sábado, 18 de maio de 2024

Maré cheia

sábado, maio 18, 2024 1

Foto de Jakob Owens, via Unsplash.
  

Sou covarde até para a morte.


O lugar em que aprendi a jogar xadrez, em que retornei para celebrar o meu aniversário de trinta anos, não existe mais. Soube quando quis voltar lá e, simplesmente, fui impedida: portas e janelas fechadas. Nenhum José para, sequer, perguntar “e agora?”. O que fazer quando os lugares das memórias afetivas se vão? O aniversário de 30 foi um dos mais divertidos, isso porque  foi simples. Também foi o ano em que ganhei balões. Aos 30 anos, foi a primeira vez que ganhei balões. Quase uma década depois ainda me emociono com a singeleza do gesto: uma tentativa simbólica do desejo de uma amiga-irmã de me ver a voar alto, de me ver indo longe. Já daquela partida, me lembro muito pouco. A lógica do jogo (de tabuleiro e do amoroso) nunca fez sentido na minha cabeça. Demorei para vencer (ganhei na quinta ou sexta partida), perdi no amor. Rebaixei na vida.


O importante é se manter em movimento. Subo a rua até a avenida, procuro outro lugar tranquilo para tomar um café e escrever. Peço um croissant e um café no maior tamanho possível. Os planos eram sentar, rever o eterno projeto do NaNoWriMo e retomar de onde parei. Continuar em movimento, mesmo sem planos, mesmo sem saber para onde ir. Contudo, minha cabeça fervilha mais do que antes, mais do que nunca. Por isso, esta crônica.


Como o croissaint na velocidade de quem não quer ser engolida pelo mundo, mesmo sendo atropelada constantemente por ele. À minha frente, um casal. Ela sem as sapatilhas; ele conversando e massageando um dos pés dela sob a mesa. Há amor e cumplicidade. Será que eles já perderam alguma partida de xadrez pelo menos alguma vez na vida?


Leio textos sobre Clarice e me pergunto se ela encontrou, afinal, a paz na palavra. A procura se findou com o último texto escrito, no ponto final de sua morte ou ainda continua? Quando eu olho para frente, não tenho mais perspectiva. Queria me tornar uma senhora feliz e entusiasmada, mas sigo aqui, uma jovem no fim da década balzaquiana com ar amargurado, que não sabe qual é o seu lugar no mundo. Será que há um lugar que caiba este latifúndio?


Durante a semana tive conversas duras. O mundo não é mais o mesmo. Tudo está morrendo. Ao mesmo tempo, o mundo continua sendo mundo. Se eu pegar os textos do meu poeta favorito, escritos há praticamente um século, lerei poemas, contos e crônicas sobre guerras e destruição da natureza. Todas as notícias da semana afirmam que nada sobra de novo no front.


Uma dupla se senta ao meu lado. Elas não param de falar sobre o assunto da minha fobia. Estou passando mal só de ouvi-las e não trouxe os fones de ouvido. Tento abstrair. Não quero ter que mudar de lugar, não quero ser rude. Sei que rugir sem motivo aparente é loucura, mas minha vontade é a de enlouquecer de vez, de morrer de vez, de acabar com tudo.


Um amigo me diz que isso é estar vivo, que a humanidade veio para se autodestruir, que é da nossa natureza, que não há jeito de fugir da essência que a nossa espécie traz em seu DNA. Minha psicóloga diz que é uma fase, que tudo vai passar, que é preciso erguer a cabeça, que esperança é fundamental, que vê potencial em mim e em tantas outras pessoas a quem ela atende, que tenho que tomar cuidado para não absrver o que não é meu. Mas a verdade é que cidades são arrasadas. Tudo morre numa velocidade assustadora. E eu não acredito em mais nada. Não me lembro mais das regras lógicas do jogo.


Questiono se Deus ou qualquer outra força maior existe(m). Retiro a culpa de Lilith e de Eva. Elas, mulheres como eu, feitas de barro frágil, obrigadas a carregarem o peso do pecado do mundo, o peso da ausência de perfeição. Retiro a culpa delas, como gostaria de fazer com as minhas. Refaço os caminhos do passado repetindo a mim mesma que eu fiz o meu melhor com as informações que eu tinha. Que eu estou fazendo o meu melhor com o que tenho hoje. Há uma fera que quer sair. Eu a prendo enjaulada. Há luta, há desgaste. Ela vaza pelos meus poros, heroina em sua própria jornada. 


Enxaqueca.


Me forço a escrever mesmo assim, mesmo sabendo que estou me repetindo, porque hoje ouço demais para penetrar no reino das palavras. É preciso surdez para adentrar a este reino. A surdez da entrega que me falta. Me forço e me repito, porque também busco algo que não sei o que é. Me forço, por isso escrevo, mesmo sabendo que as portas do reino estão fechadas. Ouvi de um aluno do ensino médio que textos tristes são os melhores. (Não queria escrever coisas tristes, mas talvez essa seja uma das poucas coisas que sei fazer bem.) Concordo com ele e continuo. Me mantenho em movimento. Isso é importante. Me mantenho em movimento mesmo quando não sinto o movimento.


