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domingo, 31 de maio de 2026

Desconexo

domingo, maio 31, 2026 3


*Texto escrito em abril de 2022.

Sempre que algo importante está para acontecer, eu sonho comigo andando por aqueles corredores, naquele banheiro, naquelas salas de aula. Sempre que algo importante está para acontecer, eu volto à escola em que estudei por aqueles anos mais bonitos da minha infância.

Talvez aquela escola seja o meu forte, meu porto seguro, o lugar onde fui feliz sem saber que aquilo era felicidade. O local onde eu gostaria que todos estivessem lá comigo. Talvez eu só esteja sendo nostálgica, mesmo. Isso — ser nostálgica — é algo da minha natureza, sempre foi.

Estava no banheiro, falando com alguma amiga — qual delas, meu Deus?! — sobre o meu desejo de parar de usar sutiã e a necessidade de naturalizar o “farol aceso”. Trocava de roupa. Colocava uma regata de alça finininha. A blusa era amarela. A alça do sutiã, azul marinho. Dispensava o sutiã e me sentia dona de mim. Aquele era só um corpo. Aqueles eram só mamilos embaixo de uma blusa. Me sentia poderosa, porque estava livre. Algo de grandioso aconteceria ao sair dali. Algo profundo.

Acordei com dor de cabeça, sentindo as têmperas latejarem. Ainda há guerras e dores no mundo. Ainda há pandemias e lockdown. Ainda há mortes. Minha cabeça lateja em um dia de terapia, aulas e lives. Três semanas do ano já se foram. Algo de grandioso está chegando. Algo incrível.

Abro o YouTube, vejo a Patti Smith lendo trechos de Só Garotos e de O ano do Macaco. Ela não desiste e me ensina a não desistir também. People have the power, because the night belongs to us. O mundo há de dar certo. Pulo para o Chico Buarque e tento respirar enquanto tomo um gole do chá de boldo que fiz antes de apertar o play nesses vídeos todos. São mais 11 horas, “deveria estar trabalhando”. Deveria tantas coisas. Queria ser muitas, sou uma só. Algo de grandioso acontece. Algo magnífico.

Sinto saudades. Sinto vontade de falar do dia a dia. Sinto vontade de dizer que “sim, eu gosto pra caralho de você”. Sinto demais, tenho coração de poeta. Não sei fazer prosa, não sei fazer dramaturgia. O diálogo é sempre tenso. Eu sinto muito. 

Sinto demais, sinto demais, sinto demais. Algo de grandioso bate à porta. Algo maravilhoso. Você estará aqui para pegar na minha mão?
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domingo, 10 de maio de 2026

O amor é uma K-46

domingo, maio 10, 2026 7

*Texto escrito em 2019.


Definir o amor como uma arma é tão comum que a expressão, antes poética, agora não passa de um mero clichê. Mas o que não é um clichê, se não uma imagem que faz com que a gente a use até gastá-la, de tanto que se identifica com ela?

Essa semana, fui almoçar com uma das professoras que trabalha comigo. Quando a encontrei, ela estava pálida, tremendo mais que vara verde. Via em seu rosto que ela buscava uma forma de me explicar o que se passava, mas ela mesma estava tão passada que não conseguia encontrar as palavras. Passava o celular de uma mão a outra, tentava tirar o cabelo do rosto, enquanto caminhava rápido. Quando finalmente nos distanciamos do colégio, ela soltou em um atropelo:

— A Vânia disse que quer que o José morra, você acredita? Quando eu perguntei o porquê, ela respondeu que é porque ele é diferente, porque ele tem dois pais.

Senti o ar entrando em meus pulmões, mas não consegui fazer os meus neurônios se articularem. Como assim, uma aluna minha, uma criança de oito anos sendo tão homofóbica? Como pode uma criança desejar a morte de outra tão gratuitamente? Na hora, a imagem que veio na minha cabeça foi a de todos os meus amigos gays, lésbicas e bis, o quanto eles são maravilhosos, o quanto eles não deveriam sofrer por apenas existirem. Como o amor alheio pode incomodar tanto?

— Eu perguntei para a Vânia se ela acreditava de verdade nisso que dizia — completou a minha amiga — ela respondeu que não. Tenho certeza que isso é coisa que deve ter ouvido dos pais.

Coisa dos pais. Meu sangue ferveu na hora que concluímos isso. Adultos semeando o preconceito em pessoas tão pequenas. “Ninguém nasce odiando”, já diria o Mandela. Ninguém nasce odiando, mas aprende com os pais, com a sociedade, em todos os lugares. Isso é desesperador e pensar em tudo o que o pequeno José pode ter sentido ao ouvir um absurdo desses me deixou profundamente abalada.

Li que algum desses escritores famosos disse que um bom autor não pode escrever com raiva, porque assim o texto não fica bom. Fico me perguntando como escrever sobre ver outras pessoas sendo massacradas apenas por existirem sem ter sangue nos olhos. Sem sentir esta fúria que cresce em mim. Como amar em tempos de ódio?

Hoje eu acordei com a notícia que o prefeito do Rio de Janeiro mandou apreender uma HQ da Marvel que estava sendo vendida na Bienal Internacional carioca, porque em um dos quadrinhos, dois personagens homens se beijam. Segundo ele, esse material continha “conteúdo pornográfico”. Pleno 2019, e eu tendo que lidar com censura no Brasil. Mais uma vez meu o sangue ferveu.

Como escritora (e tendo amigos que também o são), quero poder escrever sobre o que eu quiser. Quero que os meus leitores possam ler o que eles quiserem. Quero que meus amigos e desconhecidos possam existir. Sem represálias, sem medo, com o direito de amar quem eles quiserem. Quero que as pessoas vivam à base do amor. Por isso escrevo esta crônica. Porque preciso me juntar a todos que acreditam que compartilhar bons sentimentos é válido e ir à luta.

Vamos produzir, sim. Vamos consumir, sim. Vamos amar. O amor é o nosso combustível e a nossa arma. Ele é a nossa K-46. Por mais que dizer isso soe o maior clichê dos clichês, é amando que venceremos todo esse preconceito.
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domingo, 11 de janeiro de 2026

Que os nossos recomeços sempre surjam onde for preciso

domingo, janeiro 11, 2026 12
Na foto, meus diários e dois dos meus livros publicados.

Quando eu tinha 19, 20 anos e abri o blog, me comprometi — mesmo que sem essa consciência toda — com o viver uma vida artística. Crônicas, poemas, fotografias, viagens, shows, museus, livros e o que mais cruzasse o meu caminho. Tudo por estar em contato com a arte, seja produzindo, seja analisando-a criticamente, seja apenas curtindo. Lidar com a arte, de um modo geral, é um recomeçar eterno. Morrer e renascer nas ideias, nos sentimentos. Ao mesmo tempo em que a maturidade vai “sujando” as lentes do olhar para a vida — com seus conhecimentos e vivência acumuladas —, a arte se encarrega de dar um novo olhar para as coisas. Quando a arte é boa, a gente se diverte ao revisitá-la.


