segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Memória

segunda-feira, novembro 23, 2020 1

Foto por Volkan Vardar, via Unsplash.


Tenho sede
De sonho,
De desejo
Insone,
Que vaga
Pelas ruas
Nua,
Crua,
Intensa.
Ardente sede
Das ideias que chegam
Cedo,
Cheias das saudades
Silibantes,
De memórias
Sitiadas
Em sítios estrangeiros,
Carregados de sotaques
Soturnos
E sortudos
De quem tem
Nos braços cansados
A solitude
Da vida que segue.
Minha sede é composta
por sentimentos sambando
A romper com a Solidão.

Este post foi escrito com base no tema "Uma saudade recorrente", do Desafio Criativo proposto pelo Projeto Escrita Criativa.
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quinta-feira, 19 de novembro de 2020

{Agenda} Mulheres negras em prosa e verso: a escrita feminina contemporânea

quinta-feira, novembro 19, 2020 4

Olá, pessoal!
Quero convidar todo mundo para um evento (on-line e gratuito!) de que eu vou participar. Vem!
 
No próximo domingo, 22 de novembro, às 18h, estarei em uma live no canal da Editora Penalux para bater um papo sobre a escrita no contemporâneo, com a escritora sergipana Taylane Cruz. Essa conversa será mediada pelo jornalista e escritor Cefas Carvalho.

Clique em "definir lembrete" para ser lembrado pelo YouTube.


A Editora Penalux editou o meu primeiro livro, A Intermitência das Coisas: sobre o que há entre o vazio e o caos. Você pode adquirir um exemplar autografado por meio da loja do blog, clicando aqui, ou por meio do e-mail: contato@algumasobservacoes.com.

Vejo vocês no domingo!
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terça-feira, 17 de novembro de 2020

Entre estar certa e não viver, preferi decidir

terça-feira, novembro 17, 2020 5
Foto por Annie Spratt, via Unsplash.

Ele sabia que era o meu aniversário. Ele sabia que não gosto de festas, mas gosto de estar com os amigos, e que estar com os amigos é estar em festa. Ele sabia que 2020 seria mais difícil, sem poder aglomerar. Ele sabia que eu amo o silêncio tanto quanto a gargalhada que ecoa descompromissada, depois que meus ouvidos ouvem uma piada sem graça.

Mesmo tendo tirado o lembrete do Facebook, ele sabia que aquele era o meu dia. Ele viu a minha publicação nas redes sociais. Ele viu as mensagens que os meus amigos me deixaram. Ele sabia que o meu aniversário é um dia especial para mim. Mas e eu? Eu sou especial para ele?

Silêncio. 
Fim de dia. Agora só na próxima volta ao redor do sol. Estará ele aqui? Ou melhor, estarei eu aqui para ele?

Meses depois, o inverso se deu. Eu sabia que ele adora aniversários, mas finge que detesta. Eu sabia que ele daria uma de esquecido, de rotineiro, de "é só mais um dia qualquer". De fato, para mim era mesmo mais um dia entre todos os outros do ano. E para ele era assim? 

Abri o WhatsApp e escrevi: "feliz aniversário, escorpiano. Feliz volta ao redor do sol". Pensei em dizer "meu escorpiano favorito", mas logo percebi que ele não era meu e estava longe - a anos luz! - do favoritismo. Por que enviaria a mensagem mesmo?!

Queria ter uma prova de que o capítulo estava encerrado e que sim, fiz algo pautado no bem, não no "dar o troco e não dizer nada". Aniversários são para ser lembrados e, voilà, lá estava eu me lembrando como uma boa virginiana sempre o faz.

Mais uma vez, silêncio.

Nem um oi, um "obrigado", ou um emoji sorrindo amarelo. Nada. Palavra alguma preenchendo o espaço e o tempo. Ausência que se materializará até o próximo aniversário?

Provavelmente sim, porque eu sei que eu não estarei mais ali.


O tema da blogagem coletiva de novembro de 2020 foi: coisas não ditas.
Para saber mais sobre o Projeto Escrita Criativaclique aqui.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

{Aula Gratuita} Livros à prova: Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade (Vestibular Fuvest)

quarta-feira, novembro 11, 2020 2
Eu visitando a estátua do Drummond no Rio de Janeiro (2015).

