É preciso resgatar o que se perdeu
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| Caderno de desejos. |
Há um mundo de humanidade dentro de cada pessoa. E esse mundo tem sido cada vez mais enterrado dentro de nós. A rotina, a correria, o trabalho, as redes sociais (nada sociáveis), o esforço pra abrir um espacinho pra família, pro parceiro, pros amigos, pros animais de estimação. É preciso resgatar o que se perdeu. Essa humanidade que é cada vez mais asfixiada.
Sempre digo que relações são como
plantas. Se a gente rega, cuida do solo, expõe à quantidade certa de luz, a
semente cresce e se torna uma árvore frondosa. Mas basta se esquecer de fazer
uma dessas coisas e puf!, a planta não vinga. Morre de morte matada e
morrida. Em um mundo em que tudo tem que ser perfeito, milimetricamente
produtivo, corrido, sem tempo, irmão!, onde se cultiva o que é, de fato,
importante ser cultivado?
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Tempos atrás eu vi um post da
Vanessa Rozan dizendo que ela busca aprender uma coisa nova a cada aniversário.
Isso, pra ela, é uma atitude deliberada. Ela escolhe, por espontânea vontade,
aprender algo novo. Não para ser a melhor pessoa naquele assunto, mas apenas
para experimentar.
Como pessoa curiosa que sou, eu
gosto de aprender. Por isso, também, que acumulo os ditos conhecimentos “inúteis”
— como saber a oração de um povo distante da América do Norte ou posições para
fazer um bebê soltar pum (sendo que nem pretendo ter filhos). Assim como a Vanessa,
gosto de aprender, de experimentar.
Ano passado, entrei nas aulas de
dança: dois grupos distintos, formados por mulheres maravilhosas. Fiz novas
amigas. Neste ano, além de continuar dançando, cursei um semestre de aulas de
canto. Na dança, me sinto indo bem. No canto, fui um verdadeiro desastre — não
sei se alguém já te disse, mas cantar certo é difícil pra caramba. Em ambas as
atividades, me diverti bastante, apesar da dificuldade em respirar. Respirar
certo para uma mente ansiosa é sempre um desafio.
Durante a vida, sempre gostei de cantar e de dançar. Na infância, me reunia com a minha vizinha da rua de trás para passar as tardes praticando as coreografias do É o tchan! e de Chiquititas. Na adolescência, nossa turma do ensino fundamental se reunia na casa de uma amiga para treinar todas as coreografias dos Backstreet Boys (e algumas da Britney Spears também). Depois cada amiga seguiu o seu caminho, entrei na faculdade, a vida ficou séria e isso se perdeu. Os únicos momentos em que me permitia dançar e cantar a plenos pulmões eram nas idas aos shows. Onde a música foi parar na minha vida?
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| Lista citada na crônica. |
Ontem contava a uma das minhas professoras de dança que encontrei um caderno em cuja primeira página há uma lista de Dez Desejos e o primeiro item é: “fazer aulas de dança”. É preciso resgatar o que se perdeu. Eu não me lembrava do caderno e não pensei nos meus momentos nas casas da Taís e da Cristiane quando fiz a inscrição para dançar. Apenas ouvi o que estava aqui dentro, a vontade de me expressar de uma forma distinta. De encontrar novos caminhos, novas linguagens.
E desde então eu tenho ouvido
mais músicas, tenho descoberto novos artistas, tenho entendido mais das
tradições populares existentes pelo Brasil, tenho aceitado a minha voz e o meu
corpo como nunca antes, tenho feito novas amizades, tenho me aberto para a
vida. Resgatar o que se perdeu tem sido um caminho doce, bonito e cheio de gargalhadas
(eu sempre caio no riso quando eu não consigo fazer algo). Resgatar a música e
a dança tem me feito reencontrar aquele pedaço meu que estava em algum lugar
muito no fundo de um armário empoeirado (e amargurado). Isso tem sido bonito a
cada dia.
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