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domingo, 16 de agosto de 2026

{Vamos falar sobre escrita?} Entrevista com a escritora Nathália Pureza

domingo, agosto 16, 2026 3
Conheça o trabalho da escritora Nathália Pureza.

No post de hoje eu trago uma entrevista muito especial, com a escritora Nathália Pureza. Conheci a Nath quando ela se tornou minha aluna na mentoria de escrita literária há cerca de três anos. De lá para cá, vi a literatura que ela produz amadurecendo a ponto de se tornar um site, um livro e mais alguns projetos bacanas que virão por aí. Sendo assim, gosto muito da ideia de que vocês possam conhecer não só dela, mas da literatura dela também. Vamos lá?

Algumas Observações: Olhando para a sua trajetória, eu queria que você falasse um pouco do nascimento do Voar alto não precisa ser tão difícil. Em qual momento você decidiu escrever um livro? Como foi a construção da obra e quanto tempo durou esse processo?
Nathália Pureza: Comecei a escrever com treze anos, quando ganhei um caderno de meu pai, que me falava para expressar meus sentimentos quando eu não conseguia falar para outra pessoa. Desde aquele dia, sonhei que eu escrevia um livro. Ideias vinham espontaneamente e também a vontade de elaborar coisas não vividas, refletir, descobrir a mim mesma, os outros e o mundo concreto, acontecimentos, bem como a ideia de um livro. Apesar do sonho, primeiramente fui escrevendo coisas aleatórias. Quando estava no Ensino Médio escrevia, recitava poemas, e meu Professor de Literatura me incentivou a escrever um Livro de Poemas, que no caso se tornou o Voar Alto. Primeiramente juntei todos os poemas que eu tinha, cheguei a enviar para uma editora, mas não deu certo. Ainda bem! Na faculdade de Letras aprendi muitas técnicas sobre Literatura e Escrita e, como trabalho final, podia entregar projetos mais criativos, trouxe esse livro, para aprimorá-lo. Depois de sair da faculdade tirei um tempo para descansar, mas continuei escrevendo coisas. Queria que esse livro se concretizasse. Conversando com meus pais, percebemos que eu precisava de orientação, de um empurrão para que o livro e minha escrita se concretizassem, fossem mais profissionais. Resolvi buscar! Tentei uma antiga professora minha, mas ela disse que não fazia essa orientação que eu estava pedindo e me sugeriu buscar uma oficina. Sou muito intuitiva e introvertida, senti que não era isso que eu precisava. Então comecei a buscar na Internet pessoas especialistas em Poesia, depois de muito procurar achei a Fê (Rodrigues) e intui que ela era a pessoa certa para me ajudar. Com ela falei do livro e mandei o arquivo de como ele estava até ali. Precisava de aperfeiçoamento. Paralelamente a isso ela passava propostas de textos das aulas. Fazia os textos, mas esquecia de enviar para ela. Mostrar o que escrevo é desafiador. Então, ela sugeriu que eu começasse a enviar os poemas do livro, em blocos, o que tornou o processo mais leve. E assim ele se tornou o que é. Então... o processo durou, quase uma eternidade, diria que 11 anos.

AO: Seu livro é dividido em partes? Como você pensou cada uma delas? Que sensações você queria despertar no seu leitor durante o percurso de leitura?
NP: Sim, ele é divido em três partes. A primeira fala de sentimentos, memórias, caminhos turvos, mistura do presente e do passado, conflitos, que geraram algumas descobertas; a segunda mostra a busca pelo novo, mas ainda com resquícios do passado, experiências e reflexões internas; a última é sobre as quedas, as dores, as descobertas, busca por leveza, integração, continuar, seguir em frente, mesmo quando o passado e suas questões insistem em voltar. Apesar de ele ter essa separação definida, seria interessante o leitor não pensar tão linearmente. Na verdade, o leitor pode encarar o livro todo como um processo, com mergulhos, descobertas de si, do outro, de mundos, bem como suspensões, respiros, retornos, voos, sensações que as palavras, os sentimentos, as pessoas e acontecimentos podem mostrar, causar, impactar – transformar.

Nathália Pureza

AO: Como é para você esse processo de dar nomes ao livro, às partes do livro e aos poemas? É um processo mais de análise ou mais intuitivo e por quê?
NP: Começa como um processo muito intuitivo, espontâneo. Mas com a Fê, aprendi a olhar e criar títulos a partir de coisas que estão dentro do livro, uma frase, um verso, o título de um texto que está dentro dele. Voar Alto, por exemplo, é na verdade o verso de um dos poemas que está no livro. Diria, então, que é uma mistura dos dois.

AO: Por enquanto, o seu livro saiu apenas em formato de e-book e você optou por fazer uma publicação independente. Por que essa escolha? Como foi escolher publicar de forma independente?
NP: Na verdade, desde quando ele surgiu e ainda não era o que é, meu pai me incentivava a publicar na Amazon. O livro passou por algumas editoras e foi recusado. Senti uma urgência de publicá-lo, porque ele já estava pronto e também porque esse termo Voar Alto, tem circulado bastante atualmente, por isso o e-book. Além disso, a Amazon foi onde várias escritoras, poetas da minha geração começaram a se auto publicar: Rupi Kaur, Amanda Kviatkovski, Maria Costa, todas poetas. Publicar de forma independente é desafiante, porque o autor tem que divulgar muito e por conta própria, geralmente com apoio da família e dos amigos. Acredite ou não, para mim, divulgar têm sido mais difícil do que todo o processo de escrita e construção do livro. Tenho dificuldade de mostrar o meu trabalho.

AO: Para muitas pessoas é difícil se assumir como escritores. Como foi esse processo de se autointitular escritora e se inserir no mercado profissional?
NP: No meu primeiro ano de Mentoria com a Fê ela me falava “Escritora você já é!”, coloca lá na bio do seu Insta – Escritora, quando as pessoas perguntarem da sua profissão fala o que você é, escritora. Com ela também criei um site do zero, nele publico alguns poemas, crônicas e textos, palavras soltas, pensamentos que não tem um gênero definido, a que chamei de Pluralidades; também aprendi coisas sobre rotina criativa e como responder, dialogar, corretamente com as editoras, por exemplo o que fazer antes de enviar meu original e como refletir melhor sobre as editoras e seus critérios diferentes de publicação.

