Mostrando postagens com marcador sentimentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sentimentos. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de setembro de 2026

Você já sonhou algo que parecia impossível?

domingo, setembro 06, 2026 2
Como andam os seus sonhos mais profundos?

Quando eu comecei este meu blog, lá em 2006, era uma adolescente que queria escrever e, sobretudo, queria um espaço para registrar tudo aquilo que estava, de algum modo, na minha cabeça. Naquela época, ter blog era coisa da moda, a comunidade blogueira era bem engajada, a gente mal tinha redes sociais (Fotolog, Orkut, Twitter e Flickr, talvez?) e a cultura de dar likes não existia. De lá para cá, muita coisa na minha vida pessoal e profissional mudou: relacionamentos foram feitos e desfeitos, troquei de trabalho várias vezes, me formei e me pós-graduei... Entretanto, o desejo e a sede de continuar escrevendo e tendo um espaço para registro continuaram sendo a mesma.

Segui mantendo o blog que, assim como eu, também mudou e se profissionalizou. E é nesse processo todo que entra um dos meus sonhos aparentemente impossíveis: trabalhar texto, sobretudo, com literatura. É engraçado como a gente caminha – às vezes às claras, às vezes às cegas – em busca dos nossos objetivos – mesmo menosprezando-os de vez em quando. Quem nunca tratou algo como “é só um hobby”, porque tinha medo de fracassar se levasse tal atividade a sério, que atire a primeira pedra.

A princípio, sempre quis ser professora – profissão que hoje exerço dando o melhor de mim, apesar dos perrengues nossos de cada dia – e aos poucos fui notando que a minha vida mora também na palavra escrita. Só que ser escritora, assim como qualquer profissão, é algo que exige tempo, formação, prática insistente e constante, e paciência. Trabalhar com texto em um país cuja a maior parte da população não sabe interpretar o que lê é um desafio. Fora a desvalorização da arte em si. Por muito tempo me questionei se teria forças para encarar mais uma carreira que também é desvalorizada socialmente.

A decisão veio de forma gradual. Cá estou eu, 20 anos depois do início do Algumas Observações, recomeçando a cada dia minha incursão no universo da escrita: a cada novo texto, uma nova descoberta. A cada cliente que me contrata para fazer revisão ou leitura crítica de seus textos, um novo deleite. A cada cliente que volta pedindo a leitura de outro dos seus textos, a satisfação por saber que contribuí para a sua literatura. A minha decisão foi gradual; entretanto, acertada. Quanto mais o tempo passa, mais me sinto certa disso.

Desde que tomei coragem de me assumir escritora e que fui buscar tudo aquilo que pudesse me ajudar nessa jornada (cursos, palestras, grupos de leitura, clube de escrita, saraus etc.), os trabalhos passaram a chegar e a fluir de um modo inesperado. Eu sei que, falando assim parece algo que aconteceu da noite para o dia (e eu tenho consciência que não, que tudo é fruto desses mais de décadas de trabalho); mas, olhando para trás, aquele sonho tão distante nem era tão impossível assim, sabe? Esse é o ponto principal dessa conversa que queria ter com você hoje: pode demorar algum tempo, pode não ser exatamente como planejamos, mas os nossos sonhos não são impossíveis. Só que é aquilo: nessa era imediatista, estamos prontos para arregaçar as mangas, trabalhar duro e esperar o tempo necessário?

Falo tudo isso, porque vejo muito por aí pessoas que desistem no primeiro “não deu certo” ou que nem ao menos tentam. Ao fazer isso, essas pessoas perdem a oportunidade de maturação tanto as realização do sonho, quanto do próprio processo de amadurecimento. Fico assustada principalmente quando vejo esse tipo de comportamento na geração mais nova, que está crescendo com esse tipo de mentalidade. Vejo essa desistência sem persistência com profunda tristeza.

Devo dizer, contudo, que essa provocação não é apenas para você que me lê, ela também serve para a minha cabeça que tende a se perder em pensamentos catastroficamente acelerados de tanta ansiedade. No fundo, este texto também é um lembrete de que, sim, tudo tem o seu tempo. Ele é necessário para tornarmos o impossível realidade. Como o Bono costuma dizer, escrevemos aquilo que gostaríamos de ouvir.

E você, o que me diz? Você tem algum sonho guardado lá no fundo, que acha que é impossível de ser realizado? O que te impulsiona e o que te limita? Adoraria trocar uma ideia contigo sobre isso. Use o espaço dos comentários para que nós possamos trocar sobre este assunto. 😜

📝📚📝


Para saber mais: saiba sobre os serviços de leitura crítica, preparação e revisão de textos clicando aqui. Para aulas, cursos e mentorias de escrita, clique aqui.

 _____________________________________________________________

Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 23 de agosto de 2026

O tudo ainda nos espera

domingo, agosto 23, 2026 0

sinto o coração bater
— tum-tum-tum —
um staccato sem fim…

me encolho na cama.

pensamento do outro lado de um mundo que não alcanço:
vejo moscas volantes;
coração cada vez mais veloz.
a enxaqueca vem,
me impulsiona para dentro.
quem diria que não saber,
que o pensar demais,
que a água escapando entre as mãos  
me trariam até aqui.
mesmo assim, me sento comigo:
me olho no espelho e
te pergunto 
(com uma voz que gostaria de estar a plenos pulmões,
mas que sai fraquíssima):
você ainda me ama? 
você ainda vai me amar ou sou apenas uma grande decepção?

não dá para domar seu coração que galopa sem controle.

💚💚💚

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de agosto de 2026 é fora de controle.
Para saber os outros temas e como participar, clique aqui.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 27 de julho de 2025

SP, 14 de maio de 2021 (sexta-feira, 02h32)*

domingo, julho 27, 2025 8



A navalha da espada corta tudo o que é onírico e me acende a luz da consciência já perdida. Não é o avassalador que me move a escrever, é o anseio pela tranquilidade que repousa no silêncio compartilhado e nas mãos dadas. 

Eu cresci achando que queria um amor de cinema, que seria um clichê ambulante, desses em que um tromba no outro e a paixão acontece instantaneamente. Eu vivi um amor que acabou como nas tragédias: ele sem memória, sem saber quem sou, sem saber quem éramos. Sufoquei a minha perda, o meu luto e, sobretudo, o meu afeto. Precisava seguir. Demorou muito, mas aqui estou. Aqui caminho. Viva. Viva com ar que enche os meus pulmões e força oxigênio correr pela minha veia.