As amigas que estavam ao meu lado vão embora; o casal fofo à minha frente, também. Encaro a tela em branco. Fico sem ideias. Jogo “Chagall" no Google para ver as pinturas que tanto impressionaram Clarice. A leveza é tamanha que, em um dos quadros, a mulher flutua. Sinto vontade de pintar. Me lembro do pacote fechado de aquarela que tenho em casa, mas tenho dúvidas sobre o quanto possível fazer arte quando não se tem um teto todo para chamar de seu.


Tudo morre numa velocidade assustadora. A maré cheia é devastadora de sonhos.


Me lembrei desta música enquanto escrevia. :) 
Saudades, Cássia. 💚

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domingo, 5 de maio de 2024

A química

domingo, maio 05, 2024 2

Toda linha começa em busca de uma falta.

É verdade,
a crônica consegue algum estilo sobre coisa alguma.
O excesso atrapalha, ao mesmo tempo, se perde:
Mundo sem porteira. 

A primavera. 
O velho.
O sonho.

Me lembrou a função:
seu único objetivo: somente permanecer.

Ideias contrárias convivem.
O conceito como ponto de partida indica
parte substancial:
suas consequências.

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domingo, 7 de abril de 2024

Vem escrever comigo no Dia Mundial da Criatividade!

domingo, abril 07, 2024 9
Inscreva-se na nossa oficina, aqui.


Oi, gente!
O post de hoje é para contar uma novidade que me deixou muito feliz e para fazer um convite para todos vocês. Que tal participar de uma oficina presencial mediada por mim, em nome do Projeto Escrita Criativa, no Dia Mundial da Criatividade? Vem que eu te explico!

O que é o Dia Mundial da Criatividade?

O Dia Mundial da Criatividade e Inovação é celebrado em 21 de abril (data escolhida pela ONU) e seu festival acontece no Brasil desde 2018, reunindo organizações, empreendedores, empresas, voluntários, educadores e inspiradores em diversas atividades (palestras, oficinas, shows, bate-papos), para estimular uma vida mais criativa — tanto individual, quanto coletivamente.

Os eventos acontecem em diversas cidades do Brasil, incluindo as capitais dos estados, e têm como objetivo inspirar as pessoas a construírem seus próprios projetos, cidades e negócios inovadores. Além disso, o festival visa  preparar lideranças criativas e promover a colaboração, fomentando ecossistemas para impactar positivamente comunidades de modo a alavancar inclusão produtiva, por meio do empreendedorismo e de soluções para problemas contemporâneos, com a moldura do desenvolvimento sustentável e, claro, muita criatividade!

As três cofundadoras do Projeto Escrita Criativa: Ayumi Teruya, Ane Venâncio e eu.
Inscreava-se aqui.

Como será a atividade promovida pelo Projeto Escrita Criativa?

Inscreva-se aqui.

Neste encontro, com 2 horas de duração, os participantes serão estimulados a descobrir o poder da subjetividade ao escrever pequenas narrativas e a explorar os limites da criatividade. Na oficina, você:

  • Mergulhará no universo da subjetividade e da sua relação entre a escrita literária e criatividade — explore como a sua percepção única do mundo molda a sua narrativa e como você pode usar isso para criar histórias cativantes;
  • Desafiará sua criatividade com exercícios de escrita a partir da ideia de restrição e de expansão — experimente ir além da sua zona de conforto com propostas de escrita que te farão pensar além do comum.
  • Escreverá e compartilhará seu trabalho com outros participantes — aprimore suas habilidades de escrita e suas competências criativas.
Vem escrever com a gente!

Quando? Dia 20 de abril, às 10 horas (Horário de Brasília)
Onde? École Intuit Lab São Paulo — Rua Major Maragliano 181, Vila Mariana — Campus Vila Mariana (Veja no Google Maps.)
Duração: 2 horas.
Inscrições: Inscreva-se aqui.

Te espero. Até lá!
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domingo, 31 de março de 2024

Forma específica de relevo

domingo, março 31, 2024 14
Foto de Stijn Swinnen, via Unsplash.

Em tempos tão bélicos, a busca vira luta, batalha em trincheiras sem garantias de vencedores ou perdedores. Acordos diplomáticos são lançados ao vendaval catártico e, sem que se pense duas vezes, me vejo atirada ao chão. Balas perfuram o meu corpo violentamente, e tudo o que eu desejo é o pleonasmo de um fim que, de fato, se finde. O caos está longe de ser criativo. O desejo está longe de trazer tesão. Dor. Apenas a dor do medo. Apenas o medo da dor. Minha mente quer estancar tudo isso, mas meu corpo fora atingido. Soldier down, honey. Soldier down. É impossível me mover. É impossível pedir ajuda. Minha voz não sai, e mesmo que saísse, ninguém a escutaria. A esta altura, é improvável qualquer mísero movimento. Meus músculos não respondem mais ao comando do meu cérebro. Mesmo que respondessem, seria inútil. Meu cérebro desistiu de tudo. Melhor dizendo, meu cérebro desistiu de mim. Minhas sinapses estão exaustas de tanto lutar. Mais balas me atingem. Elas são cada vez mais velozes. Eu estou no chão. Eu continuo no chão. Meus pulmões se movem: o ar não vem. O vazio não se preenche do meu sangue: as minhas vísceras não se espalham. O fim não se finda. Balas seguem me atingindo. Há desespero na falta de explicação. Até a loucura seria uma alternativa mais simples. Corpo quente no solo frio. Tento mudar de estratégia: agora são bombas e mais bombas. Ninguém procura por ninguém: não há melhores amigos, tampouco desconhecidos, advogados, líderes espirituais, familiares ou qualquer quem que valha. Nunca houve coerência nos atos bélicos. Não há meios de descomplicar o confronto. Marte segue orbitando o Sol. Morro, entretanto continuo viva. Continuo viva.


