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domingo, 20 de setembro de 2026

Segredo

domingo, setembro 20, 2026 1


[em copas:]

ao longo dos anos,
palavras trocadas;
raízes profundas;

carinho estendido;
bandeira branca;
beleza oculta.

vida mudando:
valor reconhecido,
vilão vencido na consciência.

verdade escancarada:
tempo que passa

[juntos, amor.]


💚💚💚
Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de setembro de 2026 é beleza oculta.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Reflexões sobre a travessia

segunda-feira, setembro 14, 2026 2

O texto abaixo nasceu das minhas páginas matinais.


Ter fé não é ter religião, é ter confiança.

A vida é um mistério a ser atravessado.

Se o meu aprendizado ao longo dos 20 foi não mendigar amor; o dos 30 é este: a vida é um mistério a ser atravessado, não a ser desvendado.

 

Como observadora, atravesso o mistério coletando dados que compartilho com os mais novos ou com quem queira. Não há capacidade humana para desvendar o mistério por completo, porque ele é divino. Por mais que sejamos parte dessa centelha, não temos a visão de todo, do tudo. Isso é muito mais do que poderíamos suportar. A visão de tudo, em seus mínimos detalhes, com todas as suas nuances, com o que é pregresso e com as possibilidades de futuro, com todas as linhas do tempo se cruzando¼ Isso é mistério. Não há como desvendá-lo.

(…)


O caminho do não sofrimento não é o mistério. Penso que ele, o mistério, é maior e mais soberano do que apenas o não sofrer, é mais e vai além. O mistério é a explicação de tudo: da gênese de cada espécie, à descoberta da cura de uma doença rara; das guerras e desigualdades sociais, aos sistemas econômicos; das estações do ano, às chuvas do El Niño; da criação de máquinas que constroem e destroem, aos animais mais diferentes vivendo em lugares mais remotos; do porquê raios a minha linha do tempo se cruzou a de M., porque eu me apaixonei por ele, porque ele diz que gosta de mim há tantos anos, mas não se mobiliza e não se importa com o que sinto, a porque estou refletindo sobre tudo isso agora. O mistério é criação divina, mas também é Deus, Deusa, Criador, Força Maior, Universo, entidade cujo nome é impronunciável, Natureza ou qualquer outro termo que queiramos usar. O mistério é indecifrável, nossas diversas linguagens não o alcançam. O máximo que é possível é viver em aceitação radical do que o atravessaremos ao longo da vida, até alcançarmos seu ponto máximo: a morte.

 

Há mais de uma semana chove sem parar aqui em São Paulo. Vivo o luto da semente de um relacionamento que tinha tudo para ser lindo e duradouro, mas que morreu afogado na covardia de M. Leio sobre prognósticos de inteligências artificiais destruindo a humanidade em menos de uma década e do início de uma terceira grande guerra. Tudo isso, na semana do meu aniversário de 40 anos.

 

“Espere o inesperado.

Respire.

Devagar se ganha a corrida.”

 

Sigo atravessando o mistério com uma tentativa de sorriso no rosto. No fim, a vida sempre dá certo — seja lá o sentido que damos à palavra “certo”. “Todos os caminhos levam na direção de casa” e é aí que mora a beleza: atravessar o mistério sem se deixar ser engolido por ele.

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domingo, 30 de agosto de 2026

É preciso resgatar o que se perdeu

domingo, agosto 30, 2026 5
Caderno de desejos.

Há um mundo de humanidade dentro de cada pessoa. E esse mundo tem sido cada vez mais enterrado dentro de nós. A rotina, a correria, o trabalho, as redes sociais (nada sociáveis), o esforço pra abrir um espacinho pra família, pro parceiro, pros amigos, pros animais de estimação. É preciso resgatar o que se perdeu. Essa humanidade que é cada vez mais asfixiada.


Sempre digo que relações são como plantas. Se a gente rega, cuida do solo, expõe à quantidade certa de luz, a semente cresce e se torna uma árvore frondosa. Mas basta se esquecer de fazer uma dessas coisas e puf!, a planta não vinga. Morre de morte matada e morrida. Em um mundo em que tudo tem que ser perfeito, milimetricamente produtivo, corrido, sem tempo, irmão!, onde se cultiva o que é, de fato, importante ser cultivado?


Tempos atrás eu vi um post da Vanessa Rozan dizendo que ela busca aprender uma coisa nova a cada aniversário. Isso, pra ela, é uma atitude deliberada. Ela escolhe, por espontânea vontade, aprender algo novo. Não para ser a melhor pessoa naquele assunto, mas apenas para experimentar.


Como pessoa curiosa que sou, eu gosto de aprender. Por isso, também, que acumulo os ditos conhecimentos “inúteis” — como saber a oração de um povo distante da América do Norte ou posições para fazer um bebê soltar pum (sendo que nem pretendo ter filhos). Assim como a Vanessa, gosto de aprender, de experimentar.


