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domingo, 24 de maio de 2026

Negativo

domingo, maio 24, 2026 2
Imagem por Markus Spiske, via Pexels.

não temos fotos.
o duende levou consigo o registro mágico do Natal.

não há memórias.
as doçuras foram levadas pela tempestade de verão.

não há amor.
como explicar a ilusão do que aconteceu,
quando o sentimento não era recíproco?

não há saudade.
como entender o que está acontecendo agora,
com uma comunicação inexistente?

em um tempo em suspenso,
o relicário segue pendurado no pescoço:

nele há dois lados que seguem vazios.
 
provavelmente nunca mais serão preenchidos.

💔📷💚

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de maio de 2026 é relicário.
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domingo, 10 de maio de 2026

O amor é uma K-46

domingo, maio 10, 2026 7

*Texto escrito em 2019.


Definir o amor como uma arma é tão comum que a expressão, antes poética, agora não passa de um mero clichê. Mas o que não é um clichê, se não uma imagem que faz com que a gente a use até gastá-la, de tanto que se identifica com ela?

Essa semana, fui almoçar com uma das professoras que trabalha comigo. Quando a encontrei, ela estava pálida, tremendo mais que vara verde. Via em seu rosto que ela buscava uma forma de me explicar o que se passava, mas ela mesma estava tão passada que não conseguia encontrar as palavras. Passava o celular de uma mão a outra, tentava tirar o cabelo do rosto, enquanto caminhava rápido. Quando finalmente nos distanciamos do colégio, ela soltou em um atropelo:

— A Vânia disse que quer que o José morra, você acredita? Quando eu perguntei o porquê, ela respondeu que é porque ele é diferente, porque ele tem dois pais.

Senti o ar entrando em meus pulmões, mas não consegui fazer os meus neurônios se articularem. Como assim, uma aluna minha, uma criança de oito anos sendo tão homofóbica? Como pode uma criança desejar a morte de outra tão gratuitamente? Na hora, a imagem que veio na minha cabeça foi a de todos os meus amigos gays, lésbicas e bis, o quanto eles são maravilhosos, o quanto eles não deveriam sofrer por apenas existirem. Como o amor alheio pode incomodar tanto?

— Eu perguntei para a Vânia se ela acreditava de verdade nisso que dizia — completou a minha amiga — ela respondeu que não. Tenho certeza que isso é coisa que deve ter ouvido dos pais.

Coisa dos pais. Meu sangue ferveu na hora que concluímos isso. Adultos semeando o preconceito em pessoas tão pequenas. “Ninguém nasce odiando”, já diria o Mandela. Ninguém nasce odiando, mas aprende com os pais, com a sociedade, em todos os lugares. Isso é desesperador e pensar em tudo o que o pequeno José pode ter sentido ao ouvir um absurdo desses me deixou profundamente abalada.

Li que algum desses escritores famosos disse que um bom autor não pode escrever com raiva, porque assim o texto não fica bom. Fico me perguntando como escrever sobre ver outras pessoas sendo massacradas apenas por existirem sem ter sangue nos olhos. Sem sentir esta fúria que cresce em mim. Como amar em tempos de ódio?

Hoje eu acordei com a notícia que o prefeito do Rio de Janeiro mandou apreender uma HQ da Marvel que estava sendo vendida na Bienal Internacional carioca, porque em um dos quadrinhos, dois personagens homens se beijam. Segundo ele, esse material continha “conteúdo pornográfico”. Pleno 2019, e eu tendo que lidar com censura no Brasil. Mais uma vez meu o sangue ferveu.

Como escritora (e tendo amigos que também o são), quero poder escrever sobre o que eu quiser. Quero que os meus leitores possam ler o que eles quiserem. Quero que meus amigos e desconhecidos possam existir. Sem represálias, sem medo, com o direito de amar quem eles quiserem. Quero que as pessoas vivam à base do amor. Por isso escrevo esta crônica. Porque preciso me juntar a todos que acreditam que compartilhar bons sentimentos é válido e ir à luta.

Vamos produzir, sim. Vamos consumir, sim. Vamos amar. O amor é o nosso combustível e a nossa arma. Ele é a nossa K-46. Por mais que dizer isso soe o maior clichê dos clichês, é amando que venceremos todo esse preconceito.
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domingo, 26 de abril de 2026

Como uma playlist de música ruim no repeat

domingo, abril 26, 2026 12

— Foi só uma vez. Eu não tive escolha.

Alexandre me olha parado na porta daquele que até ontem foi o nosso quarto, com os lábios secos e os olhos úmidos. Ele espera por uma resposta. Mais uma resposta. E quanto mais ele espera, mais em silêncio eu fico. Estou sentada de costas para ele. Olho pela janela e vejo o céu azul, com suas pequenas nuvens brancas que prenunciam o fim do verão. Ele continua esperando, como se a vida dele dependesse da minha voz enchendo os seus ouvidos, o quarto, a casa. Persisto muda. É como se não houvesse ar capaz de encher os meus pulmões e de fazer as minhas cordas vocais vibrarem para emitir quaisquer sons. Meu corpo segue inerte.

— Fala alguma coisa... Você sabe que eu sou assim mesmo, mas sabe que eu te amo, não sabe?

Não. Eu sei que tudo isso não é amor, mas resolvo deixar que o silêncio continue falando por si só. Agora eu não me importo mais. Por tantas outras vezes, eu já havia gritado, chorado, jogado o que tinha ao alcance das mãos nas paredes, agora eu não tenho mais forças para argumentar. Estou esgotada até mesmo para rebater o “só uma vez”. Primeiro que não era “só”; segundo que era recorrente. As cenas das descobertas tiveram as suas nuances, é verdade, mas eram recorrentes. O mesmo modus operandi tanto nas merdas, quanto nas súplicas por perdão. Depois de três vezes, já dá pra pedir música no Fantástico, não é mesmo?

— Por Deus, amor, fala alguma coisa... Você sabe que eu sou assim mesmo; mas, que se eu não te contei, fiz isso por você, pra você não ficar chateada, triste e raivosa como está agora. Eu sou homem, tenho os meus instintos. Você sabe, todo homem faz isso, não sabe? Anda logo, me perdoa! 