Talvez, se eu tiver alguma espécie de sorte, os escombros se transformem em adubo.

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domingo, 18 de fevereiro de 2024

{Vou por aí} Parque Severo Gomes, em São Paulo

domingo, fevereiro 18, 2024 29
Vem conhecer o parque Severo Gomes. 💚🌳

Aproveitei o feriado de Carnaval para explorar a cidade e ir visitar um parque que não conhecia. Localizado na Granja Julieta, na região de Santo Amaro, o Parque Severo Gomes faz parte de uma bacia hidrográfica e é cortado pelo Córrego Judas. Esse córrego faz parte do programa Córrego Limpo, que recuperou córregos e áreas de mananciais da cidade.

Na entrada do parque há este banner com o mapa de localização.📌


Apesar de ser um parque pequeno (tem uma área de 34.900 m²), principalmente para quem está habituado a frequentar o Villa-Lobos ou o Ibirapuera, ele não é cheio (como os outros dois) e tem sua área de mata bem preservada. Alí é possível ver espécies da flora e da fauna brasileira (um beija-flor passou por mim, colhendo néctar e batendo suas asas em alta velocidade), bem como chegar próximo ao córrego que o corta. Há plaquinhas informando aos visitantes quais são as espécies de plantas e de animais que estão ali, bem como sobre a bacia hidrográfica em que o parque está localizado.

E também há outro banner explicando sobre a bacia hidrográfica e o córrego Judas.🌊

Córrego Judas.

Dependendo da área em que se está, é possível caminhar em espaços de trilha de mata mais fechada, ou se sentar em alguns dos banquinhos de concreto em áreas mais abertas. 

Trilha de caminhada 🏃

Outro trecho da trilha.🏃

Na entrada ainda há banheiros (eu não entrei para conferir, mas no site da prefeitura há a informação de que os sanitários são com acessibilidade), um pequeno playground para crianças e uma estante com livros de literatura infantil. Há muitos funcionários ao longo do espaço e várias placas de sinalização, de modo que é fácil obter informações, caso necessário. Vi também que eles promovem algumas atividades específicas. No portão havia um banner dizendo que a próxima será uma corrida infantil. O site da prefeitura diz que lá também é ponto de coleta de recicláveis, de óleo de cozinha e de eletrônicos.

Uma das plaquinhas de sinalização de fauna.

Minha visão de quando estava sentada em um dos banquinhos.


O parque está interligado ao parque do Cordeiro e à Avenida Jornalista Roberto Marinho via ciclovia. Então, para quem gosta de pedalar, é uma boa pedida (há bicicletário, para quem for de bicicleta). Além disso, ele está localizado próximo ao centro comercial e ao Mercado Municipal de Santo Amaro. Sendo assim, é possível visitá-lo e depois fazer compras ou ir comer alguma coisa gostosa. Foi o que fiz, já que a minha visita foi relativamente rápida. 

Eu, bem millennial que não sabe fazer pose. 😂😅

É claro que eu tinha que abraçar uma árvore! 🌳


Parque Severo Gomes
Endereço: Rua Pires de Oliveira, 356 - Granja Julieta
Horário de funcionamento: diariamente, das 7h às 19h
Telefone: +55 11 5687-4994
Linhas de ônibus que passam por lá:
6422-10 – V. Cruzeiro – Term. Bandeira
6811-10 – Parque do Lago – Borba Gato
7245-10 – Term. Sto. Amaro – Hosp. das Clínicas
736G-10 – Jd. Ingá – Shopping Morumbi
756A-10 – Jd. Paulo VI – Santo Amaro
5730-10 - Largo São Francisco
5300-10 - Terminal Pq D. Pedro II
Mais informações: site da prefeitura, parque no google maps.

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domingo, 11 de fevereiro de 2024

O que o coração quer mesmo é se derreter

domingo, fevereiro 11, 2024 18


Às vezes eu penso que não há ninguém para contar, que ninguém se importa. O mundo é cruel demais e nem uma pandemia conseguiu trazer mais humanidade ao Homo sapiens. Viver uma jornada sem compartilhar os medos pesa; as pessoas jamais compreenderiam — não por serem incapazes, mas porque simplesmente não querem. Sempre há gente que resolve tudo com dinheiro — e quando não há solução por essa via, joga-se tudo para debaixo do tapete. Sempre há dor e sofrimento espreitando a esquina. Onde há dor e desigualdade, a porta da empatia já foi lacrada há tempos.