Oi, pessoal! 
Conforme contei para vocês na retrô de outubro, mês passado eu gravei um projeto muito especial junto com a minha amiga e também escritora Aline Caixeta. Juntas, fizemos uma aula sobre o livro Claro Enigma, do Carlos Drummond de Andrade, para o canal Oficinas Culturais do Estado de São Paulo. A obra está na lista de leitura obrigatória da Fuvest de 2020 e 2021, além de ser um importante livro do cânone brasileiro.

Carlos Drummond de Andrade

O Drummond é um dos meus escritores favoritos. Tanto na poesia, quanto na crônica, amo a literatura produzida por ele, então poderia passar a vida falando sobre ele (inclusive, vocês gostariam de vídeos assim no meu canal?). Por isso, fazer essa gravação foi um deleite! 



Estrutura da Aula

Assim como aconteceu com a aula que gravamos sobre a crônica da Clarice Lispector, antes de falarmos do livro propriamente dito, quisemos trazer um contexto para o nosso expectador. 

Panorama histórico

Iniciamos a aula apresentando um panorama histórico, tanto mundial, quanto do Brasil, ressaltando fatos que influenciaram a produção do Drummond e a criação do Claro Enigma, em especial.

Biografia e principais livros

A segunda parte da aula foi para apresentar alguns pontos da vida e as principais obras do Drummond. Como o Claro Enigma é um livro que traz muito tanto de fatos biográficos, quanto da intertextualidade com outros poemas escritos pelo autor, essa parte da aula é fundamental.



Claro Enigma

Por fim, entramos no livro propriamente dito. Apresentamos sua estrutura e analisamos tanto os poemas mais famosos, quanto os nossos preferidos. Durante a análise, apontamos os recursos estruturais e linguísticos, bem como a ligação dos poemas com os outros textos do autor, sua relação com outros escritores, com seus dados biográficos e com os fatos históricos da época. Também buscamos relacionar o texto com o nosso contexto atual, para que os expectadores percebam a relevância literária desta obra e os motivos que a levaram a ser parte do nosso cânone.


Aperte o play! :)


Para continuar estudando

Na descrição do vídeo há um link para o material utilizado na aula. Você pode fazer o download e continuar os seus estudos.

Espero que vocês gostem!


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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Retrô mensal #4: outubro/2020

segunda-feira, novembro 09, 2020 3
Foto por Sašo Tušar, via Unsplash.


Eita que o post está atrasado! 
Sabe quando você está trabalhando tanto, mas tanto, que não tem mais ânimo para nada?! Esse fim de outubro e início de novembro foi bem assim.
Muitos projetos, muita correria. 

#Retrô de boa

  • Os projetos que eu estava em fase de planejamento começaram a acontecer na prática. Fiz um intercâmbio linguístico entre alunos universitários franceses e brasileiros e comecei uma série de webinars sobre blended learning com um grupo de professores universitários;
  • Trabalhei em três projetos de escritores iniciantes e foi muito bacana ver os textos deles se desenvolvendo;
  • Comecei a lecionar nas aulas das três escritoras que são minhas mentorandas na mentoria de escrita e autopublicação (vocês podem ler o que elas escrevem em Escrevi pra tirar da Cabeça, Reticências e Watermelon Curly);
  • Entrei para um grupo incrível de escrita! :)
  • Gravei uma aula sobre o Carlos Drummond de Andrade, junto com a Aline Caixeta;
  • Gravei um dos meus poemas preferidos do Drummond para comemorar o aniversário dele e publiquei tanto no YouTube, quanto no IGTV;
  • A aula que fiz com a Aline sobre uma crônica da Clarice Lispector foi ao ar no canal Oficinas Culturais do Estado de São Paulo;
  • Levei a Poesia no veterinário para tomar vacina (em tempos de quarentena raiz, isso se tornou passeio — ainda que tenha sido uma saída de apenas uma hora);
  • Comprei um celular novo! Aeeeeeeêêêê! — por causa disso consegui aparecer mais nos stories.
Já assistiu à nossa aula?! Clique aqui.


#Retrô para melhorar

  • Descanso — não consegui descansar nada em outubro;
  • Newsletter — não sabia bem o que escrever, acabei não mandando nada;
  • Leitura de outros blogs — não foi tão ruim como em setembro, mas não foi tão bom quanto eu queria;
  • Estudos — não estudei nada. :/
  • Não vi os meus amigos nem pela Internet. 

