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domingo, 20 de setembro de 2026

Segredo

domingo, setembro 20, 2026 1


[em copas:]

ao longo dos anos,
palavras trocadas;
raízes profundas;

carinho estendido;
bandeira branca;
beleza oculta.

vida mudando:
valor reconhecido,
vilão vencido na consciência.

verdade escancarada:
tempo que passa

[juntos, amor.]


💚💚💚
Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de setembro de 2026 é beleza oculta.
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domingo, 23 de agosto de 2026

O tudo ainda nos espera

domingo, agosto 23, 2026 0

sinto o coração bater
— tum-tum-tum —
um staccato sem fim…

me encolho na cama.

pensamento do outro lado de um mundo que não alcanço:
vejo moscas volantes;
coração cada vez mais veloz.
a enxaqueca vem,
me impulsiona para dentro.
quem diria que não saber,
que o pensar demais,
que a água escapando entre as mãos  
me trariam até aqui.
mesmo assim, me sento comigo:
me olho no espelho e
te pergunto 
(com uma voz que gostaria de estar a plenos pulmões,
mas que sai fraquíssima):
você ainda me ama? 
você ainda vai me amar ou sou apenas uma grande decepção?

não dá para domar seu coração que galopa sem controle.

💚💚💚

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de agosto de 2026 é fora de controle.
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domingo, 28 de junho de 2026

Feitiço

domingo, junho 28, 2026 6


degustei diversas vezes do fruto proibido:

 

enfeiticei-me.

embriagada no amor, dormi anos a fio.

 

acordei,

não com o beijo, mas com a pancada da descoberta:

 

a fruta,

 agora,

despencava

sobre a minha

cabeça.

 

tentação feita,

isca mordida.

 

o caramelo vermelho da liberdade me envolveu o corpo por inteiro.

 

vítrea,

me tornei escarlate desejo:

 

sou,

por fim,

maçã do meu próprio amor.

🍎🍏🍎

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de junho de 2026 é maçã do amor.
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domingo, 24 de maio de 2026

Negativo

domingo, maio 24, 2026 4
Imagem por Markus Spiske, via Pexels.

não temos fotos.
o duende levou consigo o registro mágico do Natal.

não há memórias.
as doçuras foram levadas pela tempestade de verão.

não há amor.
como explicar a ilusão do que aconteceu,
quando o sentimento não era recíproco?

não há saudade.
como entender o que está acontecendo agora,
com uma comunicação inexistente?

em um tempo em suspenso,
o relicário segue pendurado no pescoço:

nele há dois lados que seguem vazios.
 
provavelmente nunca mais serão preenchidos.

💔📷💚

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de maio de 2026 é relicário.
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domingo, 26 de abril de 2026

Como uma playlist de música ruim no repeat

domingo, abril 26, 2026 12

— Foi só uma vez. Eu não tive escolha.

Alexandre me olha parado na porta daquele que até ontem foi o nosso quarto, com os lábios secos e os olhos úmidos. Ele espera por uma resposta. Mais uma resposta. E quanto mais ele espera, mais em silêncio eu fico. Estou sentada de costas para ele. Olho pela janela e vejo o céu azul, com suas pequenas nuvens brancas que prenunciam o fim do verão. Ele continua esperando, como se a vida dele dependesse da minha voz enchendo os seus ouvidos, o quarto, a casa. Persisto muda. É como se não houvesse ar capaz de encher os meus pulmões e de fazer as minhas cordas vocais vibrarem para emitir quaisquer sons. Meu corpo segue inerte.

— Fala alguma coisa... Você sabe que eu sou assim mesmo, mas sabe que eu te amo, não sabe?

Não. Eu sei que tudo isso não é amor, mas resolvo deixar que o silêncio continue falando por si só. Agora eu não me importo mais. Por tantas outras vezes, eu já havia gritado, chorado, jogado o que tinha ao alcance das mãos nas paredes, agora eu não tenho mais forças para argumentar. Estou esgotada até mesmo para rebater o “só uma vez”. Primeiro que não era “só”; segundo que era recorrente. As cenas das descobertas tiveram as suas nuances, é verdade, mas eram recorrentes. O mesmo modus operandi tanto nas merdas, quanto nas súplicas por perdão. Depois de três vezes, já dá pra pedir música no Fantástico, não é mesmo?