Quase sempre acho que todos estão nem aí. Então um lampejo surge de onde eu não esperaria. Um lampejo desses forte e simples, um raio em forma de palavras que estremece o meu coração de um jeito bom. Agradeço dizendo que é fofo, pareço desconcertada, mas a verdade é que, ao menos por alguns instantes, deixo o ritmo triste, e passo a suspirar uma esperança em forma de abraço. Alento. Usar a fofura se torna, portanto, uma forma de agradecimento tenro quando as palavras não soam suficientes a tamanho acolhimento e devoção.

Coleciono esses momentos como faço com as polaroids: coloco no álbum que eu mesma fiz. Depois, de tempos em tempos sorrio ao percorrer suas páginas. Vejo imagem por imagem, sabendo que cada memória doce me protege de não me tornar um monstro, de não incendiar a mim mesma.



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domingo, 4 de fevereiro de 2024

Planejadamente fortuito

domingo, fevereiro 04, 2024 12
A gentileza mora no delicado do acaso.


Gostaria de escrever esta crônica para você. Sim, você, destinatário sem nome, sem rosto, sem redes sociais e geolocalização. Esta crônica epistolar, este texto planejadamente fortuito é para você, responsável por esta saudade do que sempre desejei e nunca vivi. Esta crônica é uma declaração de futuro.

Você não sabe, mas há cartas e cartas escritas à sua espera. Não tenho logradouro, número, bairro, CEP, cidade, estado, país ou e-mail para envio, mas como sei que você existe, escrevo mesmo assim. Não só esta crônica, mas meu dia a dia, meus sonhos, meus medos.

Queria te dizer tudo isso pessoalmente. Olho no olho, de peito aberto. Sinto que este momento vai chegar em breve. Enquanto isso não acontece, preparo o terreno. Além de palavras escritas, tenho vocábulos cantados por vozes mais bonitas — ou, ao menos, mais afinadas — que a minha em uma playlist do Spotify. Espero que, assim como eu, você goste dessas músicas e dance a cada nota.

[emoção.]

Às vezes você me vem à mente nos momentos mais aleatórios: enquanto lavo a louça do café da manhã, tricoto um casaquinho de bebê para doar, tomo um banho quente, caminho até o ponto do ônibus, fico com a boca aberta na dentista, preparo o meu chá noturno ou como um chocolate no meio do dia. Quais são, afinal, os seus hábitos? Os seus sonhos? Os seus medos? Minha curiosidade por te descobrir me acalma. A sabedoria popular já diz que é questão de tempo.

[você também observa o céu depois da chuva?
você sempre surge nos finais de tarde, quando o céu muda de cor,
e eu rezo e depois tiro uma foto para fazer um story no Instagram.]

O frio na barriga me faz duvidar se estou pronta — quem está? —, mas não desisto. Não te procuro, porque gosto da surpresa, mas não desisto. Nunca soube desistir. Como um atleta que treina para uma prova importante, me preparo do lado de cá. Um treinamento intenso, desses que me fazem atravessar tormentas, ter dores de cabeça e chorar na terapia — logo eu, que não gosto muito de chorar, muito menos com outras pessoas olhando. Há preparo do lado de cá, porque sempre busquei oferecer o melhor de mim para o mundo e, com você não seria diferente. Assim, para usar um dos clichês mais lidos na internet, também me encontro com o melhor que há em mim.

Há preparo, cartas, músicas, céu, mística e crônica. Há sonhos e recados falando sobre a sua chegada. Há sentimentos e oportunidades. Esperança e fé. Há acaso. Quem sabe na próxima esquina a gente não se encontra? Quando isso acontecer, só me prometa que a gente vai se falar.

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domingo, 28 de janeiro de 2024

Aqui e agora

domingo, janeiro 28, 2024 18


as palavras estão sendo escolhidas
cultivadas a ferro e fogo na fornalha
vejamos todas elas se debaterem na lenha que se consome
calor que forja o metal faz dele espada afiada 
quando a delicadeza lhe é roubada, o que sobra?

silêncio!

elas, as palavras, vêm quente, mas eu volto fervendo
vocês assistem a este espetáculo ao vivo e acessível à palma da mão
tanto nas pequenas e quanto nas grandes telas é possível ver:
palavras e eu, em língua materna, nós duas nos debatendo
desde o útero, nos aniquilando

assim seguimos, sempre em silêncio
até que nada (nos) reste


Este texto nasceu da proposta de escrita do Projeto Escrita Criativa,
cujo tema é: as palavras que ninguém diz. Para conhecer mais do Projeto, clique aqui.

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domingo, 21 de janeiro de 2024

{Vou por aí} Nick Carter e a Who I am tour em São Paulo

domingo, janeiro 21, 2024 17
Vem saber como foi o show do Nick! 💚


Estou devendo alguns relatos dos últimos shows que fui e quero começar contando sobre o último, o do Nick Carter, que aconteceu na quarta-feira, 17 de janeiro, na Audio, em São Paulo. Confesso que quando o Nick anunciou que viria para o Brasil com a turnê Who I am, eu pensei um "vou comprar porque é o Nick", mas não me animei muito com a setlist que sabia que ele estava fazendo.