O que teve em outubro no Algumas Observações:


Vai um poema aí?

Que novembro seja incrível!

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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

{Resenha} Janis Joplin — sua vida, sua música, de Holly George-Warren

quinta-feira, novembro 05, 2020 7
Janis Joplin — sua vida, sua música, de Holly George-Warren

Em Janis Joplin — Sua vida, Sua música, Holly George-Warren nos leva a uma verdadeira viagem pela música norte-americana, trazendo não só a vida de Janis Joplin, mas também todo o panorama histórico cultural que envolveu o universo da cantora.

Já de início, a autora resgata o histórico familiar de Janis, traçando a árvore genealógica dos avós e dos pais da cantora. Mostrando ao leitor como os pais dela se conheceram e o contexto industrial texano que moldou muito da rebeldia de Janis.

Como biógrafa, George-Warren foi atrás não apenas de documentos históricos, trechos de diário e de depoimentos dos familiares, mas também entrevistou os colegas de turma, amigos da cantora e músicos de sua banda. O que torna o relato muito mais palpável. Muitas vezes, como leitora, me senti de volta às cidades conservadoras dos EUA, algo que me fez refletir como Janis estava mesmo à frente do seu tempo.

No meio do livro há algumas páginas com fotos marcantes da vida de Janis.

O livro vai à fundo nas dores e frustrações de Janis Joplin, na tentativa de se enquadrar no mundo e na frustração de não conseguir fazê-lo. Ao mesmo tempo em que a cantora foi estimulada por seu pai (que sempre a levava à biblioteca local), Janis era condenada por atitudes simples (como ouvir música produzida por cantores e músicos negros). George-Warren nos conduz por esses paradoxos para que possamos compreender como essa dicotomia reverberou na obra de Janis Joplin a ponto de ela ser — ainda hoje — considerada uma das maiores cantoras do rock estadunidense.

Gostando de música ou não, vale a pena aceitar o convite de Holly George-Warren e mergulhar na alma de uma pessoa tão controversa, genial e intensa, como Janis Joplin.

Capa.

Livro: Janis Joplin — sua vida, sua música
Título original: Janis: her life, her music
Autora: Holly George-Warren
Tradução: Martha Argel e Humberto Mora Neto
Editora: Seoman
Páginas: 432
Sinopse: Escrito por Holly George-Warren, uma das mais respeitadas cronistas da história da música norte-americana, e baseado em um acesso sem precedentes a familiares da cantora, amigos, colegas de banda, arquivos, diários, cartas e entrevistas há muito perdidas, Janis Joplin — Sua Vida, Sua Música é um retrato completo, complexo e gratificante de uma das artistas mais notáveis de todos os tempos, que enfim recebe seu merecido reconhecimento e importância como uma das cantoras mais influentes da história do rock. Por meio de um estilo radiante e intimista, esta biografia consolida a 'Rainha do Rock & Roll' como pioneira musical, alguém que, de fato, rompeu regras; uma mulher rebelde, de personalidade inteligente e complexa, que desafiou todas as convenções de gênero em sua época, abrindo caminho para as mulheres poderem extravasar suas dores e revolta no cenário artístico.
Livro no Skoob. | Livro no Goodreads.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

{Aula Gratuita} Clarice Lispector e a Morte de uma Baleia: Leitura de uma Crônica

sexta-feira, outubro 23, 2020 7
Vem desvendar esse mundo com a gente!

Olá, pessoal! 
Tudo bem?! 

Escrevo para compartilhar com todos um projeto muito especial em que participei com a minha amiga e escritora, Aline Caixeta. Juntas nós gravamos uma aula chamada Clarice Lispector e a Morte de uma Baleia: Leitura de uma Crônica. Este encontro foi disponibilizado gratuitamente no canal Oficinas Culturais do Estado de São Paulo do YouTube e é a nossa homenagem neste ano de centenário de nascimento da autora.

(Eu sei, eu sei! Muita gente tem medo/receio da literatura clariceana. Mas vem comigo, garanto que você vai gostar!)

Estrutura da Aula



A crônica como gênero literário

Começamos o encontro tratando um pouco sobre o que é a crônica, resgatando as suas características, como ela nasceu. Também contamos um pouco como a crônica consegue absorver vários outros gêneros textuais, quem são os seus principais autores e por que esse é um gênero tão querido pelo leitor brasileiro.