— Por Deus, amor, fala alguma coisa... Você sabe que eu sou assim mesmo; mas, que se eu não te contei, fiz isso por você, pra você não ficar chateada, triste e raivosa como está agora. Eu sou homem, tenho os meus instintos. Você sabe, todo homem faz isso, não sabe? Anda logo, me perdoa! 

Respiro fundo e me viro para ele. Alexandre continua tão bonito como quando nos conhecemos. Apesar da estatura mediana, sua voz envolvente, seu olhar profundo, suas tatuagens e as covinhas nas bochechas continuam ali. Ele continua ali. Inteiro e ao alcance das minhas mãos. Como pode a tentação que liberta o desejo despertar também tanta dor? Enquanto o meu corpo quer ter o dele, minha cabeça e meu coração me guiam por outro caminho: saio de perto da janela, levanto aquela que era a nossa cama box e abro o baú em silêncio. Pela visão periférica, noto que ele parece confuso, mas sigo firme. Tiro a mala de viagem há tempos guardada, coloco-a sobre o colchão, abro o armário sem dizer uma única palavra. Então, começo a pegar a parte que me cabe do nosso agora ex-pequeno latifúndio.

— Amor, você tá louca? Pelo amor de Deus, isso foi só um deslize, algo pequeno, da minha natureza. Você já me perdoou tantas vezes, não custa fazer isso mais uma? Eu prometo que isso não vai se repetir! Prometo! — Continuo impassível. Se alguém visse a cena pela janela, acharia que eu estou arrumando uma mala para uma viagem feliz de férias. Só quando Alexandre tenta tirar as peças já guardadas que eu o encaro:

— Você pode dizer o que for. — Minha voz soa tão calma, tão resignada, que até eu me surpreendo. — Eu vou pegar as minhas coisas e seguir a minha vida.

— Mas você não pode fazer isso! Você tem que me perdoar! O que as pessoas vão pensar de nós? De mim? Você não tem dó de mim, não?

— Alexandre, vai ficar tudo bem. Aliás, já está tudo bem. — Fecho a mala e a ponho no chão. — Quanto ao que vão dizer ou como você se sente, você deveria ter pensado nisso antes. Eu, honestamente, não me importo.

📻📻📻

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de abril de 2026 é a mentiras que contamos.
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domingo, 22 de março de 2026

Labirinto

domingo, março 22, 2026 10

no cruzar de caminhos,
na esquina ao acaso,
no não sei se vou ou se fico
na janela ou no abismo:
nossos olhares se cruzam.

na juventude ou na velhice,
na hora marcada ou inexata,
no inverno seco ou no verão molhado,
no seguir a pé ou no travar do trânsito:
nossos olhares se tocam.

você com cachorro, eu com gato,
você e seu chá, eu e meu espresso,
você acordando cedo, eu indo madrugada adentro,
você amando inverno, eu preferindo verão:
nossos olhares travam.

pessoa certa na hora errada:
a vida exemplificando
que rejeição é ato de ser protegido
por algum dos deuses e seus discípulos.

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domingo, 15 de fevereiro de 2026

Os ventos do carnaval não movem moinhos

domingo, fevereiro 15, 2026 16


Parecia vinda de algum invisível moinho de vento. Era incontrolável. Depois de tantas cores, tantas músicas, tantos estímulos, o silêncio. Ao longe, um bêbado ou outro se equilibrando em uma esquina, buscando um lugar menos ruim para vomitar. Cidade no limbo entre fim de festança e volta ao trabalho. Aquilo era hora de parir uma explosão interna e incontornável? O azul-petróleo já ganhava tons de luz no horizonte ao leste, e o olhar profundo de Fátima desaguava em mar. Tormenta. Abraço que é casa, mas que também é despedida. Mesmo depois de tanto tempo, o fim ainda era tão gritante na cabeça dela. Principalmente em momentos em que apenas os pássaros cantam na selva de pedras.