A proposta desta turnê é, contudo, muito interessante. O repertório é dividido mais ou menos meio a meio: metade são músicas que ele gravou seja em projeto solo, seja com os Backstreet Boys, a outra metade é de covers de músicas que o marcaram ao longo da vida. Essas canções são de grandes nomes como U2, Journey, AC/DC, Bon Jovi, Sting, Tears for fears e são apresentadas de modo intercalado ou, até mesmo, dentro do repertório dele; que nós, fãs, tanto amamos. Como covers não é algo que me deixa muito animada, comprei o ingresso mesmo para matar a saudade dele e para me divertir com as minhas amigas. (SPOILER: eu AMEI o show inteiro, incluindo os covers todos!).

Larger than life 💚



Cheguei lá perto da hora de abrir porque eu já tinha visto o Passenger lá na Audio e sabia que o lugar nem era tão grande. De onde eu o visse, o veria bem. Antes de começar o show, deu tempo de ir ao banheiro, comer alguma coisa, bater papo. Entre essas indas e vindas, avistei a diva, maravilhosa, rainha dessa internet toda, Lia Camargo e fui lá falar com ela. Conversamos um pouco. Falei como amo ser a tia do Fefê e dos gatin' e do quanto acompanho o trabalho dela desde que tudo era mato na internet (quem está aqui há anos deve se lembrar das dolls e do Just Lia). Tiramos 2 fotos. Nenhuma das duas ficou boa, porque claro que eu estava eufórica demais e tremi tudo.

Lia e eu. Foto tremida e feliz. 💚


O show começou, e o Nick fez aquilo que ele sabe fazer: entregar música e diversão de qualidade. É incrível como ele fica feliz tocando com a banda e como isso se reflete no quanto ele se joga no que faz. Na hora que ele subiu no palco, os gritos eram tantos que eu pensei que ficaria meio surda! hahaha It was not my first rodeo, mas fiquei surpresa com a empolgação de todo mundo. Posso dizer que foi uma coisa recíproca. Todos — nós, a banda e o Nick — estávamos muito empolgados por estar ali.


Nick cantando Don't you (forget about me) — do Simple Minds, 
falando com todo mundo e cantando 80's movie
na turnê Who I am, em São Paulo, Brasil.

Eu fiquei surpresa como o show foi simples (sem coreografias e parafernalias), mas MUITO bom! Eu amei os covers todos, em especial, o de Wanted Dead or Alive (do Bon Jovi).  Todo mundo com quem conversei amou o fato de ter mais músicas do Now or Never na setlist. Das dos Backstreet Boys, é incrível como Quit Playing Games até hoje me deixa no mesmo estado de felicidade que eu senti da primeira vez que eu a ouvi lá no fim de 1996/início de 1997. É ouvir os primeiros acordes e já ficar toda arrepiada!

Da esquerda para a direita: Jake, Brogan, Nick e Zoux.


Achei bonitinho ele agradecendo a força que todo mundo deu/está dando para ele no último ano. Para quem não sabe, o Nick é o filho mais velho de cinco irmãos. No final de 2022, ele perdeu o mais novo, Aaron Carter (que também era cantor) e no final de 2023, uma das irmãs do meio, BJ. Em 2012, ele já tinha perdido uma outra irmã, a Leslie. Ou seja, esses últimos anos foram bem difíceis tanto para ele, quanto para a Angel (a outra irmã deles todos). Apesar de ele ter apenas agradecido "pelo apoio nos tempos difíceis", para bom entendedor, meia palavra basta, não é mesmo?

Esse casaco durou uma música, porque é verão. 😂

Vale ainda reservar um parágrafo para a banda que veio com ele. Todos são músicos muito talentosos e muito simpáticos também. Particularmente falando, adorei como eles pensaram e refizeram alguns arranjos (Show me the meaning numa versão rock and roll, Superhero mais animadinha etc.). Para quem quiser conhecer mais dos músicos, a formação da banda é com o Zoux (guitarra, violão, teclados e vocais), o Brogan Dutcher (baixo), o Jake Michel Hayden (bateria) e o Pete Thorn (guitarra e violão).

Da esquerda para a direita: Pete, Jake, Nick e Brogan.
(O que dizer dessa camisa meio Agostinho Carrara, meio Silvio Santos? 😂)


Nick Carter cantando Show me the meaning of being lonely, dos Backstreet Boys, 
conversando com a banda e com a plateia 
(incluindo um trechinho de Oops! I did it again, da Britney Spears) 
e cantando Sharp Dressed Man, do ZZ Top,
 e We've got it goin' on, dos Backstreet Boys, 
na turnê Who I am, em São Paulo, Brasil.


A setlist completa foi: 
1. Intro / Big Trouble
2. Larger Than Life — Backstreet Boys
3. Everybody rules the world  — Tears for fears
4. Sunglasses at night — Corey Hart
5. Get over me — Nick Carter
6. Don't you (forget about me) — Simple Minds
7. 80's movie  — Nick Carter
8. I got you / With or without you — U2
9. Shape of my heart — Backstreet Boys
10. Wanted dead or alive — Bon Jovi
11. 19 in 99 — Nick Carter
12. You shook me all night long — AC/DC / Show me the meaning of being lonely — Backstreet Boys
~ Durante a conversa entre a música anterior e a próxima, teve duas linhas de Oops! I did it again — Britney Spears ~
13. Sharp Dressed Man — ZZ Top / We've got it goin' on — Backstreet Boys
14. Just want you to know — Backstreet Boys
15. I need you tonight — Backstreet Boys / Do I have to cry for you? — Nick Carter
16. Faithfully — Journey
17. Superman — Nick Carter
~ Enquanto ele trocava de roupa, a banda dele tocou Message in a bottle —  do Sting ~
18. Blow your mind — Nick Carter
19. Help me — Nick Carter
20. As long as you love me — Backstreet Boys
21. Quit Playing Games (with my heart) — Backstreet Boys
22. Made for us — Nick Carter
Encore:
23. I want it that way — Backstreet Boys
24. Everybody (backstreet's back) — Backstreet Boys