Vida e obra de Clarice Lispector

A Clarice é uma escritora que muitos leitores tem um certo medinho, porque seus contos e romances são tidos por muitos como herméticos, difíceis de serem lidos. As crônicas vão na contramão disso, falando do cotidiano da autora. Sendo assim, apresentamos aos nossos expectadores a vida e a obra de Clarice para que todos possam se aproximar mais dos textos escritos por ela.

Morte de uma baleia

Por fim, fizemos a leitura da crônica "Morte de uma baleia" e batemos um papo trazendo uma análise crítica baseada nos pontos apresentados anteriormente, observando na prática como as características do gênero textual e da vida da autora estão presentes no texto.

Aperte o play! ;)


Para continuar estudando

Na descrição do vídeo há um link para o material utilizado na aula. Você pode fazer o download e continuar os seus estudos.


Espero que vocês gostem!
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terça-feira, 20 de outubro de 2020

Reflexão sobre o processo de se organizar

terça-feira, outubro 20, 2020 2
Foto por Estée Janssens, via Unsplash.

Acordei com um insight que não compartilhei no post sobre como eu organizo a minha semana, por isso resolvi complementar aquelas dicas escrevendo este texto. 

Conforme contei antes, a organização faz parte da minha vida — agora, mais do que nunca, porque todo mundo que empreende tem que ser muito organizado para dar conta de todos os projetos —, mas o que muitas vezes a gente não para para pensar é que toda organização e planejamento são frutos do autoconhecimento. Só assim a gente passa a compreender melhor o que funciona ou não, o que é mais fácil ou mais difícil de ser implementado e o que/como — de todas as milhares de dicas e métodos — deve ser ser adaptado.

Esta semana está sendo bem complexa para mim. Desde que deixei a sala de aula da escola, talvez este seja o período em que a agenda está mais lotada (vários clientes com muitas demandas e prazos próximos), então tive que emendar a semana passada nesta (trabalhando no final de semana). Dormi pouco, bebi pouca água, entrei no fluxo da correria e me dei conta de que não conseguiria terminar tudo o que preciso fazer seguindo nesse ritmo. Aí veio o tal insight do primeiro parágrafo:

O que pode levar todo o meu planejamento por água abaixo?

Salve esta imagem para sempre se lembrar dessa pergunta. ;)


No meu caso, não adianta eu ter a minha lista de tarefas/próximas ações e agenda no papel, se eu não tiver dormido bem e bebido muita água. Um sono de má qualidade (ou em quantidade insuficiente), me deixa cansada, mal-humorada, com dificuldade de foco nas atividades longas. Já a falta de hidratação prolongada (dois ou três dias bebendo pouca água), prejudica muito a minha rinite e traz com ela os sintomas que me impossibilitam de fazer qualquer coisa (como uma forte dor de cabeça, que me faz querer ficar deitada em um quarto escuro).  

Acho que isso pode variar de pessoa para pessoa. Há gente que não consegue ter um dia bom sem se alimentar bem no café da manhã — coisa que eu, por exemplo, não consigo fazer. Então é o caso de você pensar o que te afeta que pode destruir todo aquele planejamento lindão que você criou para a semana, para o mês ou para os planejamentos a médio e longo prazo.                                            

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sábado, 17 de outubro de 2020

O que há do ser?

sábado, outubro 17, 2020 3
Da viagem a Brasília, em 2017.


— O que é ser mulher hoje? — Uma professora me pergunta do outro lado da tela. Ela sorri com toda a sua vivacidade e juventude. 

— O que é ser mulher hoje? — Me pergunto, enquanto meus neurônios tentam raciocinar e achar uma lógica para algo que deve ser dito em uma fração de segundos. As palavras “luta”, “resistência”, “força”, “voz” e “fragilidade” brotam das bocas de outros colegas. Eu, submersa em mim mesma, tento regressar à superfície. 

Será que eu posso ser eu mesma? Com a minha pele negra, meu ar astuto de quem tem curiosidade sobre a vida, com a minha nacionalidade que convive a desigualdade todos os dias, será que eu posso ser eu mesma? Posso trazer à tona o que há dentro de mim? 

Olho rapidamente as anotações em meu caderno. Leio “a arte transforma”, “o conhecimento liberta”. Acabo escrevendo no chat que “ser mulher é lutar para ser o que se quer ser, não o que as pessoas querem que as mulheres sejam”. No fundo, todas nós travamos as nossas lutas diárias pela sobrevivência, por fazer aquilo que acredita. 