AO: Você começou a escrever e procurou uma formação literária ou foi o contrário? Poderia comentar um pouco sobre a ligação entre a sua formação e a profissão de escritora? A sua formação transformou seu processo de escrita ao longo do tempo?
NP: Comecei a escrever e procurei a formação. Fiz alguns meses de Jornalismo, mas não gostei e também sentia que minha escrita era mais ficcional do que jornalística, apesar de eu gostar de pesquisar e achar importante saber dos acontecimentos do mundo, inclusive para escrever. Então conversei com uma prima e ela me sugeriu fazer Letras. Enquanto procurava o Curso e as Universidades, me deparei com o Curso Letras – Produção Textual (Formação de Escritor), na PUC-Rio. Não fazia ideia que isso existia. Aí me formei nisso. Então, sinto que sim, minha escrita amadureceu muito, principalmente no nível técnico.

Nathália Pureza compartilha a sua rotina de escrita.

AO: Como é a sua rotina de trabalho com a escrita? Você estabelece metas para si mesma? Se sim, como essas metas te ajudaram a escrever o Voar Alto?
NP: Estou sempre lendo livros e coisas na internet. Leio um de cada vez, buscado revezar os assuntos e gêneros. Tenho “Ansiedade Literária”, sempre em busca de livros, assuntos, autoras/es que eu gosto, isso nunca para ou termina, mas não sofro. Em si minha escrita é mais espontânea, então a ideia, a palavra, vem muito rápido, anoto no que tenho mais perto de mim: notas do celular, caderno, papel solto, computador etc., e edito na hora, mas também deixo um tempo, para revisar e aprimorar. Quando me sinto muito travada, começo a ler textos e livros de autoras e gêneros daquilo que estou escrevendo, bem como também, assistir entrevistas sobre autoras/autores e seus temas, processos criativos, ou, uma coisa mais aleatória, assistir um filme, uma série. A Fê me ensina a escrever sob demanda, a cada quinze dias ela me passa uma proposta de escrita. Alguns textos escrevo rápido, mas demoro a entregar, porque reviso demais, outros demoro mais a escrever, porque me desafiam no gênero ou temática, por exemplo contos, que estou praticando desde o ano passado.

AO: Ainda falando sobre o seu processo de criação, quais são os desafios diários de ser escritora? (Como você lida com a procrastinação? Com medo de não corresponder às expectativas? Às vezes bate aquela sensação de insegurança, sensação de não ser boa o bastante? Como você vence os bloqueios criativos de modo geral?)
NP: Acho que meu maior desafio, particularmente, é escrever em um tempo curto sobre o que me pedem para escrever. A sensação de insegurança sempre me ronda. Também acontece de uma coisa, um assunto que eu não imaginava, acabar me inspirando. Como falei antes, leio textos dos gêneros, assisto entrevistas, um filme, uma série, coisas que eu gosto, também converso com pessoas próximas.

AO: Nos seus textos você costuma falar sobre o amor e outros sentimentos nobres — eles, inclusive, aparecem no Voar alto não devia ser tão difícil. Como você vê a relação do seu público com a obra que você produz, uma vez que vivemos em um mundo tão caótico e violento?
NP: Sendo bem sincera não tenho muita certeza ainda sobre o meu público. Quando eu publicava no Face e depois no Insta, eram coisas mais espontâneas, ou que eu tinha escrito a um tempo atrás. Mas penso que o Amor é um tema universal humano e da Literatura, nunca se esgota. A Fê me ensinou a explorar, pensar e escrever sobre isso de outros jeitos e pontos de vista diferentes.

AO: Falando do texto em si, o que você mais gosta de escrever? Como funciona o seu processo de pré-publicação dos seus escritos e o que você acha importante fazer antes de soltar um texto no mundo?
NP: O poema é onde me “sinto em casa”, na verdade diria que é quase um vício, não vivo sem escrever versos. Sou muito autocrítica, reviso muitas vezes antes de publicar. Quando comecei a publicar no Instagram publicava mais coisas que eu tinha acabado de escrever, não sem antes revisar mil vezes e trocar ideias com pessoas próximas, rsrsrsr e depois, fui ficando mais seletiva, mais cautelosa, bem como também acabei acumulando muitos textos soltos, que fui revisando e aperfeiçoando, em parte que eu já tinha escrito antes e outros depois, além das temáticas e propostas que vejo nas aulas, que a Fê ensina na Mentoria. Faz um tempo que estou com certo bloqueio, não para escrever, mas para publicar. Então, estou reaprendendo a deixar ir, soltar, publicar e não ficar pensando, imaginando tanto o que os outro vão achar, como vão agir/reagir, qual impacto estou causando, nesse sentido no meu caso, só praticando mesmo. O que fazer? Diria que uma revisão gramatical e também para você prestar atenção em como você mesma(o) se sentou depois de escrever, se sentou feliz e leve, sugiro soltar.

Instrumentos de ofício da Nathália Pureza.

AO: Você também escreve no seu site. Pode comentar um pouco sobre esse tipo de escrita?
NP: No meu caso eu já tenho muita coisa acumulada, que já está escrita, mas não está exposta. Falo isso porque talvez quem escreve em site, provavelmente escreve e publica, tudo junto, de uma maneira contínua, tanto textos técnicos quanto coisas pessoais, cotidianas, bem como também possíveis temáticas que gosta, mas também assuntos que estão circulando, ou não e que a pessoa goste ou ache relevante falar, refletir sobre tal assunto. Comigo foi um pouco ao contrário, revisei e editei muitos escritos antigos primeiro, que estavam engavetados, para depois publicar. Mas pode ser que em um futuro muito próximo isso mude, e eu não planeje mais tanto, reestabelecendo e ressignificando essa rotina. Além disso, estou sempre escrevendo, um texto, um pensamento, uma linha que seja!

AO: Quais conselhos você daria para uma escritora em começo de carreira?
NP: Escreva do seu jeito, se permita ser espontânea. Explore, se descubra. Leia coisas, autoras(es), gêneros que você gosta, mas também, coisas diferentes. Pratique para aperfeiçoar, compartilhe com seus amigos, pessoas próximas e que você confia. Mas, se quiser ser mais profissional, procure um especialista em texto, mercado literário e no gênero textual que você está escrevendo, ou alguém que entenda muito de português e do tema. Vá compartilhando, mostrando seus textos na Internet: redes socias ou site, blog.