Respiro fundo e me viro para ele. Alexandre continua tão bonito como quando nos conhecemos. Apesar da estatura mediana, sua voz envolvente, seu olhar profundo, suas tatuagens e as covinhas nas bochechas continuam ali. Ele continua ali. Inteiro e ao alcance das minhas mãos. Como pode a tentação que liberta o desejo despertar também tanta dor? Enquanto o meu corpo quer ter o dele, minha cabeça e meu coração me guiam por outro caminho: saio de perto da janela, levanto aquela que era a nossa cama box e abro o baú em silêncio. Pela visão periférica, noto que ele parece confuso, mas sigo firme. Tiro a mala de viagem há tempos guardada, coloco-a sobre o colchão, abro o armário sem dizer uma única palavra. Então, começo a pegar a parte que me cabe do nosso agora ex-pequeno latifúndio.

— Amor, você tá louca? Pelo amor de Deus, isso foi só um deslize, algo pequeno, da minha natureza. Você já me perdoou tantas vezes, não custa fazer isso mais uma? Eu prometo que isso não vai se repetir! Prometo! — Continuo impassível. Se alguém visse a cena pela janela, acharia que eu estou arrumando uma mala para uma viagem feliz de férias. Só quando Alexandre tenta tirar as peças já guardadas que eu o encaro:

— Você pode dizer o que for. — Minha voz soa tão calma, tão resignada, que até eu me surpreendo. — Eu vou pegar as minhas coisas e seguir a minha vida.

— Mas você não pode fazer isso! Você tem que me perdoar! O que as pessoas vão pensar de nós? De mim? Você não tem dó de mim, não?

— Alexandre, vai ficar tudo bem. Aliás, já está tudo bem. — Fecho a mala e a ponho no chão. — Quanto ao que vão dizer ou como você se sente, você deveria ter pensado nisso antes. Eu, honestamente, não me importo.

📻📻📻

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de abril de 2026 é a mentiras que contamos.
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domingo, 12 de abril de 2026

Ciclos se encerram

domingo, abril 12, 2026 9

sempre fui muito faladeira, mas é importante aprender os momentos de calar e ouvir. nessas horas, gosto de escutar em modo de mergulho. sigo como as ondas: para fora e para dentro.

ouço e revejo.

nenhuma situação volta à toa. 

padrões ressurgem para que a gente possa refletir sobre o nosso aprendizado. não quero ter as mesmas atitudes de antes. cansei.

estou exausta de dar murros em ponta de faca.

é importante assumir as próprias responsabilidades e estabelecer limites. é importante não ignorar a bússola interna.

escolher as próprias batalhas. só assim se pode lutar.
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domingo, 29 de março de 2026

Psique

domingo, março 29, 2026 12
Imagem por Paolobon140

a psicanálise diz que o maior problema de todos é que a gente não sabe o que a gente deseja

faço incontáveis listas
planejo cada passo
no fundo, o que quero é escrever um texto
longo, sem rimas
que seja minimamente, literariamente, vivido
a beleza é poética
quando está no dia a dia

(alguns desejos são sonhos
que estão fora do meu alcance)

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domingo, 22 de março de 2026

Labirinto

domingo, março 22, 2026 10

no cruzar de caminhos,
na esquina ao acaso,
no não sei se vou ou se fico
na janela ou no abismo:
nossos olhares se cruzam.

na juventude ou na velhice,
na hora marcada ou inexata,
no inverno seco ou no verão molhado,
no seguir a pé ou no travar do trânsito:
nossos olhares se tocam.

você com cachorro, eu com gato,
você e seu chá, eu e meu espresso,
você acordando cedo, eu indo madrugada adentro,
você amando inverno, eu preferindo verão:
nossos olhares travam.

pessoa certa na hora errada:
a vida exemplificando
que rejeição é ato de ser protegido
por algum dos deuses e seus discípulos.

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de março de 2026 é pessoa certa na hora errada.
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domingo, 15 de março de 2026

Processos criativos são complexos

domingo, março 15, 2026 8
Meu exemplar do livro O caminho do artista e eu.

Estou fazendo O Caminho do Artista novamente. Quando esta newsletter chegar até você, provavelmente estarei finalizando a terceira semana desta jornada composta por doze. Tem sido interessante desta vez, porque não estou fazendo sozinha. Minha aluna, amiga de longa data e também escritora, Lucila Eliazar Neves, tem dividido comigo as angústias e descobertas desse caminho. Poder trocar sobre os insights e relacionar isso com as nossas escritas é muito interessante.

Comecei a jornada empolgada. Recomeçar é um verbo que divide opiniões. Desta vez, resolvi que este recomeço seria fresco, empolgante, gentil. Assim tem sido, embora as semanas dois e três tenham trazido consigo um cansaço descomunal. Na terça-feira já contava as horas para o descanso que só viria na segunda-feira seguinte. Descansar é importante para criar.

Me sinto mais criativa. Tenho posts escritos para o meu site. Tenho artigos escritos para o Projeto Escrita Criativa. Tenho gravado vídeos para o YouTube com uma regularidade que me espanta. Cortei o cabelo. Comprei uma luminária que alimentou a minha fome de leitura. Só não consegui ainda fazer as edições finais no livro 3; que, aliás, já ganhou um nome.

Saiba mais: fiz uma playlist no meu canal do YouTube para documentar o meu processo do Caminho do Artista. Você pode assisti-la clicando aqui.

O livro 3 me espera desde 2025. Ele está impresso. A versão encadernada está revisada. Agora só falta passar as anotações de volta para o arquivo. Emperrei aí. A resistência se traduz em cansaço e em buscas por trabalhos que paguem os boletos. Quem já leu a versão sem a revisão gostou. Quem vai ler para revisar e para publicar está na expectativa. Eu estou na expectativa também. Gestar um livro é um processo muito intenso, talvez mais intenso do que soltá-lo no mundo.

Estou fazendo O Caminho do Artista e pensando que admiro respeito, sagacidade, lealdade, criatividade e bom humor, mas que preciso mesmo, mesmo é de uma dose de coragem. A guerreira está exausta e sozinha. O lance é que soldada cansada não vence a guerra.