Mais uma vez me pergunto se posso trazer à tona o que há dentro de mim. Penso nas minhas ancestrais e nas minhas contemporâneas. Essas mulheres me dão forças para seguir em frente. Se há um front, seguimos juntas.

O tema da blogagem coletiva de outubro de 2020 é: Dentro de mim.
Para saber mais sobre o Projeto Escrita Criativa, clique aqui.

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domingo, 11 de outubro de 2020

{Vamos falar sobre escrita?} Entrevista com o escritor Rafael Farina

domingo, outubro 11, 2020 4
Vamos falar sobre escrita com o Rafael Farina?! :)

Oi, pessoal!
Eu sempre fico muito honrada em trazer entrevistas aqui no blog, porque essa é uma forma de apresentar para todos vocês pessoas que eu admiro. Hoje, a conversa foi com o escritor Rafael Farina. Conversamos sobre a construção literária, sobre influências e projetos futuros. Confira! 

Algumas Observações: Quando você sentiu vontade de começar a escrever e em qual momento você passou a ver a sua escrita como arte? Comente um pouco como foi o seu despertar para a escrita e em qual momento você passou a se intitular escritor. 
Rafael Farina: Eu sempre fui tímido, na verdade sou ambivertido, que é a pessoa que pode ser extrovertida ou introvertida, dependendo do ambiente em que ela estiver e do assunto que estiver sendo discutido. Por outro lado, sou bastante emotivo, então vivo esse dilema de querer colocar as emoções para fora, mas nem sempre encontro a frequência verbal correta. Por isso encontrei refúgio na escrita. O primeiro poema que me lembro de ter escrito foi com 16 ou 17 anos, sobre um amor de verão. Mas minha ligação com a escrita vem desde a época da alfabetização. Minha mãe era quase esquizofrênica com caligrafia, daquelas que apagava toda a página ao invés de somente a letra que estava mais feia. Até hoje alguns amigos mandam poemas por Whatsapp para eu escrever à mão, e eles postarem nas redes sociais. Então meu primeiro gosto por literatura foi pela forma das letras. Se não tivesse feito Publicidade, provavelmente teria ido pro lado do Design, e me especializado em desenho de fontes. Sobre o despertar para a escrita, aconteceu sem eu perceber. Um dia peguei todos os caderninhos de frases soltas, reli e pensei: “Será que dá pra organizar algo aqui?”. Logo depois eu estava fazendo minha primeira oficina de escrita, com a Marina Wisnik, na Casa do Saber, acho que em 2011 ou 2012. A primeira vez que me apresentei como escritor foi recentemente, após o lançamento do meu primeiro livro de poesias Falhas que só existem no Sul, em 2018. Mas minha profissão não é escritor, não ganho a vida com meus textos, e acredito que nunca serei 100% somente escritor, no sentido de profissão.

AO: Como é a sua rotina de trabalho com a escrita? Você estabelece metas para si mesmo? Você tem outras ocupações profissionais além da literatura? Se sim, como concilia os dois?
RF: Não existe um dia sequer que eu não respire escrita. Mesmo que seja um sopro. Uma página lida, uma frase escrita, uma ideia anotada num caderno. Não costumo estabelecer metas, nesse sentido sou um virginiano não praticante (risos). Um dos meus autores favoritos é o Jack Kerouac, e por consequência, toda a geração beat. Uma vez ouvi o Eduardo Bueno (Peninha) falando do processo de criação do William Borroughs, chamado cut and paste, onde ele recortava várias partes de textos e juntava conforme as ideias iam se encaixando. 

AO: Você tem alguma formação literária, estuda por conta própria ou escreve de maneira intuitiva? Como é o seu processo de busca por aprimoramento profissional? 
RF: Fiz algumas oficinas, com escritores de alto gabarito. Além da Marina, que citei anteriormente, tive a oportunidade de aprender com Marcelino Freire, Xico Sá, Daniel Galera, entre outros. Já pesquisei alguns mestrados em escrita, inclusive fora do Brasil, mas prefiro seguir minha intuição e prestar sempre muita atenção na estrutura geral das obras clássicas. 