AO: Quais são os seus planos futuros? Já pensa em um próximo projeto?
NP: Sim. Tenho quatro livros começados. Cada um vem seguindo um ritmo diferente. Tento seguir uma ordem, dos que vieram primeiro, mas nem sempre consigo manter, então, vou deixando acontecer espontaneamente. Inclusive um deles, surgiu ao acaso, não foi planejado, muito recente, através de um exercício da Mentoria.

AO: Você publica vários textos seus no Instagram e no seu site. Então, gostaria de saber qual é a sua visão sobre o papel das redes sociais para a carreira da escritora. Além disso quero aproveitar para perguntar por onde/como as pessoas podem entrar em contato com você? Como elas podem adquirir o seu livro?
NP: A internet abriu muitas portas para Escritoras(es), tornou a escrita, o acesso a ela e a troca entre autora e leitor, escritora e público mais democrática, mais próxima. Na Poesia especificamente, a internet e as redes sociais fizeram com que os poemas ficassem mais acessíveis, conectivos, inclusive na linguagem, amenizando a distância escritor-leitor e afastando o “medo” e crença das pessoas de que a poesia, os poemas, são difíceis de entender e ler por causa da linguagem. Poemas geralmente retratavam fragmentos, sentimentos, de um jeito que poucos apreciavam. Com internet e redes sociais surgiram os Instapoets, o que na minha opinião democratizou a poesia e aproximou mais os leitores, uma vez que as poesias passaram a ter uma linguagem mais simples e mais próxima da oralidade e do cotidiano, além de uma busca por mais igualdade – a maioria dos poetas contemporâneos escreve os versos com letras minúsculas, ou todas maiúsculas, justamente para representar mais igualdade e não afastamento, separação ou hierarquia e empoderamento.

Meus Textos estão publicados no meu Instagram: @purezanathalia,
Facebook: Nathalia Pureza
Podem me chamar no Direct (acesso mais o Insta) e no e-mail: natahaliapureza@yahoo.com.br

AO: Deixe o seu recado para os leitores do Algumas Observações.
NP: Queridas(os) leitoras(es) do Algumas Observações, escrever é um abrir e bater de asas, pousar, entrar, se permitir molhar, fluir no rio, desaguar no mar, se deliciar nos pingos de chuva, se secar e se aquecer ao sol, em dançantes faíscas. É por vezes saltar no vazio, esbarrar, encontrar, dançar com outras vozes e corações cheios de tinta e cores, e também encarrar os próprios abismos, as sobras, mas também colocar, descobrir, deixar fretas para que a luz entre. Não prometo um céu estrelado todo tempo, mas de mãos dadas e corações pulsantes, vozes unidas, seguimos avente, batendo asas.

Beijos,
Muito Obrigada!
Nathália Pureza, Escritora

Conheça o livro da Nathália Pureza

Capa.

Livro: Voar alto não precisa ser tão difícil
Autora: Nathália Pureza
Ano: 2026
Páginas: 57
Formato: e-book
Apresentação: Em um mundo com tantas possibilidades, tecnologias, “facilidades”, por que às vezes podemos sentir dificuldade de encontrar leveza pelo caminho? Como as experiências passadas nos impactam negativa, positivamente até o momento presente que vivemos? Como lidar com isso, alçar voo e seguir além, além?
Olhar para si, para o outro. Caminhar pelo mundo livre, descobrir, criar mapas, atravessar direções tortas, correr riscos. Antes de alcançar o céu é preciso saber alavancar os pés na terra, caminhar sobre ela, descobrir, adentrar as águas de si, saber, aprender a atravessar o sol, as tempestades? Entre turbulências, com asas feridas, corações alagados voar, continuar a bater asas, bem abertas, voar grandes alturas sem temer a queda e seguir de peito aberto, apesar de.
Este é um livro dividido em três partes onde presente e passado se misturam, lembranças e emoções são turvas, mas geram reflexões; a busca pelo novo, ainda com resquícios do passado, novas experiências, reflexões internas e breve união do passado com o presente, impactos, soluções breves, caminhos desconhecidos, inexplorados, valem algum risco. Um conjunto que leva o leitor a reflexão de si, do mundo, dessa sociedade atual tão livre, cheia de alternativas, opções, mas ao mesmo tempo tão líquida e cada vez mais acelerada, instável.
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domingo, 18 de janeiro de 2026

Minhas metas literárias para 2026

domingo, janeiro 18, 2026 24
Estátua romana do deus Janus.
(Museu do Vaticano)

Quem nomeia o mês de janeiro é o deus romano das mudanças e transições Janus (ou Jano. Ianus, no latim). Ele é representado como uma pessoa com duas cabeças: uma olhando para o passado, outra olhando para o futuro. O curioso é que, como qualquer pessoa, ele vive no presente.

Gosto dessa coisa meio entre dois mundos, cuja a ambivalência mora justamente no estar presente. Como uma pessoa duplamente diagnosticada com depressão e ansiedade, não ficar focada só no passado (depressão) ou só no futuro (ansiedade) é um exercício diário. Aí vem Janus e me lembra que cuidar das pequenas coisas, no presente é o caminho.

Sempre fui uma pessoa focada. Estudando psicologia educacional, jogo a culpa do meu foco excessivo à ordem do meu nascimento (ser a filha mais velha tem dessas coisas). Já estudando astrologia, posso culpar o meu Sol em Virgem ou o meu Marte em Capricórnio. Enfim, voltemos ao foco. O que importa é que ao longo dos anos, fui compreendendo melhor como chegar ao equilíbrio entre passado e futuro, entre sonho e objetivo, entre metas, passo a passo e realização. Equilíbrio. Proporção que me cuida e não me exaure. Esse é o caminho.

Para 2026, tracei várias metas para as diferentes áreas da vida e hoje quero compartilhar com vocês as que dizem respeito à literatura.

Metas de escrita

De uma tarde de escrita na biblioteca municipal. 💚

Tenho 7 metas de escrita para 2026. São elas:
  1. Terminar de escrever o projeto secreto com a Ane e com a Ayumi (vem coisa legal no Projeto Escrita Criativa);
  2. Terminar de revisar o meu terceiro livro de poesia;
  3. Definir um nome para o terceiro livro de poesia e se vou querer publicá-lo (meu editor está me cobrando isso!);
  4. Escrever no diário todos os dias;
  5. Publicar aqui no blog todos os domingos. Espero conseguir fazer os 52 posts. (Em 2024 eu fiz 33 de 52; já em 2025, esse número subiu para 38. Será que em 2026 eu finalmente bato essa meta?);
  6. Escrever os temas do Vivenciando a Escrita;
  7. Participar de concursos literários.