Anos depois vieram outras pessoas. O que tinha a mesma profissão que a minha; o match do Tinder que atrasou mais de duas horas e o encontro não deu em nada; o cara que flertou de todos os jeitos e surgiu com uma namorada depois que me percebeu apaixonada por ele. Todos hollywodianamente avassaladores. Todos me forçando a nadar e morrer na praia. Logo eu, que não sei nenhum dos quatro tipos de nado.

Estou viva. Cansadamente viva. Quando penso na tarefa de escrever sobre essas feridas me sinto inteira. Hoje elas têm casca, algumas já são cicatriz. Machucados que se fortaleceram porque joguei palavras e mais palavras sobre elas. Oxigênio forçado em cada célula.

Tento me apaixonar gradativamente pela pessoa que vejo todos os dias no espelho. O tempo é implacável e já começa a mostrar os seus sinais. Os cabelos estão diferentes, a pele contém marcas, as rugas iniciam a dominação de território ao redor dos olhos. Há uma dissonância entre a minha mente e o meu corpo. O relacionamento deles já entrou em crise há tempos: a cabeça é jovem, mas os joelhos falam alto com suas dobradiças enferrujadas. "Começa assim sem dor, quando chegar nos 60 a gente conversa", diz minha companheira de aula de Pilates. As areias do tempo teimam em escorrer rio abaixo…

Há mais de um ano que não saio de casa, que não vejo os meus amigos. Tento me lembrar quando foi a última vez que beijei uma boca. Não consigo. A minha relação com o tempo anda mais confusa que a minha vida amorosa. "Todo dia é uma segunda-feira", disse a minha professora de escrita, mas acho que já ouvi outras pessoas falando algo parecido.

Presenciar fatos históricos é algo que sempre me fez me apegar à vida: a morte do Senna, os aviões que caíram perto de casa, a queda das Torres gêmeas, a luta do Mandela. Sempre fui uma espectadora atenta ao meu tempo. Nunca pensei, contudo, que teria que ser participante ativa de um evento que mudaria a vida planetária do avesso, como tem sido esta pandemia. Enfurnada em casa sigo (ontem completei 1 ano e 2 meses em que saí apenas 16 vezes de casa para cumprir tarefas que precisavam de mim impreterivelmente). Continuo sendo categórica na missão de proteger a mim e à minha família. Sigo estrita, restrita, e exaurida.

Minha memória anda tão exausta quanto o meu corpo. Talvez seja por isso mesmo que eu queira muito um relacionamento, mas não mais um amor avassalador. Eu não quero roteiros perfeitos, quero aconchego.

***

Antes de ler sobre a experiência de pessoas negras, eu achava que eu era estranha. Por que eu sempre era a única sozinha? Depois do contato, compreendi tudo. Os pontos se ligaram de um modo que foi só parar para analisar, que fez total sentido. Não à toa todos os caras por quem já tive atração estão se relacionando todos com mulheres brancas, não à toa, o principal deles não quis me assumir, me apresntar para a família e para os amigos. O racismo me atravessa ainda que muita gente não queira me ver como a mulher negra que sou. Existo dilacerada por essa violência que me consome viva todos os dias.

Raised by wolves, stronger than fear**. O Bono sempre grita alguma palavra de ordem na minha cabeça — quer ele queira, quer não. Tento ser maior do que o racismo e continuo lutando. Stronger than fear. Luto por este coração que pulsa insistentemente dentro da minha caixa torácica, ainda que eu ache curioso como os sentidos de guerra e de perda façam simbiose nas quatro letras da palavra "luto". Se verbo, tão repleto de vida; se substantivo, tão cheio de morte; em ambos, tão cheios de dor. A minha cartomante preferida diria que "luto é amor que não tem para onde ir". Talvez por isso mesmo eu escreva, para direcionar o meu amor para o desconhecido que me lê. Sempre amei demais e é isso, o advérbio de intensidade, que tira e, ao mesmo tempo, nutre a minha força.


💚💚💚


*Encontrei este texto nos meus rascunhos da época da pandemia e resolvi compartilhá-lo com vocês.
**Vocês podem ver o U2 cantando Raised by Wolves, clicando aqui (para ler a letra da canção no vídeo, use a função CC/legendas, do YouTube). A música faz parte do álbum Songs of Innocence, lançado em 2014.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 18 de maio de 2025

Expectativas desleais (um bom encontro é de dois)

domingo, maio 18, 2025 11
Imagem por Rattanakun.



“Não tenho o que dizer e mesmo se tivesse, são só palavras.”


Que diferença faria? Fátima olhava para a tela do celular meio incrédula. Depois de tantos anos, aquele inferno se repetia: sempre que ela criava um perfil numa rede social nova, Álvaro aparecia. “Recomendações”, “Talvez você conheça”, “Pessoas que seus amigos seguem” ou quaisquer outras versões a que ela chamava de “trago uma porcaria de volta para a sua vida com um click". Não adiantou excluir o número dele do celular, não adiantou apagar todos os e-mails dele do contato, não adiantou destruir todas as trocas. Quase 15 anos depois ele continuava reaparecendo. Ora se gabando do próprio trabalho, ora com um perfil vazio, sem publicação alguma além da foto e do texto do perfil. Um fantasma que se materializava por meio de bytes na rede mundial de computadores. Já Fátima? Bem, ela continuava pesquisando como bloqueá-lo da tal nova rede social do momento. Movimentos cíclicos. Assim a vida seguia. Ou seguiria, porque desta vez foi diferente. Não deu tempo de Álvaro aparecer para ela, não deu tempo de Fátima fazer a pesquisa. O block tão necessário não foi feito com a antecedência preventiva.

Era uma tarde de sábado bem chuvosa, dessas que fazem a cidade toda alagar, transformando tudo em puro suco do caos. Depois de horas entre leituras e séries, Fátima parou para tirar o celular da tomada e foi ali que ela viu a notificação de uma mensagem de alguém que a quem não seguia.


“Oi… Desculpa escrever assim… do nada…. Tem jeito… de a gente… conversar?”


Quase 15 anos depois. Almost fifteen fucking years later. Por quê? O nome de Álvaro parecia brilhar mais do que o comum na tela, embora não tivesse nada de especial. Não deveria ter. Fátima sabia que ninguém ressuscitaria daquela conversa, não haveria milagre saindo das catacumbas. Por mais que ela tenha sonhado com esse momento por anos. Por mais que ela tenha ensaiado mentalmente o que diria em looping. Fátima conhece Álvaro como ninguém. E ele a conhecia a versão dela, que ele matou quando a abandonou, como ninguém.

“Acho melhor não.”