AO: Falando do texto em si, o que você mais gosta de escrever? Quais são as suas influências, os seus autores preferidos? 
RF: Poesia auto ficcional. Meu grande objetivo é deixar o entendimento, a conclusão de cada poema, para o leitor. Onde termina o personagem e começa o autor? Tenho também alguns contos rascunhados, umas crônicas. Qualquer hora me fixo neles e quem sabe lanço algo neste formato. As influências são muitas, e variadas. Como falei anteriormente, a Geração Beat sempre me fascinou. Talvez por eu ser um grande entusiasta dos anos 40/50. Sempre achei que eu deveria ter nascido naquela época, para ter chego nos anos 60 adolescente. No Brasil, os maiores influentes são Mario Quintana, Evandro Affonso Ferreira, Ferreira Gullar, arrudA. E não poderiam faltar os escritores latino americanos: Galeano, Julio Cortázar, Isabel Allende, García Márquez. Além das influências da música, cinema, e pintura. Pessoas como Bob Dylan, Al Pacino e Van Gogh me inspiram fortemente. 

AO: Ainda falando sobre o seu processo de criação, quais são os desafios diários de ser escritor? (Como você lida com a procrastinação? Com medo de não corresponder às expectativas? Às vezes bate aquela sensação de insegurança, sensação de não ser bom o bastante? Como você vence os bloqueios criativos de modo geral?) 
RF: Acredito que os maiores desafios são provocados por elementos externos. A falta de incentivos por parte dos governos, o sumiço cada vez mais crescente das livrarias de bairro, o desinteresse médio do brasileiro em leitura. Estão todos interligados, e nós temos obrigação de seguir lutando, cobrando, divulgando novos escritores e escritoras. O cansaço é grande, mas não podemos baixar a cabeça. Em relação ao meu processo criativo, depende muito do tipo de projeto. Esta entrevista, por exemplo, estou respondendo com bastante antecedência, já que está sendo feita à distância. Se for algo de um dia pro outro, ou mais urgente até, prefiro não me preparar muito, e deixo a criatividade vir no seu ritmo, na hora. Eu tenho um truque para checar se um poema está bom ou não. Leio para algum amigo ou familiar que não respira tanta literatura, e no final digo que é de algum poeta famoso. Geralmente o feedback é positivo, aí eu vou perguntando o que mais gostou, se não entendeu alguma parte, se mudaria alguma coisa. Anoto mentalmente e trabalho no poema mais tarde. 

AO: Como funciona o seu processo de pré-publicação dos seus escritos e o que você acha importante fazer antes de soltar um texto no mundo? 
RF: Às vezes publico um texto nas redes sociais, sem muita preocupação com a qualidade. No caso de um livro, acho que poderia ter tido um pouco mais de cuidado com os detalhes no primeiro livro. Fui muito afoito, empolgado com a possibilidade de lançar o quanto antes. A revisão ortográfica é básico, e sempre vale à pena ter um revisor, sem esperar somente que a editora faça esse trabalho. O equilíbrio entre o título e a capa, a dedicatória, e a própria disposição da sequência dos poemas faz com o livro tenha uma unidade, uma sequencia de leitura que dá um peso maior para a obra. 

AO: Qual é o papel das redes sociais para o seu trabalho de escritor? Como é a sua interação com seus leitores na Internet? 
RF: O Marcelino Freire uma vez comentou que a maior editora do país é a Editora Suvaco. Ou seja, coloque seu livro embaixo dos braços e saia fazendo divulgação. Neste ponto, as redes sociais aproximam as distâncias e podem estimular bastante tanto a criatividade quanto as vendas. É importante ir construindo uma rede de contatos com outras cidades, estados, e até países. Mas acho importante buscar membros para sua gangue na sua cidade. Quem são as pessoas que sofrem das mesmas dores que você no seu bairro? Quem também tem a mesma tara por um cheiro específico na sua rua? Minha interação é bastante reduzida, já que não sou muito ativo e tenho aproximadamente 750 seguidores, e a grande maioria não transita no universo literário. 

Rafael Farina e seu Falhas que só existem no Sul.