(Como ninguém percebia: juras? Mentiras? Tudo tão visível quanto a luz solar.)

A Quarta-Feira de Cinzas anunciava a calmaria de sua aurora. Um novo dia, um novo começo. A sabedoria popular diz que o ano só começa mesmo depois do carnaval. E de um corte (radical) de cabelo. Entre um soluço e uma fungada, estava decidido: ligaria no salão, marcaria um horário o mais breve possível. Cabelo curto. Roupa curta. Fim de verão e nascimento de uma paciência cada vez mais restrita, a única possível para quem teve o coração partido tantas vezes que não sabe nem como ele ainda continua bombeando sangue no peito.

Peito pequeno. Apesar dos pesares, coração gigante. Sangue latino. Fátima seguiria sozinha, assumindo os pecados dela e de Álvaro (ainda que vivo, ele seria um de seus mortos?). Seguiria quebrando lanças, povoando generosidade, sendo os ombros do mundo: aquela que sempre ama demais, com sua alma cativa. A última noite morria. O sol já despontava. Era Quarta-Feira de Cinzas, e ela entendia as lágrimas. Todo carnaval tem seu fim, rompe com os velhos tratados, leva milhares de fios de cabelo, buscam por guinadas. O desaguar sempre fez sentido em todos os caminhos, que apesar de serem tortos, sempre a levaram para casa — mesmo que como em um grito, num desabafo.

🌙🌟🌞



Conto inspirado na canção de Ney Matogrosso e no tema "a última noite".



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cujo tema de fevereiro de 2026 é a última noite.
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Para ler sobre a primeira aparição de Fátima e Álvaro aqui no blog, clique aqui.


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domingo, 11 de janeiro de 2026

Que os nossos recomeços sempre surjam onde for preciso

domingo, janeiro 11, 2026 12
Na foto, meus diários e dois dos meus livros publicados.

Quando eu tinha 19, 20 anos e abri o blog, me comprometi — mesmo que sem essa consciência toda — com o viver uma vida artística. Crônicas, poemas, fotografias, viagens, shows, museus, livros e o que mais cruzasse o meu caminho. Tudo por estar em contato com a arte, seja produzindo, seja analisando-a criticamente, seja apenas curtindo. Lidar com a arte, de um modo geral, é um recomeçar eterno. Morrer e renascer nas ideias, nos sentimentos. Ao mesmo tempo em que a maturidade vai “sujando” as lentes do olhar para a vida — com seus conhecimentos e vivência acumuladas —, a arte se encarrega de dar um novo olhar para as coisas. Quando a arte é boa, a gente se diverte ao revisitá-la.


Onde há vida, há desejo. Onde há desejo, há renascimento. Há essa esperança que faz com que sigamos na empreitada de empurrar a pedra mesmo sabendo que — em algum ponto do caminho — ela rolará ladeira abaixo de novo e de novo. Talvez o envelhecer traga esse toque de fatalismo à vida. Mas, tão certo quanto a morte é o fato de que, invariavelmente, recomeçamos e que a arte é um apoio nesse recomeço. Não há outra opção.


Justamente por não haver opção, erguemos a cabeça e saímos deixando tudo o que não dos serve mais: os familiares e amigos tóxicos, o amor que nunca foi recíproco, o emprego que sugava até o último resquício de alma, a moradia insalubre ou quaisquer outras coisas que emperram a engrenagem do destino. Recomeçar é o nosso livre-arbítrio posto em prática. A arte nos serve de espelho e nos inspira nisso.


Perdi as contas de quantas vezes tive que recalcular a rota e começar de novo. Ter um plano é ótimo, mas ter autoconhecimento suficiente para replanejar o que for preciso é melhor ainda. E se tiver arte envolvida nesse plano, temos o que é o mais próximo daquilo que considero perfeição.


Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita, cujo tema de janeiro de 2026 é recomeço.
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