Fátima andou por todo o pequeno apartamento, celular na mão relendo a mensagem de Álvaro, palavra por palavra, sabendo que não havia paz. Mesmo quando o mundo se transformou, e as vidas online e offline passaram a caminhar juntas, nunca houve paz. Não houve paz quando Álvaro nunca quis assumir o relacionamento. Nunca houve paz, quando ele a deixou na mesa sozinha para cumprimentar o amigo, como se ele não estivesse acompanhado. Nunca houve paz quando ele pedia para que ela alisasse o cabelo. Nunca houve paz quando ela abriu mão do sonho de ter gatos só porque ele ama cachorros ou quando disse que teria filhos, mesmo quando ela nunca quis crianças. O ar saiu ruidoso de seus pulmões. Não, não tem mais jeito.

O corpo de Fátima tombou no sofá desolado. Há tempos não pensava nele ou na intervenção divina que os colocasse em contato novamente. Agora ela estava ali, diante das palavras de Álvaro, um Álvaro que estava perguntando se ainda tinha jeito.

“Não tem mais jeito. It's over.

Seria mais fácil bloqueá-lo e sumir do mapa mais uma vez. Mas, onde estava a bendita função de bloqueio? Por que raios as redes sociais não deixam isso às claras? Abriu o Google e iniciou a já atrasada pesquisa, até que a notificação subiu outra vez:

“Eu sei… que você está chateada… eu fiz muita coisa errada… estou tentando corrigir… a vida mudou muito… queria te dizer… o que eu sinto…”

As reticências sem sentido – como sempre, infestando as mensagens como formigas de fogo – irritavam Fátima profundamente. A raiva rápida que corria pelo corpo a fez se levantar para mais uma ronda descontrolada pelo minúsculo espaço. Por que logo agora que a vida estava se ajustando? Por quê? Jogou o aparelho sobre a cama – It’s too much. Pesado demais. – Entrou no banheiro e fez xixi com a porta aberta, a gata a observando de soslaio. Voltou ao quarto, não preciso responder isso agora, pegou uma muda de roupa, retornou ao banheiro e entrou embaixo do chuveiro quente. É só bloquear. Por que tanto cuidado em não sumir do nada, quando o Álvaro sempre esteve cagando pra mim? Maldita responsabilidade afetiva.

Ao sair do banho, uma notificação e uma tentativa de ligação de vídeo fez com que Fátima retornasse à sua pesquisa. Coragem. A vida é feita de coragem.

“Há tantas pessoas especiais por aí, você não precisa de mim.”

“Você não entende… você nunca… entendeu…”

“Álvaro, é melhor que você se cure de mim.”


Finalmente ela encontrou um vídeo-tutorial de 30 segundos chamado “como bloquear um desquerido na nova rede social do momento”. Antes de seguir o passo a passo, voltou ao chat e completou:

“Boa sorte.”

Álvaro está digitando…


Conto inspirado na belíssima canção da Vanessa da Mata com o Ben Harper. 

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 20 de outubro de 2024

Reflexões sobre aprender a perder quem se ama

domingo, outubro 20, 2024 10
Imagem por Kaboompics, via Pexels.


Perder alguém que se ama não é fácil. Há dor, há vazio, há aquela eterna sensação de chão se abrindo debaixo dos próprios pés, ainda que haja chão e que a gente consiga tocar o nosso próprio corpo. Nossa carne vive, respira, se move — mas a do outro, não. Ela não está mais respirando, coçando a cabeça, sentindo fome, medo, frio, amor. Uma linha tênue separa os mundos, um véu translúcido diz quem tem o direito ou não de envelhecer.

*

A música preenche os espaços vazios: o abraço do desquerido que partiu coração; a falta de companhia na academia; a dança sozinha no quarto depois de um dia ruim no trabalho; a canção de ninar para o sono que não vem.

A música cria laços: a viagem de carro cantada a plenos pulmões; a trilha sonora enquanto encara a fila da compra de um ingresso; a fila presencial antes de entrar no show; a canção de ninar cantada para a barriga que gesta; a música da formatura que marca uma vida; a música que você cresceu vendo os seus avós cantarem e dançarem. A primeira valsa. A trilha sonora da adolescência que antes era dos avós e dos pais e agora é sua, porque os Beatles e os Rolling Stones são eternos. A trilha sonora da adolescência que é só sua e dos seus amigos que amam rock, pop e que, no fundo, também são emos. Laços de amor. Construção de identidade. Identificação com um jeito de ser, com uma cultura, com uma língua, com um grupo.

*

Fui estudar línguas porque não queria depender de tradutor. Quando era adolescente, o Google não era tão bom e a gente ou precisava de uma pessoa proficiente, ou carregava a pilha de dicionários bilíngues por aí e perdia um tempão buscando palavra por palavra como quem procura agulha em palheiro. Eu sabia que cedo ou tarde eu veria os meus ídolos. Eu queria conseguir me comunicar sem depender. Eu procurava independência, ainda que houvesse distância entre nós.

Estudar me ajudou não só a compreender o que cantava, mas também me deu amigos — os laços novamente —, me deu uma profissão, me abriu os olhos para o mundo. Tudo porque eu queria saber o que os cinco caras da rua de trás estavam dizendo. Tê-los como ídolos me deu sonhos. Sonhos que pude realizar não só ao conhecê-los, mas de incontáveis outros jeitos.

*

Não sei lidar com doença, não sei lidar com a morte. O luto para mim é muito difícil, desafiador. Sou uma pessoa apegada e isso complica as coisas. Meus maiores medos envolvem perder pessoas que amo. Sejam essas pessoas familiares, amigos, ídolos. Todas elas, em maior ou menor grau, são do meu convívio diário. Mesmo aquelas que todo mundo diz que não sabem que eu existo. Todas elas, estão aqui: pegando na minha mão, me abraçando, dando apoio no momento difícil. Quantas vezes eu percebi que o meu mal humor era porque estava há tempos sem ouvir música, ou assistir a Friends?

A arte existe com fim em si mesma, mas ela salva a mim, a você, a milhares de pessoas. Ignorar a importância do artista, é negar uma parte de si mesmo.

*

Dizem que as únicas certezas que temos na vida dizem respeito ao nascimento e à morte. Eu incluiria uma terceira: envelhecer é sinônimo de perda. Quanto mais velhos ficamos, mais passamos a perder. Primeiro essa perda vem distante: é um amigo que perde um avô ou uma avó, depois somos nós que perdemos os nossos avós. Até que os lutos vão se aproximando. A morte vai dando os seus lembretes: um pet que morre, depois algum amigo de infância, um professor, nossos ídolos, um irmão, nossos pais... Cada um levando um pedaço nosso, igualmente grande, igualmente precioso, igualmente válido, anda que cada luto seja vivido à sua maneira.