Ano passado, entrei nas aulas de dança: dois grupos distintos, formados por mulheres maravilhosas. Fiz novas amigas. Neste ano, além de continuar dançando, cursei um semestre de aulas de canto. Na dança, me sinto indo bem. No canto, fui um verdadeiro desastre — não sei se alguém já te disse, mas cantar certo é difícil pra caramba. Em ambas as atividades, me diverti bastante, apesar da dificuldade em respirar. Respirar certo para uma mente ansiosa é sempre um desafio.


Durante a vida, sempre gostei de cantar e de dançar. Na infância, me reunia com a minha vizinha da rua de trás para passar as tardes praticando as coreografias do É o tchan! e de Chiquititas. Na adolescência, nossa turma do ensino fundamental se reunia na casa de uma amiga para treinar todas as coreografias dos Backstreet Boys (e algumas da Britney Spears também). Depois cada amiga seguiu o seu caminho, entrei na faculdade, a vida ficou séria e isso se perdeu. Os únicos momentos em que me permitia dançar e cantar a plenos pulmões eram nas idas aos shows. Onde a música foi parar na minha vida?


Lista citada na crônica.

Ontem contava a uma das minhas professoras de dança que encontrei um caderno em cuja primeira página há uma lista de Dez Desejos e o primeiro item é: “fazer aulas de dança”. É preciso resgatar o que se perdeu. Eu não me lembrava do caderno e não pensei nos meus momentos nas casas da Taís e da Cristiane quando fiz a inscrição para dançar. Apenas ouvi o que estava aqui dentro, a vontade de me expressar de uma forma distinta. De encontrar novos caminhos, novas linguagens.


E desde então eu tenho ouvido mais músicas, tenho descoberto novos artistas, tenho entendido mais das tradições populares existentes pelo Brasil, tenho aceitado a minha voz e o meu corpo como nunca antes, tenho feito novas amizades, tenho me aberto para a vida. Resgatar o que se perdeu tem sido um caminho doce, bonito e cheio de gargalhadas (eu sempre caio no riso quando eu não consigo fazer algo). Resgatar a música e a dança tem me feito reencontrar aquele pedaço meu que estava em algum lugar muito no fundo de um armário empoeirado (e amargurado). Isso tem sido bonito a cada dia.

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domingo, 23 de agosto de 2026

O tudo ainda nos espera

domingo, agosto 23, 2026 0

sinto o coração bater
— tum-tum-tum —
um staccato sem fim…

me encolho na cama.

pensamento do outro lado de um mundo que não alcanço:
vejo moscas volantes;
coração cada vez mais veloz.
a enxaqueca vem,
me impulsiona para dentro.
quem diria que não saber,
que o pensar demais,
que a água escapando entre as mãos  
me trariam até aqui.
mesmo assim, me sento comigo:
me olho no espelho e
te pergunto 
(com uma voz que gostaria de estar a plenos pulmões,
mas que sai fraquíssima):
você ainda me ama? 
você ainda vai me amar ou sou apenas uma grande decepção?

não dá para domar seu coração que galopa sem controle.

💚💚💚

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de agosto de 2026 é fora de controle.
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domingo, 26 de julho de 2026

Jornada

domingo, julho 26, 2026 4



da beira do desfiladeiro avisto o outro lado do abismo.
ele é convidativo:
tem o mistério como seu habitante
e uma travessia que parece pacífica.

coloco a minha trouxa nas costas e sorrio:

o salto para o novo é certo
dentro da certeza do desconhecido.

só é mistério aquilo que um dia fora segredo.
só é amor o que mora no respeito.

há toda uma nova vida por vir.

(ainda bem)

💚💚💚

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de julho de 2026 é o outro lado.
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domingo, 19 de julho de 2026

Sede boa morre com água

domingo, julho 19, 2026 8


Gosto de sentir sede. Não pela garganta seca em si, mas pela sensação de sentir a vida descendo faringe adentro. Gosto da sede que é matada não com suco, coca-cola, cerveja, café ou vinho. Sede boa morre com água.

Lembro-me da primeira vez em que a professora de ciências foi categórica: “Não é possível haver vida sem água”. A informação me intrigou. Fiquei tão ou ainda mais curiosa quando soube que este corpo, este que me carrega, é composto por no mínimo 60% de H2O. Cabelo, braços, pernas, pele, pulmão, coração, osso, sangue — esse rubor que me mantém viva —, tudo água.

Gosto de sentir essa sede que me remete à infância, para aquele dia primeiro de descoberta, em que chorava sem parar, sem entender o que era a secura que vinha dos lábios e seguia até atrás das amídalas. A necessidade nata se convertendo no desespero de acordar sem fome, sem fralda cheia, sem medo, mas aos prantos. Nesta hora, meu bem, nem pai, nem mãe, nem irmãos, nada é capaz de substituir um bom copo de água fresca. E as minhas mãozinhas, como a de qualquer bebê, sabiam disso.

Estiquei-me em direção ao objeto que minha mãe trazia. O copo se convertia no cálice da fé que traria a boa nova. Em instantes, a mágica se fez: ali em minha boca, aquele líquido sem cheiro e sabor, tinha o gosto da paz.