Metas de leitura

De uma tarde lendo no parque. 💚

Eu tenho apenas 3 metas de leituras pra este ano:
  1. Fazer mais registros das minhas leituras, seja nas resenhas, seja nos vlogs pro canal.
  2. Ler mais livros da minha estante;
  3. Terminar de ler os livros que comecei e ficaram pelo caminho.

Sei que as metas de escrita já ocuparão boa parte do meu tempo e quero seguir gentil com as minhas leituras. Ano passado, já estava tratando as minhas metas de leitura com essa pegada e me vi surpresa por ter lido 20 livros ao longo do ano (considere que eu viajei, fiquei doente e trabalhei demais no meio desse caminho). Ficarei satisfeita se continuar nessa toada, até porque eu já leio muita coisa extra por conta do meu trabalho como professora de escrita e como leitora crítica e revisora de textos e dos meus estudos de pós-graduação.

Meus três livros literários juntos. 💚 Você pode comprá-los clicando aqui


Agora me conte: você tem alguma meta literária seja ela de escrita ou de leitura? 

Quer tirar o seu livro do papel e não sabe como? Vem fazer mentoria de escrita literária comigo. Me escreva no contato@algumasobservacoes.com para mais detalhes.
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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Livros que comprei em Buenos Aires

sexta-feira, outubro 31, 2025 12

Como contei aqui, passei meu aniversário em Buenos Aires e é claro que eu aproveitei a viagem para fazer uma das coisas que mais amo: comprar livros!  YAY!

Trouxe cinco. E agora vou compartilhar um pouco dessas compras, assim como fiz com os que comprei n'A Feira do Livro.


Diario de la dispersión

Quando eu fiz a a disciplina de mestrado como aluna ouvinte lá na Unifesp, a professora Paloma Vidal nos apresentou o começo do livro Diario de la dispersión, da argentina Rosario Bléfari. Eu li aquelas páginas e fiquei encantada. Procurei para comprar aqui e não achei, por isso viajei na missão de trazer um exemplar comigo. Bléfari, assim como a Patti Smith, é uma multiartista, algo que me encanta e me inspira. 😍

Achei o livro no Mercado Livre, vendido pela livraria Libros Del Buen Leer (@delbuenleer). Pedi pra entregar na casa da Ayumi (quem tem amigo, tem tudo!) e trouxe feliz. 😁 Nem preciso dizer que ele passou na frente de todos os outros livros que tenho para ler, preciso?

Capa de Diario de la dispersión.

Livro: Diario de la dispersión
Autora: Rosario Bléfari
Editora: Mansalva
Páginas: 144
Gênero: Poesia e ficção latino-americana 
Apresentação: Pasaron las semanas, los meses, y en el camino muchas veces pensé que este era el diario de la dispersión pero también el diario de mi salud debilitada –aunque no hiciera alusiones directas a ella–, el diario de las despedidas, el diario de una mujer que responde a la obligación filial de hija única para salvarse a sí misma al mismo tiempo, el diario del amor, la maternidad y la amistad a distancia. Podría seguir cada tema sin mencionar los demás, pero explicitar parte o no explicitar nada se volvió un dilema. También estas dudas son parte del análisis de la dispersión. Puedo decir a esta altura que mi método funciona, estoy segura, pero este experimento se me fue de las manos: ahora todas las personas del mundo lo están probando. Algunos reniegan, otros gozan, algunos se angustian y otros se sorprenden. Desplegarse no es desaparecer, no es alejarse o ser voluble sin sentido. Rosario Bléfari.


Promoção de poesia

Na minha segunda semana de viagem, aproveitei o meu tempo para passear pelas inúmeras livrarias da Corrientes. Na Sudeste Libros (Corrientes, 1773), eu encontrei uma promoção que me chamou a atenção: 3 livros de poesia por 10000 pesos (cerca de 40 reais). Não pensei duas vezes. Peguei 3 de uma mesma coleção: antologias que apresentam as obras de seus autores.

Ironicamente, não escolhi nenhum argentino, mas isso não invalida o contato com a obra e com a língua espanhola. Dentre as opções disponíveis, li os poemas da quarta capa para fazer a escolha. 



O primeiro escolhido foi do mexicano Octavio Paz; o segundo foi o do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca; por fim, o terceiro é do também espanhol Rafael Alberti. Sei que os três são famosos, mas não tive a oportunidade de ler a obra deles, então será um bom primeiro contato. 

Poema da quarta capa do livro do Octavio Paz:

Quiso cantar, cantar
para olvidar
su vida verdadera de mentiras
y recordar
su mentirosa vida de verdades.

Poema da quarta capa do livro do Federico García Lorca:

Yo me enamoré del aire,
del aire de una mujer,
como la mujer es aire,
en el aire me quedé.

Tengo celos del aire,
que da en tu cara,
si el aire fuera hombre
yo lo matara.

Poema da quarta capa do livro do Rafael Alberti:

Si mi voz muriera en tierra, 
llevadla al nivel del mar y
dejadla en la ribera.

Llevadla al nivel del mar
y nombradla capitana
de un blanco bajel de guerra.


El Ateneo Grand Splendid

Nas outras vezes em que fui a Buenos Aires, comprei CDs que não encontro por aqui, na El Ateneo Grand Splendid (Avenida Santa Fe, 1860). Desta vez, resolvi trazer um livro. E foi uma escolha difícil, porque eu fiquei na dúvida entre o que trouxe a Poesía completa, do Júlio Cortázar (que, pelo o que entendi, acabou de sair). Acabei optando pelo Poesía completa, da escritora argentina Alejandra Pizarnik, uma vez que já tinha comprado 3 livros escritos por homens. 

Ela é outra escritora que é famosa que eu nunca li. Então, nada melhor começar com a obra poética completa, não é mesmo?

Capa do Poesía Completa.