AO: Quantos livros você tem publicados? Você pode falar um pouco sobre as suas obras? Você vê diferença entre publicar em livro e na internet? 
RF: Apenas o Falhas..., em 2018. Tenho um poema publicado na Revista Rusga, e fui convidado para duas antologias poéticas, que decidi não participar, pois se revelaram duas grandes caça níqueis que dariam muito dinheiro para a editora e nada para os escritores. Sobre o livro, são poemas que escrevi durante muito tempo, quase um diário, focado principalmente em desilusões amorosas que tive ao longo da vida. Existe uma questão geográfica forte, com paisagens em Garopaba, São Paulo, Porto Alegre, e Buenos Aires, para citar as principais. Gosto de imaginar que nestes lugares, neste exato momento, tem alguma pessoa desiludida e cheia de dúvidas, assim como eu estive. 

AO: Nos seus textos você costuma falar sobre as relações humanas. Como você vê a relação do seu público com a obra que você produz, uma vez que vivemos em um mundo tão caótico e violento? 
RF: Sim, costumo falar bastante sobre relações, não somente humanas, mas também geográficas. O local onde estou sempre tem forte influência no meu comportamento. Isso é uma característica muito forte do ambivertido. O meu prisma de emoções contém desde banho de mar numa praia vazia do Uruguai, até a lembrança do cheiro do metrô de Londres. E não necessariamente irei escrever algo positivo sobre isso. Posso sentir saudades de quem tomou esse banho de mar comigo, por exemplo, e criar um poema triste, amargo. Neste sentido, espero que os leitores entendam que a poesia serve para mexer conosco, às vezes nos alegra, mas, principalmente, precisa questionar quando estamos numa posição confortável. E acho importante não vivermos felizes o tempo inteiro. Tristeza é algo positivo, se a usarmos como trampolim para reflexão, amadurecimento, e crescimento. Ter uma válvula de escape na família ou no círculo de amizades, que esteja disposta a nos escutar, é muito importante. Mas como somos cada vez mais condicionados a segurar nossas emoções, automaticamente estamos perdendo nossa capacidade de ouvir. Empatia é quase uma utopia. Certa vez li que cerca de 80% das discussões não começam por divergências de opiniões, mas por um tom de voz errado. Agora tu imagina este cenário no ambiente social e político nacional. Óbvio que pessoas irão brigar por serem de partidos opostos, por gostarem de gêneros diferentes.

AO: Como você recebe as críticas em relação ao seu trabalho? 
RF: Engraçado, mas eu sempre lidei melhor com as críticas negativas do que as positivas. Nunca falei sobre isso com meu terapeuta, talvez seja hora (risos).

AO: Como você vê o mercado editorial para os novos autores? Quais são os principais desafios para quem quer publicar? Quais conselhos você daria para um escritor em início de carreira? 
RF: Antes de publicar, é preciso escrever. E antes de escrever, é necessário ler. Ler muito. Todo mundo tem um estilo que mais gosta, porém volta e meia precisamos beber de outras fontes. O mercado editorial está em crise, mas a literatura não. O brasileiro lê pouco, mas não por desinteresse, mas porque o preço de um livro não ajuda, e os bons livros geralmente não chegam para as grandes massas. Por isso, sugiro buscar uma editora pequena, local, mas que vá te dar um respaldo, vai ajudar na divulgação, não vai deixar teu livro abandonado em um catálogo enorme. Claro que sempre vale a pena tentar contato com as grandes editoras, mas não se apegue somente nisso. Em paralelo, repito o que falei numa pergunta acima: comece a fazer contato com outras pessoas que escrevem perto de você. Junte-se aos malucos da sua rua, do seu bairro. Quem escreve não participa de grupo, comitê, ou confraria. Quem escreve forma gangue, matilha, bando. 

AO: Quais são os seus planos futuros? Já pensa em um próximo projeto? 
RF: Estou terminando meu próximo livro de poemas, se tudo der certo lanço no começo de 2021. Ainda não tenho editora, e o título provisório é Clube do zíper no peito. Além do livro, estou dando uma oficina de poesia. Para o futuro, gostaria muito de juntar forças com algum fotógrafo e fazer um livro de poesia ilustrado. 

AO: Deixe o seu recado para os leitores do Algumas Observações. 
RF: Continuem lendo a Fernanda, e ouçam as dicas que ela dá. Quando sobrar um tempo, me sigam nas redes sociais. Espero que tenham gostado das minhas palavras.

Gostaram? 
Então acompanhe o trabalho do Rafa lá no Instagram: @rafael.com.f e no Twitter: @rafaelfarina.  
Participe dos encontros sobre o fazer poético:




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Algumas Observações | Ano 14 | Textos por Fernanda Rodrigues. Tecnologia do Blogger.