Gosto de sentir sede e da sensação de vitória na conquista de cada gole. Gota a gota, as memórias de infância reverberam na vida adulta.
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domingo, 28 de junho de 2026

Feitiço

domingo, junho 28, 2026 6


degustei diversas vezes do fruto proibido:

 

enfeiticei-me.

embriagada no amor, dormi anos a fio.

 

acordei,

não com o beijo, mas com a pancada da descoberta:

 

a fruta,

 agora,

despencava

sobre a minha

cabeça.

 

tentação feita,

isca mordida.

 

o caramelo vermelho da liberdade me envolveu o corpo por inteiro.

 

vítrea,

me tornei escarlate desejo:

 

sou,

por fim,

maçã do meu próprio amor.

🍎🍏🍎

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de junho de 2026 é maçã do amor.
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domingo, 24 de maio de 2026

Negativo

domingo, maio 24, 2026 4
Imagem por Markus Spiske, via Pexels.

não temos fotos.
o duende levou consigo o registro mágico do Natal.

não há memórias.
as doçuras foram levadas pela tempestade de verão.

não há amor.
como explicar a ilusão do que aconteceu,
quando o sentimento não era recíproco?

não há saudade.
como entender o que está acontecendo agora,
com uma comunicação inexistente?

em um tempo em suspenso,
o relicário segue pendurado no pescoço:

nele há dois lados que seguem vazios.
 
provavelmente nunca mais serão preenchidos.

💔📷💚

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de maio de 2026 é relicário.
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domingo, 10 de maio de 2026

O amor é uma K-46

domingo, maio 10, 2026 10

*Texto escrito em 2019.


Definir o amor como uma arma é tão comum que a expressão, antes poética, agora não passa de um mero clichê. Mas o que não é um clichê, se não uma imagem que faz com que a gente a use até gastá-la, de tanto que se identifica com ela?

Essa semana, fui almoçar com uma das professoras que trabalha comigo. Quando a encontrei, ela estava pálida, tremendo mais que vara verde. Via em seu rosto que ela buscava uma forma de me explicar o que se passava, mas ela mesma estava tão passada que não conseguia encontrar as palavras. Passava o celular de uma mão a outra, tentava tirar o cabelo do rosto, enquanto caminhava rápido. Quando finalmente nos distanciamos do colégio, ela soltou em um atropelo:

— A Vânia disse que quer que o José morra, você acredita? Quando eu perguntei o porquê, ela respondeu que é porque ele é diferente, porque ele tem dois pais.

Senti o ar entrando em meus pulmões, mas não consegui fazer os meus neurônios se articularem. Como assim, uma aluna minha, uma criança de oito anos sendo tão homofóbica? Como pode uma criança desejar a morte de outra tão gratuitamente? Na hora, a imagem que veio na minha cabeça foi a de todos os meus amigos gays, lésbicas e bis, o quanto eles são maravilhosos, o quanto eles não deveriam sofrer por apenas existirem. Como o amor alheio pode incomodar tanto?

— Eu perguntei para a Vânia se ela acreditava de verdade nisso que dizia — completou a minha amiga — ela respondeu que não. Tenho certeza que isso é coisa que deve ter ouvido dos pais.

Coisa dos pais. Meu sangue ferveu na hora que concluímos isso. Adultos semeando o preconceito em pessoas tão pequenas. “Ninguém nasce odiando”, já diria o Mandela. Ninguém nasce odiando, mas aprende com os pais, com a sociedade, em todos os lugares. Isso é desesperador e pensar em tudo o que o pequeno José pode ter sentido ao ouvir um absurdo desses me deixou profundamente abalada.

Li que algum desses escritores famosos disse que um bom autor não pode escrever com raiva, porque assim o texto não fica bom. Fico me perguntando como escrever sobre ver outras pessoas sendo massacradas apenas por existirem sem ter sangue nos olhos. Sem sentir esta fúria que cresce em mim. Como amar em tempos de ódio?

Hoje eu acordei com a notícia que o prefeito do Rio de Janeiro mandou apreender uma HQ da Marvel que estava sendo vendida na Bienal Internacional carioca, porque em um dos quadrinhos, dois personagens homens se beijam. Segundo ele, esse material continha “conteúdo pornográfico”. Pleno 2019, e eu tendo que lidar com censura no Brasil. Mais uma vez meu o sangue ferveu.

Como escritora (e tendo amigos que também o são), quero poder escrever sobre o que eu quiser. Quero que os meus leitores possam ler o que eles quiserem. Quero que meus amigos e desconhecidos possam existir. Sem represálias, sem medo, com o direito de amar quem eles quiserem. Quero que as pessoas vivam à base do amor. Por isso escrevo esta crônica. Porque preciso me juntar a todos que acreditam que compartilhar bons sentimentos é válido e ir à luta.

Vamos produzir, sim. Vamos consumir, sim. Vamos amar. O amor é o nosso combustível e a nossa arma. Ele é a nossa K-46. Por mais que dizer isso soe o maior clichê dos clichês, é amando que venceremos todo esse preconceito.
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domingo, 26 de abril de 2026

Como uma playlist de música ruim no repeat

domingo, abril 26, 2026 12

— Foi só uma vez. Eu não tive escolha.