A guitarra verde veio 💚
(quem acompanhou a compra dela lá no Instagram?)
 e a bandeira do Brasil no palco 😍


Na saída, ainda vi o Flesch e troquei dois dedos de prosa com ele (enquanto todo mundo interrompia para perguntar da Beyonce). Ele também foi muito simpático comigo e com as minhas amigas. Contei pra ele que ele é a única notificação ativa, porque a vida de fã não para. hehehe

Que venham mais shows!😍💚
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domingo, 14 de janeiro de 2024

{Resenha} A lição do amigo, de Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade

domingo, janeiro 14, 2024 15
Quando a amizade é maior que a profissão. 💚


A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade é um livro interessantíssimo por mostrar, ao longo das suas 91 cartas, as mensagens que Drummond recebeu do amigo entre 10 de novembro de 1924 e 23 de fevereiro de 1945. As missivas foram organizadas pelo próprio Drummond, com notas de rodapé explicativas, que dão o contexto seja histórico, seja das pessoas e obras citadas.

Este é o tipo de livro que é para ser lido aos poucos, degustado, sentido. Além dos assuntos já esperados, a exemplo das conversas sobre literatura e escrita, há um rasgar-se por inteiro. Mário é um amigo que se entregou a amizade com disponibilidade, amor e preocupação, por vezes. Em alguns trechos, há pressa: a viagem, a doença ou a falta de dinheiro atingiam o autor de Macunaíma; em outros, por sua vez, Mário de Andrade fez análises delicadas e profundas dos poemas do Drummond (em especial, do livro Alguma poesia), deu-lhe conselhos amorosos e de como viver mais feliz, consolo pela perda do filho.

“Trabalhe nos seus pontos de escola, faça exame, isso é vida e é lindo viver, depois volte pros poemas e pro pensamento literário. Momentos de infecundidade toda gente tem, não se incomode com eles. E se acabar a poesia (o que pea mim é muito possível que aconteça breve, tais as indecisões e os problemas que me agitam e a que não encontro solução) volte pra prosa, crítica, e ficção isso não acaba mesmo nunca e nesse terreno quase tudo está por fazer entre nós. Não desanime por favor, isso é burrada grossa.” (Mário de Andrade, carta 8 — página 79)

Apesar de famoso, Mário de Andrade não hesitava em pedir ajuda quando necessário ou a opinião sobre seus textos. A troca entre os poetas era profunda, mesmo sem terem se visto muitas vezes pessoalmente. Havia contato e admiração. Essa intimidade fica presente ao longo do livro como um todo e o modo como a obra fora organizada joga a nós, seus leitores, para dentro desta amizade. Acabamos nos sentindo não só testemunhas, mas também de algum modo parte dela — ainda que só leiamos as cartas recebidas, não as enviadas. 

A linguagem é fácil de ser compreendida. Do mesmo modo que Mário de Andrade pretendia aproximar cada vez mais sua literatura da variante falada do português, para criar uma literatura essencialmente brasileira, nas cartas não havia uma preocupação com pompas. A preocupação era a da gentileza e a de falar com o coração de seu interlocutor.

“Agora Carlos, como cada carta de você me entristece! Palavra de honra que eu não queria que você fosse assim tão desalmado pra consigo mesmo. Uma coisa abatida, uma coisa amolecida na vida… Você sabe o que que eu tenho vontade de pedir de pra você? Quem sabe se você quer experimentar isso? Minta que é alegríssimo, que é forte, que tem coragem de encarar tudo com risada na boca, minta Carlos. Te juro que você acaba acreditando nisso e ficando feliz. Por outra: feliz não é bem o termo porque você nunca me falou propriamente que é desinfeliz. Nem triste propriamente a não ser em casos dolorosos onde só mesmo a tristeza cabe e eu também fico triste. O que me dá tristeza é o abatimento, a falta de coragem, a falta de seriedade. Não sei bem se você já reparou vem como a seriedade é um caso sério mesmo. Matute nisso”. (Mário de Andrade, carta 32 — páginas 166 e 167)

É interessante ver como dois autores do cânone da literatura brasileira descem do pedestal em que foram colocados na intimidade. No caso, vemos dois amigos preocupados com os interesses um do outro, apoiando um ao outro. Sem glamour. Sem estrelismos. Algo que explica bem o título do livro: afinal, o que é uma amizade senão um eterno trocar, aprender, evoluir juntos?

“Pra mim são tão importantes como escrever um romance ou sofrer uma recusa de amor. Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso com a vida, isto é, viver com a religião da vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente”. (Mário de Andrade, carta 1 — página 19)
capa.

