 pedi demissão. Não quis deixar meus alunos do Ensino Médio na mão e, a pedido deles, continuei dando aulas uma vez por semana, de graça, sobre os livros dos vestibulares daquele ano. Muitos deles ingressaram na universidade (pública e privada). Minha missão estava cumprida.
No segundo semestre de 2020, me reinventei: passei a dar aulas particulares de escrita literária, de inglês e de língua portuguesa. Assim sigo até hoje. Eu sabia que não poderia deixar a minha essência morrer. Ser professora faz parte do meu core.
Sigo sendo uma professora que sonha e que se orgulha. Muitos dos meus ex-alunos das escolas em que trabalhei já são adolescentes, jovens adultos e adultos. Alguns já formados, casados e com filhos. Outros terminando o ensino médio, ingressando ou cursando a universidade. Minhas alunas e ex-alunas na escrita literária seguem produzindo e publicando arte de qualidade. Ser parte da conquista de cada um me deixa com o coração quentinho.
Por isso sou uma professora que sonha, mas que também tem medo. Tenho medo quando vejo os possíveis rumos que o Brasil pode seguir a partir de 1º de janeiro de 2027. Há uma proposta que valoriza a Educação (pé-de-meia, ProUni, Sisu, MEC Livros, MEC Idiomas, Plano de incentivo à leitura e às bibliotecas etc.) e outra que quer, deliberadamente, destruir tudo isso em nome de um “tesouraço”.
Sou uma professora que sonha, que tem medo, mas que segue lutando mesmo assim. Esperançar é um caminho importante e sem volta. Paulo Freire não desistiria. Eu também não desisto.
Se você não votou no 1º turno ou votou em alguma opção que não está para o 2º turno, peço que vote. Vote por um Brasil que valoriza o professor e que não nos vê como “vagabundos”. Quem convive com professores sabe o quanto nós vivemos estudando, o quanto o nosso trabalho NÃO começa ou se encerra no momento da aula, que vivemos preparando aulas antes e corrigindo (textos, trabalhos, provas) depois. Por favor, vote para um país democrático que entende que Educação e Cultura andam de mãos dadas, que são os verdadeiros pilares de uma sociedade e que merecem, sim, um Ministério cada uma — dada a quantidade de políticas públicas necessárias para alcançar a todos (não apenas os grandes centros urbanos).
Não adianta desejar a mim — ou a qualquer outro professor — um feliz dia e votar a favor de quem nos adoece, de quem rouba as nossas condições de trabalho, de quem coloca a sociedade contra nós (dizendo que somos “vagabundos” e “doutrinadores”), de quem homenageia torturadores e flerta com a ditadura, de quem quer acabar com o direito de cátedra.
O dia dos professores é um dia de celebração e de luta. Apesar de não estar em chão de sala na educação formal, sigo lutando por mim e pelos meus. E peço que, independentemente da sua profissão, você faça isso por nós também.
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