Alexandre me olha parado na porta daquele que até ontem foi o nosso quarto, com os lábios secos e os olhos úmidos. Ele espera por uma resposta. Mais uma resposta. E quanto mais ele espera, mais em silêncio eu fico. Estou sentada de costas para ele. Olho pela janela e vejo o céu azul, com suas pequenas nuvens brancas que prenunciam o fim do verão. Ele continua esperando, como se a vida dele dependesse da minha voz enchendo os seus ouvidos, o quarto, a casa. Persisto muda. É como se não houvesse ar capaz de encher os meus pulmões e de fazer as minhas cordas vocais vibrarem para emitir quaisquer sons. Meu corpo segue inerte.

— Fala alguma coisa... Você sabe que eu sou assim mesmo, mas sabe que eu te amo, não sabe?

Não. Eu sei que tudo isso não é amor, mas resolvo deixar que o silêncio continue falando por si só. Agora eu não me importo mais. Por tantas outras vezes, eu já havia gritado, chorado, jogado o que tinha ao alcance das mãos nas paredes, agora eu não tenho mais forças para argumentar. Estou esgotada até mesmo para rebater o “só uma vez”. Primeiro que não era “só”; segundo que era recorrente. As cenas das descobertas tiveram as suas nuances, é verdade, mas eram recorrentes. O mesmo modus operandi tanto nas merdas, quanto nas súplicas por perdão. Depois de três vezes, já dá pra pedir música no Fantástico, não é mesmo?

— Por Deus, amor, fala alguma coisa... Você sabe que eu sou assim mesmo; mas, que se eu não te contei, fiz isso por você, pra você não ficar chateada, triste e raivosa como está agora. Eu sou homem, tenho os meus instintos. Você sabe, todo homem faz isso, não sabe? Anda logo, me perdoa! 

Respiro fundo e me viro para ele. Alexandre continua tão bonito como quando nos conhecemos. Apesar da estatura mediana, sua voz envolvente, seu olhar profundo, suas tatuagens e as covinhas nas bochechas continuam ali. Ele continua ali. Inteiro e ao alcance das minhas mãos. Como pode a tentação que liberta o desejo despertar também tanta dor? Enquanto o meu corpo quer ter o dele, minha cabeça e meu coração me guiam por outro caminho: saio de perto da janela, levanto aquela que era a nossa cama box e abro o baú em silêncio. Pela visão periférica, noto que ele parece confuso, mas sigo firme. Tiro a mala de viagem há tempos guardada, coloco-a sobre o colchão, abro o armário sem dizer uma única palavra. Então, começo a pegar a parte que me cabe do nosso agora ex-pequeno latifúndio.

— Amor, você tá louca? Pelo amor de Deus, isso foi só um deslize, algo pequeno, da minha natureza. Você já me perdoou tantas vezes, não custa fazer isso mais uma? Eu prometo que isso não vai se repetir! Prometo! — Continuo impassível. Se alguém visse a cena pela janela, acharia que eu estou arrumando uma mala para uma viagem feliz de férias. Só quando Alexandre tenta tirar as peças já guardadas que eu o encaro:

— Você pode dizer o que for. — Minha voz soa tão calma, tão resignada, que até eu me surpreendo. — Eu vou pegar as minhas coisas e seguir a minha vida.

— Mas você não pode fazer isso! Você tem que me perdoar! O que as pessoas vão pensar de nós? De mim? Você não tem dó de mim, não?

— Alexandre, vai ficar tudo bem. Aliás, já está tudo bem. — Fecho a mala e a ponho no chão. — Quanto ao que vão dizer ou como você se sente, você deveria ter pensado nisso antes. Eu, honestamente, não me importo.

📻📻📻

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de abril de 2026 é a mentiras que contamos.
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domingo, 12 de abril de 2026

Ciclos se encerram

domingo, abril 12, 2026 9

sempre fui muito faladeira, mas é importante aprender os momentos de calar e ouvir. nessas horas, gosto de escutar em modo de mergulho. sigo como as ondas: para fora e para dentro.

ouço e revejo.

nenhuma situação volta à toa. 

padrões ressurgem para que a gente possa refletir sobre o nosso aprendizado. não quero ter as mesmas atitudes de antes. cansei.

estou exausta de dar murros em ponta de faca.