Livro: Poesía Completa
Autora: Alejandra Pizarnik
Editora: Lúmen
Páginas: 480
Apresentação: Alejandra Pizarnik es una figura de culto de las letras hispanas y una autora que se internó por infiernos raramente visitados por la literatura española. Su poesía se caracteriza por un hondo intimismo y una severa sensualidad o, en palabras de Octavio Paz, la obra de Pizarnik lleva a cabo una «cristalización verbal por amalgama de insomnio pasional y lucidez meridiana en una disolución de realidad sometida a las más altas temperaturas». Esta edición, a cargo de Ana Becciu, incluye los libros de poemas editados en vida de la autora y los poemas inéditos compilados a partir de manuscritos. Reseñas: «Sobre mi mesa, lleva semanas abierto el volumen que contiene la Poesía completa de ese irrepetible y doliente meteoro que fue Alejandra Pizarnik (1936-1972), de quien no me resisto a transcribir unos versos estremecedores: no atraigas frases / poemas / versos / no tienes nada que decir / nada que defender / sueña sueña que no estás aquí / que ya te has ido / que todo ha terminado.» Manuel Rodríguez, Babelia «La palabra parece la guarida que no siempre es capaz de proteger. Su poesía es luminosa en la oscuridad; provoca vértigo, perturba; las ausencias pesan y la belleza desgarra.» Estandarte

Post em vídeo

Gravei um vídeo em que mostro mais de cada livro. Para assisti-lo, clique aqui ou aperte o play abaixo:


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domingo, 12 de outubro de 2025

{Resenha} Cartas perto do coração, de Fernando Sabino e Clarice Lispector

domingo, outubro 12, 2025 5


Cartas perto do coração é um livro editado por Fernando Sabino, que reúne as correspondências trocadas entre ele e Clarice Lispector entre os anos de 1946 a 1969. Àquela época, Sabino morava no Rio e viajou um tempo a Nova York, já Clarice se dividiu entre estar parte deste período em Berna, na Suíça, parte nos Estados Unidos.

Fiz a leitura do livro durante a minha viagem a Buenos Aires e começo dizendo que foi uma excelente escolha. A obra é leve, e as cartas são curtas e sinceras, o que torna as Cartas perto do coração como o próprio título diz: aquela companhia que nos deixa com o coração quentinho.  

Li de novo e fiquei tão contente… Foi de novo uma carta sua, e uma conversa. Fiquei animada, não importa que daqui a pouco acabe e eu vá com alma morta para a costureira… O que importa é que fiquei como estou agora, bem na primavera. De repente me pareceu que eu devo continuar a trabalhar, que tudo está ruim, mas que é assim mesmo, que as coisas são desconhecidas até que rebentam numa conhecida, a pessoa que está só no mundo de modo que deve tomar certas providências urgentes de silêncio e meditação, já que não se sabe nem se pode agir, e de que de vez em quando a gente pode receber este presente gratuito que é a palavra amiga de um amigo, e suponho que se há compensação e não vejo por que ela haveria de ser maior — esta já é grande e é mais do que se merece. 
Clarice Lispector em carta a Fernando Sabino. Como datou a própria autora: Europa, Suíça, Berna, Ostring, 5 de agosto de 1946, segunda-feira de manhã, 10 horas menos 10 minutos.

É muito bonito ver a franqueza maravilhosa com que cada amigo se abre nas missivas, uma vez que os autores conversavam sobre absolutamente tudo: desde a viagem da Clarice ao Egito (e o assombro que ela sentiu ao ver a Esfinge), passando por sonhos tidos durante o sono, pelo divórcio de Sabino e a relação dele com os filhos, pelos respectivos processos de escrita, pela solidão de estar em um país tão diferente do Brasil, pelo medo de ter o manuscrito rejeitado, pelos pedidos de ajuda para encontrar locais para publicar quando o dinheiro faltou. 

Nova edição, em capa dura.

Tanto para quem é um escritor, quanto para quem é leitor curioso, é interessante notar que tanto alguns alguns desafios, quanto a inquietação e o instinto profissionais se mantém ainda hoje. A angústia de escrever sem ter a certeza de que o texto está bom, a busca por um título que seja eficiente, o compartilhar com o par, a dúvida de ser publicada, a pressa em querer ser lido. Tudo isso se apresenta no livro. Além disso, Sabino faz algumas leituras críticas de alguns textos de Clarice, e é muito banca vê-los conversando sobre isso, acatando (ou não) as sugestões dadas por ele.

É em verdade um conto tão bonito, Clarice, um conto que só se escreveria na Europa, na Suíça. Por ele, posso perceber uma coisa muito mais importante do que a própria importância do conto: que você está escrevendo bem, com calma, estilo seguro, sem precipitação. Talvez porque agora você já não esteja sofrendo muito, mas sofrendo bem: é uma diferença bem importante, para a qual o Mário sempre me chamava a atenção. A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compensação, mas um reflexo. É o reflexo disso que vejo no seu conto, você procura escrever bem, e escreve bem. Me deu vontade de enunciar agora um truísmo: 'O problema para quem escreve é antes de tudo um problema literário.' Álvaro Lins.
Fernando Sabino, em carta a Clarice Lispector, escrita em Nova York, datada de 17 de setembro de 1946.

Para quem tem medo de ler os romances da Clarice, penso que este livro é uma boa porta de entrada na literatura dela (assim como os de crônicas), justamente porque mostra dois pontos fundamentais: o primeiro é como a cabeça dela funcionava; já o segundo, é porque o livro a tira deste lugar de musa indecifrável da literatura brasileira (que muitos críticos e leitores a colocou) e a põe num lugar humanizado, gente como a gente, que abre o coração para um amigo querido. 

Capa da versão brochura.

Livro: Cartas perto do coração
Autor: Fernando Sabino (e Clarice Lispector)
Páginas: 208
Editora: Record
Gênero: Cartas
Apresentação: A longa e profunda amizade entre dois dos mais importantes escritores brasileiros reflete-se nas cartas trocadas por eles entre 1946 e 1969. Permeada pelo espanto e fascínio dos autores ante o futuro, Cartas perto do coração traz a correspondência entre Fernando Sabino e Clarice Lispector e permite, a reboque, descobrir o mundo interno desses dois escritores quando jovens.Na última fase da vida de Clarice Lispector surgiram-lhe outras relações de amizade, mas o relacionamento entre ela e Fernando Sabino foi o primeiro e um dos mais intensos desde o início de sua carreira literária. Em janeiro de 1944, Sabino mal havia completado vinte anos e recebia, em Belo Horizonte, onde morava, o exemplar de um romance chamado Perto do coração selvagem, com uma dedicatória da autora, Clarice Lispector, ainda desconhecida do grande público. “Fiquei deslumbrado pelo livro,” confessa Sabino.Depois de apresentados um ao outro por Rubem Braga, os dois começaram uma amizade marcada pelo convívio diário e conversas marcadas em confeitarias da cidade. Uma ligação retratada em Cartas perto do coração. A amizade continuou , através dessas cartas, com uma freqüência só interrompida quando se encontravam os dois no Rio de Janeiro. “Trocávamos idéias sobre tudo,” conta Sabino. “Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo, ébrios de mocidade. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens ’perto do coração selvagem da vida’: o que transparece em nossas cartas é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, solidários ante o enigma que o futuro reservava para o nosso destino de escritores.”