*

Digo que não sei lidar com perdas, porque elas são imprevisíveis e não há mesmo uma receita. Por ironia, é justamente essa imprevisibilidade que nos lembra que estamos vivos, respirando, levando esses quilos de carne e ossos por aí, para trabalhar, amar, sentir. O luto é o tipo de coisa que cada um atravessa de um jeito. Cada um escolhe — conscientemente ou não — o que fazer com esse amor que não tem mais para onde ir.

Não há nada mais insensível do que querer ditar como o outro deve lidar com esse amor represado.

*

Assim como não sei lidar com o luto, não sei bem como terminar essa crônica. O que posso dizer é que se você está passando por isso, não importa quem você tenha perdido, você tem todo o meu amor.


_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 31 de março de 2024

Forma específica de relevo

domingo, março 31, 2024 18
Foto de Stijn Swinnen, via Unsplash.

Em tempos tão bélicos, a busca vira luta, batalha em trincheiras sem garantias de vencedores ou perdedores. Acordos diplomáticos são lançados ao vendaval catártico e, sem que se pense duas vezes, me vejo atirada ao chão. Balas perfuram o meu corpo violentamente, e tudo o que eu desejo é o pleonasmo de um fim que, de fato, se finde. O caos está longe de ser criativo. O desejo está longe de trazer tesão. Dor. Apenas a dor do medo. Apenas o medo da dor. Minha mente quer estancar tudo isso, mas meu corpo fora atingido. Soldier down, honey. Soldier down. É impossível me mover. É impossível pedir ajuda. Minha voz não sai, e mesmo que saísse, ninguém a escutaria. A esta altura, é improvável qualquer mísero movimento. Meus músculos não respondem mais ao comando do meu cérebro. Mesmo que respondessem, seria inútil. Meu cérebro desistiu de tudo. Melhor dizendo, meu cérebro desistiu de mim. Minhas sinapses estão exaustas de tanto lutar. Mais balas me atingem. Elas são cada vez mais velozes. Eu estou no chão. Eu continuo no chão. Meus pulmões se movem: o ar não vem. O vazio não se preenche do meu sangue: as minhas vísceras não se espalham. O fim não se finda. Balas seguem me atingindo. Há desespero na falta de explicação. Até a loucura seria uma alternativa mais simples. Corpo quente no solo frio. Tento mudar de estratégia: agora são bombas e mais bombas. Ninguém procura por ninguém: não há melhores amigos, tampouco desconhecidos, advogados, líderes espirituais, familiares ou qualquer quem que valha. Nunca houve coerência nos atos bélicos. Não há meios de descomplicar o confronto. Marte segue orbitando o Sol. Morro, entretanto continuo viva. Continuo viva.


Talvez, se eu tiver alguma espécie de sorte, os escombros se transformem em adubo.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 11 de fevereiro de 2024

O que o coração quer mesmo é se derreter

domingo, fevereiro 11, 2024 18


Às vezes eu penso que não há ninguém para contar, que ninguém se importa. O mundo é cruel demais e nem uma pandemia conseguiu trazer mais humanidade ao Homo sapiens. Viver uma jornada sem compartilhar os medos pesa; as pessoas jamais compreenderiam — não por serem incapazes, mas porque simplesmente não querem. Sempre há gente que resolve tudo com dinheiro — e quando não há solução por essa via, joga-se tudo para debaixo do tapete. Sempre há dor e sofrimento espreitando a esquina. Onde há dor e desigualdade, a porta da empatia já foi lacrada há tempos.

Quase sempre acho que todos estão nem aí. Então um lampejo surge de onde eu não esperaria. Um lampejo desses forte e simples, um raio em forma de palavras que estremece o meu coração de um jeito bom. Agradeço dizendo que é fofo, pareço desconcertada, mas a verdade é que, ao menos por alguns instantes, deixo o ritmo triste, e passo a suspirar uma esperança em forma de abraço. Alento. Usar a fofura se torna, portanto, uma forma de agradecimento tenro quando as palavras não soam suficientes a tamanho acolhimento e devoção.

Coleciono esses momentos como faço com as polaroids: coloco no álbum que eu mesma fiz. Depois, de tempos em tempos sorrio ao percorrer suas páginas. Vejo imagem por imagem, sabendo que cada memória doce me protege de não me tornar um monstro, de não incendiar a mim mesma.



_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Planejadamente fortuito

domingo, fevereiro 04, 2024 12
A gentileza mora no delicado do acaso.


Gostaria de escrever esta crônica para você. Sim, você, destinatário sem nome, sem rosto, sem redes sociais e geolocalização. Esta crônica epistolar, este texto planejadamente fortuito é para você, responsável por esta saudade do que sempre desejei e nunca vivi. Esta crônica é uma declaração de futuro.

Você não sabe, mas há cartas e cartas escritas à sua espera. Não tenho logradouro, número, bairro, CEP, cidade, estado, país ou e-mail para envio, mas como sei que você existe, escrevo mesmo assim. Não só esta crônica, mas meu dia a dia, meus sonhos, meus medos.

Queria te dizer tudo isso pessoalmente. Olho no olho, de peito aberto. Sinto que este momento vai chegar em breve. Enquanto isso não acontece, preparo o terreno. Além de palavras escritas, tenho vocábulos cantados por vozes mais bonitas — ou, ao menos, mais afinadas — que a minha em uma playlist do Spotify. Espero que, assim como eu, você goste dessas músicas e dance a cada nota.

[emoção.]

Às vezes você me vem à mente nos momentos mais aleatórios: enquanto lavo a louça do café da manhã, tricoto um casaquinho de bebê para doar, tomo um banho quente, caminho até o ponto do ônibus, fico com a boca aberta na dentista, preparo o meu chá noturno ou como um chocolate no meio do dia. Quais são, afinal, os seus hábitos? Os seus sonhos? Os seus medos? Minha curiosidade por te descobrir me acalma. A sabedoria popular já diz que é questão de tempo.

[você também observa o céu depois da chuva?
você sempre surge nos finais de tarde, quando o céu muda de cor,
e eu rezo e depois tiro uma foto para fazer um story no Instagram.]

O frio na barriga me faz duvidar se estou pronta — quem está? —, mas não desisto. Não te procuro, porque gosto da surpresa, mas não desisto. Nunca soube desistir. Como um atleta que treina para uma prova importante, me preparo do lado de cá. Um treinamento intenso, desses que me fazem atravessar tormentas, ter dores de cabeça e chorar na terapia — logo eu, que não gosto muito de chorar, muito menos com outras pessoas olhando. Há preparo do lado de cá, porque sempre busquei oferecer o melhor de mim para o mundo e, com você não seria diferente. Assim, para usar um dos clichês mais lidos na internet, também me encontro com o melhor que há em mim.