é importante assumir as próprias responsabilidades e estabelecer limites. é importante não ignorar a bússola interna.

escolher as próprias batalhas. só assim se pode lutar.
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domingo, 29 de março de 2026

Psique

domingo, março 29, 2026 12
Imagem por Paolobon140

a psicanálise diz que o maior problema de todos é que a gente não sabe o que a gente deseja

faço incontáveis listas
planejo cada passo
no fundo, o que quero é escrever um texto
longo, sem rimas
que seja minimamente, literariamente, vivido
a beleza é poética
quando está no dia a dia

(alguns desejos são sonhos
que estão fora do meu alcance)

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domingo, 22 de março de 2026

Labirinto

domingo, março 22, 2026 10

no cruzar de caminhos,
na esquina ao acaso,
no não sei se vou ou se fico
na janela ou no abismo:
nossos olhares se cruzam.

na juventude ou na velhice,
na hora marcada ou inexata,
no inverno seco ou no verão molhado,
no seguir a pé ou no travar do trânsito:
nossos olhares se tocam.

você com cachorro, eu com gato,
você e seu chá, eu e meu espresso,
você acordando cedo, eu indo madrugada adentro,
você amando inverno, eu preferindo verão:
nossos olhares travam.

pessoa certa na hora errada:
a vida exemplificando
que rejeição é ato de ser protegido
por algum dos deuses e seus discípulos.

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de março de 2026 é pessoa certa na hora errada.
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domingo, 15 de março de 2026

Processos criativos são complexos

domingo, março 15, 2026 8
Meu exemplar do livro O caminho do artista e eu.

Estou fazendo O Caminho do Artista novamente. Quando esta newsletter chegar até você, provavelmente estarei finalizando a terceira semana desta jornada composta por doze. Tem sido interessante desta vez, porque não estou fazendo sozinha. Minha aluna, amiga de longa data e também escritora, Lucila Eliazar Neves, tem dividido comigo as angústias e descobertas desse caminho. Poder trocar sobre os insights e relacionar isso com as nossas escritas é muito interessante.

Comecei a jornada empolgada. Recomeçar é um verbo que divide opiniões. Desta vez, resolvi que este recomeço seria fresco, empolgante, gentil. Assim tem sido, embora as semanas dois e três tenham trazido consigo um cansaço descomunal. Na terça-feira já contava as horas para o descanso que só viria na segunda-feira seguinte. Descansar é importante para criar.

Me sinto mais criativa. Tenho posts escritos para o meu site. Tenho artigos escritos para o Projeto Escrita Criativa. Tenho gravado vídeos para o YouTube com uma regularidade que me espanta. Cortei o cabelo. Comprei uma luminária que alimentou a minha fome de leitura. Só não consegui ainda fazer as edições finais no livro 3; que, aliás, já ganhou um nome.

Saiba mais: fiz uma playlist no meu canal do YouTube para documentar o meu processo do Caminho do Artista. Você pode assisti-la clicando aqui.

O livro 3 me espera desde 2025. Ele está impresso. A versão encadernada está revisada. Agora só falta passar as anotações de volta para o arquivo. Emperrei aí. A resistência se traduz em cansaço e em buscas por trabalhos que paguem os boletos. Quem já leu a versão sem a revisão gostou. Quem vai ler para revisar e para publicar está na expectativa. Eu estou na expectativa também. Gestar um livro é um processo muito intenso, talvez mais intenso do que soltá-lo no mundo.

Estou fazendo O Caminho do Artista e pensando que admiro respeito, sagacidade, lealdade, criatividade e bom humor, mas que preciso mesmo, mesmo é de uma dose de coragem. A guerreira está exausta e sozinha. O lance é que soldada cansada não vence a guerra.

Processos criativos são complexos.
Uma hora, o livro novo sai.

*Crônica enviada na minha newsletter, Vamos bater um papo?, edição 47. Caso queira receber textos meus (y otras cositas más) no seu e-mail, inscreva-se.
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domingo, 15 de fevereiro de 2026

Os ventos do carnaval não movem moinhos

domingo, fevereiro 15, 2026 16


Parecia vinda de algum invisível moinho de vento. Era incontrolável. Depois de tantas cores, tantas músicas, tantos estímulos, o silêncio. Ao longe, um bêbado ou outro se equilibrando em uma esquina, buscando um lugar menos ruim para vomitar. Cidade no limbo entre fim de festança e volta ao trabalho. Aquilo era hora de parir uma explosão interna e incontornável? O azul-petróleo já ganhava tons de luz no horizonte ao leste, e o olhar profundo de Fátima desaguava em mar. Tormenta. Abraço que é casa, mas que também é despedida. Mesmo depois de tanto tempo, o fim ainda era tão gritante na cabeça dela. Principalmente em momentos em que apenas os pássaros cantam na selva de pedras.

(Como ninguém percebia: juras? Mentiras? Tudo tão visível quanto a luz solar.)

A Quarta-Feira de Cinzas anunciava a calmaria de sua aurora. Um novo dia, um novo começo. A sabedoria popular diz que o ano só começa mesmo depois do carnaval. E de um corte (radical) de cabelo. Entre um soluço e uma fungada, estava decidido: ligaria no salão, marcaria um horário o mais breve possível. Cabelo curto. Roupa curta. Fim de verão e nascimento de uma paciência cada vez mais restrita, a única possível para quem teve o coração partido tantas vezes que não sabe nem como ele ainda continua bombeando sangue no peito.

