quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Carta ao amor

Sabedoria nas paredes do Beco do Batman.
Caro Amor,

Não sei ao certo por onde você anda, mas desejo que esteja bem. Aqui, o frio é grande, e o meu desejo de te encontrar, maior ainda. Se você for de exatas, vai entender que a minha vontade de ser seu cobertor de orelhas é diretamente proporcional à minha de te ter aqui. Eu, que sou de humanas, deixo as contas de lado, para me prender às palavras de nós dois.

Pensei que você era o último que por aqui passou. Enganei-me com a mudança repentina de planos. Agora, indago qual forma terá a sua face? Barba, covinhas, olhar enigmático? Tudo ou nada disso? Será que vou te dedicar poemas, que pensarei no seu calor ao escrever as minhas crônicas e sonharei com nossa velhice tranquila à margem de um rio? Ou será que viveremos encontros e desencontros maiores do que os das novelas mexicanas?

Ah, Amor! Você sempre se esconde e nesse jogo, meu pobre coração se esfarela em pedaços miúdos, engolidos na areia movediça do viver. É justamente este jogo de gato e rato que faz minha alma se cansar e querer jogar tudo para o alto.

Que adianta pensar nas risadas, no passeio de mãos dadas, na pipoca com netflix, nos planos das viagens de férias? Que adianta querer e não ter a mínima noção de dia e hora e lugar? Nos encontraremos na esquina de casa, na Paulista, em Buenos Aires ou em nenhum destes lugares?

Certa vez, uma amiga minha me disse que a gente só tem vontade do que é bom, mas que ela passa. Então, lhe pergunto: está na hora de desistir de você e te deixar sem te ter? Será que a minha vontade de você irá passar?

Um até breve da sua desiludida esperançosa

_____________________________________________________________

domingo, 25 de setembro de 2016

{Resenha} Desonra, J.M. Coetzee

Não é à toa que o sul-africano Coetzee ganhou um prêmio Booker Prize com Desonra. A obra escrita por ele é daquelas perfeitas, sem furos, que conduz o leitor ao íntimo do personagem que o deixa desestabilizado após o último ponto final.

Em Desonra, conhecemos David Lurie, professor de literatura que vê sua vida virada ao avesso após se envolver com uma de suas alunas. Lurie que, apesar de sul-africano tem uma formação européia (como se nota pelas suas referências e citações), se força a deixar tudo para trás para viver com sua filha, Lucy, em uma fazenda, no interior sul-africano pós apartheid.

Embora a narrativa seja em terceira pessoa, temos um narrador extremamente colado na visão de David Lurie, o que faz com que o leitor perceba as relações por meio do ponto de vista deste personagem. Isso, gera momentos de instabilidade durante a leitura: ora sentimos compaixão, ora sentimos raiva da visão de mundo de David.

A obra se torna incisiva quando o seu autor decide abordar a relação entre brancos e negros no pós-apartheid. Para fazer isso de modo orgânico, Coetzee contrasta as reações de David e Lucy à violência e à discrepância que há, racial e socialmente, entre os sul-africanos. A sexualidade que, de uma forma ou de outra leva à desonra do título, é presente ao longo das relações entre as personagens e faz com que seus leitores penetrem em cada episódio de maneira profunda. A maneira como Coetzee tece os acontecimentos é capaz de provocar mudanças na forma de o leitor olhar para o recorte da sociedade por ele apresentado.

É claro que há muitas formas de se ler uma obra com o peso de Desonra. É por isso que o autor teve alguns problemas com a recepção do público africano, que o considerou um tanto preconceituoso, ao colocar o poder na erudição (do branco) de David Lurie e a bandidagem e prostituição em personagens negros e exóticos. Ao meu ver, no entanto, a intenção do autor era a de apresentar os fatos (ficcionais) como eles são, sem juízo de valores e sem condenação das atitudes das classes mais pobres (o que se vê na postura abnegada de Lucy ao bater de frente com David).

Nada se sabe sobre a forma como o livro foi criado (uma vez que o autor é evasivo ao falar do seu processo criativo), mas não se pode deixar de notar o quanto o trabalho empenhado por Coetzee é genial. Desde a escolha do tipo de narrador, passando pela estruturação da divisão dos capítulos e aos diálogos de reações inesperadas, tudo contribui para que o leitor deseje chegar até a última página. E que página! Sem dúvida, Desonra faz parte daquela literatura pela qual todos devem conhecer.

Livro: Desonra
Título original: Disgrace
Autor: J.M. Coetzee
Tradução: José Rubens Siqueira
Páginas: 248
Sinopse: Sucesso de público e crítica - foi publicado em mais de vinte países e ganhou o Booker Prize, o mais importante prêmio literário da Inglaterra -, Desonra é considerado o melhor romance de J. M. Coetzee. O livro conta a história de David Lurie, um homem que cai em desgraça. Lurie é um professor de literatura que não sabe como conciliar sua formação humanista, seu desejo amoroso e as normas politicamente corretas da universidade onde dá aula. Mesmo sabendo do perigo, ele tem um caso com uma aluna. Acusado de abuso, é expulso da universidade e viaja para passar uns dias na propriedade rural da filha, Lucy.
No campo, esse homem atormentado toma contato com a brutalidade e o ressentimento da África do Sul pós-apartheid. Com personagens vivos, com um ritmo narrativo que magnetiza o leitor, Desonra investiga as relações entre as classes, os sexos, as raças, tratando dos choques entre um passado de exploração e um presente de acerto de contas, entre uma cultura humanista e uma situação social explosiva.
_____________________________________________________________

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Tagarelice

All we need is love. Love is all we need.

Ah, amor, sou tagarela! Gosto de gente, de sentimentos, de falar. Expressar o que sinto, mesmo que não saiba definir bem com a exatidão de uma palavra, gosto de compartilhar.

Sou tagarela. Mas a tal tagarelice não é com todo mundo. Tagarelo com quem é especial, com quem compartilhar é sinônimo de somar. Tagarelo com quem amo, afinal, fazer isso com qualquer um pode ser arriscado e desesperador. Dividir é se abrir, e quero fazê-lo na delicadeza, não na paulada.

Não sei se o que disse ficou claro, mas o fato é que tagarelar nos torna altamente vulneráveis. Mostrar as fraquezas a quem só deseja coisas ruins não é legal... Mostrar as fraquezas a quem nos ama é ganhar forças para enfrentar o que tiver que chegar: contra este fato, não há argumento, ou há?

Gosto mesmo é da tagarelice do amor. Daquela que sabe ser amável mesmo quando discorda, que constrói se desconstruindo se for preciso. E é por isso que estou aqui. Por isso, me corto e me abro, tagarelando tanto com você. 

Que todas as nossas palavras construam um longo caminho. Que juntas elas se transformem na nossa história, ainda que mesmo às vezes, entre uma palavra e outra haja silêncio.

_____________________________________________________________

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Se eu pudesse...

Que os caminhos sejam flores.

Se eu pudesse, passaria por você casualmente. Sabe aqueles encontros despretensiosamente premeditados? Seria um assim. Eu estaria usando o meu vestido florido, com os cabelos soltos, a máquina fotográfica à tira colo. Você estaria de mãos dadas com a sua namorada e faria uma cara confusa, de espanto. Por que eu ali, depois de tanto tempo? Por que logo eu, para te forçar sacudir a poeira do esquecimento?

Faria um pequeno meneio com a cabeça. Discreto, porém vívido. Uma fração de segundos que não sairia mais da sua cabeça. Sua namorada iria ficar um pouco confusa, perguntaria um "quem é ela?" por entre os dentes. Você, na falta de resposta melhor, diria um "não sei", numa clara tentativa de mudar de assunto. De fato, não sabe mesmo.

Você não sabe como eu tive que lidar com as minhas dores depois que você se decidiu por ela. Você não sabe das manobras que tive que fazer para parecer feliz, mesmo estando aos pedaços. Você não sabe o que foi ter que sair da cama, quando queria me enterrar viva. Você não sabe do esforço que eu fiz, não para esquecer o que vivemos, mas para me reerguer com os pedaços que sobraram disso. Construir um castelo a partir de cacos de vidro. Você não sabe o quanto as mãos sangram quando a vida nos força a fazer uma coisa dessas...

O tempo e suas transformações. A vida e seus ensinamentos: o momento do nosso reencontro. Eu estaria usando o meu vestido florido e o meu melhor sorriso (discreto, porém vívido), mas você não me reconheceria. Não sou mais aquela que se deixa assustar com a grandeza da sua intelectualidade, com a fragilidade da minha poesia. Você captaria a minha força ao me ver sorrir. Sutil mudança poderosa.

Seguiríamos por caminhos opostos. Você tentando entender o que aconteceu no último minuto. Eu, com a certeza de que o pior já passou, desejando o melhor para o mundo. 

Este texto faz parte do Projeto Escrita Criativa, que reúne escritores e blogueiros para colocarem no “papel” suas ideias. Quem quiser conhecer mais, acesse a página ou o grupo do projeto. Lá há a lista de todos os blogs participantes. O tema da blogagem coletiva de setembro era "Se eu pudesse...".
_____________________________________________________________

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

{Resenha} Extraordinário, de R.J. Palacio

Extraordinário, de R.J. Palacio, é um livro que, sem sombra de dúvidas, faz jus ao nome. Tocante, engraçado, sentimental e leve, ele no ajuda a resgatar valores que a nossa sociedade - tão focada na correria e no individualismo - nos faz esquecer.

August Pullman é aquele tipo de personagem apaixonante que nos cativa desde as primeiras linhas e que nos deixa com saudades quando a leitura acaba. Auggie sabe ser alegre e carismático, mesmo sabendo que o mundo ao seu redor o vê com medo, angústia e, pasmem, nojo. Tudo porque ele tem uma deficiência que fez com que seu rosto seja deformado.

Dividido em oito partes, cada uma narrada sob a perspectiva de um personagem diferente, Extraordinário nos apresenta o dia a dia de Auggie. Somos então, introduzidos à dinâmica diária de um menino que sempre estudou em casa e ingressará no 5º ano do ensino fundamental. O leitor passa, então, a compartilhar as dores, as conquistas e os medos de quem vivia protegido pelos familiares e passa a enfrentar um mundo que pode ser muito cruel.

A forma como o Auggie vê e sente a vida é incrível. Os primeiros amigos, a primeira viagem, a necessidade que a sociedade impõe de que ele prove o quanto é capaz, tudo nos leva a pensar no quanto as pessoas costumam ser preconceituosas nem que seja nas pequenas atitudes (como ao lançar um olhar rápido e quase imperceptível).

Se por um lado são justamente estas injustiças que nos fazem querer defender Auggie com unhas e dentes; por outro, os conceitos de amizade, caráter e lealdade nos faz amar não só os familiares, mas todos os amigos que os Pullmans fazem ao longo desta jornada.

Quem gosta de música, de livros e de Star Wars, vai se deliciar com as referências diretas e indiretas feitas por R.J. Palacio. Todas as citações nos aproxima ainda mais da história e nos prende mais e mais a ela.

Devo destacar também o projeto gráfico da Intrínseca para a obra: além de incrível, cumpre o com o objetivo de gerar uma certa curiosidade pelo tal garoto diferente.

Ler Extraordinário é conhecer o mundo sob uma nova perspectiva, é uma viagem incrível, que abre os nossos olhos, aquece a nossa alma e faz de todos nós pessoas melhores!

Livro: Extraordinário
Título original: Wonder
Autor: R.J. Palacio
Tradução: Rachel Agavino
Páginas: 320
Sinopse: August Pullman, o Auggie, nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso ele nunca frequentou uma escola de verdade... até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular de Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apesar da aparência incomum, ele é um menino igual a todos os outros. Narrado da perspectiva de Auggie e também de seus familiares e amigos, com momentos comoventes e outros descontraídos, Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e comunidade - um impacto forte, comovente e, sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo, que vai tocar todo tipo de leitor.

_____________________________________________________________
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...