Sede boa morre com água
Fernanda Rodrigues
domingo, julho 19, 2026
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Gosto de sentir sede. Não pela garganta seca em si, mas pela sensação de sentir a vida descendo faringe adentro. Gosto da sede que é matada não com suco, coca-cola, cerveja, café ou vinho. Sede boa morre com água.
Lembro-me da primeira vez em que a professora de ciências foi categórica: “Não é possível haver vida sem água”. A informação me intrigou. Fiquei tão ou ainda mais curiosa quando soube que este corpo, este que me carrega, é composto por no mínimo 60% de H2O. Cabelo, braços, pernas, pele, pulmão, coração, osso, sangue — esse rubor que me mantém viva —, tudo água.
Gosto de sentir essa sede que me remete à infância, para aquele dia primeiro de descoberta, em que chorava sem parar, sem entender o que era a secura que vinha dos lábios e seguia até atrás das amídalas. A necessidade nata se convertendo no desespero de acordar sem fome, sem fralda cheia, sem medo, mas aos prantos. Nesta hora, meu bem, nem pai, nem mãe, nem irmãos, nada é capaz de substituir um bom copo de água fresca. E as minhas mãozinhas, como a de qualquer bebê, sabiam disso.
Estiquei-me em direção ao objeto que minha mãe trazia. O copo se convertia no cálice da fé que traria a boa nova. Em instantes, a mágica se fez: ali em minha boca, aquele líquido sem cheiro e sabor, tinha o gosto da paz.
Gosto de sentir sede e da sensação de vitória na conquista de cada gole. Gota a gota, as memórias de infância reverberam na vida adulta.
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