Há preparo, cartas, músicas, céu, mística e crônica. Há sonhos e recados falando sobre a sua chegada. Há sentimentos e oportunidades. Esperança e fé. Há acaso. Quem sabe na próxima esquina a gente não se encontra? Quando isso acontecer, só me prometa que a gente vai se falar.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 8 de outubro de 2023

Descaminhos

domingo, outubro 08, 2023 14
Imagem por StockSnap, via pixabay.


não sei se há motivos, mas escrevo. 
recrio universos onde existem nós:
sempre desejo mais:

há fome e fúria e fogo em cada um dos meus sonhos, 
todos ávidos ao devastarem caminhos por onde passam. 

escrevo, 

ainda que sem motivos,
palavras surdas que talvez nunca sejam bem pronunciadas
— sussurradas ou em ditas em alto e bom som.

de qualquer forma, pé ante pé, dou meus rugidos.
de qualquer forma, insisto e ainda brado o meu encanto:

 sigo amando sem ao menos ter te conhecido.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 



domingo, 20 de agosto de 2023

Fissuras

domingo, agosto 20, 2023 8
Imagem por Pexels, via Pixabay.


tudo aparentemente tem a sua fissura.
ela é tão tênue, que muitas vezes não a vemos.
tão brutal, que muitas vezes desmorona.
a vida é feita de fissuras,
rachaduras provocadas por quem menos esperamos e mais amamos.
amargo veneno que nos traz à realidade:
a tal perfeição não existe.
a tal perfeição é exigida justamente numa tentativa de esconder as rachaduras.
apontar o dedo para as falhas do outro e rir delas
é muito mais fácil do que sentar e resolver os próprios incômodos.
quando a gente acha que terapia é só blá blá blá,
muitas vezes é porque falta coragem de se encarar no espelho que revela
todas as nossas falhas.
ninguém é deus,
mas é possível ser honesto.
(por que você não foi?)

meu coração partido me traz crises de ansiedade.
acordo com o coração acelerado à meia-noite, às três da madrugada, às cinco da manhã.
não consigo dormir pensando no quanto as suas inverdades me afetam
e no quanto isso pode mudar a vida de quem mais amo.
mais uma vez é um homem que me mostra que amor e decepção são lados da mesma moeda.
mais um rasgo que fica tatuado na minha pele para eu ter que me virar e cuidar sozinha (ou gastando a fortuna que não tenho em terapia).
eu não aguento mais ter que lidar com as fissuras que os outros deixam em mim.
tento respirar e,

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 13 de agosto de 2023

Amor arbóreo

domingo, agosto 13, 2023 8
Já abraçou uma árvore hoje?


Não sei bem como foi que tudo começou; mas, ao longo da vida, acabei desenvolvendo um amor profundo por árvores. Talvez, isso tenha ocorrido no começo da adolescência, quando comparava nossas estruturas: o meu corpo com o tronco e minha cabeleira cacheada com a copa. Talvez, este amor esteja relacionado a um lance genético, fruto da descendência indígena que foge da ciência acadêmica e aprende observando a vida. Ou talvez não seja nada disso. 

O desabrochar do meu amor foi tímido, e o primeiro encontro que marcou a minha vida foi na escola. Minha turma (eu tinha 8 ou 9 anos naquela época) foi convidada a plantar um pau-brasil, depois de ter estudado o estrago que os portugueses fizeram ao desmatar a espécie durante a colonização. Hoje, ele ainda me faz sorrir cada vez que passo na frente da escola e vejo suas folhas que querem alcançar a rua por sobre o muro. 

O tempo passou, e eu pensei que a minha relação com as árvores se esfriaria no fim da adolescência. Ainda que me desse bem em biologia (das biológicas, biologia era a minha preferida, porque não há como amar química ou física), detestava com todas as minhas forças ter que saber a diferença entre uma briófita, uma pteridófita, uma gimnosperma e uma angiosperma (tanto é que na minha memória ficaram apenas os nomes de sons curiosos e não as suas definições). Ralei para conseguir nota naquele bimestre e não esquecer as diferenças entre elas até o vestibular. E com esse esforço, lá se foi o encanto. 

A poesia voltou com a universidade. Digo poesia, porque meu amor pelas árvores é daqueles contemplativos, que gera muitos versos na minha cabeça (versos que muitas vezes se dispersam antes de virarem palavras no papel). Era no trajeto entre o metrô e a faculdade que eu sempre parava lá no parque da Mooca, me sentava em um banquinho, para me aquecer no sol de inverno do meio da tarde, e passava um bom tempo observando a minha árvore preferida da região. 

Sim, o amor arbóreo é bandido. Ele não sabe o que é fidelidade e se multiplica como o pólen ao vento. Há árvores preferidas quase em cada esquina, em cada parque, em cada bairro, em cada cidade visitada. E há também as espécies preferidas, como aquela do parque da Mooca (que também é a mesma da rua de trás da pós-graduação), e que, claro, não sei o nome. Árvore, para mim, tem que ser assim: não pode ser nomeada, tem que ser descrita. No caso da espécie em questão, é aquela que vai perdendo a casca do tronco desde o início do outono, até que ele fique branquinho no inverno. Coisa linda de se ver e de se sentir. Aliás, já disse que sou dessas que abraçam árvores? Pois é, eu sou. 

Tudo começou um dia no Ibirapuera. Soltei um “ai que árvore linda!” e meu pai, fanfarrão como ele só, retrucou com um “duvido você fazer uma foto abraçada com ela”. Nunca desafie uma virginiana, porque desafio feito é desafio aceito, e nesse caso, com a foto indo parar nas redes sociais. Deste então, o clique se tornou um hábito. Hoje tenho foto com jabuticabeira de Campinas, com um pau-brasil do Jardim Botânico do Rio, com árbol de Palermo, em Buenos Aires, com a magrelinha da avenida Paulista. Diz a ciência que abraçar árvore faz bem à saúde (é sério, tem pesquisa sobre isso! Google it!), eu digo que é reconfortante. Só de passar um minutinho em silêncio nessa vida corrida, já vale a pena. 

Mas por que esse papo todo sobre árvores? Porque estava caminhando, na volta para casa, e vi uma pequena flor em uma delas – dessas novinhas, de tronco fininho. Aquela flor era a única que havia em toda a copa, a única que resistiu a este início de inverno rigoroso, a única em meio ao barulho dos carros e pedestres que tanto correm. Branca, plácida e bela, ela só era vista por quem olha para o alto.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 6 de agosto de 2023

Receita

domingo, agosto 06, 2023 6
📍Jardim da Casa das Rosas.