Peito pequeno. Apesar dos pesares, coração gigante. Sangue latino. Fátima seguiria sozinha, assumindo os pecados dela e de Álvaro (ainda que vivo, ele seria um de seus mortos?). Seguiria quebrando lanças, povoando generosidade, sendo os ombros do mundo: aquela que sempre ama demais, com sua alma cativa. A última noite morria. O sol já despontava. Era Quarta-Feira de Cinzas, e ela entendia as lágrimas. Todo carnaval tem seu fim, rompe com os velhos tratados, leva milhares de fios de cabelo, buscam por guinadas. O desaguar sempre fez sentido em todos os caminhos, que apesar de serem tortos, sempre a levaram para casa — mesmo que como em um grito, num desabafo.

🌙🌟🌞



Conto inspirado na canção de Ney Matogrosso e no tema "a última noite".



Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de fevereiro de 2026 é a última noite.
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Para ler sobre a primeira aparição de Fátima e Álvaro aqui no blog, clique aqui.


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domingo, 4 de janeiro de 2026

2026, o ano da coragem

domingo, janeiro 04, 2026 15
What you don't have you don't need it now
What you don't know you can feel it somehow


Fechei o ano conversando com uma amiga sobre a vida, os relacionamentos e a coragem. Muito se fala sobre a vida romântica e amorosa, mas esquece-se que o amor está por toda parte. Piegas, eu sei. Piegas, mas verdadeiro.


Dizia a ela que 2024 e 2025 foram anos de reciprocidade. Foquei no que e em que eram recíprocos. Está junto, estou junto. Não está junto? Bem, não posso forçar ninguém, mas também não posso perder meu tempo e minha energia aceitando menos.


Sempre estive por inteira em tudo: no trabalho, nas amizades, na família, nos amores. Intensidade faz parte da minha essência, e todas as vezes em que tentei me diminuir para caber, para não perder alguém, só saí sofrendo das situações. Teria sido mais fácil me retirar ao sinal da primeira bandeira vermelha, mas eu sei que não desisto logo de quem amo. Todo mundo tem os seus defeitos, e eu também não estou imune: demorar para desistir é um deles que carrego.


De qualquer forma, há o inegociável. Amadurecer é cada vez mais compreender onde a gente pode ser flexível, qual é o nosso limite e aquilo que não tem negociação. Eu não sei ser pequena; não sei estar meio aqui, meio lá; não sei amar pouco, ser pouco. Sou grande e intensa e inteira. Esse é o meu inegociável.


Nem todo mundo sabe lidar com isso, e está tudo bem. Eu também não sei lidar com o afastamento, com a falta ou a má comunicação, com pessoas que não sabem dizer o que sentem ou que têm medo de assumir o que lhe habita o coração. É por isso que foco é fundamental. Por isso que eu foquei na reciprocidade ao longo dos últimos anos. Não adianta eu tentar viver algo que não sou ou tentar que pessoas vivam aquilo que elas não são. De novo, a vida (também) é isso e está tudo bem.


Voltando ao ano novo, em 2026, a reciprocidade continuará em voga e trará junto consigo a coragem. Por muito tempo, me vi como uma pessoa covarde, medrosa, vulnerável — até que percebi que esse era mais um discurso que diziam sobre mim do que o que realmente sou. Aprendi que falar sobre as vulnerabilidades (mesmo quando elas são desconfortáveis), que ser sincera e inteira, que viver o que se deseja (não o que esperam de nós) são justamente atos de coragem.


Quero ao meu lado os corajosos. Não os inconsequentes, não os egoístas, não os sabidões que tudo acertam, mas os corajosos no sentido etimológico da palavra: as pessoas que agem com o coração, que comunicam, que vão com medo mesmo, que se abrem pra vida, que fazem não só o que querem, mas também o que é preciso ser feito.


A última década me fez ver, sem modéstia alguma, o meu valor. Eu conheço cada um dos meus defeitos, contudo também sei o quanto eu sou comprometida com o quem faz parte dos meus dias e o quanto eu sou grata a cada pessoa que faz parte da minha vida — elas são mais do que rede de apoio, são o amor personificado. Sendo assim, não vou aceitar menos do que mereço. Ao invés de focar em me lamentar pelo que não tenho ou por quem não está mais aqui, vou dar o meu melhor para cada pessoa que se faz presente. Reciprocidade corajosa multiplica o amor.


No trabalho, na família, na vida romântica, nas amizades. Viver exige coragem.

E que Deus nos livre dos covardes. Amém!

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domingo, 14 de dezembro de 2025

Cartografia

domingo, dezembro 14, 2025 6
para Veriana Ribeiro

distâncias não são nada para quem tem raízes
e sabe fluir por águas e ares

distâncias não são nada para quem se comunica com a terra
e faz do barro palavras e das palavras, pulso

distâncias não são nada para quem amadurece
e multiplica os frutos da amizade em todo canto

distâncias não são nada para quem sabe
que partir também é ficar e que ficar também é ir

distâncias não são nada para quem está sozinha
porque estar sozinha é mito, não verdade

distâncias não são nada
quando se sabe ser parte, se é todo

distâncias não são nada e se espraiam
para ser cidade e rio e voo e floresta e lenda e chão

distâncias não são nada
distâncias são tudo
trajetórias, recomeços
de rotas sem fim

Texto escrito e lido no amigo secreto do sarau das estações como presente para a escritora Veriana Ribeiro. Para saber quem me sorteou e qual texto tanto eu, quanto as demais autoras ganharam de presente, clique aqui.