PS: eu li a edição em brochura, da capa branca. Agora saiu a edição em capa dura, com prefácio da Nadia Battella Gotlib. Mais informações sobre a edição nova, aqui.

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domingo, 7 de setembro de 2025

Defenestração

domingo, setembro 07, 2025 3


Fenestra é janela em latim. De- é um prefixo, também latino, que significa movimento de cima para baixo. Logo, podemos descrever a ação de atirar algo pela janela como defenestrar, e o ato, em si, como defenestração.

Embora seja professora de língua portuguesa, não estou aqui para dar aula sobre a origem das palavras. Tampouco, para dizer que aprendi a etimologia de defenestração nas aulas de latim ou lendo algum dos (maravilhosos!) livros do Caetano W. Galindo. Escrevo hoje na tentativa de defenestrar no papel algumas palavras carinhosas a pessoa que me ensinou o significado do vocábulo de uma maneira muito mais engraçada do que o primeiro parágrafo metódico do meu texto. Tal pessoa é Luis Fernando Veríssimo.

Quando criança, meu pai trabalhava na editora Abril. Ele sempre trazia um exemplar da Veja e da Veja SP para casa. Eu, por minha vez, sempre folheava as revistas nada atrativas para uma criança e lia aquilo que conseguia compreender: a última página, a página das crônicas. 

Claro que, naquela época, eu não entendia que crônica era um gênero discursivo que, como explicou o Antônio Cândido no famoso texto publicado na coleção Para Gostar de Ler, fala sobre temas ao rés do chão. Lia porque a simplicidade me divertia. 

Anos mais tarde, já frequentando a biblioteca, descobri aquele autor meio careca, meio gordinho, que tinha muitos — mas muitos MESMO — livros publicados em que narrava cenas do cotidiano. As tais das crônicas. Comecei com as Comédias para se ler na escola e não parei mais. Veríssimo, pra mim, tornou-se sinônimo de verdade, uma verdade íntima que me revelou uma epifania solar: também queria escrever acerca dos causos e mais causos que tanto observara. 

No meio de todos aqueles textos, lá estava a tal da Defenestração

Se hoje defenestro, do alto da minha caixola, palavras no papel, é porque antes de mim houve um Luis Fernando (veja só, Fernando, assim como eu!), que do alto de sua timidez não deixava de observar (!!!) tudo ao redor e que fazia questão de amar a língua como instrumento não só de trabalho, mas de vida. Por isso, a notícia de sua passagem, me deu um nó no peito. Perdemos um dos grandes!

O nó veio por saber que ele é eterno; mas, agora, etéreo. Sublimou-se em sua presença física, não vai mais defenestrar palavras sobre nós, ainda que seu legado se sustente firme, forte, sorridente, crítico e bem-humorado. 

Certa vez ouvi o Mick Jagger dizendo que só se sente velho quando ele vê alguém que ama partindo. A idade pesou por aqui, no dia em que o Veríssimo se foi.

Mas, para não terminar esta crônica de maneira tão solene e triste (acho mesmo que o Veríssimo detestaria isso), deixo abaixo a Defenestração, do próprio autor — muito melhor do que as minhas palavras, que de sinceras soam piegas. Divirtam-se:

Luis Fernando Veríssimo
(Imagem: Unesp/divulgação)


Defenestração

Luis Fernando Veríssimo

Certas palavras tem o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A falácia Amazônica. A misteriosa falácia Negra. 

Hermeneutas deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria. 

Os hermeneutas estão chegando! 
— Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada... 

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisa recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto. 

— Alô... 
 O que é que você quer dizer com isso? 

Traquinagem devia ser uma peça mecânica. 

— Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto. 

Plúmbeo devia ser o barulho que o corpo faz ao cair na água.

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um som lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres: 

— Defenestras? 

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam. 

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria assim defenestradores profissionais. 

Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma ou outra vez, como em: 

— Aquele é um defenestrado. 

Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada era a palavra exata. Um dia finalmente procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino, ato de atirar alguém ou algo pela janela. 

Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal,não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração? 

Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo. 

— Les defenestrations. Devem ser proibidas. 
— Sim, monsieur le ministre. 
— São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios. 
— Sim, monsieur le ministre.
— Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos. 

Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes. 

— É essa estranha vontade de atirar alguém pela janela, doutor...
— Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar — diz o analista, afastando-se da janela.

Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.

Na lua-de-mel, numa suite matrimonial, no 17º andar.

— Querida...
— Mmmm?
— Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...
— Fala amor.
— Sou um defenestrador.

E a noiva, em sua inocência, caminha para cama:

— Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!

Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:

— Fui defenestrado...

Alguém comenta:

— Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!

Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar essa crônica. Se ela sair é porque resisti.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. Defenestração. In: O nariz e outras crônicas. 6.ed. São Paulo: Ática, 1998. p. 82-84.


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domingo, 6 de abril de 2025

{Resenha} Crônicas de Travesseiro, de Pedro Tavares

domingo, abril 06, 2025 2

Crônicas de Travesseiro,
do escritor e roteirista Pedro Tavares, é um livro de crônicas que entrega aquilo que os leitores do gênero mais ama: aquela conversa trivial sobre os temas mais simples da vida – que, por vezes, revelam a complexidade por meio de uma sutileza própria. 

O livro, uma publicação independente, é dividido em três partes: “Introdução”, em que seu autor apresenta o que é o gênero crônica e o motivo que o levou a escrever um livro reunindo esse tipo de texto; “Crônicas de travesseiro”, maior parte da obra, em que vemos as crônicas no formato clássico, rubem braguiano, por assim dizer; e “Epílogo ou uma crônica maiorzinha” em que temos um belíssimo relato de viagem. 