Onde há vida, há desejo. Onde há desejo, há renascimento. Há essa esperança que faz com que sigamos na empreitada de empurrar a pedra mesmo sabendo que — em algum ponto do caminho — ela rolará ladeira abaixo de novo e de novo. Talvez o envelhecer traga esse toque de fatalismo à vida. Mas, tão certo quanto a morte é o fato de que, invariavelmente, recomeçamos e que a arte é um apoio nesse recomeço. Não há outra opção.


Justamente por não haver opção, erguemos a cabeça e saímos deixando tudo o que não dos serve mais: os familiares e amigos tóxicos, o amor que nunca foi recíproco, o emprego que sugava até o último resquício de alma, a moradia insalubre ou quaisquer outras coisas que emperram a engrenagem do destino. Recomeçar é o nosso livre-arbítrio posto em prática. A arte nos serve de espelho e nos inspira nisso.


Perdi as contas de quantas vezes tive que recalcular a rota e começar de novo. Ter um plano é ótimo, mas ter autoconhecimento suficiente para replanejar o que for preciso é melhor ainda. E se tiver arte envolvida nesse plano, temos o que é o mais próximo daquilo que considero perfeição.


Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita, cujo tema de janeiro de 2026 é recomeço.
Para saber os outros temas e como participar, clique aqui.

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domingo, 4 de janeiro de 2026

2026, o ano da coragem

domingo, janeiro 04, 2026 15
What you don't have you don't need it now
What you don't know you can feel it somehow


Fechei o ano conversando com uma amiga sobre a vida, os relacionamentos e a coragem. Muito se fala sobre a vida romântica e amorosa, mas esquece-se que o amor está por toda parte. Piegas, eu sei. Piegas, mas verdadeiro.


Dizia a ela que 2024 e 2025 foram anos de reciprocidade. Foquei no que e em que eram recíprocos. Está junto, estou junto. Não está junto? Bem, não posso forçar ninguém, mas também não posso perder meu tempo e minha energia aceitando menos.


Sempre estive por inteira em tudo: no trabalho, nas amizades, na família, nos amores. Intensidade faz parte da minha essência, e todas as vezes em que tentei me diminuir para caber, para não perder alguém, só saí sofrendo das situações. Teria sido mais fácil me retirar ao sinal da primeira bandeira vermelha, mas eu sei que não desisto logo de quem amo. Todo mundo tem os seus defeitos, e eu também não estou imune: demorar para desistir é um deles que carrego.


De qualquer forma, há o inegociável. Amadurecer é cada vez mais compreender onde a gente pode ser flexível, qual é o nosso limite e aquilo que não tem negociação. Eu não sei ser pequena; não sei estar meio aqui, meio lá; não sei amar pouco, ser pouco. Sou grande e intensa e inteira. Esse é o meu inegociável.


Nem todo mundo sabe lidar com isso, e está tudo bem. Eu também não sei lidar com o afastamento, com a falta ou a má comunicação, com pessoas que não sabem dizer o que sentem ou que têm medo de assumir o que lhe habita o coração. É por isso que foco é fundamental. Por isso que eu foquei na reciprocidade ao longo dos últimos anos. Não adianta eu tentar viver algo que não sou ou tentar que pessoas vivam aquilo que elas não são. De novo, a vida (também) é isso e está tudo bem.


Voltando ao ano novo, em 2026, a reciprocidade continuará em voga e trará junto consigo a coragem. Por muito tempo, me vi como uma pessoa covarde, medrosa, vulnerável — até que percebi que esse era mais um discurso que diziam sobre mim do que o que realmente sou. Aprendi que falar sobre as vulnerabilidades (mesmo quando elas são desconfortáveis), que ser sincera e inteira, que viver o que se deseja (não o que esperam de nós) são justamente atos de coragem.


Quero ao meu lado os corajosos. Não os inconsequentes, não os egoístas, não os sabidões que tudo acertam, mas os corajosos no sentido etimológico da palavra: as pessoas que agem com o coração, que comunicam, que vão com medo mesmo, que se abrem pra vida, que fazem não só o que querem, mas também o que é preciso ser feito.


A última década me fez ver, sem modéstia alguma, o meu valor. Eu conheço cada um dos meus defeitos, contudo também sei o quanto eu sou comprometida com o quem faz parte dos meus dias e o quanto eu sou grata a cada pessoa que faz parte da minha vida — elas são mais do que rede de apoio, são o amor personificado. Sendo assim, não vou aceitar menos do que mereço. Ao invés de focar em me lamentar pelo que não tenho ou por quem não está mais aqui, vou dar o meu melhor para cada pessoa que se faz presente. Reciprocidade corajosa multiplica o amor.


No trabalho, na família, na vida romântica, nas amizades. Viver exige coragem.

E que Deus nos livre dos covardes. Amém!

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domingo, 14 de setembro de 2025

Crisálida

domingo, setembro 14, 2025 3
Imagem por Pon Malar - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0 
(fonte: Wikipédia)


A pausa. O silêncio. Ouvir quando se morar numa megalópole, em tempos de celular como extensão do corpo, é um processo complexo. É preciso cavar tempo para o desdobramento interno. Parar e escutar sem julgamentos. De onde vêm o amor, o cansaço, a euforia, a tristeza… a força para acordar cedo é fruto da descoberta que o corpo fala com movimentos nunca vistos?

Como muitas das minhas contradições, apesar de ser uma pessoa noturna, sou solar. Amo os ruídos da noite: tricotar em silêncio quando um carro passa distante, ao mesmo tempo em que bebo o meu chá depois de ver uma partida de futebol na TV. Escrever depois disso o registro desse turbilhão silencioso, me deitar num lençol recém-trocado, dormir o sono dos justos. Amo a noite e sou capaz de ficar horas desfrutando de sua brisa fresca fruto de um dia quente. 

Entretanto, sou uma apaixonada pelo sol e pelo verão. Neste ano tivemos um inverno que, ao menos para mim, me pareceu mais rigoroso. Sofri demais. O corpo parecia enferrujado, mesmo fazendo aulas de dança e de Pilates. O humor estava sem disposição alguma, ainda que os exames de sangue dissessem que está tudo bem. O nublado, o frio, a pouca chuva que traz consigo a secura do ar. Tudo me faz ser uma pessoa que tem certeza de que não aguentaria viver em nenhum destes países do Hemisfério Norte, em que o dia quase não existe durante a estação mais fria do ano.