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domingo, 21 de setembro de 2025

Presente: a colheita do cultivo

domingo, setembro 21, 2025 4
Foto feita por mim da vista do hotel. :)


Há muitas maneiras de se colocar no mundo. Uma delas, talvez a principal, é se vendo presente nele. Estar em um lugar sem internet móvel, caminhar sem preocupação, comprar um livro preferido, celebrar o aniversário à beira do rio. Ser mar. Desaguar. Ver e ser vista, nos caminhos, no trabalho, nas relações, na vida. 

Nunca esperei que passaria o meu aniversário na minha cidade preferida, caminhando com a minha amiga à beira do cais, vendo e ouvindo pessoas falando a minha segunda língua ao meu redor, comendo as minhas iguarias preferidas. Visito igrejas que queria conhecer desde a década passada. Peço, agradeço e sonho. O ritmo é outro, porque o caminho é outro. O mundo não gira, ele capota, e eu aceito as múltiplas camadas que ele me apresenta. 

Recebo felicitações inesperadas. 
Sorrisos reais e virtuais. 
Abro espaços: dou informações com a confiança de um local. Ouço minhas músicas preferidas vindas de autofalantes que não são os meus. Percebo que carrego o que preciso comigo: conhecimento e generosidade. Os pequenos sinais existem para quem está atento a ouvir. 

A colheita é fruto do meu trabalho interno. Me reconheço em épocas que não vivi, muita familiaridade em espaço-tempo desconhecido. Recompensa codificada, mensagem decifrada. Nada mais importa quando encontramos a paz. 

Uma próxima fase: olho para o passado para refletir sobre o futuro. Renasço no caminho das borboletas. Elas me guiam à entrega: a transformação é garantida e é bonita. Aterro a minha energia, troco sorrisos e a vida se torna abundante em sua mudança. Uma nova etapa se inicia, enquanto cruzo o portal. O meio do caminho é um mistério. 

Há magia. 
Há criatividade. 
Há amor. 

Tudo isso é poder.
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domingo, 14 de setembro de 2025

Crisálida

domingo, setembro 14, 2025 3
Imagem por Pon Malar - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0 
(fonte: Wikipédia)


A pausa. O silêncio. Ouvir quando se morar numa megalópole, em tempos de celular como extensão do corpo, é um processo complexo. É preciso cavar tempo para o desdobramento interno. Parar e escutar sem julgamentos. De onde vêm o amor, o cansaço, a euforia, a tristeza… a força para acordar cedo é fruto da descoberta que o corpo fala com movimentos nunca vistos?

Como muitas das minhas contradições, apesar de ser uma pessoa noturna, sou solar. Amo os ruídos da noite: tricotar em silêncio quando um carro passa distante, ao mesmo tempo em que bebo o meu chá depois de ver uma partida de futebol na TV. Escrever depois disso o registro desse turbilhão silencioso, me deitar num lençol recém-trocado, dormir o sono dos justos. Amo a noite e sou capaz de ficar horas desfrutando de sua brisa fresca fruto de um dia quente. 

Entretanto, sou uma apaixonada pelo sol e pelo verão. Neste ano tivemos um inverno que, ao menos para mim, me pareceu mais rigoroso. Sofri demais. O corpo parecia enferrujado, mesmo fazendo aulas de dança e de Pilates. O humor estava sem disposição alguma, ainda que os exames de sangue dissessem que está tudo bem. O nublado, o frio, a pouca chuva que traz consigo a secura do ar. Tudo me faz ser uma pessoa que tem certeza de que não aguentaria viver em nenhum destes países do Hemisfério Norte, em que o dia quase não existe durante a estação mais fria do ano.

Gosto de observar, entretanto, as estações. Elas me mostram o quanto nada é permanente. Estamos no fim do inverno e nesta semana eu pude notar os primeiros sinais da primavera dando um "oi" lá no horizonte: a luz solar despontando mais cedo e iluminando toda a cozinha pela manhã, bem-te-vis fazendo a sua sinfonia horas antes do esperado e sabiás soltando os primeiros pios, calor que começa antes das 10 e vai crepúsculo adentro. Tudo corroborando para um renascer. 

Quando a natureza renasce, eu renasço junto. Não só porque eu sou parte do todo, mas porque sou solar. Sou expansão. Sou calor. Sou inteira. 

Clarice dizia que se sentia morta quando não escrevia. Os primeiros meses de 2025 foram difíceis pra mim, porque entendi exatamente o que ela queria dizer com isso. Mesmo me forçando a comparecer diariamente ao meu ofício, algo esteve minimamente semimorto.  Cobra trocando de pele. Ovo virando lagarta. Lagarta se recolhendo em casulo. Casulo envolvendo crisálida. Seda. Crisálida poética e machadiana. 

Aprendo com a natureza. 