É a doçura que me faz lembrar daquela que um dia fui...
É a doçura.

Ela me pega pela mão
E me joga no abismo de ser vulnerável.
Não sou obrigada a ser forte o tempo todo,
A ter resposta para tudo,
A personificar a perfeição.
Só quero poder voltar a chorar sem ter motivos,
A gargalhar sem medo de ser reprovada por ter um riso que se expande e reverbera.

É a doçura.
Ela que é a culpada por esse nó no peito,
que me obriga a olhar de frente
Os meus medos todos
Inclusive o de amar.
Com a doçura não há controle que resista.
É com ela e por ela que eu me rendo.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 14 de maio de 2023

Gênese

domingo, maio 14, 2023 3
Imagem por Irina Iriser, via Pexels.

colho no fogo o material a ser talhado
me queimo por inteira
— fênix retornada —
dos encontros, a matéria-princípio:
luz, areia, mar, cosmos, fria-quentura

seguimos

muito e nada em frações de nanossegundos
disponibilidades que se desfazem e se renovam
no valor do vento, equilíbrio-oxigênio combustível das entranhas
e seus volumosos corpos de moléculas
— nem sempre tão poéticas ou contundentes —

seguimos

no alento destas ambidestras incertezas
frases ganham importância mesmo que não tenham sentido
— orações que outrem ouve e interpreta —
a visão da vasta vida e de seu parto
período composto por eternos recomeços
recomendados pelos cinco sentidos humanos
aprovados por mais outros dez ou quinze divinos
fé sendo confiança no reconhecimento da pureza

seguimos

na devoção há fome e dicionários de etimologias devorantes
me queimo por inteira já que sempre me disponho
nua corro vestida somente por vocábulos
significantes robustos de traduções e de significados
velhos descendentes de uma morte-vida latino-americana escancarada
potencial ponte, fonte fonética e frutífera
útero construindo gerúndios que se renovam e multiplicam

seguimos

num outono-inverno frio e poente
sou esculpida por vulnerabilidades sinceras
marcadas no tempo pelas ousadas páginas de telas e celuloses repletas de grafismos
rabiscos-rascunhos curiosamente curados de segredos sitiantes
conjunto que se lança em registros intergalácticos sem datações
metonímia de parte que é todo que se reparte

existo

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 


quarta-feira, 5 de abril de 2023

Xingu e o encontro inesperado com a minha tataravó

quarta-feira, abril 05, 2023 7
Imagem: print do site do Instituto Moreira Salles. 
(A legenda da foto diz: "Aldeia Khĩkatxi do povo Khisêtje durante queimada provocada por não indígenas no entorno da Terra Indígena Wawi, parte do Território Indígena do Xingu, 2022. Foto de Renan Suyá/Rede Xingu+")


No último final de semana estive no Instituto Moreira Salles para ver a exposição fotográfica sobre o Xingu. Ao contrário de andar por lá do mesmo modo de sempre, fazendo stories no Instagram para levá-los comigo, me dei a chance de um exercício de presença mais profundo: deixei o celular na bolsa e estive ali, por inteiro.

Segundo consta, minha tataravó era indígena. Dela, a única informação que me chegou é que se casou com um imigrante italiano chamado Lino. Não sei seu nome, porque ela ficou conhecida na família como "a índia". Na época em que fui atrás dessas informações — para um trabalho de artes, na escola — não se falava da violência física, das violações dos direitos das mulheres indígenas, da brutalidade da colonização. Hoje me pergunto: minha tata realmente se casou, será que "casar" é mesmo o verbo? Ou será que ela foi forçada e violentada como aconteceu com a maior parte das mulheres indígenas desde a chegada dos portugueses? Concluo que muito provavelmente ela foi mais uma vítima.

Quem me narrou essa anedota foi minha tia-avó. Uma freira muito simpática que ouvia essas histórias enquanto brincava embaixo da mesa da cozinha na infância. Ela completou: "minha vó, sua tata, contava enquanto cozinhava. Eu não me lembro de muita coisa. Me lembro mais da minha mãe ajudando descascar a mandioca, do cheiro da comida do fogão à lenha, das brincadeiras. O Zezinho era mais velho, acho que ele sabia mais". Zezinho, meu avô, já tinha falecido há alguns anos. Não deu tempo de perguntar a ele. Talvez ele soubesse o nome da minha tata, e ela não tivesse se apagado com a História. Meu tataravô que me perdoe, mas não me importa muito saber o nome do colonizador.

Voltando à minha visita ao IMS, me calei para ouvir. A exposição está dividida em duas salas e, na primeira delas, há muito da produção audiovisual produzida pelos próprios indígenas do Alto do Xingu. Os filmes mostram cerimônias, rituais, arte e cotidiano de diferentes povos e são narrados num misto de português e línguas de cada um deles. Me calei para ouvir. Ouvir seus sons, suas fonéticas tão bonitas. Ouvir seus cantos, seus sonhos, suas lutas.

A cada filme, a importância da conexão: o cinema na aldeia que tem popularidade apenas quando o filme é lá produzido, as histórias registradas em livros de literatura infantil, os jogos em realidade virtual que ensinam cada um que por ali passa a conhecer seu território e preservar fauna e a flora existes, as fotografias que denunciam o avanço do agronegócio, rolo compressor por onde passa, derrubando matas, queimando tudo, poluindo os rios. Calei para ouvir, para me conectar com essa ansiosa busca pela minha ancestralidade perdida, para refletir como eu — da minha brutal insignificância urbana — posso fazer algo (nem que seja votando em que quer ver a floresta em pé).

A segunda sala traz trabalhos de não indígenas que foram importantes para garantir que brasileiros e pessoas do mundo pudessem saber mais sobre quem são os verdadeiros donos desta terra numa época em que a tecnologia não era rápida e muito menos havia internet. Ali, além de fotografias dos icônicos irmãos Villas-Bôas, de Alice Brill, de Henri Ballot, de José Medeiros e de Maureen Bisilliat, há uma parede com retratos de muitos líderes indígenas, a exemplo do cacique Raoni — figura tão importante de momentos históricos que vão desde a promulgação da constituição de 1988 à passagem da faixa presidencial ao Lula, no início deste ano — e uma nota que eu considero importante: o destaque ao aumento de lideranças de mulheres indígenas na luta pelos direitos de seus povos.