Livro: A Lição do Amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade
Autor: Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade
Editora: Companhia das Letras
Gênero: cartas/epistolar
Páginas: 440 
Apresentação: Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade se conheceram em 1924, durante viagem do paulista a Minas Gerais. Mário já era uma figura de proa do movimento modernista, ao passo que o mineiro ainda não havia estreado em livro. A correspondência entre os dois poetas tomaria corpo pelos vinte anos seguintes, até as vésperas da morte de Mário, em 1945. As cartas, reunidas pelo próprio Drummond, são o testemunho luminoso de uma amizade entre dois autores fundamentais do Brasil. Entre conversas sobre a natureza da poesia, o dia a dia mais prosaico e comentários sobre o que é ser artista no Brasil, os dois poetas travam, com afeto e inteligência, uma conversa que ilumina e emociona.
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domingo, 7 de janeiro de 2024

Ser esperançoso exige coragem

domingo, janeiro 07, 2024 21
Foto de Nias Nyalada, via Unsplash.


Quando Pandora abriu sua caixa (alguns dizem que foi um jarro), a última coisa que saiu dali de dentro foi a esperança. Talvez por isso mesmo, o dito popular nos diz que a “esperança é a última que morre”, porque ela — tímida que só — foi a última a aparecer. Talvez por isso também que ela tenha data marcada para se renovar, este espaço entre dois mundos: o último respiro de um ano e o nascimento de um novo.

O dicionário, por sua vez, afirma que a esperança é a “confiança em coisa boa”, um sinônimo para fé. Para mim, ela é uma lufada de ânimo que me lembra em continuar. Muito mais do que “esperar”, esperança é se pôr em movimento, ir atrás de estar em um estado de espírito bom que nos leva em frente, é o contrário da pausa de alguém que quer que algo caia do céu — ainda que falar em céu remeta a ter fé (em um Deus, na ciência, em si mesmo, na vida). Ser esperançoso exige coragem.

Gosto da virada do ano porque esta costuma ser uma época planejada em que o desânimo se converte muitas vezes em esperança. Enquanto alguns alegam que nada muda além de um número no calendário — do dia 31 de dezembro para o 1º de janeiro —, eu prefiro ver a passagem do tempo como uma nova oportunidade, individual e coletiva, de continuar acreditando em um mundo melhor, num eu melhor também.

Durante a faxina de fim de ano, no mesmo momento em que esfregava uma parede, ouvia um podcast que dizia que há tantas coisas boas no mundo quanto ruins, mas que tendemos a nos apegar às ruins porque elas são mais veiculadas. Além disso, nunca na história da humanidade, as pessoas tiveram tanto acesso à informação em tempo real. Esses dois fatores se constituem no buraco negro que nos suga a esperança. Estamos sobrecarregados demais com o volume de informações e exaustos demais de seremos bombardeados de notícias absurdamente tristes. Aliás, é interessante notar como usamos o vocabulário bélico para falar sobre isso: “ser bombardeado”. Há coisa que suga mais a esperança do que uma guerra? Há várias guerras em curso no mundo e, como todas, elas são injustas e objetivam matar não só os humanos de determinado território, mas também a humanidade que há em todas as pessoas ao redor do globo. Como manter a esperança diante disso tudo?

Como uma pessoa que pensa demais e como humana falha que sou, posso dizer que não tenho resposta pronta. Queria mesmo ter uma receita de bolo ou de um fármaco que resolvesse esta equação de modo simples: coma tantas fatias do sabor chocolate ou ingira esta pílula de tantas em tantas horas e pronto! Você se sentirá com as esperanças renovadas, disposto a correr atrás dos seus sonhos. Infelizmente — ou felizmente, vai saber — a vida não é assim. Mas dá pra ser, não dá? Afinal, como humanos e falhos que somos, gostamos de um pouco de magia: vestir roupas brancas na virada, pular sete ondas, dar o primeiro passo do ano com o pé direito, colocar folhas de louro na carteira, comer lentilhas e uvas, fazer brindes, passar a virada orando sozinho ou beijando um grande amor, planejar uma boa vivência no primeiro dia do ano porque ela dita o tom de como serão os outros 365 dias (no caso de 2024, 366 já que o ano é bissexto)... Tudo isso não é, afinal, um modo de tentar ser esperançoso em um mundo que nos oprime e violenta todo o restante do tempo?

A esperança nos traz a parte bonita da ilusão: aquela que nos faz sonhar, verbalizar os nossos desejos, nos comprometer com o melhor que é possível. Quantos não prometem que serão as melhores versões de si? E quantos talvez não se tornem, de fato, suas melhores versões no momento? A esperança nos traz o sonho, mas para sonhar é preciso ter coragem, a coragem de quem sabe que os planos não acontecerão EXATAMENTE como o planejado, que haverá surpresas, encontros e desencontros (inclusive para quem não planeja nada). Ser esperançoso é se jogar na incerteza da fé de que se sobreviverá.

Passei a primeira tarde do ano no parque, sentada a beira de um lago, comtemplando a natureza. A natureza nos ensina — ou ao menos me ensina — que recomeçar é não só possível, mas bonito. Ela, a natureza, é a mais esperançosa de todas — ela compreende que tudo é feito de ciclos: incluindo anos que nascem, crescem e morrem para que o seguinte possa (re)nascer.

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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Adeus, ano velho

terça-feira, dezembro 26, 2023 22
Foto de Fabrizio Conti, via Unsplash.


Pois é. Voltar depois de ter sido forçada espontaneamente a ir me traz o gosto da incerteza. Será que desta vez haverá a tão planejada consistência? Me agarro à astrologia e digo pra mim mesma que agora é a temporada capricorniana. Agora vai. Mesmo com mercúrio retrógrado, vai. Pé ante pé o carneiro sobre a montanha, não é mesmo?

Sinto que tive que dar muitos passos atrás para poder continuar viva e seguindo em frente. 2023 foi um ano duro, desafiador, daqueles que entram na lista dos "piores anos", com reviravoltas que exigiram não apenas fôlego, mas também todo o oxigênio que chegou aos meus pulmões. Inspira. Segura. Solta. De novo: inspira. Segura. Solta. Solta. Deixa ir.

Em meio a tantas incertezas, tudo o que me sobrou foi a exaustão do agora. A pausa forçada trouxe medo, sombras, descobertas dolorosas, entendimentos, perdão. E eu, que não sou muito de chorar, me debulhei muitas vezes nas lágrimas. Borbulhas que foram muito distintas das que aparecem na música, mas que de algum modo, me deram uma dose — ainda que minúscula — de mais amor-próprio e, sobretudo, de esperança.

Produtividade às avessas. Não consegui manter a consistência na produção de conteúdo. Abandonei a newsletter (ano que vem ela volta!) e estive afastada daqui. Também não consegui terminar os três calhamaços que iniciei há tempos. Enquanto todos dizem a plenos pulmões quantos livros leram, eu sigo pacientemente presa às mais de mil páginas ao todo (dívidas em 3 livros distintos). Pacientemente, saboreando, sem pressa. Em 2023, não tenho muito o que mostrar do que li. Mas sigo. Seguimos.

Tampouco escrevi. Trabalhei mais ou menos ao longo do NaNoWriMo (mais sobre isso no YouTube). Não fiz muito, mas fiz o que deu. Ao menos, não fiz muito literariamente falando, porque as minhas páginas matinais ainda existem e estão fortes. Talvez nasça algo bom delas no futuro.

Processos de catarse vão fundo e doem. No meu caso, doeu para um caralho, contudo estou viva. Ainda sigo aqui, com um coração que se estrangula e depois renasce, que segue o caminho das pedras de joelho em carne viva. Resiliência. Superação. (Ouço estas palavras mais de uma vez, de pessoas diferentes. De gente que me admira ou me ama ou, ao menos, me quer bem. Resiliência. Superação.) Estou cansada de ser resiliente e de ter que superar, mas é isso: às vezes essas são as únicas alternativas. Vida que segue.

Apesar de tudo, lidei com a arte em mim: voltei a fotografar, experimentei aquarela, cozinhei, costurei (ou, amo menos tentei. A máquina continua aqui a todo vapor), tricotei. Fiz o caminho do artista e foi transformador. Passei mais tempo offline. Foi bom. Foi lindo, agudamente lindo. Criei um parênteses intenso dentro do que era esperado. Não me arrependo.

Mesmo que o meu Sol em Virgem não aceite muito bem e esperneie, lidar com a incerteza é a essência de quem tem Plutão em Escorpião. Plot twist atrás de plot twist, metamorfose atrás de metamorfose, vou vivendo várias vidas em uma, vou me reinventando. Confronto meus medos mais profundos, para encontrar no fundo do poço a pedra preciosa dos meus desejos mais intensos. Muitas vezes não sei voltar, mas volto. Quem sabe todos os caminhos? No fundo, bem lá no fundo, toda a jornada me leva para a casa.

Autoconfiança é um exercício de manter a própria paz. Fazer o mínimo viável também é fazer algo. Focar no que eu quero ver crescer funciona. Devo confiar na minha experiência. Fazer a revisão mensal ajuda a não perder o foco do todo. Todo mundo que eu admiro tira um tempo para cuidar de si mesmo. Fé é confiança. Eu posso pedir ajuda. Eu não preciso diminuir a minha luz para ser amada. É preciso descansar. Não é possível ver com clareza e tomar boas decisões quando se está instável. É importante voltar para o eixo. – Pensamentos que se acumulam. Aprendizados ficam. Carrego todos eles na minha mochilinha da vida. Eles me fazem ser força, quando sinto que vou fraquejar.

2023 foi um ano de limites, de vulnerabilidade, de aprendizado, de parcerias, de amor. Estar com tantas pessoas queridas, em meio à arte e à música e a comidinhas gostosas, sempre me ajuda a encher o tanque da felicidade que me move. Sou grata por isso também.

Estou de férias, numa tentativa de restaurar o meu corpo tão cansado do peso que foi este ano. Estou de férias, com todos os sonhos do mundo descansando sobre os meus ombros. Digo adeus a 2023 com a certeza de que nos veremos mais vezes em 2024. Juntos seguimos. 

Feliz ano-novo, feliz ciclo novo!
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Algumas Observações | Ano 17 | Textos por Fernanda Rodrigues. Tecnologia do Blogger.