Embora ainda não tenha muita clareza. Surrender. O que é o "render-se" afinal? O deixar fluir ainda me vem cheio de interrogações. Tento relaxar os ombros, abrir espaço.

Observo. 

Provavelmente a lagarta não recolhe pensando que vai vai se tornar mariposa ou borboleta. Ela só vai. Eu apenas fui, vou, irei.

A vida é bela mesmo em seus tropeços.

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domingo, 7 de setembro de 2025

Defenestração

domingo, setembro 07, 2025 3


Fenestra é janela em latim. De- é um prefixo, também latino, que significa movimento de cima para baixo. Logo, podemos descrever a ação de atirar algo pela janela como defenestrar, e o ato, em si, como defenestração.

Embora seja professora de língua portuguesa, não estou aqui para dar aula sobre a origem das palavras. Tampouco, para dizer que aprendi a etimologia de defenestração nas aulas de latim ou lendo algum dos (maravilhosos!) livros do Caetano W. Galindo. Escrevo hoje na tentativa de defenestrar no papel algumas palavras carinhosas a pessoa que me ensinou o significado do vocábulo de uma maneira muito mais engraçada do que o primeiro parágrafo metódico do meu texto. Tal pessoa é Luis Fernando Veríssimo.

Quando criança, meu pai trabalhava na editora Abril. Ele sempre trazia um exemplar da Veja e da Veja SP para casa. Eu, por minha vez, sempre folheava as revistas nada atrativas para uma criança e lia aquilo que conseguia compreender: a última página, a página das crônicas. 

Claro que, naquela época, eu não entendia que crônica era um gênero discursivo que, como explicou o Antônio Cândido no famoso texto publicado na coleção Para Gostar de Ler, fala sobre temas ao rés do chão. Lia porque a simplicidade me divertia. 

Anos mais tarde, já frequentando a biblioteca, descobri aquele autor meio careca, meio gordinho, que tinha muitos — mas muitos MESMO — livros publicados em que narrava cenas do cotidiano. As tais das crônicas. Comecei com as Comédias para se ler na escola e não parei mais. Veríssimo, pra mim, tornou-se sinônimo de verdade, uma verdade íntima que me revelou uma epifania solar: também queria escrever acerca dos causos e mais causos que tanto observara. 

No meio de todos aqueles textos, lá estava a tal da Defenestração

Se hoje defenestro, do alto da minha caixola, palavras no papel, é porque antes de mim houve um Luis Fernando (veja só, Fernando, assim como eu!), que do alto de sua timidez não deixava de observar (!!!) tudo ao redor e que fazia questão de amar a língua como instrumento não só de trabalho, mas de vida. Por isso, a notícia de sua passagem, me deu um nó no peito. Perdemos um dos grandes!

O nó veio por saber que ele é eterno; mas, agora, etéreo. Sublimou-se em sua presença física, não vai mais defenestrar palavras sobre nós, ainda que seu legado se sustente firme, forte, sorridente, crítico e bem-humorado. 

Certa vez ouvi o Mick Jagger dizendo que só se sente velho quando ele vê alguém que ama partindo. A idade pesou por aqui, no dia em que o Veríssimo se foi.

Mas, para não terminar esta crônica de maneira tão solene e triste (acho mesmo que o Veríssimo detestaria isso), deixo abaixo a Defenestração, do próprio autor — muito melhor do que as minhas palavras, que de sinceras soam piegas. Divirtam-se:

Luis Fernando Veríssimo
(Imagem: Unesp/divulgação)


Defenestração

Luis Fernando Veríssimo

Certas palavras tem o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A falácia Amazônica. A misteriosa falácia Negra. 

Hermeneutas deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria. 

Os hermeneutas estão chegando! 
— Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada... 

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisa recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto. 

— Alô... 
 O que é que você quer dizer com isso? 

Traquinagem devia ser uma peça mecânica. 

— Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto. 

Plúmbeo devia ser o barulho que o corpo faz ao cair na água.

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um som lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres: 

— Defenestras? 

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam. 

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria assim defenestradores profissionais. 

Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma ou outra vez, como em: 

— Aquele é um defenestrado. 

Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada era a palavra exata. Um dia finalmente procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino, ato de atirar alguém ou algo pela janela. 

Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal,não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração? 

Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo. 

— Les defenestrations. Devem ser proibidas. 
— Sim, monsieur le ministre. 
— São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios. 
— Sim, monsieur le ministre.
— Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos. 

Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes. 

— É essa estranha vontade de atirar alguém pela janela, doutor...
— Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar — diz o analista, afastando-se da janela.

Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.

Na lua-de-mel, numa suite matrimonial, no 17º andar.

— Querida...
— Mmmm?
— Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...
— Fala amor.
— Sou um defenestrador.

E a noiva, em sua inocência, caminha para cama:

— Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!

Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:

— Fui defenestrado...

Alguém comenta:

— Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!

Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar essa crônica. Se ela sair é porque resisti.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. Defenestração. In: O nariz e outras crônicas. 6.ed. São Paulo: Ática, 1998. p. 82-84.


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