Pedro Tavares é escritor premiado por seus outros livros e um cronista de mãos cheias. Ele é capaz de tocar desde temas mais comuns ao universo a crônica – como a viagem, a família e o futebol – até os mais inusitados como a asma e a hot yoga. Como um bom cronista, ele flana pelo mundo: do quarto onde dormia na infância, passando pela Avenida Paulista, cruzando o Atlântico. E de cada um desses passeios – sejam eles reais, virtuais ou memorialísticos – o autor dá um zoom in em um detalhe, tirando dele uma sacada que apenas o seu olhar de cronista é capaz de captar. 

Ao ler o Crônicas de Travesseiro, o leitor pode – assim como aconteceu comigo – se emocionar com as relações entre as pessoas ali relatadas, refletir sobre trivialidades não pensadas ainda e gargalhar com o inusitado. Sem dúvidas, essa é uma leitura leve, divertida e completa. 




Livro: Crônicas de Travesseiro 
Autor: Pedro Tavares 
Páginas:150 
Editora: edição do autor 
Apresentação: Esse é um livro de crônicas. Me perdoem, mas é. Aqui você vai encontrar alguns textos que realmente deveriam ter morrido em jornais velhos, embrulhando vasos quebrados ou protegendo o assoalho contra respingos de tinta. Você verá memórias já embaçadas pelo tempo, histórias com pouco fundo de verdade e argumentações furadas – algumas delas, diga-se, em que nem acredito mais ou talvez nunca tenha acreditado. Tomando a liberdade pra modificar um pouco as palavras daquele velho clássico, esse é o livro e, se gostarem, fico feliz. Caso gostem, não sei o que é um piparote, mas deixo um adeus mesmo assim. 

Compre o livro do Pedro entrando em contato diretamente com ele no @pedrotavares.


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domingo, 16 de março de 2025

{Resenha} Demerara, de Wagner G. Barreira

domingo, março 16, 2025 4


Misturando a realidade de seu antepassado, a história da chegada da gripe espanhola no Brasil e ficção, Wagner G. Barreira, tece uma trama envolvente para nos apresentar a vida de Bernardo, um espanhol nascido na Galícia, que passa boa parte da vida em Vigo, cidade onde vive de forma errática.

Órfão de pai e mãe, Bernardo foi deixado em um orfanato para ser padre. Ali, ele sofre todos os possíveis maus tratos e resolve seguir outro rumo que não o do sacerdócio. Nas ruas de Vigo, ele aprende o que é sexo, amor, bebidas, jogos, trapaças e contrabando, se tornando bem quisto por uns e odiado por outros. É em meio da desilusão com a vida que Bernardo recebe um chamado: embarcar no navio Demerara rumo a Buenos Aires. 

A princípio Bernardo resiste. Largar a vida para se apegar a uma promessa não parece algo que lhe faz sentido. Depois, com o desenrolar da trama, ele aceita o convite, cruza o Atlântico e acaba desembarcando no Brasil. Nada é como Vigo, nada é como a árvore que sempre lhe dera olivas. Ainda mais quando se traz na bagagem a doença estranha, que ninguém sabe bem como se trata. E isso é tudo para prender o leitor página a página, capítulo a capítulo.

O livro é estruturado em 18 capítulos ágeis em ações e com detalhes na medida certa. Wagner G. Barreira traz consigo o seu lado jornalista: os fatos são apresentados com clareza cristalina. Os diálogos são precisos. A prosa é arrojada. Meu eu leitora seguia página a página sem desgrudar do gancho literário que cada cena criou no meu imaginário: uma Santos sitiada, uma São Paulo em expansão. Conforme Laurentino Gomes nos aponta em seu prefácio, Wagner G. Barreira fez uma pesquisa intensa sobre o contexto histórico da obra, portanto as descrições são muito fiéis ao Brasil de 1918.

Assim como aconteceu com as nossas vidas durante a pandemia de COVID, a vida de Bernardo foi marcada pela gripe espanhola. Há uma identificação nossa com a desse sobrevivente que também teve medo, que também viu pessoas morrendo de perto. Essa carga da vivência emocional de Bernardo nos coloca em um lugar de refletirmos sobre a nossa própria vivência em tempos tão difíceis e em como recomeçar depois que as ondas das doenças se vão. Literatura e realidade em simbiose, mais uma vez.

capa


Livro: Demerara
Autor: Wagner G. Barreira
Prefácio: Laurentino Gomes
Gênero: Romance
Páginas: 152
Editora: Instante
Apresentação/Sinopse: O romance de estreia de Wagner G. Barreira conta a trajetória do jovem Bernardo, que embarca no navio que trouxe a gripe espanhola para o Brasil — e dá nome ao livro.
Bernardo nasceu na Galícia, no norte da Espanha. Ainda criança foi para um orfanato na cidade de Vigo, onde estudou e perdeu a chance de se tornar padre. Em 1918, dois anos após deixar a instituição, leva uma vida errante, vivendo de pequenos golpes ao redor do porto. Convencido por um amigo e precisando desaparecer por um tempo, embarca no vapor Demerara a caminho da América do Sul, na mesma viagem que trouxe a pandemia de gripe espanhola para o continente.
Mistura de ficção e eventos históricos, o livro de Wagner G. Barreira dá voz ao narrador personagem ao relatar a travessia do Atlântico, a acusação de ter assassinado o amigo, a prisão em Santos, a convivência com infectados pelo vírus, a fuga para São Paulo e as dificuldades de adaptação na cidade em construção pelas mãos de imigrantes de todo o mundo.
Demerara nasceu a partir de conjeturas sobre as origens do avô paterno de Barreira. De Bernardo, o protagonista e narrador, pouco se sabe de fato: era galego, chegou ao Brasil no navio Demerara e morreu no dia do batizado do único filho. Fora esses três fatos, tudo mais é ficção, tentativa de recriar a vida do antepassado a partir do ponto de vista do escritor, que fez uma abrangente pesquisa sobre os fatos históricos do período.

Livro no Skoob. | Livro no Goodreads.

Aperte o play para ver eu lendo o livro do Wagner e outras leituras mais:


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domingo, 23 de fevereiro de 2025

{Resenha} Um paraíso portátil, de Roger Robinson

domingo, fevereiro 23, 2025 4


Um livro de poesia que fisga o leitor pela potência das imagens apresentadas, imagens estas que nos fazem sentir as dores, as angústias, as influências e os momentos de gratidão presentes em cada verso. Em Um Paraíso Portátil, Roger Robinson traça uma ponte entre o passado e o presente da vivência negra experienciada por ele e por quem vive ao seu redor, em sua comunidade britânica.