Gosto de observar, entretanto, as estações. Elas me mostram o quanto nada é permanente. Estamos no fim do inverno e nesta semana eu pude notar os primeiros sinais da primavera dando um "oi" lá no horizonte: a luz solar despontando mais cedo e iluminando toda a cozinha pela manhã, bem-te-vis fazendo a sua sinfonia horas antes do esperado e sabiás soltando os primeiros pios, calor que começa antes das 10 e vai crepúsculo adentro. Tudo corroborando para um renascer. 

Quando a natureza renasce, eu renasço junto. Não só porque eu sou parte do todo, mas porque sou solar. Sou expansão. Sou calor. Sou inteira. 

Clarice dizia que se sentia morta quando não escrevia. Os primeiros meses de 2025 foram difíceis pra mim, porque entendi exatamente o que ela queria dizer com isso. Mesmo me forçando a comparecer diariamente ao meu ofício, algo esteve minimamente semimorto.  Cobra trocando de pele. Ovo virando lagarta. Lagarta se recolhendo em casulo. Casulo envolvendo crisálida. Seda. Crisálida poética e machadiana. 

Aprendo com a natureza. 

Embora ainda não tenha muita clareza. Surrender. O que é o "render-se" afinal? O deixar fluir ainda me vem cheio de interrogações. Tento relaxar os ombros, abrir espaço.

Observo. 

Provavelmente a lagarta não recolhe pensando que vai vai se tornar mariposa ou borboleta. Ela só vai. Eu apenas fui, vou, irei.

A vida é bela mesmo em seus tropeços.

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domingo, 7 de setembro de 2025

Defenestração

domingo, setembro 07, 2025 3


Fenestra é janela em latim. De- é um prefixo, também latino, que significa movimento de cima para baixo. Logo, podemos descrever a ação de atirar algo pela janela como defenestrar, e o ato, em si, como defenestração.

Embora seja professora de língua portuguesa, não estou aqui para dar aula sobre a origem das palavras. Tampouco, para dizer que aprendi a etimologia de defenestração nas aulas de latim ou lendo algum dos (maravilhosos!) livros do Caetano W. Galindo. Escrevo hoje na tentativa de defenestrar no papel algumas palavras carinhosas a pessoa que me ensinou o significado do vocábulo de uma maneira muito mais engraçada do que o primeiro parágrafo metódico do meu texto. Tal pessoa é Luis Fernando Veríssimo.

Quando criança, meu pai trabalhava na editora Abril. Ele sempre trazia um exemplar da Veja e da Veja SP para casa. Eu, por minha vez, sempre folheava as revistas nada atrativas para uma criança e lia aquilo que conseguia compreender: a última página, a página das crônicas. 

Claro que, naquela época, eu não entendia que crônica era um gênero discursivo que, como explicou o Antônio Cândido no famoso texto publicado na coleção Para Gostar de Ler, fala sobre temas ao rés do chão. Lia porque a simplicidade me divertia. 

Anos mais tarde, já frequentando a biblioteca, descobri aquele autor meio careca, meio gordinho, que tinha muitos — mas muitos MESMO — livros publicados em que narrava cenas do cotidiano. As tais das crônicas. Comecei com as Comédias para se ler na escola e não parei mais. Veríssimo, pra mim, tornou-se sinônimo de verdade, uma verdade íntima que me revelou uma epifania solar: também queria escrever acerca dos causos e mais causos que tanto observara. 

No meio de todos aqueles textos, lá estava a tal da Defenestração

Se hoje defenestro, do alto da minha caixola, palavras no papel, é porque antes de mim houve um Luis Fernando (veja só, Fernando, assim como eu!), que do alto de sua timidez não deixava de observar (!!!) tudo ao redor e que fazia questão de amar a língua como instrumento não só de trabalho, mas de vida. Por isso, a notícia de sua passagem, me deu um nó no peito. Perdemos um dos grandes!

O nó veio por saber que ele é eterno; mas, agora, etéreo. Sublimou-se em sua presença física, não vai mais defenestrar palavras sobre nós, ainda que seu legado se sustente firme, forte, sorridente, crítico e bem-humorado. 

Certa vez ouvi o Mick Jagger dizendo que só se sente velho quando ele vê alguém que ama partindo. A idade pesou por aqui, no dia em que o Veríssimo se foi.

Mas, para não terminar esta crônica de maneira tão solene e triste (acho mesmo que o Veríssimo detestaria isso), deixo abaixo a Defenestração, do próprio autor — muito melhor do que as minhas palavras, que de sinceras soam piegas. Divirtam-se:

Luis Fernando Veríssimo
(Imagem: Unesp/divulgação)


Defenestração

Luis Fernando Veríssimo

Certas palavras tem o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A falácia Amazônica. A misteriosa falácia Negra. 

Hermeneutas deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria. 

Os hermeneutas estão chegando! 
— Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada... 

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisa recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto. 

— Alô... 
 O que é que você quer dizer com isso? 

Traquinagem devia ser uma peça mecânica. 

— Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto. 

Plúmbeo devia ser o barulho que o corpo faz ao cair na água.

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um som lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres: 

— Defenestras? 

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam. 

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria assim defenestradores profissionais. 

Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma ou outra vez, como em: 

— Aquele é um defenestrado. 

Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada era a palavra exata. Um dia finalmente procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino, ato de atirar alguém ou algo pela janela. 

Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal,não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração? 

Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo. 

— Les defenestrations. Devem ser proibidas. 
— Sim, monsieur le ministre. 
— São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios. 
— Sim, monsieur le ministre.
— Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos. 

Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes. 

— É essa estranha vontade de atirar alguém pela janela, doutor...
— Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar — diz o analista, afastando-se da janela.

Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.

Na lua-de-mel, numa suite matrimonial, no 17º andar.

— Querida...
— Mmmm?
— Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...
— Fala amor.
— Sou um defenestrador.

E a noiva, em sua inocência, caminha para cama:

— Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!

Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:

— Fui defenestrado...

Alguém comenta:

— Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!

Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar essa crônica. Se ela sair é porque resisti.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. Defenestração. In: O nariz e outras crônicas. 6.ed. São Paulo: Ática, 1998. p. 82-84.


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domingo, 27 de julho de 2025

SP, 14 de maio de 2021 (sexta-feira, 02h32)*

domingo, julho 27, 2025 8



A navalha da espada corta tudo o que é onírico e me acende a luz da consciência já perdida. Não é o avassalador que me move a escrever, é o anseio pela tranquilidade que repousa no silêncio compartilhado e nas mãos dadas. 