Processos criativos são complexos.
Uma hora, o livro novo sai.

*Crônica enviada na minha newsletter, Vamos bater um papo?, edição 47. Caso queira receber textos meus (y otras cositas más) no seu e-mail, inscreva-se.
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domingo, 15 de fevereiro de 2026

Os ventos do carnaval não movem moinhos

domingo, fevereiro 15, 2026 16


Parecia vinda de algum invisível moinho de vento. Era incontrolável. Depois de tantas cores, tantas músicas, tantos estímulos, o silêncio. Ao longe, um bêbado ou outro se equilibrando em uma esquina, buscando um lugar menos ruim para vomitar. Cidade no limbo entre fim de festança e volta ao trabalho. Aquilo era hora de parir uma explosão interna e incontornável? O azul-petróleo já ganhava tons de luz no horizonte ao leste, e o olhar profundo de Fátima desaguava em mar. Tormenta. Abraço que é casa, mas que também é despedida. Mesmo depois de tanto tempo, o fim ainda era tão gritante na cabeça dela. Principalmente em momentos em que apenas os pássaros cantam na selva de pedras.

(Como ninguém percebia: juras? Mentiras? Tudo tão visível quanto a luz solar.)

A Quarta-Feira de Cinzas anunciava a calmaria de sua aurora. Um novo dia, um novo começo. A sabedoria popular diz que o ano só começa mesmo depois do carnaval. E de um corte (radical) de cabelo. Entre um soluço e uma fungada, estava decidido: ligaria no salão, marcaria um horário o mais breve possível. Cabelo curto. Roupa curta. Fim de verão e nascimento de uma paciência cada vez mais restrita, a única possível para quem teve o coração partido tantas vezes que não sabe nem como ele ainda continua bombeando sangue no peito.

Peito pequeno. Apesar dos pesares, coração gigante. Sangue latino. Fátima seguiria sozinha, assumindo os pecados dela e de Álvaro (ainda que vivo, ele seria um de seus mortos?). Seguiria quebrando lanças, povoando generosidade, sendo os ombros do mundo: aquela que sempre ama demais, com sua alma cativa. A última noite morria. O sol já despontava. Era Quarta-Feira de Cinzas, e ela entendia as lágrimas. Todo carnaval tem seu fim, rompe com os velhos tratados, leva milhares de fios de cabelo, buscam por guinadas. O desaguar sempre fez sentido em todos os caminhos, que apesar de serem tortos, sempre a levaram para casa — mesmo que como em um grito, num desabafo.

🌙🌟🌞



Conto inspirado na canção de Ney Matogrosso e no tema "a última noite".



Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de fevereiro de 2026 é a última noite.
Para saber os outros temas e como participar, clique aqui.


Para ler sobre a primeira aparição de Fátima e Álvaro aqui no blog, clique aqui.


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domingo, 4 de janeiro de 2026

2026, o ano da coragem

domingo, janeiro 04, 2026 15
What you don't have you don't need it now
What you don't know you can feel it somehow


Fechei o ano conversando com uma amiga sobre a vida, os relacionamentos e a coragem. Muito se fala sobre a vida romântica e amorosa, mas esquece-se que o amor está por toda parte. Piegas, eu sei. Piegas, mas verdadeiro.


Dizia a ela que 2024 e 2025 foram anos de reciprocidade. Foquei no que e em que eram recíprocos. Está junto, estou junto. Não está junto? Bem, não posso forçar ninguém, mas também não posso perder meu tempo e minha energia aceitando menos.


Sempre estive por inteira em tudo: no trabalho, nas amizades, na família, nos amores. Intensidade faz parte da minha essência, e todas as vezes em que tentei me diminuir para caber, para não perder alguém, só saí sofrendo das situações. Teria sido mais fácil me retirar ao sinal da primeira bandeira vermelha, mas eu sei que não desisto logo de quem amo. Todo mundo tem os seus defeitos, e eu também não estou imune: demorar para desistir é um deles que carrego.


De qualquer forma, há o inegociável. Amadurecer é cada vez mais compreender onde a gente pode ser flexível, qual é o nosso limite e aquilo que não tem negociação. Eu não sei ser pequena; não sei estar meio aqui, meio lá; não sei amar pouco, ser pouco. Sou grande e intensa e inteira. Esse é o meu inegociável.


Nem todo mundo sabe lidar com isso, e está tudo bem. Eu também não sei lidar com o afastamento, com a falta ou a má comunicação, com pessoas que não sabem dizer o que sentem ou que têm medo de assumir o que lhe habita o coração. É por isso que foco é fundamental. Por isso que eu foquei na reciprocidade ao longo dos últimos anos. Não adianta eu tentar viver algo que não sou ou tentar que pessoas vivam aquilo que elas não são. De novo, a vida (também) é isso e está tudo bem.


Voltando ao ano novo, em 2026, a reciprocidade continuará em voga e trará junto consigo a coragem. Por muito tempo, me vi como uma pessoa covarde, medrosa, vulnerável — até que percebi que esse era mais um discurso que diziam sobre mim do que o que realmente sou. Aprendi que falar sobre as vulnerabilidades (mesmo quando elas são desconfortáveis), que ser sincera e inteira, que viver o que se deseja (não o que esperam de nós) são justamente atos de coragem.


Quero ao meu lado os corajosos. Não os inconsequentes, não os egoístas, não os sabidões que tudo acertam, mas os corajosos no sentido etimológico da palavra: as pessoas que agem com o coração, que comunicam, que vão com medo mesmo, que se abrem pra vida, que fazem não só o que querem, mas também o que é preciso ser feito.


A última década me fez ver, sem modéstia alguma, o meu valor. Eu conheço cada um dos meus defeitos, contudo também sei o quanto eu sou comprometida com o quem faz parte dos meus dias e o quanto eu sou grata a cada pessoa que faz parte da minha vida — elas são mais do que rede de apoio, são o amor personificado. Sendo assim, não vou aceitar menos do que mereço. Ao invés de focar em me lamentar pelo que não tenho ou por quem não está mais aqui, vou dar o meu melhor para cada pessoa que se faz presente. Reciprocidade corajosa multiplica o amor.