Roger Robison é um artista multifacetado: poeta, músico, performer, cofundador de um coletivo de escritores, com a experiência farta de quem flana pelo mundo. Nascido na Inglaterra e atualmente vivendo em Londres, Robinson tem e honra a sua vida caribenha (viveu parte da infância e da adolescência em Trinidade e Tobago). Sendo assim, essa ponte que ele traça entre o passado e o presente é configurada de diversos modos, todos eles muito sensíveis, seja com o eu lírico do poeta assumindo a primeira pessoa, seja ele servindo de testemunha e se colocando no lugar das pessoas cuja a vivência é por ele observada. 

Poema "O vermelho escuro do seu sangue", de Roger Robinson, presente nas páginas 52 e 53 de Um Paraíso Portátil
(Clique na imagem para ampliá-la.)


A obra, vencedora do Prêmio T.S. Elliot (2019), é estruturada em 5 partes. A primeira é inteira dedicada à violência sofrida pela comunidade negra britânica durante o grave incêndio da Grenfell Tower (ocorrido em junho de 2017), que matou 72 pessoas. Aqui, o eu lírico mergulha no ocorrido, se colocando tanto no lugar de quem sucumbiu, quanto de quem sobreviveu e teve que lidar com o descaso da falta de resposta e de responsabilização dos culpados. A segunda parte segue trazendo o impacto da primeira e relacionando-a com a das pessoas que foram forçosamente levadas à Inglaterra na época da escravização. Ali passado e presente se cruzam quando o poeta empresta a sua voz aos anônimos e silenciados pela sociedade e pelo governo britânico. Além disso, mais uma vez, o poeta coloca o mal-estar na mesa, provando que, infelizmente, ele é universal ao se inspirar no caso do americano George Floyd e escrever um poema sobre a violência onipresente que é direcionada ao corpo negro. Os poemas da terceira parte resgatam as denúncias das anteriores para denunciar a postura dos que têm "outro" (não branco e não britânico) como "ilegal". O poeta faz uso da primeira pessoa (singular e plural) para apontar como os imigrantes sofrem abusos tendo como ponto de partida a exclusão social apenas por conta do espaço geográfico de origem, como se ter nascido em outro lugar que não a Inglaterra já fosse um atestado que permite que britânicos brancos sejam violentos com imigrantes negros e seus descendentes — ignorando completamente o histórico das relações coloniais e pós-coloniais. A quarta parte da obra reforça tudo isso trazendo referências sonoras e visuais ao livro, mostrando ao leitor uma riqueza de repertório que não é apenas do poeta, mas de toda comunidade a que ele pertence. Riqueza esta que é exposta e reiterada diversas vezes numa cidade que faz de tudo para ocultá-la. Por fim, a última parte traz a experiência de paternidade pessoal do poeta, cujo filho prematuro quase não sobrevive ao parto. Contrariando o estereótipo do homem negro que abandona os filhos, o eu poético não só é presente, mas também sofre o drama de ver o bebê lutando pela própria vida. A resistência negra mostrada nas outras partes da obra aqui se torna frágil e incerta, na figura do neném prematuro assombrado pela morte, ao mesmo tempo que é forte e ancestral, na imagem invocada da avó que aparece no último poema do livro e que, mais uma vez, reforça a imagem de passado e futuro que sustenta a voz de toda uma comunidade que segue (e que continuará seguindo) resistindo.

É interessante notar como Robinson trabalha todo o conteúdo apresentado acima fazendo uso tanto de estruturas mais formais, a exemplo do uso de dísticos (estrofes de dois versos) e tercetos (estrofes de três versos, como de outras formas mais contemporâneas como versos formatados em um único parágrafo. Esta é outro modo — agora na forma — de unir o passado (mais formal) e o presente (de versos branco, livres e mais pós-modernos). Isso traz ritmo não só a cada poema, mas também à leitura do conjunto da obra.

A versão brasileira do livro também conta com um texto de apresentação em prosa repleto de lírica e extremamente competente escrito por Prisca Agustoni. A orelha foi escrita por André Capilé. Já a tradução ficou por conta do Victor Pedrosa Paixão. A publicação foi feita em coedição das Editoras Incompleta e Jabuticaba.

Ler Um Paraíso Portátil é, ao mesmo tempo, dolorido e esperançoso. Dolorido porque nos deparamos de novo com as dores dos nossos irmãos. Esperançoso, justamente por nos dar um abraço que nos diz que o nosso paraíso não é feito só de luta e resistência, mas também do senso de irmandade que não se abandona.


Capa. (Fonte: Editora Incompleta)



Livro: Um paraíso portátil
Título original:
Autor: Roger Robinson
Tradução: Victor Pedrosa Paixão
Páginas: 103
Editora: Incompleta e Jabuticaba
Apresentação/Sinopse: Este livro – um desolado carrossel fantasmagórico de vidas penduradas por um fio, em busca de um lugar para chamar de ‘lar’ – faz do limiar entre o que é o ‘paraíso’ e o ‘inferno’ (e as representações cristalizadas que deles se construíram ao longo dos séculos) um ponto de partida para uma nova realidade”. As palavras de Prisca Agustoni na apresentação evidenciam, ao mesmo tempo, a estrutura de Um Paraíso Portátil e o seu centro: ao longo das cinco partes nas quais se distribuem, os poemas de Roger Robinson compõem um arranjo de vozes e formas diversas para expor as violências colonial e étnico-racial em suas mais variadas manifestações. Britânico de origem caribenha, o autor se vale da dub poetry; da citação de “vozes amigas” como Coltrane, Fela Kuti e Bob Marley; de trechos mais confessionais e prosaicos; de certa inspiração cinematográfica; de humor e de causticidade. Mas há algo além de que Robinson não se esquece nessa busca pela elaboração de lutos e traumas: um conselho de sua avó, em que o autor se agarra para seguir acenando rumo a alguma cura possível, um remédio coletivo ou particular. Publicado originalmente no Reino Unido em 2019 (Peepal Tree Press), A Portable Paradise venceu o T.S. Eliot Prize do mesmo ano. A obra chega ao Brasil numa coedição entre as editoras Incompleta e Jabuticaba, com tradução de Victor Pedrosa Paixão. Os escritores, pesquisadores e tradutores Prisca Agustoni e André Capilé assinam a apresentação e a orelha do livro.

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