O que mais me chamou a atenção, contudo, é o trabalho primoroso que o IMS tem feito para identificar as pessoas retratadas nas antigas imagens. Há um painel na exposição em que as legendas originais foram refeitas, passando de algo genérico para os nomes próprios dos retratados. Alguns desses registros têm mais ou menos a minha idade e, diz as informações, os esforços estão sendo para continuar a identificar um número cada vez maior de pessoas.

Ler as duas legendas (a genérica e antiga versus a precisa e atualizada), lado a lado com as imagens, me emocionou de um jeito que tive que me segurar para não chorar dentro do museu. No fundo, pensando agora enquanto escrevo, o Instituto Moreira Salles fez aquilo que eu gostaria de ter feito na minha adolescência: ele deu identidade, deu nome, deu direitos. O IMS honrou essas pessoas, assim como eu gostaria de ter honrado a minha tataravó, assim como até hoje eu gostaria de saber seu nome e o nome de seu povo.

Apesar de acompanhar a situação dos povos originários e de seguir vários indígenas nas redes sociais, há tempos não pensava na minha tata. De certo modo, estar ali foi me ver de frente a esta incógnita do meu passado. Saí do museu movida por uma inquietação que ainda não sei nomear e por uma insatisfação que me fez dizer à minha irmã que preciso voltar ali de novo. Preciso ver e ouvir todos aqueles filmes com ainda mais calma. Preciso processar essa angústia por ver pessoas tão sábias e fortes tendo seus direitos violados por apenas querem o equilíbrio entre a nossa pequenez humana e a grandiosidade da natureza, por apenas quererem existir.

Para quem estiver em São Paulo, Xingu: Contatos vai até o dia 09 de abril. O Instituto Moreira Salles está localizado na Avenida Paulista, n°2424, próximo à estação Consolação (Linha 2-Verde), e funciona de terça a domingo, das 10h às 20h. Além dessa exposição é possível ver outras, ir ao cinema e visitar a belíssima biblioteca. As exposições são gratuitas.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 19 de março de 2023

Correspondência

domingo, março 19, 2023 4
Foto de Andrew Dunstan, via Unsplash.


tenho escrito cartas de amor e pedidos de encerramento.
tenho me lançado à minha própria guilhotina e nos braços do vácuo alegre do porvir.
vivo nesse estado entre mundos, na suspensão do pensamento.

— Você sabe prever em qual segundo tudo muda? Se há um momento de respiro?

embora eu siga escrevendo palavras que se puxam, umas às outras, desfiladeiro acima,
o sol se põe e leva consigo os últimos instantes de verão.
o limite está pra lá da estratosfera, distante das estrelas,
escondido em algum recanto do longevo infinito.

o mistério só é mistério quando desconhecido:
na mudança de estações, deixo o velho descansar, troco de pele, termino esta vida.
independentemente de recomeço, nunca abandono a missão:
as cartas de amor, por mais que ridículas, um dia serão lidas.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Entressafra

quarta-feira, fevereiro 22, 2023 6
Foto de JT, via Unsplash.


Terra seca. Frutos ao vento. Sol na cabeça. Sede. Fome. Palavras ganhando o mundo. O oco, o vazio. Loucura. Infertilidade. Estado de quase morte que não mata, devora. Depois do caos, o vazio. Ciclo de yin e yang sem fim. Conto meses, dias, horas, minutos e segundos. Vejo os bem-te-vis cantarem. Sinto o verdejar querer desistir da clorofila. É verão, mas faz frio. Chuva, trovão e vento sendo sinais?


O período de travessia é truncado. Há cansaço do trabalho de parto. Há cansaço dos cuidados de um recém-nascido. Há orgulho também. Quem dá luz — a sementes, bichos, livros — conhece as dores e os prazeres. Contudo, esse espaço entre dois mundos que há entre o fim e o começo é escorregadio. Nem sempre é possível dar conta da vida, das ideias, do coração. Como já diria o poeta: “E agora, José?”.


Me forço a, pelo menos, procurar palavras. No meu tempo, mas me forço. Saio farejando o mundo, um passo após o outro, numa tentativa de voltar. Voltar para onde? À gênese de tudo: uma ideia que seja, um sentimento que baste. Sinto muito e se tudo é bastante, nada sobra. Pedras sobre pedras desmoronam no aqui e no agora. Sou estrangeira às minhas lembranças. Me agarro às dores do mundo. Dizem que um dia isso passa. Eu professo: Será?


Se fosse Pandora, ao menos me restaria uma esperança. Não sou. A terra segue seca. Meus frutos seguem ao vento. Minha garganta arranha na aridez. Transito na estéril incógnita.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Nós ficaremos bem

quarta-feira, fevereiro 01, 2023 8
Foto de Geoffrey Baumbach, via Unsplash.


angústia e rancor na eterna sinfonia
de prazeres suspensos e dores inacabadas
todos seguem
para sempre camuflados no final feliz

performance diária
tijolos ruem
silêncio no estrondo
há uma infinidade de certezas
na linha fina, no gramado molhado
no frame que congela instantes
todos seguem
para sempre engolidos, afogados no pântano imaculado

cirurgias transformadoras deixam pedras sobre pedras
no aquário que explode
peixes voam libertos.
_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 25 de setembro de 2022

Avesso

domingo, setembro 25, 2022 2
Nebulosa. Foto por NASA, via Unsplash.


hoje o dia nasceu estranho, 
rastejando,
confinado.
hoje o dia nasceu querendo não nascer.

faz sol,
mas as horas anseiam por retornar ao útero,
ventre cósmico em que tudo é silêncio-semente.

hoje o dia nasceu de parto a fórceps:
obrigado,
compelido a se arrastar.

e arrastado segue arrastando tudo por onde passa.
e arrastando tudo, o dia desnasce.

hoje o dia não nasceu:
ele se despediu tragado na escuridão.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Etéreo

sexta-feira, setembro 16, 2022 4


vejo desenhos que se dissolvem
transformação em água, vento,
poesia distante:
muitos admiram, muitos ignoram,
poucos compreendem.
tudo passa pelo olhar de quem estiver 
aberto a se amalgamar com mundo.
ele está pronto para nos receber
de céu e cores abertos.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Como trazer a gratidão para o dia a dia — Sexta do Blog #07

sexta-feira, agosto 26, 2022 8
Foto por Sixteen Miles Out, via Unsplash.

Eu sei. O tema de hoje pode parecer muito batido/polêmico/coisa de hipster de humanas. De qualquer modo, vale a pena dar uma olhada mais aprofundada na gratidão para ver por quais motivos ela é tão fundamental. Vamos lá?