Eu cresci achando que queria um amor de cinema, que seria um clichê ambulante, desses em que um tromba no outro e a paixão acontece instantaneamente. Eu vivi um amor que acabou como nas tragédias: ele sem memória, sem saber quem sou, sem saber quem éramos. Sufoquei a minha perda, o meu luto e, sobretudo, o meu afeto. Precisava seguir. Demorou muito, mas aqui estou. Aqui caminho. Viva. Viva com ar que enche os meus pulmões e força oxigênio correr pela minha veia.

Anos depois vieram outras pessoas. O que tinha a mesma profissão que a minha; o match do Tinder que atrasou mais de duas horas e o encontro não deu em nada; o cara que flertou de todos os jeitos e surgiu com uma namorada depois que me percebeu apaixonada por ele. Todos hollywodianamente avassaladores. Todos me forçando a nadar e morrer na praia. Logo eu, que não sei nenhum dos quatro tipos de nado.

Estou viva. Cansadamente viva. Quando penso na tarefa de escrever sobre essas feridas me sinto inteira. Hoje elas têm casca, algumas já são cicatriz. Machucados que se fortaleceram porque joguei palavras e mais palavras sobre elas. Oxigênio forçado em cada célula.

Tento me apaixonar gradativamente pela pessoa que vejo todos os dias no espelho. O tempo é implacável e já começa a mostrar os seus sinais. Os cabelos estão diferentes, a pele contém marcas, as rugas iniciam a dominação de território ao redor dos olhos. Há uma dissonância entre a minha mente e o meu corpo. O relacionamento deles já entrou em crise há tempos: a cabeça é jovem, mas os joelhos falam alto com suas dobradiças enferrujadas. "Começa assim sem dor, quando chegar nos 60 a gente conversa", diz minha companheira de aula de Pilates. As areias do tempo teimam em escorrer rio abaixo…

Há mais de um ano que não saio de casa, que não vejo os meus amigos. Tento me lembrar quando foi a última vez que beijei uma boca. Não consigo. A minha relação com o tempo anda mais confusa que a minha vida amorosa. "Todo dia é uma segunda-feira", disse a minha professora de escrita, mas acho que já ouvi outras pessoas falando algo parecido.

Presenciar fatos históricos é algo que sempre me fez me apegar à vida: a morte do Senna, os aviões que caíram perto de casa, a queda das Torres gêmeas, a luta do Mandela. Sempre fui uma espectadora atenta ao meu tempo. Nunca pensei, contudo, que teria que ser participante ativa de um evento que mudaria a vida planetária do avesso, como tem sido esta pandemia. Enfurnada em casa sigo (ontem completei 1 ano e 2 meses em que saí apenas 16 vezes de casa para cumprir tarefas que precisavam de mim impreterivelmente). Continuo sendo categórica na missão de proteger a mim e à minha família. Sigo estrita, restrita, e exaurida.

Minha memória anda tão exausta quanto o meu corpo. Talvez seja por isso mesmo que eu queira muito um relacionamento, mas não mais um amor avassalador. Eu não quero roteiros perfeitos, quero aconchego.

***

Antes de ler sobre a experiência de pessoas negras, eu achava que eu era estranha. Por que eu sempre era a única sozinha? Depois do contato, compreendi tudo. Os pontos se ligaram de um modo que foi só parar para analisar, que fez total sentido. Não à toa todos os caras por quem já tive atração estão se relacionando todos com mulheres brancas, não à toa, o principal deles não quis me assumir, me apresntar para a família e para os amigos. O racismo me atravessa ainda que muita gente não queira me ver como a mulher negra que sou. Existo dilacerada por essa violência que me consome viva todos os dias.

Raised by wolves, stronger than fear**. O Bono sempre grita alguma palavra de ordem na minha cabeça — quer ele queira, quer não. Tento ser maior do que o racismo e continuo lutando. Stronger than fear. Luto por este coração que pulsa insistentemente dentro da minha caixa torácica, ainda que eu ache curioso como os sentidos de guerra e de perda façam simbiose nas quatro letras da palavra "luto". Se verbo, tão repleto de vida; se substantivo, tão cheio de morte; em ambos, tão cheios de dor. A minha cartomante preferida diria que "luto é amor que não tem para onde ir". Talvez por isso mesmo eu escreva, para direcionar o meu amor para o desconhecido que me lê. Sempre amei demais e é isso, o advérbio de intensidade, que tira e, ao mesmo tempo, nutre a minha força.


💚💚💚


*Encontrei este texto nos meus rascunhos da época da pandemia e resolvi compartilhá-lo com vocês.
**Vocês podem ver o U2 cantando Raised by Wolves, clicando aqui (para ler a letra da canção no vídeo, use a função CC/legendas, do YouTube). A música faz parte do álbum Songs of Innocence, lançado em 2014.

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domingo, 20 de julho de 2025

Objeto ônibus em 6 atos

domingo, julho 20, 2025 6
Foto de Ant Rozetsky, via Unsplash.



Dia 01. Terça-feira de manhã fria de outono. 
Chego ao ponto e uma mulher branca de cabelos grisalhos carrega um gatinho na caixa de transportes. Conversamos. O gato vai no mesmo ônibus que eu, fazer um tratamento semanal de saúde. O gato observa pelas frestas da caixa sem miar. Sua dona é faladeira e, como toda gateira, conta não só desse, mas dos outros 5 gatos que ficaram em casa. Falo sobre as minhas duas e de como elas estariam se matando de miar caso estivessem assim: dentro da caixa, em um ponto de ônibus, prestes ao chacoalhar e ao entra e sai de desconhecidos. Sorrimos como duas cúmplices. Gatos e suas personalidades. 

Dia 02. Tarde com sol que esquenta e vento gélido que, por razões óbvias, esfria. 
O ponto está cheio. Entro na lotação, e há um jovem casal de negros falando uma língua que desconheço. Tento entender, mas as palavras me escapam. Sei que é afetuoso, porque eles riem o tempo todo um para o outro. Curiosamente ou não, chego ao meu destino e escuto minha professora dizendo que “o sorriso é linguagem de resistência”. Sorrio eu também ao me lembrar disso. Queria saber que língua era aquela. Juntos, seguimos — mesmo que séculos depois — resistindo. 

Dia 03. Outra manhã de outono. Desta vez, ainda mais gelada.
Ao virar a esquina, encontro minha vizinha. Ela vai comigo até o ponto e resolve pegar o mesmo ônibus que eu só para continuar o cadinho de prosa. Há tempos não nos víamos. Ela me conta da neta de 4 anos e da mãe de quase 90. Ambas, cada uma a seu modo, vivendo de uma inocência sem fim - seja a inocência de quem ainda não sabe nada do mundo; seja a de quem sabe demais dele. Viver é igual e diferente para todos nós: finitude concomitante. Isso é bonito demais. 

Dia 04. Tarde fresca de veranico fora de época. 
Outro micro-ônibus. Na metade do caminho entra um homem. Ele puxa assunto com o rapazote ao seu lado. Todos viajam em silêncio. O rapaz meneia a cabeça como se quisesse encerrar o assunto. O homem diz que na terra dele tudo se resolve na faca, que tinha batido na mulher, que “ela foi embora com um cabra 10 anos mais novo”. O rapaz desviava o olhar. “Fiz questão de ir lá dizer pro cabra que ele tá pegando o resto, eu usei tudo o que tinha para usar”. Dei sorte de poder descer antes que meu estômago se revirasse ainda mais. 

Dia 05. Manhã gelada, quase inverno. 
Subi a ladeira correndo para não perder o ônibus. Cheguei no ponto esbaforida. Corrida à toa. Ele ainda demorou um pouco para sair. Consegui me sentar em um lugar sozinha. Entrou um homem todo tatuado: mãos, braços, pescoço e cabeça. Olhei-o de frente. Talvez ele tenha achado que eu senti medo ou alguma forma de preconceito. A verdade é que eu — com toda a minha fobia de agulha — sempre me pergunto o quanto será que dói tatuar pescoço, nuca e crânio. Sempre penso que as pessoas que aguentam esse tipo de dor são mais fortes do que pensam. Estava perdida nesse pensamento, quando o homem puxou assunto com o cobrador: “esse ônibus volta com qual nome? É que eu sou novo por aqui. Tô ajudando a família da minha amiga, eles estão com esse problema lá na Enel e já ligaram um monte de vezes. Ela trabalha e fora do trabalho fica com a filha pequena, então vou lá tentar resolver por ela”. Como a maioria dos tatuados que eu conheço, o cara é gente boa. O cobrador respondeu dizendo não só que avisaria qual era o ponto mais próximo, mas também lhe deu opções de outras linhas pra volta. Gentilezas. 

Dia 06. Tarde congelante. Véspera de inverno. 
Uma nova lotação. O casal de negros novamente, dessa vez acompanhados pela mãe de um deles. De novo aquela língua bonita e desconhecida. Sentei-me atrás do trio. Queria puxar assunto, mas não sabia se eles falam português ou não. Também não quis interromper a beleza da sonoridade indecifrável e dos sorrisos intercambiáveis a cada fala. Do outro lado do corredor, duas senhoras. Não sei se elas se conheciam. Uma delas, a sentada próxima à janela, sem medo ou vergonha, vasculhava o próprio nariz com o dedo. Limpava o salão sem pudor nenhum. Sem medo do modo que gente, vírus e bactérias poderiam agir diante da situação. Apenas limpando. Apenas sendo feliz. Feliz com a pequena catota retirada a cada avanço do ônibus em direção a um destino que não sei qual é, afinal, desci antes dela.

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domingo, 8 de junho de 2025

Seis anos de publicação: reflexões de uma jornada de escrita e de leitura

domingo, junho 08, 2025 14
Há 6 anos, eu publicava o meu primeiro livro.

Hoje, 8 de junho, faz seis anos que publiquei o meu primeiro livro, A Intermitência das Coisas: sobre o que há entre o vazio e o caos (Editora Litteralux). Ao mesmo tempo que foi ontem, parece que vivi uma vida inteira desde aquele dia.


Me considero escritora desde que abri o meu primeiro blog, Escritos Humanos, lá pelos idos de 2004. Minha carreira foi ganhando consistência, no entanto, quando eu comecei a trabalhar aqui no Algumas Observações, em 2006. Entretanto, há um mito no imaginário coletivo de que pessoas só se tornam escritoras quando tem o objeto livro publicado em formato físico. Há uma necessidade intrínseca de pegar o livro nas mãos e fazer aquilo chamamos de Leitura Sensorial. Talvez por isso mesmo que comemorar o aniversário do A Intermitência sempre me traga para um espaço de reflexão: porque foi a partir dele que muitas pessoas ao meu redor passaram a me considerar “escritora de verdade”, ainda que eu nunca tenha sido “escritora de mentira”.


Meu livro em Paraty, durante a Flip.


É claro que eu ainda não preencho todos os requisitos para muitos leitores por aí. O motivo? Meus livros literários solos são todos de poesia. Se, para mim, escritor é quem escreve, para muita gente ser poeta não é ser escritor (assim como ser cronista ou contista também não). Vejo a empolgação e a frustração toda vez que o seguinte diálogo se repete:

 

— O que você faz?

— Sou professora e escritora. Tenho dois livros literários e um didático publicados. O meu primeiro foi traduzido para o espanhol.

— Sério? E sobre o que fala as histórias dos seus livros?

— Na verdade, meus livros são de poesia.

— Ah…

 

✨ Veja como foi o lançamento do A Intermitência das Coisas, clicando aqui.💙


O ar reticente vem muitas vezes com “poesia é tão difícil, né?”. Com jeitinho, tento responder que “não, poesia não é difícil”. Eu — e aqui falo também como professora de língua e de literatura — não acho que ler ou escrever poesia seja difícil. Acho apenas que nós — sejamos leitores ou escritores — temos que entrar por essa porta com uma chave diferente.

Os múltiplos abraços no dia do lançamento. 

Pensando na analogia da chave: você não abre um cadeado com a chave do carro, do mesmo modo que você não tranca um portão com a chave de uma gaveta ou de um armário. Com a leitura e com a escrita acontece algo similar: não adianta eu ler um poema esperando dele o que viria no romance ou num artigo científico. São chaves diferentes. A gente precisa entrar no livro com a chave certa.


Certa vez, me peguei pensando qual é o propósito da minha escrita e cheguei à conclusão de que tudo o que faço, seja como blogueira, como autora de livros, seja como professora é tentar ser ponte para que as pessoas percam o medo dos livros, da palavra escrita, da poesia.  E por que isso? Porque a poesia está da vida, mas o sistema estabelecido socialmente vai matando o nosso olhar artístico para as belezas ao nosso redor. A gente se acostuma com o piloto automático. E como já diria Marina Colasanti, “Eu sei que a gente, mas não devia”.


✨ A intermitência das coisas nas bibliotecas públicas de São Paulo. 💙


Há 6 anos eu venho, profissionalmente falando, dizendo que se textos de não ficção são para serem lidos com o racional; a prosa, num mix de razão e de emoção; a poesia — assim como a sua irmã: a canção — é para ser lida com o emocional. Quando a gente abre o coração, a gente sente a poesia. Poesia é feita para ser, sobretudo, sentida. Via de regra, quem quer analisar intelectualmente um poema é alguém que exerce a função de crítico literário.

Meus livros juntos. :)

Estou dizendo que só críticos podem analisar intelectualmente? Não. Mas pense comigo: tente se lembrar de um poema ou de uma canção que você já leu/ouviu e de que gostou muito. Muitas vezes, esses os versos entraram nas suas entranhas. Você gosta porque gosta, porque o poema ou a canção moveu um sentimento tão profundo, intrínseco, inconsciente, que fica difícil racionalizar por que raios você gosta tanto daquele texto. É sobre isso que estou falando. Quando a gente lê um poema com essa chave, a poesia se torna muito menos assustadora. E é por isso que eu continuo a escrever poesia: porque essa forma de escrita me acessa nos meus lugares mais recônditos e porque eu sei que se meu leitor perder o medo, ele também vai encontrar os lugares mais recônditos dentro de si.


Seis anos se passaram e o A Intermitência segue firme me ajudando nessa missão. Além de alcançar leitores em língua portuguesa, ano passado ele foi traduzido e agora pode ser lido en español, além de ser vendido no Brasil e na Argentina. Eu só posso agradecer por saber que há leitores nacionais e estrangeiros que se permitem navegar pelos meus versos — com medo dos versos ou não. São justamente esses leitores que continuam a me dar forças para ser um pequeno ponto de luz poética insistente contra essa vida corrida e líquida que tenta nos engolir o tempo todo. A todos que me leem, muito obrigada! 


✨Quer apoiar meu trabalho como escritora? Meus livros estão à venda e você pode conferir todos os títulos aqui! Obrigada por ler, seguir, e caminhar junto nessa jornada de palavras. 💙💜

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domingo, 13 de abril de 2025

Entre rachaduras e frestas

domingo, abril 13, 2025 7

Gosto de registrar trivialidades do meu dia – destas que ninguém se importa. Documentalizar uma vida simples, sem importância, lenta. Uma vida vagarosa em meio ao vazio e ao caso. Sou lenta. Sempre fui. Mas também sou um paradoxo. Sempre fui também. Uma mente ansiosa – e, por vezes, catastrófica – para domar. Cada um tem o seu próprio desafio interno – e se acha que não o tem, é porque ainda não o descobriu.

Ano passado, em setembro, minha tia me deu um cacto de presente de aniversário. Muda nascida do cacto que ela mesma cuida há anos. Ela me deu. Eu agradeci, feliz com a singeleza, e procurei um lugar de honra no meio das minhas suculentas. O cacto? Bem, ele detestou. Um mês depois, a mesma tia estava em casa vendo a minha cara de “eu não sei mais o que fazer”, ao mostrar para ela as pontas amareladas e molengas da planta.

– Ele é bruto. Põe no sol. Ele vai ficar bem.

Gosto de cactos porque eles – de algum modo – me lembram dos poetas: ambos estão num mundo hostil, com pouquíssimos recursos, contudo dão um jeito não só de sobreviver, mas também de fazer isso com leveza. Poetas e cactos mudam a paisagem árida e trazem a boniteza para ela.

Meu cacto foi parar do lado de fora da janela da cozinha. Está ali: sujeito a todo tipo de intempéries (sol, chuva, vento, garoa, neblina…) e num lugar nada glamuroso, sem destaque algum. Vulnerável, entregue. A parte mole e amarelada, entretanto, aos poucos foi recuperando o verde, ganhando a firmeza perdida. Novos caules foram nascendo, crescendo. Chegou ao ponto de eu pensar em comprar um vaso novo. Preciso perguntar à tia como replantá-lo.

Há três semanas tive uma surpresa. Fui conversar com ele – sou da espécie que conversa com fauna e flora – e me deparei com um tímido botão.

– Mãããããe, acho que o cacto vai dar flor, vem ver! – Meus olhos brilhavam, claro.

Foi aí, então, que a minha mente lenta que gosta de ser ansiosa resolveu sair da maratona e correr um sprint: “Será que o botão vai crescer?”, “Será que vai abrir outro botão?”, “Será que a flor demora para abrir?”, “Que cor será a flor?” – emoções todas de alguém cujos outros cactos e suculentas nunca floresceram, tal qual mãe de primeira viagem.

A onda de calor veio e, por incrível que pareça, meu cacto amou! Apesar de tomar todo o sol da tarde, o botão estava a cada dia maior e maior e maior. Maior a ponto de minha mãe vir me dizer um “manda foto para sua tia e pergunta se isso é normal”. Mandei a foto só pra dizer que vinha uma flor por aí. Ela, claro, ficou feliz também.

Ontem de manhã fui lavar a louça do café da manhã e espiei o outro lado da janela. Algo havia mudado. O botão estava abrindo. Corri para destrancar a porta e atravessar a parede. Precisava observar mais de perto. Era verdade!!! Estava abrindo uma flor peluda e rajadinha – quase como a descrição de um gato. Tirei foto orgulhosa – não sem antes dizer ao cacto que sua flor é linda! – e mandei a imagem para a minha tia, que está em viagem, e para as minhas melhores amigas – que acompanham de perto as minhas trivialidades. Na conversa com elas surgiu a dúvida: que cacto é esse, afinal?

Usei o Google Lens para a pesquisa. Coloquei a foto que havia tirado. O primeiro link, em inglês, dizia que a espécie é sul-africana, que há variações nas cores da flor (podem ser roxas, brancas, amarelas e rosa) e que – apesar de parecer carnívora – por causa dos pelinhos na flor –, a planta não é. Aliás, ela é adequada para quem tem pets. Vir de um lugar quente explica ela ser o único ser vivo nesta casa a amar a onda de calor.

Duas horas mais tarde, fui pegar um balde no quintal, e ela já tinha aberto de vez. Florida em sua potência. Fiquei emocionada. Tirei uma nova foto. Mandei para a tia, para as amigas e postei nos stories do Instagram.

Gosto de registrar trivialidades que ninguém se importa. Elas me comovem e me lembram que – apesar de estar num mundo tão bélico – a poesia nasce das rachaduras e de frestas.

(Ainda bem.)

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domingo, 9 de fevereiro de 2025

Maresia

domingo, fevereiro 09, 2025 6


“Estou sendo atropelada por uma onda de amor”, me ouvi dizendo a uma amiga mais próxima. Há tempos — anos, sem exagero algum —, não me sentia assim. Bytes que vêm e vão também é troca? Faço pontes entre o meu cantinho e lugares remotos. Assim celebro as pequenas conquistas diárias. O tempo passa de modo distinto, e eu fico pensando quantos anos cabem nesse intervalo que chamo de temporada 2020-2021. Muitas pessoas vieram — algumas delas parecem estar aqui desde sempre — e outras se foram. Aprender a me respeitar é mais que preciso, é questão de sobrevivência.

Leio poesia como quem respira. Cada verso agita as moléculas do meu corpo, reverberando vida. “Deu para ver na sua pele o quanto você parecia feliz por estar ali”, foi o que a minha amiga respondeu. Cada vez mais eu penso sobre o ser inteira. Em um mundo que acelera tudo em nome da produtividade, quero estar lenta, entregue e completa nas minhas relações com os outros.

Escrevo. Solto pensamentos nas páginas do meu diário sem pensar muito o que vou fazer com eles. É preciso fazer algo?! Escrevo, faço polaroides, brinco com as gatas, observo o céu. Será que voltarei a compartilhar silêncios amorosos com quem me quer bem?

A roda da fortuna está girando. Tenho sorte de receber avisos amorosos de oráculos, anjos e pessoas que me querem bem — Deus tem ótimos mensageiros. Tenho sorte por receber amor de onde menos espero. É claro que há decepções pelo caminho, que há dores pelo caminho, que há genocidas pelo caminho. Nada é cem por cento flor, mas continuo plantando e lutando. Uma hora a semente germina.

Há tempos não punha os pés fora de casa. Não sabia que agora dá para pagar o metrô com aplicativo do celular ou que finalmente arrumaram o poste e a minha rua está melhor iluminada à noite. Há tempos não saía, mas fui brindada com uma chuva de folhas das árvores sobre a minha cabeça — elas me deram o melhor de si. O amor vem de todos os lados ou sou eu que sempre me transbordo demais?

Os últimos trinta dias foram tão intensos quanto um passeio pela maior montanha-russa do mundo. Isso, de algum modo, me deixa de ressaca — uma ressaca boa, de quem tem histórias para contar. Vou com as ondas, sacolejando de um lado a outro, tentando tirar o melhor de cada experiência. A natureza também sou eu.

Converso sobre a previsão do tempo com quem sente mais frio que eu. Passo café no meio da tarde. Mergulho em sonhos com Netuno. Tenho conversas profundas sobre sentimentos piegas. Reflito sobre o que quero deixar de legado. Coleto os pequenos acontecimentos e os coloco na prateleira da vida. O tempo, por sua vez, brinca de se arrastar e correr num piscar, enquanto eu ouço os lendários entoando clássicos do rock no player do meu computador. Me rendo a uma atmosfera de esperança que me circunda, me empurrando em direção ao futuro — seja ele qual for.

Talvez eu esteja quebrando a promessa de enviar uma crônica por mês. Não sei se o que escrevo pode ser considerado crônica (no sentido Rubem Braga de ser), mas sigo. Sigo, porque tenho sede de me interligar com quem me lê. Sigo, porque quero me conectar ao mundo como fazem os bytes do meu computador. Sei que minha sede profunda nunca acabará. Ela me faz ser e estar aqui. Completa. Inteira. Sempre.

E você? Você também está me lendo por inteiro?

Olho para as minhas inconsciências. Elas são mapas para eu não me perder.

Este texto foi enviado na minha newsletter em 30 de maio de 2021. Para receber outras crônicas como esta em seu e-mail, inscreva-se
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domingo, 29 de dezembro de 2024

O limbo e uma dose de esperança

domingo, dezembro 29, 2024 4
Foto de Ch Photography na Unsplash.


Escrevo este texto em 25 de dezembro, também conhecido como Natal. Desde pequena, me pergunto se a gente comemora o aniversário de Jesus — e, por consequência, todos os outros — do modo correto. Minha cabeça de virginiana que é analítica, mas que não sabe lidar com a exatidão matemática, se questiona se o certo não seria usar o fuso horário de Belém e fazer as contas. Afinal, 25 de dezembro em Belém pode ser 26 na Austrália e 24 no Chile, não pode? (Não sei, nunca fiz as contas.)

Estava vendo um reel que mostrava uma moça islandesa. Na Islândia, a comemoração começa às 6 da tarde do dia 24 de dezembro, mas os presentes começam a chegar 13 dias antes, trazidos por 13 papais Noel (ou Noéis?) diferentes. Segundo ela, alguns deles são assustadores. Todos são irmãos e filhos de uma bruxa. Assim como acontece com o Papai Noel universal, eles só presenteiam as crianças comportadas (as que não se comportam são devoradas pela bruxa).

Minha mãe conta que ela deixava o sapatinho na janela durante a época de Natal e que uma tia — irmã do meu avô — costumava deixar presentes para ela e para os meus tios em nome do bom velhinho. O medo da minha mãe era receber um pedaço de carvão, como “punição” por não ter sido uma boa menina. Li na Deutsche Welle que essa é uma das tradições italianas, que lá, “a bruxa Befana leva doces para as crianças boas. As que foram ‘malvadas’ recebem um pedaço de ‘carvão’ feito de açúcar.” — não sei como a história do carvão foi chegar na Zona da Mata pernambucana, mas aí está uma tradição que se repete.

Este ano ganhei um único presente de Natal. Biscoitos de gengibre numa caixa bonitona que veio da minha irmã do coração. Ela sabe o quanto amo o Natal, embora as pessoas ao meu redor não gostem muito da data. O presente, me emocionou. Já eu, comprei alguns que quero entregar pessoalmente, conforme for encontrando os queridos por aí.

for encontrando”. Acho que o gerúndio é o motivo de eu ter começado a escrever este texto. Gosto de desacelerar em dezembro e dessa espécie de limbo nostálgico para onde ele me transporta. É uma coisa entre dois mundos. Apesar de estar aqui, olho para trás, numa tentativa de saber se saí ou não do lugar; olho para frente, numa tentativa de viver uma vida ainda mais harmoniosa comigo mesma. É um limbo e uma dose de esperança, ainda que a palavra “limbo” me remeta a um espaço meio de areia movediça.

2024 foi um ano atípico. De um lado, vi muita gente que eu amo perdendo pessoas queridas ou vivendo um luto de anos anteriores, vi muita gente ficando doente — eu mesma, inclusive, passei meu aniversário bem ruim. Além de toda pobreza e fome e guerras no mundo, das tragédias climáticas, como a que assolou o Rio Grande do Sul no início do ano e do racismo, houve todos os problemas da vida pessoal e familiar pelos quais muita gente também passa. A sensação que me dá é que se a gente ficar olhando muito pra tudo o que vê nas notícias e ao redor, que a gente será engolido pelo limbo movediço.

Mas há esperança. Sempre há. Se de um lado houve tantas dores, do outro, ganhei novas alunas, trabalhei no meu terceiro livro, reativei meu canal no YouTube, voltei à newsletter, publiquei meu primeiro livro traduzido para o espanhol, consegui me colocar alguns pontos finais em relacionamentos que eram tóxicos, me curei de muita coisa, me diverti nos inúmeros shows que fui. Ter contato com a arte me alimenta: sempre há o lado meio cheio do copo.

2025 vem aí, “um ano novo que traz consigo 365 páginas de possibilidades”. Alguns clichês não são clichês à toa. Há algo na sabedoria popular que nos dá um alento, um fôlego. Que 2025 seja isso: um sopro de vida para o nosso espírito realizar os nossos desejos mais profundos sem medo, vergonha ou culpa. Que, planejando ou não, nós cheguemos naquele espaço em que nos sentimos verdadeiramente acolhidos. Que tenhamos a coragem de atravessar o que tivermos que atravessar e que todos os caminhos nos levem na direção de casa. 😊


Este texto foi enviado em primeira mão na minha newsletter de presente de Natal. Para receber este e outros textos, inscreva-se aqui.

Boas festas! 
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sábado, 18 de maio de 2024

Maré cheia

sábado, maio 18, 2024 6

Foto de Jakob Owens, via Unsplash.
  

Sou covarde até para a morte.


O lugar em que aprendi a jogar xadrez, em que retornei para celebrar o meu aniversário de trinta anos, não existe mais. Soube quando quis voltar lá e, simplesmente, fui impedida: portas e janelas fechadas. Nenhum José para, sequer, perguntar “e agora?”. O que fazer quando os lugares das memórias afetivas se vão? O aniversário de 30 foi um dos mais divertidos, isso porque  foi simples. Também foi o ano em que ganhei balões. Aos 30 anos, foi a primeira vez que ganhei balões. Quase uma década depois ainda me emociono com a singeleza do gesto: uma tentativa simbólica do desejo de uma amiga-irmã de me ver a voar alto, de me ver indo longe. Já daquela partida, me lembro muito pouco. A lógica do jogo (de tabuleiro e do amoroso) nunca fez sentido na minha cabeça. Demorei para vencer (ganhei na quinta ou sexta partida), perdi no amor. Rebaixei na vida.


O importante é se manter em movimento. Subo a rua até a avenida, procuro outro lugar tranquilo para tomar um café e escrever. Peço um croissant e um café no maior tamanho possível. Os planos eram sentar, rever o eterno projeto do NaNoWriMo e retomar de onde parei. Continuar em movimento, mesmo sem planos, mesmo sem saber para onde ir. Contudo, minha cabeça fervilha mais do que antes, mais do que nunca. Por isso, esta crônica.


Como o croissaint na velocidade de quem não quer ser engolida pelo mundo, mesmo sendo atropelada constantemente por ele. À minha frente, um casal. Ela sem as sapatilhas; ele conversando e massageando um dos pés dela sob a mesa. Há amor e cumplicidade. Será que eles já perderam alguma partida de xadrez pelo menos alguma vez na vida?


Leio textos sobre Clarice e me pergunto se ela encontrou, afinal, a paz na palavra. A procura se findou com o último texto escrito, no ponto final de sua morte ou ainda continua? Quando eu olho para frente, não tenho mais perspectiva. Queria me tornar uma senhora feliz e entusiasmada, mas sigo aqui, uma jovem no fim da década balzaquiana com ar amargurado, que não sabe qual é o seu lugar no mundo. Será que há um lugar que caiba este latifúndio?


Durante a semana tive conversas duras. O mundo não é mais o mesmo. Tudo está morrendo. Ao mesmo tempo, o mundo continua sendo mundo. Se eu pegar os textos do meu poeta favorito, escritos há praticamente um século, lerei poemas, contos e crônicas sobre guerras e destruição da natureza. Todas as notícias da semana afirmam que nada sobra de novo no front.


Uma dupla se senta ao meu lado. Elas não param de falar sobre o assunto da minha fobia. Estou passando mal só de ouvi-las e não trouxe os fones de ouvido. Tento abstrair. Não quero ter que mudar de lugar, não quero ser rude. Sei que rugir sem motivo aparente é loucura, mas minha vontade é a de enlouquecer de vez, de morrer de vez, de acabar com tudo.


Um amigo me diz que isso é estar vivo, que a humanidade veio para se autodestruir, que é da nossa natureza, que não há jeito de fugir da essência que a nossa espécie traz em seu DNA. Minha psicóloga diz que é uma fase, que tudo vai passar, que é preciso erguer a cabeça, que esperança é fundamental, que vê potencial em mim e em tantas outras pessoas a quem ela atende, que tenho que tomar cuidado para não absrver o que não é meu. Mas a verdade é que cidades são arrasadas. Tudo morre numa velocidade assustadora. E eu não acredito em mais nada. Não me lembro mais das regras lógicas do jogo.


Questiono se Deus ou qualquer outra força maior existe(m). Retiro a culpa de Lilith e de Eva. Elas, mulheres como eu, feitas de barro frágil, obrigadas a carregarem o peso do pecado do mundo, o peso da ausência de perfeição. Retiro a culpa delas, como gostaria de fazer com as minhas. Refaço os caminhos do passado repetindo a mim mesma que eu fiz o meu melhor com as informações que eu tinha. Que eu estou fazendo o meu melhor com o que tenho hoje. Há uma fera que quer sair. Eu a prendo enjaulada. Há luta, há desgaste. Ela vaza pelos meus poros, heroina em sua própria jornada. 


Enxaqueca.


Me forço a escrever mesmo assim, mesmo sabendo que estou me repetindo, porque hoje ouço demais para penetrar no reino das palavras. É preciso surdez para adentrar a este reino. A surdez da entrega que me falta. Me forço e me repito, porque também busco algo que não sei o que é. Me forço, por isso escrevo, mesmo sabendo que as portas do reino estão fechadas. Ouvi de um aluno do ensino médio que textos tristes são os melhores. (Não queria escrever coisas tristes, mas talvez essa seja uma das poucas coisas que sei fazer bem.) Concordo com ele e continuo. Me mantenho em movimento. Isso é importante. Me mantenho em movimento mesmo quando não sinto o movimento.


As amigas que estavam ao meu lado vão embora; o casal fofo à minha frente, também. Encaro a tela em branco. Fico sem ideias. Jogo “Chagall" no Google para ver as pinturas que tanto impressionaram Clarice. A leveza é tamanha que, em um dos quadros, a mulher flutua. Sinto vontade de pintar. Me lembro do pacote fechado de aquarela que tenho em casa, mas tenho dúvidas sobre o quanto possível fazer arte quando não se tem um teto todo para chamar de seu.


Tudo morre numa velocidade assustadora. A maré cheia é devastadora de sonhos.


Me lembrei desta música enquanto escrevia. :) 
Saudades, Cássia. 💚

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