No trabalho, na família, na vida romântica, nas amizades. Viver exige coragem.

E que Deus nos livre dos covardes. Amém!

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domingo, 14 de dezembro de 2025

Cartografia

domingo, dezembro 14, 2025 6
para Veriana Ribeiro

distâncias não são nada para quem tem raízes
e sabe fluir por águas e ares

distâncias não são nada para quem se comunica com a terra
e faz do barro palavras e das palavras, pulso

distâncias não são nada para quem amadurece
e multiplica os frutos da amizade em todo canto

distâncias não são nada para quem sabe
que partir também é ficar e que ficar também é ir

distâncias não são nada para quem está sozinha
porque estar sozinha é mito, não verdade

distâncias não são nada
quando se sabe ser parte, se é todo

distâncias não são nada e se espraiam
para ser cidade e rio e voo e floresta e lenda e chão

distâncias não são nada
distâncias são tudo
trajetórias, recomeços
de rotas sem fim

Texto escrito e lido no amigo secreto do sarau das estações como presente para a escritora Veriana Ribeiro. Para saber quem me sorteou e qual texto tanto eu, quanto as demais autoras ganharam de presente, clique aqui.


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domingo, 21 de setembro de 2025

Presente: a colheita do cultivo

domingo, setembro 21, 2025 4
Foto feita por mim da vista do hotel. :)


Há muitas maneiras de se colocar no mundo. Uma delas, talvez a principal, é se vendo presente nele. Estar em um lugar sem internet móvel, caminhar sem preocupação, comprar um livro preferido, celebrar o aniversário à beira do rio. Ser mar. Desaguar. Ver e ser vista, nos caminhos, no trabalho, nas relações, na vida. 

Nunca esperei que passaria o meu aniversário na minha cidade preferida, caminhando com a minha amiga à beira do cais, vendo e ouvindo pessoas falando a minha segunda língua ao meu redor, comendo as minhas iguarias preferidas. Visito igrejas que queria conhecer desde a década passada. Peço, agradeço e sonho. O ritmo é outro, porque o caminho é outro. O mundo não gira, ele capota, e eu aceito as múltiplas camadas que ele me apresenta. 

Recebo felicitações inesperadas. 
Sorrisos reais e virtuais. 
Abro espaços: dou informações com a confiança de um local. Ouço minhas músicas preferidas vindas de autofalantes que não são os meus. Percebo que carrego o que preciso comigo: conhecimento e generosidade. Os pequenos sinais existem para quem está atento a ouvir. 

A colheita é fruto do meu trabalho interno. Me reconheço em épocas que não vivi, muita familiaridade em espaço-tempo desconhecido. Recompensa codificada, mensagem decifrada. Nada mais importa quando encontramos a paz. 

Uma próxima fase: olho para o passado para refletir sobre o futuro. Renasço no caminho das borboletas. Elas me guiam à entrega: a transformação é garantida e é bonita. Aterro a minha energia, troco sorrisos e a vida se torna abundante em sua mudança. Uma nova etapa se inicia, enquanto cruzo o portal. O meio do caminho é um mistério. 

Há magia. 
Há criatividade. 
Há amor. 

Tudo isso é poder.
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domingo, 14 de setembro de 2025

Crisálida

domingo, setembro 14, 2025 3
Imagem por Pon Malar - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0 
(fonte: Wikipédia)


A pausa. O silêncio. Ouvir quando se morar numa megalópole, em tempos de celular como extensão do corpo, é um processo complexo. É preciso cavar tempo para o desdobramento interno. Parar e escutar sem julgamentos. De onde vêm o amor, o cansaço, a euforia, a tristeza… a força para acordar cedo é fruto da descoberta que o corpo fala com movimentos nunca vistos?

Como muitas das minhas contradições, apesar de ser uma pessoa noturna, sou solar. Amo os ruídos da noite: tricotar em silêncio quando um carro passa distante, ao mesmo tempo em que bebo o meu chá depois de ver uma partida de futebol na TV. Escrever depois disso o registro desse turbilhão silencioso, me deitar num lençol recém-trocado, dormir o sono dos justos. Amo a noite e sou capaz de ficar horas desfrutando de sua brisa fresca fruto de um dia quente. 

Entretanto, sou uma apaixonada pelo sol e pelo verão. Neste ano tivemos um inverno que, ao menos para mim, me pareceu mais rigoroso. Sofri demais. O corpo parecia enferrujado, mesmo fazendo aulas de dança e de Pilates. O humor estava sem disposição alguma, ainda que os exames de sangue dissessem que está tudo bem. O nublado, o frio, a pouca chuva que traz consigo a secura do ar. Tudo me faz ser uma pessoa que tem certeza de que não aguentaria viver em nenhum destes países do Hemisfério Norte, em que o dia quase não existe durante a estação mais fria do ano.

Gosto de observar, entretanto, as estações. Elas me mostram o quanto nada é permanente. Estamos no fim do inverno e nesta semana eu pude notar os primeiros sinais da primavera dando um "oi" lá no horizonte: a luz solar despontando mais cedo e iluminando toda a cozinha pela manhã, bem-te-vis fazendo a sua sinfonia horas antes do esperado e sabiás soltando os primeiros pios, calor que começa antes das 10 e vai crepúsculo adentro. Tudo corroborando para um renascer. 

Quando a natureza renasce, eu renasço junto. Não só porque eu sou parte do todo, mas porque sou solar. Sou expansão. Sou calor. Sou inteira. 

Clarice dizia que se sentia morta quando não escrevia. Os primeiros meses de 2025 foram difíceis pra mim, porque entendi exatamente o que ela queria dizer com isso. Mesmo me forçando a comparecer diariamente ao meu ofício, algo esteve minimamente semimorto.  Cobra trocando de pele. Ovo virando lagarta. Lagarta se recolhendo em casulo. Casulo envolvendo crisálida. Seda. Crisálida poética e machadiana. 

Aprendo com a natureza. 

Embora ainda não tenha muita clareza. Surrender. O que é o "render-se" afinal? O deixar fluir ainda me vem cheio de interrogações. Tento relaxar os ombros, abrir espaço.

Observo. 

Provavelmente a lagarta não recolhe pensando que vai vai se tornar mariposa ou borboleta. Ela só vai. Eu apenas fui, vou, irei.

A vida é bela mesmo em seus tropeços.

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domingo, 7 de setembro de 2025

Defenestração

domingo, setembro 07, 2025 3


Fenestra é janela em latim. De- é um prefixo, também latino, que significa movimento de cima para baixo. Logo, podemos descrever a ação de atirar algo pela janela como defenestrar, e o ato, em si, como defenestração.

Embora seja professora de língua portuguesa, não estou aqui para dar aula sobre a origem das palavras. Tampouco, para dizer que aprendi a etimologia de defenestração nas aulas de latim ou lendo algum dos (maravilhosos!) livros do Caetano W. Galindo. Escrevo hoje na tentativa de defenestrar no papel algumas palavras carinhosas a pessoa que me ensinou o significado do vocábulo de uma maneira muito mais engraçada do que o primeiro parágrafo metódico do meu texto. Tal pessoa é Luis Fernando Veríssimo.

Quando criança, meu pai trabalhava na editora Abril. Ele sempre trazia um exemplar da Veja e da Veja SP para casa. Eu, por minha vez, sempre folheava as revistas nada atrativas para uma criança e lia aquilo que conseguia compreender: a última página, a página das crônicas. 

Claro que, naquela época, eu não entendia que crônica era um gênero discursivo que, como explicou o Antônio Cândido no famoso texto publicado na coleção Para Gostar de Ler, fala sobre temas ao rés do chão. Lia porque a simplicidade me divertia. 

Anos mais tarde, já frequentando a biblioteca, descobri aquele autor meio careca, meio gordinho, que tinha muitos — mas muitos MESMO — livros publicados em que narrava cenas do cotidiano. As tais das crônicas. Comecei com as Comédias para se ler na escola e não parei mais. Veríssimo, pra mim, tornou-se sinônimo de verdade, uma verdade íntima que me revelou uma epifania solar: também queria escrever acerca dos causos e mais causos que tanto observara. 

No meio de todos aqueles textos, lá estava a tal da Defenestração

Se hoje defenestro, do alto da minha caixola, palavras no papel, é porque antes de mim houve um Luis Fernando (veja só, Fernando, assim como eu!), que do alto de sua timidez não deixava de observar (!!!) tudo ao redor e que fazia questão de amar a língua como instrumento não só de trabalho, mas de vida. Por isso, a notícia de sua passagem, me deu um nó no peito. Perdemos um dos grandes!

O nó veio por saber que ele é eterno; mas, agora, etéreo. Sublimou-se em sua presença física, não vai mais defenestrar palavras sobre nós, ainda que seu legado se sustente firme, forte, sorridente, crítico e bem-humorado. 

Certa vez ouvi o Mick Jagger dizendo que só se sente velho quando ele vê alguém que ama partindo. A idade pesou por aqui, no dia em que o Veríssimo se foi.

Mas, para não terminar esta crônica de maneira tão solene e triste (acho mesmo que o Veríssimo detestaria isso), deixo abaixo a Defenestração, do próprio autor — muito melhor do que as minhas palavras, que de sinceras soam piegas. Divirtam-se:

Luis Fernando Veríssimo
(Imagem: Unesp/divulgação)


Defenestração

Luis Fernando Veríssimo

Certas palavras tem o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A falácia Amazônica. A misteriosa falácia Negra. 

Hermeneutas deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria. 

Os hermeneutas estão chegando! 
— Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada... 

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisa recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto. 

— Alô... 
 O que é que você quer dizer com isso? 

Traquinagem devia ser uma peça mecânica. 

— Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto. 

Plúmbeo devia ser o barulho que o corpo faz ao cair na água.

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um som lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres: 

— Defenestras? 

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam. 

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria assim defenestradores profissionais. 

Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma ou outra vez, como em: 

— Aquele é um defenestrado. 

Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada era a palavra exata. Um dia finalmente procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino, ato de atirar alguém ou algo pela janela. 

Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal,não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração? 

Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo. 

— Les defenestrations. Devem ser proibidas. 
— Sim, monsieur le ministre. 
— São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios. 
— Sim, monsieur le ministre.
— Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos. 

Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes. 

— É essa estranha vontade de atirar alguém pela janela, doutor...
— Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar — diz o analista, afastando-se da janela.

Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.

Na lua-de-mel, numa suite matrimonial, no 17º andar.

— Querida...
— Mmmm?
— Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...
— Fala amor.
— Sou um defenestrador.

E a noiva, em sua inocência, caminha para cama:

— Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!

Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:

— Fui defenestrado...

Alguém comenta:

— Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!

Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar essa crônica. Se ela sair é porque resisti.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. Defenestração. In: O nariz e outras crônicas. 6.ed. São Paulo: Ática, 1998. p. 82-84.


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domingo, 27 de julho de 2025

SP, 14 de maio de 2021 (sexta-feira, 02h32)*

domingo, julho 27, 2025 8



A navalha da espada corta tudo o que é onírico e me acende a luz da consciência já perdida. Não é o avassalador que me move a escrever, é o anseio pela tranquilidade que repousa no silêncio compartilhado e nas mãos dadas. 

Eu cresci achando que queria um amor de cinema, que seria um clichê ambulante, desses em que um tromba no outro e a paixão acontece instantaneamente. Eu vivi um amor que acabou como nas tragédias: ele sem memória, sem saber quem sou, sem saber quem éramos. Sufoquei a minha perda, o meu luto e, sobretudo, o meu afeto. Precisava seguir. Demorou muito, mas aqui estou. Aqui caminho. Viva. Viva com ar que enche os meus pulmões e força oxigênio correr pela minha veia.

Anos depois vieram outras pessoas. O que tinha a mesma profissão que a minha; o match do Tinder que atrasou mais de duas horas e o encontro não deu em nada; o cara que flertou de todos os jeitos e surgiu com uma namorada depois que me percebeu apaixonada por ele. Todos hollywodianamente avassaladores. Todos me forçando a nadar e morrer na praia. Logo eu, que não sei nenhum dos quatro tipos de nado.

Estou viva. Cansadamente viva. Quando penso na tarefa de escrever sobre essas feridas me sinto inteira. Hoje elas têm casca, algumas já são cicatriz. Machucados que se fortaleceram porque joguei palavras e mais palavras sobre elas. Oxigênio forçado em cada célula.

Tento me apaixonar gradativamente pela pessoa que vejo todos os dias no espelho. O tempo é implacável e já começa a mostrar os seus sinais. Os cabelos estão diferentes, a pele contém marcas, as rugas iniciam a dominação de território ao redor dos olhos. Há uma dissonância entre a minha mente e o meu corpo. O relacionamento deles já entrou em crise há tempos: a cabeça é jovem, mas os joelhos falam alto com suas dobradiças enferrujadas. "Começa assim sem dor, quando chegar nos 60 a gente conversa", diz minha companheira de aula de Pilates. As areias do tempo teimam em escorrer rio abaixo…

Há mais de um ano que não saio de casa, que não vejo os meus amigos. Tento me lembrar quando foi a última vez que beijei uma boca. Não consigo. A minha relação com o tempo anda mais confusa que a minha vida amorosa. "Todo dia é uma segunda-feira", disse a minha professora de escrita, mas acho que já ouvi outras pessoas falando algo parecido.

Presenciar fatos históricos é algo que sempre me fez me apegar à vida: a morte do Senna, os aviões que caíram perto de casa, a queda das Torres gêmeas, a luta do Mandela. Sempre fui uma espectadora atenta ao meu tempo. Nunca pensei, contudo, que teria que ser participante ativa de um evento que mudaria a vida planetária do avesso, como tem sido esta pandemia. Enfurnada em casa sigo (ontem completei 1 ano e 2 meses em que saí apenas 16 vezes de casa para cumprir tarefas que precisavam de mim impreterivelmente). Continuo sendo categórica na missão de proteger a mim e à minha família. Sigo estrita, restrita, e exaurida.

Minha memória anda tão exausta quanto o meu corpo. Talvez seja por isso mesmo que eu queira muito um relacionamento, mas não mais um amor avassalador. Eu não quero roteiros perfeitos, quero aconchego.

***

Antes de ler sobre a experiência de pessoas negras, eu achava que eu era estranha. Por que eu sempre era a única sozinha? Depois do contato, compreendi tudo. Os pontos se ligaram de um modo que foi só parar para analisar, que fez total sentido. Não à toa todos os caras por quem já tive atração estão se relacionando todos com mulheres brancas, não à toa, o principal deles não quis me assumir, me apresntar para a família e para os amigos. O racismo me atravessa ainda que muita gente não queira me ver como a mulher negra que sou. Existo dilacerada por essa violência que me consome viva todos os dias.

Raised by wolves, stronger than fear**. O Bono sempre grita alguma palavra de ordem na minha cabeça — quer ele queira, quer não. Tento ser maior do que o racismo e continuo lutando. Stronger than fear. Luto por este coração que pulsa insistentemente dentro da minha caixa torácica, ainda que eu ache curioso como os sentidos de guerra e de perda façam simbiose nas quatro letras da palavra "luto". Se verbo, tão repleto de vida; se substantivo, tão cheio de morte; em ambos, tão cheios de dor. A minha cartomante preferida diria que "luto é amor que não tem para onde ir". Talvez por isso mesmo eu escreva, para direcionar o meu amor para o desconhecido que me lê. Sempre amei demais e é isso, o advérbio de intensidade, que tira e, ao mesmo tempo, nutre a minha força.


💚💚💚


*Encontrei este texto nos meus rascunhos da época da pandemia e resolvi compartilhá-lo com vocês.
**Vocês podem ver o U2 cantando Raised by Wolves, clicando aqui (para ler a letra da canção no vídeo, use a função CC/legendas, do YouTube). A música faz parte do álbum Songs of Innocence, lançado em 2014.

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domingo, 20 de julho de 2025

Objeto ônibus em 6 atos

domingo, julho 20, 2025 6
Foto de Ant Rozetsky, via Unsplash.



Dia 01. Terça-feira de manhã fria de outono. 
Chego ao ponto e uma mulher branca de cabelos grisalhos carrega um gatinho na caixa de transportes. Conversamos. O gato vai no mesmo ônibus que eu, fazer um tratamento semanal de saúde. O gato observa pelas frestas da caixa sem miar. Sua dona é faladeira e, como toda gateira, conta não só desse, mas dos outros 5 gatos que ficaram em casa. Falo sobre as minhas duas e de como elas estariam se matando de miar caso estivessem assim: dentro da caixa, em um ponto de ônibus, prestes ao chacoalhar e ao entra e sai de desconhecidos. Sorrimos como duas cúmplices. Gatos e suas personalidades. 

Dia 02. Tarde com sol que esquenta e vento gélido que, por razões óbvias, esfria. 
O ponto está cheio. Entro na lotação, e há um jovem casal de negros falando uma língua que desconheço. Tento entender, mas as palavras me escapam. Sei que é afetuoso, porque eles riem o tempo todo um para o outro. Curiosamente ou não, chego ao meu destino e escuto minha professora dizendo que “o sorriso é linguagem de resistência”. Sorrio eu também ao me lembrar disso. Queria saber que língua era aquela. Juntos, seguimos — mesmo que séculos depois — resistindo. 

Dia 03. Outra manhã de outono. Desta vez, ainda mais gelada.
Ao virar a esquina, encontro minha vizinha. Ela vai comigo até o ponto e resolve pegar o mesmo ônibus que eu só para continuar o cadinho de prosa. Há tempos não nos víamos. Ela me conta da neta de 4 anos e da mãe de quase 90. Ambas, cada uma a seu modo, vivendo de uma inocência sem fim - seja a inocência de quem ainda não sabe nada do mundo; seja a de quem sabe demais dele. Viver é igual e diferente para todos nós: finitude concomitante. Isso é bonito demais. 

Dia 04. Tarde fresca de veranico fora de época. 
Outro micro-ônibus. Na metade do caminho entra um homem. Ele puxa assunto com o rapazote ao seu lado. Todos viajam em silêncio. O rapaz meneia a cabeça como se quisesse encerrar o assunto. O homem diz que na terra dele tudo se resolve na faca, que tinha batido na mulher, que “ela foi embora com um cabra 10 anos mais novo”. O rapaz desviava o olhar. “Fiz questão de ir lá dizer pro cabra que ele tá pegando o resto, eu usei tudo o que tinha para usar”. Dei sorte de poder descer antes que meu estômago se revirasse ainda mais. 

Dia 05. Manhã gelada, quase inverno. 
Subi a ladeira correndo para não perder o ônibus. Cheguei no ponto esbaforida. Corrida à toa. Ele ainda demorou um pouco para sair. Consegui me sentar em um lugar sozinha. Entrou um homem todo tatuado: mãos, braços, pescoço e cabeça. Olhei-o de frente. Talvez ele tenha achado que eu senti medo ou alguma forma de preconceito. A verdade é que eu — com toda a minha fobia de agulha — sempre me pergunto o quanto será que dói tatuar pescoço, nuca e crânio. Sempre penso que as pessoas que aguentam esse tipo de dor são mais fortes do que pensam. Estava perdida nesse pensamento, quando o homem puxou assunto com o cobrador: “esse ônibus volta com qual nome? É que eu sou novo por aqui. Tô ajudando a família da minha amiga, eles estão com esse problema lá na Enel e já ligaram um monte de vezes. Ela trabalha e fora do trabalho fica com a filha pequena, então vou lá tentar resolver por ela”. Como a maioria dos tatuados que eu conheço, o cara é gente boa. O cobrador respondeu dizendo não só que avisaria qual era o ponto mais próximo, mas também lhe deu opções de outras linhas pra volta. Gentilezas. 

Dia 06. Tarde congelante. Véspera de inverno. 
Uma nova lotação. O casal de negros novamente, dessa vez acompanhados pela mãe de um deles. De novo aquela língua bonita e desconhecida. Sentei-me atrás do trio. Queria puxar assunto, mas não sabia se eles falam português ou não. Também não quis interromper a beleza da sonoridade indecifrável e dos sorrisos intercambiáveis a cada fala. Do outro lado do corredor, duas senhoras. Não sei se elas se conheciam. Uma delas, a sentada próxima à janela, sem medo ou vergonha, vasculhava o próprio nariz com o dedo. Limpava o salão sem pudor nenhum. Sem medo do modo que gente, vírus e bactérias poderiam agir diante da situação. Apenas limpando. Apenas sendo feliz. Feliz com a pequena catota retirada a cada avanço do ônibus em direção a um destino que não sei qual é, afinal, desci antes dela.

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domingo, 18 de maio de 2025

Expectativas desleais (um bom encontro é de dois)

domingo, maio 18, 2025 11
Imagem por Rattanakun.



“Não tenho o que dizer e mesmo se tivesse, são só palavras.”


Que diferença faria? Fátima olhava para a tela do celular meio incrédula. Depois de tantos anos, aquele inferno se repetia: sempre que ela criava um perfil numa rede social nova, Álvaro aparecia. “Recomendações”, “Talvez você conheça”, “Pessoas que seus amigos seguem” ou quaisquer outras versões a que ela chamava de “trago uma porcaria de volta para a sua vida com um click". Não adiantou excluir o número dele do celular, não adiantou apagar todos os e-mails dele do contato, não adiantou destruir todas as trocas. Quase 15 anos depois ele continuava reaparecendo. Ora se gabando do próprio trabalho, ora com um perfil vazio, sem publicação alguma além da foto e do texto do perfil. Um fantasma que se materializava por meio de bytes na rede mundial de computadores. Já Fátima? Bem, ela continuava pesquisando como bloqueá-lo da tal nova rede social do momento. Movimentos cíclicos. Assim a vida seguia. Ou seguiria, porque desta vez foi diferente. Não deu tempo de Álvaro aparecer para ela, não deu tempo de Fátima fazer a pesquisa. O block tão necessário não foi feito com a antecedência preventiva.

Era uma tarde de sábado bem chuvosa, dessas que fazem a cidade toda alagar, transformando tudo em puro suco do caos. Depois de horas entre leituras e séries, Fátima parou para tirar o celular da tomada e foi ali que ela viu a notificação de uma mensagem de alguém que a quem não seguia.


“Oi… Desculpa escrever assim… do nada…. Tem jeito… de a gente… conversar?”


Quase 15 anos depois. Almost fifteen fucking years later. Por quê? O nome de Álvaro parecia brilhar mais do que o comum na tela, embora não tivesse nada de especial. Não deveria ter. Fátima sabia que ninguém ressuscitaria daquela conversa, não haveria milagre saindo das catacumbas. Por mais que ela tenha sonhado com esse momento por anos. Por mais que ela tenha ensaiado mentalmente o que diria em looping. Fátima conhece Álvaro como ninguém. E ele a conhecia a versão dela, que ele matou quando a abandonou, como ninguém.

“Acho melhor não.”


Fátima andou por todo o pequeno apartamento, celular na mão relendo a mensagem de Álvaro, palavra por palavra, sabendo que não havia paz. Mesmo quando o mundo se transformou, e as vidas online e offline passaram a caminhar juntas, nunca houve paz. Não houve paz quando Álvaro nunca quis assumir o relacionamento. Nunca houve paz, quando ele a deixou na mesa sozinha para cumprimentar o amigo, como se ele não estivesse acompanhado. Nunca houve paz quando ele pedia para que ela alisasse o cabelo. Nunca houve paz quando ela abriu mão do sonho de ter gatos só porque ele ama cachorros ou quando disse que teria filhos, mesmo quando ela nunca quis crianças. O ar saiu ruidoso de seus pulmões. Não, não tem mais jeito.

O corpo de Fátima tombou no sofá desolado. Há tempos não pensava nele ou na intervenção divina que os colocasse em contato novamente. Agora ela estava ali, diante das palavras de Álvaro, um Álvaro que estava perguntando se ainda tinha jeito.

“Não tem mais jeito. It's over.

Seria mais fácil bloqueá-lo e sumir do mapa mais uma vez. Mas, onde estava a bendita função de bloqueio? Por que raios as redes sociais não deixam isso às claras? Abriu o Google e iniciou a já atrasada pesquisa, até que a notificação subiu outra vez:

“Eu sei… que você está chateada… eu fiz muita coisa errada… estou tentando corrigir… a vida mudou muito… queria te dizer… o que eu sinto…”

As reticências sem sentido – como sempre, infestando as mensagens como formigas de fogo – irritavam Fátima profundamente. A raiva rápida que corria pelo corpo a fez se levantar para mais uma ronda descontrolada pelo minúsculo espaço. Por que logo agora que a vida estava se ajustando? Por quê? Jogou o aparelho sobre a cama – It’s too much. Pesado demais. – Entrou no banheiro e fez xixi com a porta aberta, a gata a observando de soslaio. Voltou ao quarto, não preciso responder isso agora, pegou uma muda de roupa, retornou ao banheiro e entrou embaixo do chuveiro quente. É só bloquear. Por que tanto cuidado em não sumir do nada, quando o Álvaro sempre esteve cagando pra mim? Maldita responsabilidade afetiva.

Ao sair do banho, uma notificação e uma tentativa de ligação de vídeo fez com que Fátima retornasse à sua pesquisa. Coragem. A vida é feita de coragem.

“Há tantas pessoas especiais por aí, você não precisa de mim.”

“Você não entende… você nunca… entendeu…”

“Álvaro, é melhor que você se cure de mim.”


Finalmente ela encontrou um vídeo-tutorial de 30 segundos chamado “como bloquear um desquerido na nova rede social do momento”. Antes de seguir o passo a passo, voltou ao chat e completou:

“Boa sorte.”

Álvaro está digitando…


Conto inspirado na belíssima canção da Vanessa da Mata com o Ben Harper. 

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domingo, 13 de abril de 2025

Entre rachaduras e frestas

domingo, abril 13, 2025 7

Gosto de registrar trivialidades do meu dia – destas que ninguém se importa. Documentalizar uma vida simples, sem importância, lenta. Uma vida vagarosa em meio ao vazio e ao caso. Sou lenta. Sempre fui. Mas também sou um paradoxo. Sempre fui também. Uma mente ansiosa – e, por vezes, catastrófica – para domar. Cada um tem o seu próprio desafio interno – e se acha que não o tem, é porque ainda não o descobriu.

Ano passado, em setembro, minha tia me deu um cacto de presente de aniversário. Muda nascida do cacto que ela mesma cuida há anos. Ela me deu. Eu agradeci, feliz com a singeleza, e procurei um lugar de honra no meio das minhas suculentas. O cacto? Bem, ele detestou. Um mês depois, a mesma tia estava em casa vendo a minha cara de “eu não sei mais o que fazer”, ao mostrar para ela as pontas amareladas e molengas da planta.

– Ele é bruto. Põe no sol. Ele vai ficar bem.

Gosto de cactos porque eles – de algum modo – me lembram dos poetas: ambos estão num mundo hostil, com pouquíssimos recursos, contudo dão um jeito não só de sobreviver, mas também de fazer isso com leveza. Poetas e cactos mudam a paisagem árida e trazem a boniteza para ela.

Meu cacto foi parar do lado de fora da janela da cozinha. Está ali: sujeito a todo tipo de intempéries (sol, chuva, vento, garoa, neblina…) e num lugar nada glamuroso, sem destaque algum. Vulnerável, entregue. A parte mole e amarelada, entretanto, aos poucos foi recuperando o verde, ganhando a firmeza perdida. Novos caules foram nascendo, crescendo. Chegou ao ponto de eu pensar em comprar um vaso novo. Preciso perguntar à tia como replantá-lo.

Há três semanas tive uma surpresa. Fui conversar com ele – sou da espécie que conversa com fauna e flora – e me deparei com um tímido botão.

– Mãããããe, acho que o cacto vai dar flor, vem ver! – Meus olhos brilhavam, claro.

Foi aí, então, que a minha mente lenta que gosta de ser ansiosa resolveu sair da maratona e correr um sprint: “Será que o botão vai crescer?”, “Será que vai abrir outro botão?”, “Será que a flor demora para abrir?”, “Que cor será a flor?” – emoções todas de alguém cujos outros cactos e suculentas nunca floresceram, tal qual mãe de primeira viagem.

A onda de calor veio e, por incrível que pareça, meu cacto amou! Apesar de tomar todo o sol da tarde, o botão estava a cada dia maior e maior e maior. Maior a ponto de minha mãe vir me dizer um “manda foto para sua tia e pergunta se isso é normal”. Mandei a foto só pra dizer que vinha uma flor por aí. Ela, claro, ficou feliz também.

Ontem de manhã fui lavar a louça do café da manhã e espiei o outro lado da janela. Algo havia mudado. O botão estava abrindo. Corri para destrancar a porta e atravessar a parede. Precisava observar mais de perto. Era verdade!!! Estava abrindo uma flor peluda e rajadinha – quase como a descrição de um gato. Tirei foto orgulhosa – não sem antes dizer ao cacto que sua flor é linda! – e mandei a imagem para a minha tia, que está em viagem, e para as minhas melhores amigas – que acompanham de perto as minhas trivialidades. Na conversa com elas surgiu a dúvida: que cacto é esse, afinal?

Usei o Google Lens para a pesquisa. Coloquei a foto que havia tirado. O primeiro link, em inglês, dizia que a espécie é sul-africana, que há variações nas cores da flor (podem ser roxas, brancas, amarelas e rosa) e que – apesar de parecer carnívora – por causa dos pelinhos na flor –, a planta não é. Aliás, ela é adequada para quem tem pets. Vir de um lugar quente explica ela ser o único ser vivo nesta casa a amar a onda de calor.

Duas horas mais tarde, fui pegar um balde no quintal, e ela já tinha aberto de vez. Florida em sua potência. Fiquei emocionada. Tirei uma nova foto. Mandei para a tia, para as amigas e postei nos stories do Instagram.

Gosto de registrar trivialidades que ninguém se importa. Elas me comovem e me lembram que – apesar de estar num mundo tão bélico – a poesia nasce das rachaduras e de frestas.

(Ainda bem.)

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