O que diz a Língua Portuguesa

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a palavra gratidão significa:
 
n substantivo feminino
1. qualidade de quem é grato
2. reconhecimento de uma pessoa por alguém que lhe prestou um benefício, um auxílio, um favor etc.; agradecimento

O que diz a psicologia

A gratidão é vista pela psicologia como "uma emoção, uma atitude, uma virtude moral, um hábito, um traço de personalidade ou uma resposta de coping", conforme aponta o artigo "Sobre a gratidão", publicado no v.61 dos Arquivos Brasileiros de Psicologia (que você pode ler na íntegra clicando aqui). O mesmo artigo aponta que "Pessoas gratas são mais agradáveis e menos narcisistas" e que 

"Em uma série de estudos experimentais, verificou-se que sentimentos de gratidão aumentaram a resiliência, a saúde física e a qualidade da vida diária (EMMONS; MCCULLOUGH, 2003). Emmons e McCullough concluíram que pessoas gratas não apenas demonstram mais estados mentais positivos, isto é, mostram-se mais entusiásticas, determinadas e atentas, como também são mais generosas, cuidadosas e atenciosas para com os outros. Pessoas que se sentem regularmente gratas aos outros tendem a sentirem-se amadas e cuidadas (ANDERSSON; GIACALONE; JURKIEWICZ, 2007). Froh, Sefick e Emmons (2008) observaram, em um estudo com adolescentes, que ao cabo de algumas vezes que os participantes listaram situações em que se sentiram gratos, houve uma melhora em seu bem-estar. Outro estudo apontou a gratidão ao passado como possivelmente um dos fatores da longevidade (MENGARDA, 2002)."

Além disso, uma reportagem da BBC intitulada "Por que sentir gratidão faz bem à saúde?" (leia aqui) relata que outras pesquisas apontam que ser grato melhora o nosso sono, alivia dores, fortalece o sistema imunológico, altera a nossa tendência de fazer coisas saudáveis e ajuda a regular o nosso humor. 

Penso que é justamente porque as pessoas estão cada vez mais preocupadas com o cuidado de suas saúdes física e mental, essa palavra entrou na moda nos últimos anos. Afinal, quem não quer viver por muito tempo de modo feliz?! Quem não quer passar a maior parte da vida sentindo bem-estar?! Quem não quer sentir menos dor e dormir melhor?

Foto por Gabrielle Henderson, via Unsplash.


Como trazer a gratidão para a prática diária

O grande ponto nessa discussão toda é que as redes sociais fazem parecer que para se sentir grato basta só trocar a palavra "obrigado" por "gratidão" e aplaudir o pôr-do-sol para se tornar uma pessoa mais feliz. De fato, fazer da gratidão um hábito é primordial, mas vai além dos exemplos citados. É importante refletir sobre o que se é grato, não só ter uma resposta automática para isso (como no exemplo do obrigado X gratidão). Você se se sente realmente grato ao substituir uma palavra pela outra? Se a sua resposta foi "não", vale a pena buscar outros exercícios. Deixo abaixo algumas sugestões:

  1. Compre um caderno e transforme-o em um diário de gratidão. Nele você pode escrever em forma de textos ou de tópicos coisas boas que lhe aconteceram. Se quiser, experiencie os itens abaixo e faça um registro de cada vivência no seu caderno.
  2. Pense em uma pessoa muito importante para você. Ligue para ela (sim, ligue!) ou vá visitá-la. Na ligação ou na visita, lhe diga o quanto ela é importante e o porquê. Como diz a segunda acepção do dicionário, reconheça o quanto essa pessoa é parte da sua vida. Às vezes isso é óbvio para você, mas não é para ela.
  3. Qual é o seu lugar preferido? Faça uma visita a esse local e tente ficar lá o máximo de tempo como observador (longe do celular e da internet). 
  4. O que você gosta de fazer e quase nunca faz? Separe um tempo na agenda para colocar essa atividade em prática. Pode ser cozinhar, cantar, desenhar, dançar ou qualquer outra atividade. 
  5. Reviva uma memória boa. Pode ser contando para alguém, escrevendo sobre ela, gravando um áudio ou um vídeo narrando essa história.
  6. Compartilhe um conhecimento que você sabe muito com alguém que quer muito aprender! Observe a sua felicidade e a felicidade da pessoa que aprendeu após essa aula.
  7. Aprenda algo novo! Sabe aquilo que você sempre sonhou, mas nunca se achou bom o suficiente. Pois, então, se jogue nessa aventura. 
  8. Reserve um momento para entrar em contato com a natureza. Pode ser brincando com o seu bichinho de estimação, indo a um parque, visitando a praia, viajando para as montanhas. 
  9. Escreva listas: você pode listar 3, 5, 10 motivos para se sentir grato todos os dias. Isso ajuda a você prestar a atenção no que acontece na sua rotina.
  10. Descreva uma rejeição que você tenha vivido que doeu na hora, mas hoje você se sente grato. 
  11. Reflita e responda às seguintes perguntas:
    • Qual foi a melhor coisa que me aconteceu hoje? Por quê?
    • Qual foi a melhor coisa que me aconteceu no último mês? E no último ano? Por quê?
    • Quem é aquela pessoa que sempre me faz feliz? Por quê?
    • Quem é aquela pessoa que sempre está disposta a me ajudar? Por quê?
    • O que é gostoso de fazer para relaxar? Por quê?
    • Quem é o seu melhor amigo e por quê? 
    • O que você mais ama na sua família?  Por quê?
    • O que você mais ama em si mesmo?  Por quê?
    • O que faz de você uma pessoa especial?  Por quê?
    • Qual é a coisa que você mais gosta de fazer em casa? Por quê?
    • O que você mais gosta de fazer fora de casa? Por quê?
    • Quem foi a última pessoa que te deu um conselho importante? Qual conselho foi?
    • Para quem você gostaria de dar um presente? Por quê?
    • Com quem você compartilha silêncios sem se sentir estranho? Por quê?

Pensar nos porquês ajuda muito a entender o motivo da gratidão e a senti-la com todo o nosso corpo. Contudo, às vezes, fazer esse tipo de atividades e de autorreflexão pode ser difícil. Se esse for o seu caso, você pode começar aos poucos e buscar um psicólogo para lhe ajudar nesse processo de ser mais grato. Terapia é algo muito importante e que ajuda a gente a compreender como é possível viver uma vida melhor. 

E você?

Agora me conta: como você traz o hábito da gratidão para o dia a dia?

Este texto faz parte de uma blogagem coletiva. Veja abaixo os outros blogs participantes:


Caso você queira ler os outros posts que eu escrevi na #SextadoBlog, acesse: 
 ♡ 01 ♡ 02 ♡ 03 ♡ 04 ♡ 05 ♡ 06 ♡

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: