quarta-feira, 27 de novembro de 2019

{Resenha} Devoção, de Patti Smith

quarta-feira, novembro 27, 2019 6
Foto: Facebook da Patti Smith.

Uma viagem de volta a locais visitados há tempos. Uma biografia. Encontros com pessoas. Uma patinadora competindo na TV. Um diário de viagem. A conexão de tudo isso despejada no papel durante uma viagem de trem. Com Devoção, a cantora e escritora Patti Smith compartilha com o público, de modo muito generoso, como seu processo criativo funciona.

O livro é dividido em três partes. A primeira delas, "Como a mente funciona", traz um relato de viagem em que a autora registra as sensações e os encontros (consigo mesma, com seu próprio passado e com outras pessoas). Ao longo da jornada, Patti faz questão de aproveitar a estadia na França para visitar lugares que foram marcantes na história de pessoas que a inspiram. Como todo relato de viagem, esta parte do livro é cheia de referências geográficas, com endereços de onde escritores e artistas trabalharam, e deixa o leitor querendo visitar cada um dos pontos - ainda mais porque a narrativa flui de forma que parece que nós, leitores, estamos caminhando junto com a autora por todas aquelas ruelas. O texto é tão fluido que não nos demos conta de que as páginas estão passando.

Patti Smith lendo um de seus livros.
Foto: Facebook da autora.

O relato de viagem prepara o leitor para o conto que segue na segunda parte do livro, "Devoção". É interessante notar como os fatos, aparentemente desconexos, se interligam compondo a narrativa. Desde a formação dos personagens à ambientação, tudo relaciona-se com os registros do olhar de Patti para o mundo. Se na primeira parte do livro, a autora focou em observar as sensações e o tempo presente como um exercício para se nutrir do mundo; na segunda, vemos como ela domina a linguagem a ponto de criar um novo universo a partir de tudo que conseguiu absorver. No conto, Patti Smith devolve essa conexão em forma de arte. Escrever é a sua ação criativa. O mapeamento da primeira parte da obra faz com que o conto se torne ainda mais genial, ganhe ainda mais força. É notável como a tragédia da guerra (relacionada à família da protagonista) norteia a falta de se sentir um sujeito histórico que a personagem principal carrega consigo. Patti traz com contundência e delicadeza o existencialismo ao seu leitor. Há sentido na vida? Vale a pena viver? É eficaz tentar/aceitar qualquer coisa em busca de um sonho? 

Por fim, mas não menos importante, o leitor se descobre na terceira parte da obra, "Um sonho não é um sonho", em que Patti descreve como foi sua visita à casa de Albert Camus. Lá ela tenta responder aquela pergunta com a qual muitos escritores se atraem: "Por que alguém se sente compelido a escrever?". Aqui, o texto ganha o mesmo tom de relato da primeira parte do livro, com um diferencial: se antes a escrita que tentou responder a tudo isso era empírica; agora, ela surge de modo mais consciente - ainda que sem uma resposta exata.

É interessante como Devoção inspira seu leitor a querer seguir os passos de Patti Smith não só no sentido de viver uma vida mais presente (seja na observação, seja no registro do diário), mas também no sentido da busca por conhecer de perto a vida dos artistas que nos inspiram.

O livro também apresenta ao longo das páginas algumas fotografias (sendo a maior parte delas da própria Patti) e as páginas fac-símile do conto.

"... a mente também é uma musa". 
(página 09)

Livro: Devoção
Título original: Devotion
Autora: Patti Smith
Tradução: Caetano W. Galindo
Páginas: 144
Apresentação: Por que escrevemos? De onde vêm as ideias para uma história? Como funcionam as engrenagens da inspiração e da literatura? Dividido em três partes, Devoção vai refletir sobre questões como essas. O relato se inicia com uma viagem da autora a Paris. Percorrendo as "ruas abstratas de Patrick Modiano" e lendo uma biografia de Simone Weil, Patti Smith começa a esboçar um conto, que vai se materializar no segundo capítulo do livro – a história de uma jovem patinadora, sua jornada em busca de si mesma e de suas origens. Ao fim, Patti volta à cena e narra uma visita à casa de Albert Camus, na cidade de Lourmarin, onde depara com o manuscrito de O primeiro homem, romance inacabado do escritor argelino. "Por que alguém se sente compelido a escrever?", é a pergunta que nos acompanha até o fim. "Para dar voz ao futuro, revisitar a infância. Para dar rédea curta às loucuras e aos horrores da imaginação", Patti diz. E porque, afinal, "não podemos apenas viver".
Livro no Skoob. | Clique aqui para ouvir o podcast que a Companhia das Letras gravou com a autora.
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sábado, 23 de novembro de 2019

Resistir

sábado, novembro 23, 2019 1
Foto: Free-Photos.
Fiquei com vontade de escrever. Não sei se um conto, uma carta, um poema, mas quero escrever. Quero tirar essa angústia que a saudade traz. Saudade, a falta de quê? De quem?

Em um ano de fechamento de ciclos, tudo é confuso. Esponja dolorosa que me faz absorver toda a bagunça ao meu redor. Estresse no trabalho, briga em casa, mal-entendidos. E a minha cabeça numa zona sem fim.

Pego o metrô, sento-me sem olhar quem é a pessoa que está ao lado no banco. Fecho os olhos e respiro. Sei que serão muitas estações até chegar à terapia. Respiro. Tento sobreviver mais uma manhã, mais um dia.

Tomar decisões é algo difícil. Muito difícil. Exige força mental, coragem, determinação. Coisas que acho que não tenho. Fechar ciclos é difícil. Saudades da paz de empurrar tudo com a barriga. Desço do metrô, caminho até o prédio. Estou atrasada, não queria sair de casa, não quero me autossabotar. Olho o azul abafado no céu primaveril com cara de verão. Preciso buscar o ar e encher os meus pulmões. Não consigo.

Subo até o andar. Vomito o que preciso. Não culpo o mercúrio retrógrado, mas sei que ele também é responsável pelos meus males. Não posso ser a única. Preciso dividir a crise com alguém.

Continuo com vontade de escrever. Retorno à estação, ao metrô, a minha quase uma hora de trajeto de volta para casa. Já é quase meio-dia, o sol escalda, continuo com vontade de escrever. Minha cabeça dói. Meu corpo também.

Não quero me autossabotar. Preciso fechar ciclos. Respiro.

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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

{Resenha} Ninguém vai lembrar de mim, de Gabriela Soutello

quarta-feira, novembro 13, 2019 9
Da tarde em que eu devorei um livro como há tempos não o fazia.

"Eu quero sentir o nascer de uma cicatriz". (página 71)

Já conhecia a escrita da Gabriela Soutello das reuniões do Clube da Escrita para Mulheres, mas ler o livro de estréia dela, intitulado Ninguém vai lembrar de mim, foi uma experiência à parte. A obra apresenta ao leitor lugares incomuns para tratar de sentimentos tão humanos, que sinto este livro como um convite duplo para uma viagem dentro das narrativas e dentro de nós mesmos.

Com a Gabis, no dia do lançamento dela.

"Quanto mais só eu me sinto, mais me grudo à solidão. Quero permanecer às raízes de suas terras. Como um apego. Um torpor um tanto novidade, essa necessidade; não quero deixá-la. Passo invisível pelas texturas dos caminhos. Quanto menos existente, melhor".
(página 21)

Dividida em três partes  — "Estar só é o meu maior medo e minha maior verdade"; "O sexo entre duas mulheres não é assim tão simples; é assim" e "Eu acostumava associar aos fins a decadência da falha" —, a prosa da autora é extremamente poética e, por isso mesmo, consegue acessar lugares que os próprios leitores desconhecem. A sinceridade é, no meu ponto de vista, o grande carro-chefe dos contos-crônicas. Nota-se que há um compromisso da narradora-cronista em ser sincera consigo mesmo e com os seus leitores. As coisas são como são e isso não traz peso aos fatos; pelo contrário, as histórias são cálidas e, ao mesmo tempo, de uma profundidade sem tamanho. O efeito disso é a humanização das personagens. Humanização esta que faz o dia a dia narrado ganhar amplitude e conexão, humanizando também os leitores.

Meu exemplar autografado. 💗

"Eu não te olharia sem medo se não fosse a sua vontade enorme de se fazer presente e ficar. Minha boca meio torta meio de lado meio rindo (pra você, e não de você, como você pensou que fosse naquele dia em que quase foi embora), meio bastante eufórica, já não escondia a tensão dos bruxismos, a secura no canto, 'é tudo stress', eu não diria, na fantasia de buscar na sua o mesmo sem-jeito; minha boca tremia acima e baixa, sim, bastante baixa, tremia certa também por não saber o que dizer a cada vez que você sorria dizendo: fico". (página 50)

Ninguém vai lembrar de mim é um livro que conecta pessoas aos próprios sentimentos. Não importa qual seja o tipo de relação que este leitor cultive. Amor e desamor transcende a atração, e a autora consegue mostrar isso com precisão em sua narrativa. É impossível ler este livro sem desenvolver o de sentimento de empatia.

Além das três partes citadas, a obra conta com dois epílogos que muito me agradaram — "O que há de pior em me mostrar enquanto eu" e "Eu nunca vi a cara de deus, mas não estranho".  Ali há, mais uma vez, um rasgo que abre as portas para o fundo da alma: medos, esperanças, angustias todos desvelados como são para quem quiser acolher e explorar o sentimento.

"Há anos eu olho bem no fundo do olho da pior parte de mim e não consigo sustentar o olhar". (página 92)

Aliás, por falar em rasgo, a cor vermelha e as rachaduras estão presentes em todo o projeto gráfico da obra. Desde a capa, há o convite para mergulharmos tanto na narrativa quanto em nós mesmos.

"Os fins de ciclos sempre me soaram como a iminência certa de um vazio; uma mensagem por si negativa; a concretização de uma falha; o oco oposto ao Dar Certo, escancarado. Se me ausenta o prazer da entrega, os pedaços que são meus e que desvendo em transformação, são antes as não-partes necessárias. Entortar o olhar. Adentras o feio. Aceitar os músculos contritos de mim". (página 83)
Foto do dia em que devorei o livro!
Livro: Ninguém vai lembrar de mim
Autora: Gabriela Soutello
Páginas: 104
Editora: Pólen | Ferina
Apresentação: Em seu livro de estreia, Gabriela Soutello estica as paredes da solidão e do que se compreende sobre relações entre mulheres. São toques de corpos, rasgos feitos por dedos e a certeza do esquecimento caminhando pelas ruas de São Paulo, mergulhando nas águas do Pará, observando o cotidiano de paixão e silêncio. Este é um livro que pede afundamento. Surpreende pela voz segura e autêntica que se torna referência enquanto também desafia a noção de afetos entre mulheres.
Contemplada com a 1ª Edição do Edital de Publicações de Livros para Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, a obra entrega, em seus contos rítmicos, uma interpretação honesta da individualidade – que pede para ser descoberta. 
(Jarid Arraes, escritora e curadora do Selo Ferina)

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Nota: no dia 08 de dezembro o clube de leitura Coletivo Escreviver fará um encontro para discutir a leitura de Ninguém vai lembrar de mim, com a presença da autora, Gabriela Soutello. Para saber o horário e o local, acompanhe as publicações do coletivo no Instagram, clicando aqui.
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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

{Fotografia} Pausa para respirar #2

sexta-feira, novembro 08, 2019 17
De um dia na livraria.

Os últimos meses foram tão duros, que estava difícil olhar encontrar qualquer forma de positividade (assunto para outro post). Por isso, resolvi fazer a segunda edição do "Pausa para Respirar". Acho que me forçar para ver as coisas boas é importante nesses momentos de desespero. Foi legal ter encontrado tantos momentos gostosos em meio ao caos.


No fim de setembro teve o show da Jessie J aqui em SP
e foi lindo poder vê-la/ouvi-la ao vivo.
Ela é, sem dúvida, um ser humano incrível!

Polaroides da viagem da Dani para São Paulo
(foi um dia dos professores feliz).


Quem fez essa foto foi a Sté, do Nosso Relicário.
Pude falar na icônica biblioteca Mário de Andrade,
durante o lançamento da Punãdo 6.

Aula de Literatura Infantil e Juvenil na pós-graduação.

Pensem no berro que dei quando cheguei em casa e
tinha esse recebido da Companhia das Letras!
Estou lendo e amando profundamente.
Depois de mil anos e muita cobrança,
finalmente recebi as fotos impressas do lançamento do
A Intermitência das Coisas. Acima, os muitos abraços cheios de amor.


Café que fica perto da faculdade.
Descobri chegando à estação do metrô que sempre desço
e vendo a opção "cafés" no google mapa.
.

Print do fim do vídeo do U2 com a letra de One Tree Hill
(que eu amo) manuscrita pelos quatro membros da banda.

Vocês também sentem depressão pós-show? Porque eu não superei a Joshua Tree Tour ainda. 

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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

{Receita} Torta-bolo notável de banana

quarta-feira, outubro 30, 2019 4
Preparados para receita de infância?

Na última sexta vi aquela penca de bananas na fruteira e pedi a minha mãe que fizesse aquela torta (na verdade, é um bolo, mas eu chamo de torta) maravilhosa que ela fazia na minha infância. Como ela estava muito atarefada, disse que me dizia a receita, para que eu fizesse. Topei o desafio e aproveitei para trazê-lo aqui para o blog. Se você estava buscando algo simples e rápido de ser feito para tomar o café da tarde, aqui está! ;)

NOTA: Antes de partirmos para a receita, devo dizer que todos os bolos que fazemos aqui em casa são em formas grandes. Sendo assim, se você quiser um bolo pequeno, divida a receita por dois. ;) 

Ingredientes:
5 ovos
1 xícara de chá de óleo (ou 3 colheres de sopa de manteiga)
3 xícaras de chá de leite
4 xícaras de chá de açúcar
6 xícaras de chá de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó
7 bananas nanicas
açúcar e canela em pó para polvilhar

Modo de fazer:
Passo 1. 
1. Separe as claras das gemas. Bata no liquidificador as gemas, o leite, o óleo e o açúcar;

Passos 2 e 3.
2. Quando a massa estiver bem homogênea, acrescente a farinha de trigo ao conteúdo do liquidificador. Depois, reserve.

3. Bata claras em neve e, em um pote, misture a massa às claras. Depois acrescente a colher de fermento.

Passo 4: eu dividi ao meio na horizontal
 e depois as duas metades ao meio na vertical,
mas você pode fazer em rodelas, se achar melhor.

4. Pique as bananas (seja rápido, porque a massa já está com o fermento nela);

Passo 5. 
5. Coloque a massa em uma forma untada e farinhada. Coloque as bananas por cima da massa (sem afundá-las);

Passo 5. Caprichei no açúcar e na canela
(1 colher de sopa de canela para 2 de açúcar),
porque depois de pronta, essa misturinha vira uma crosta crocante maravilhosa!
Segundo consta, na receita original de mommys a quantidade é bem menor.

5. Polvilhe açúcar e canela à gosto por cima de tudo e leve ao forno pré-aquecido por cerca de 50 minutos (os 10 primeiros em fogo alto, depois em fogo baixo).

Torta pronta!
A receita ficou tão boa que a torta voou! No dia seguinte quase não tinha mais nada. Então, faça a sua torta, um cafézin' e divirta-se! ;)
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domingo, 27 de outubro de 2019

O roxo no meu braço

domingo, outubro 27, 2019 7
Foto: Janeb13.
Passei um bom tempo em busca do assunto miúdo para escrever uma crônica. Como ele não veio, cá estou eu escrevendo sobre escrever. Todo bom cronista que se preze já fez isso, e eu — sendo boa nisso ou não — me dou ao luxo de fazer isso agora.

O lance é que eu até tenho assunto, o roxo no meu braço está aqui — depois de ter sido preto e verde — para atestar que tenho um tema: poderia escrever sobre o dia em que uma das minhas alunas surtou e me bateu. Reluto, contudo. Não quero falar sobre a dor, sobre o nervoso, sobre a impotência e a indignação. Ou quero?

O roxo no meu braço é real oficial. :(

Sempre que alguém vem falar comigo sobre a minha profissão, ouço elogios: "você é inspiradora", algumas pessoas dizem; "acho linda a sua dedicação", outras completam. O que elas não fazem ideia é que alunos surtam e partem para cima dos colegas e que se eu falo "não", eles partem para cima de mim. Esta foi a primeira vez que o machucado foi visível, fisicamente visível. O que as pessoas não veem são as marcas do desrespeito diário, dos salários baixos, de gente que nunca estudou querendo das pitaco no que faço.

Minha aluna me feriu há duas semanas. Nenhum pedido de desculpas (nem dela, nem da família). A agressão já anda tão normatizada na nossa sociedade, que um roxo no braço já é normal.

Não quero inspirar, apenas. Quero ser vista como alguém que é digna de conciliar trabalho e respeito. Não quero escrever sobre roxos no meu braço e lágrimas na minha alma. Quero apenas poder exercer a minha profissão com segurança, dignidade e paz. Quando foi que ser professora fez de mim uma cronista tão gauche na vida?

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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Convite: Lançamento da Puñado 6

segunda-feira, outubro 21, 2019 8

Olá, pessoal!
O post de hoje é para um convite mais que especial: o evento de lançamento da Puñado 6.

A Puñado é a revista de mulheres latino-americana, publicada pela editora Incompleta. Cada edição é temática e o assunto desta vez é jornada. Além de trazer contos inéditos no Brasil, a revista também apresenta uma breve entrevista com as autoras. A edição 6 da revista está tão completa que vem em dois volumes: o 6-A e o 6-B. Eu fui convidada pela revista para entrevistar a escritora granadina Merle Collins, cujo conto "Pedrona" abre o volume 6-B.

Capas da Puñado 6-A e 6-B.

O evento de lançamento acontecerá na quarta-feira, em São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade, a partir das 19h. Eu farei parte da mesa que também será composta pelas editoras, pela revisora e pelas outras colaboradoras desta edição.

Meu nome não está no informativo, porque só consegui
confirmar próximo da data do evento, mas estarei lá.


Te espero por lá!

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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Coleção A Intermitência das Coisas, em parceria com Michelle Cruz

terça-feira, setembro 24, 2019 8
Foto por Bruno Andrade.

A vida anda tão alucinada que mal consegui vir aqui contar a super novidade da vez. Vamos nos atualizar?! 

Dia 17 foi meu aniversário e a data escolhida para o nascimento de um novo projeto: a coleção baseada no meu livro, A Intermitência das Coisas: sobre o que há entre o vazio e o caos, lançado em junho pela Editora Penalux. 

Modelo 1: O vazio e o caos.

A ideia surgiu após a leitura que a ilustradora Michelle Cruz, do blog Misttura Criativa, fez do meu livro. Ela, talentosíssima como é, fez algumas ilustrações inspiradas em dois dos poemas da obra, e nós juntamos tudo em camisetas, moletons, canecas, almofadas e posteres que podem parar aí, direto na sua casa!

Modelo 2: Maravilhamento.


A venda é feita pela loja do Misttura Criativa, na Touts. E, é claro que a gente pensou em tudo e já providenciou aquele desconto lindão para você começar a coleção! Anote aí o seu cupom: INTERMITENCIA.

Comprou algum dos produtos? Poste nas redes sociais com a tag #aintermitenciadascoisas. ;) 

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domingo, 15 de setembro de 2019

{Resenha} ABCDelas, de Janaina Tokitaka

domingo, setembro 15, 2019 20
ABCDelas, de Janaina Tokitaka.
ABCDelas é um dos vários livros de literatura infantil escrito e ilustrado pela bacharel de artes visuais Janaina Tokitaka. A obra percorre o nosso alfabeto com profissões que tiveram alguma mulher de destaque naquela determinada tarefa. 

Cada letra do alfabeto funciona como um capítulo do livro e conta com uma página dupla dividida em 3 partes: uma página inteira de ilustração e a outra uma trazendo um pequeno resumo biográfico e uma breve narrativa, com algum outro fato da vida da mulher biografada. Esta forma de organização gráfica ajuda os pequenos leitores a encontrarem as informações no livro sem dificuldades.

Exemplo da página dupla do livro, com a ilustração e biografia da Maria Firmina dos Reis, primeira escritora afrodescendente do Brasil.

Nota-se que a Janaina Tokitaka teve o cuidado de buscar mulheres de variadas nacionalidades e etnias. No livro, os leitores entram em contato com mulheres brancas, negras e asiáticas de diversas partes do mundo, incluindo 6 brasileiras.

Apesar de a linguagem ser simples e de fácil entendimento, uma vez que este é um livro de literatura infantil, é nítido que a autora fez questão de não abrir mão de termos técnicos como "Inglaterra vitoriana", "sufragista" ou "entomologista". Também é interessante ver o cuidado que a escritora teve de explicá-los ao longo dos textos.

Ao longo das biografias-narrativas, é notável a preocupação que a autora do livro teve em deixar claro como era o estilo de vida dessas mulheres e como tanto os pais quanto a sociedade eram extremamente machistas interferindo no que cada biografada poderia ou não fazer. Embora a palavra "machismo" não apareça em nenhum momento no livro, é nítido como a curadoria feita por Janaina Tokitaka foi realizada para escolher um alfabeto de mulheres que refletiam sobre a força e o papel feminino na sociedade em que viveram/vivem.

Página com a biografia da Ng Mui, que xcriou o kung fu wing chun enquanto ajudava uma moça a fugir do casamento forçado.


Essa curadoria também deixou bem claro para mim, enquanto leitora, que Tokitaka escolheu mulheres que lutaram pelos engajamentos social, cultural, educacional e ambiental. Todas as biografadas têm pelo menos um desses aspectos em comum umas com as outras. Elas se preocupavam não apenas como poderiam exercer a própria cidadania, mas também como criar condições para que outras mulheres também pudessem fazê-lo.

"Naquele momento, ela percebeu que o único jeito de tentar descobrir e corrigir as desigualdades do mundo era olhar para todos os aspectos da vida dos seres humanos". (Página 45, sobre a socióloga Harriet Martineau)

O ABCDelas é um livro muito gostoso de ser lido e que instiga os seus leitores a querer aprofundar o conhecimento em cada uma dessas 26 biografadas. É, sem dúvida alguma, uma leitura que nos faz querer conhecer e pensar mais não apenas na importância das mulheres que fizeram História; mas, sobretudo, no impacto que as mulheres que estão ao nosso redor têm em nossas vidas. 

Livro: ABCDelas
Autora e ilustradora: Janaina Tokitaka
Gênero: Literatura infantil
Páginas: 64
Ano: 2019
Apresentação: Este é um livro abecedário muito diferente. A cada letra, o leitor vai conhecer histórias raras e valiosas de mulheres que revolucionaram seus campos de atuação. Foram essas heroínas do dia a dia que contribuíram para que as mulheres de hoje pudessem trabalhar em diferentes áreas, mesmo em profissões que um dia foram consideradas “masculinas”. Cada história biográfica é apresentada na forma de um pequeno conto muito bem-humorado acompanhado de lindas ilustrações que homenageiam as mulheres retratadas. O leitor será convidado a descobrir a história da aviadora brasileira Anésia Pinheiro Machado, da bióloga inglesa Margaret Elizabeth Fountaine, da chef de cozinha francesa Eugénie Brazier e de tantas outras profissionais incríveis.
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sábado, 14 de setembro de 2019

Eu não sou uma máquina

sábado, setembro 14, 2019 24
Foto: Patricia Rodrigues
O perfeccionismo me pegou e, mais uma vez, me traiu. Talvez seja por conta de mais uma volta ao redor do sol — a 33ª que se inicia virginianamente agora em setembro — ou porque eu esteja há duas semanas sem ir para a terapia, ou ainda porque a minha cabeça esteja voltada em mais um ou dois projetos que quero pôr para rodar ainda este ano, mesmo tendo o volume de trabalho que tenho. As incertezas várias e a vontade de entregar tudo incrível me deixou aqui paralisada, na chave da perfeição. 

Não falo da perfeição que quer me encaixar ou não em um padrão de moda e beleza e me faz pensar em como vou me apresentar ao mundo. Tampouco daquela que me faz organizar tudo por cores, ordem alfabética, localização e dados que se cruzam, como as pastas da Monica Geller, de Friends. Não falo da perfeição que me faz entregar tudo nos prazos previstos, mesmo que isso implique em noites sem dormir para dar conta de tudo. Falo de algo que vai mais além, da perfeição que me priva do mundo, da que me faz buscar o impossível, da que me impele ao desejo de algo que nunca fora visto antes. Falo da perfeição que me obriga ter que fazer tudo impecável sem margens ao erro, porque preciso disso para provar o meu lugar ao sol (uma vez que sou mulher, negra, vinda de uma classe que está engatinhando para ascender socialmente).

Ao mesmo tempo, eu sei, eu sei. Tenho a consciência do quanto esse conceito é ilusório: o que é perfeito para mim, não o é para você e vice-versa. Sei também que ele morre com o tempo e com toda a evolução tecnológica (o que era perfeito manuscrito, virou imperfeito datilografado, que virou imperfeito digitado, só para dar um exemplo). Que a validação do que o que está perfeito ou não passa por um viés das relações entre opressor e oprimido (o que é perfeito para o homem branco, hétero, cis, que está no poder, está longe de ser perfeito para as diversas minorias que não se encaixam nesse perfil). Que são muitas as variantes, os olhares e os primas. E que, e esse é o fator mais determinante para mim agora, eu não sou uma máquina que entrega tudo no padrão: tenho que me contentar, e sobretudo, me respeitar com o melhor que posso no momento.

Mas eu não mereço o que é mais pleno? Você não merece ver e ter o melhor de mim? Se tenho que fazer algo, não é melhor fazer bem feito? Será que consigo fazer bem feito? O que é fazer bem feito? Não há alguém que possa fazer isso melhor do que eu? O que eu preciso para melhorar cada vez mais nisso? Será que eu posso errar? Se eu errar como posso lidar com essa falha? O fluxo de consciência pode ser bem cruel com alguém que sempre se cobrou e foi cobrada pela excelência. É dessa crueldade que venho buscando me libertar, ainda que haja uma recaída aqui, outra acolá.

O perfeccionismo pode até ter me pegado, mas desta vez estou mais atenta. O que me guia agora não é mais a perfeição pura e simples, aquele horizonte que se afasta quanto mais a gente anda em sua direção. O meu farol agora é o meu limite interno que diz que o meu bem feito é aquilo que é feito com amor sem me causar angústia. Eu não sou uma máquina e, olha, está tudo bem em não sê-la.

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Algumas Observações | Ano 13 | Textos por Fernanda Rodrigues. Tecnologia do Blogger.