domingo, 15 de setembro de 2019

{Resenha} ABCDelas, de Janaina Tokitaka

domingo, setembro 15, 2019 2
ABCDelas, de Janaina Tokitaka.
ABCDelas é um dos vários livros de literatura infantil escrito e ilustrado pela bacharel de artes visuais Janaina Tokitaka. A obra percorre o nosso alfabeto com profissões que tiveram alguma mulher de destaque naquela determinada tarefa. 

Cada letra do alfabeto funciona como um capítulo do livro e conta com uma página dupla dividida em 3 partes: uma página inteira de ilustração e a outra uma trazendo um pequeno resumo biográfico e uma breve narrativa, com algum outro fato da vida da mulher biografada. Esta forma de organização gráfica ajuda os pequenos leitores a encontrarem as informações no livro sem dificuldades.

Exemplo da página dupla do livro, com a ilustração e biografia da Maria Firmina dos Reis, primeira escritora afrodescendente do Brasil.

Nota-se que a Janaina Tokitaka teve o cuidado de buscar mulheres de variadas nacionalidades e etnias. No livro, os leitores entram em contato com mulheres brancas, negras e asiáticas de diversas partes do mundo, incluindo 6 brasileiras.

Apesar de a linguagem ser simples e de fácil entendimento, uma vez que este é um livro de literatura infantil, é nítido que a autora fez questão de não abrir mão de termos técnicos como "Inglaterra vitoriana", "sufragista" ou "entomologista". Também é interessante ver o cuidado que a escritora teve de explicá-los ao longo dos textos.

Ao longo das biografias-narrativas, é notável a preocupação que a autora do livro teve em deixar claro como era o estilo de vida dessas mulheres e como tanto os pais quanto a sociedade eram extremamente machistas interferindo no que cada biografada poderia ou não fazer. Embora a palavra "machismo" não apareça em nenhum momento no livro, é nítido como a curadoria feita por Janaina Tokitaka foi realizada para escolher um alfabeto de mulheres que refletiam sobre a força e o papel feminino na sociedade em que viveram/vivem.

Página com a biografia da Ng Mui, que xcriou o kung fu wing chun enquanto ajudava uma moça a fugir do casamento forçado.


Essa curadoria também deixou bem claro para mim, enquanto leitora, que Tokitaka escolheu mulheres que lutaram pelos engajamentos social, cultural, educacional e ambiental. Todas as biografadas têm pelo menos um desses aspectos em comum umas com as outras. Elas se preocupavam não apenas como poderiam exercer a própria cidadania, mas também como criar condições para que outras mulheres também pudessem fazê-lo.

"Naquele momento, ela percebeu que o único jeito de tentar descobrir e corrigir as desigualdades do mundo era olhar para todos os aspectos da vida dos seres humanos". (Página 45, sobre a socióloga Harriet Martineau)

O ABCDelas é um livro muito gostoso de ser lido e que instiga os seus leitores a querer aprofundar o conhecimento em cada uma dessas 26 biografadas. É, sem dúvida alguma, uma leitura que nos faz querer conhecer e pensar mais não apenas na importância das mulheres que fizeram História; mas, sobretudo, no impacto que as mulheres que estão ao nosso redor têm em nossas vidas. 

Livro: ABCDelas
Autora e ilustradora: Janaina Tokitaka
Gênero: Literatura infantil
Páginas: 64
Ano: 2019
Apresentação: Este é um livro abecedário muito diferente. A cada letra, o leitor vai conhecer histórias raras e valiosas de mulheres que revolucionaram seus campos de atuação. Foram essas heroínas do dia a dia que contribuíram para que as mulheres de hoje pudessem trabalhar em diferentes áreas, mesmo em profissões que um dia foram consideradas “masculinas”. Cada história biográfica é apresentada na forma de um pequeno conto muito bem-humorado acompanhado de lindas ilustrações que homenageiam as mulheres retratadas. O leitor será convidado a descobrir a história da aviadora brasileira Anésia Pinheiro Machado, da bióloga inglesa Margaret Elizabeth Fountaine, da chef de cozinha francesa Eugénie Brazier e de tantas outras profissionais incríveis.
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sábado, 14 de setembro de 2019

Eu não sou uma máquina

sábado, setembro 14, 2019 11
Foto: Patricia Rodrigues
O perfeccionismo me pegou e, mais uma vez, me traiu. Talvez seja por conta de mais uma volta ao redor do sol — a 33ª que se inicia virginianamente agora em setembro — ou porque eu esteja há duas semanas sem ir para a terapia, ou ainda porque a minha cabeça esteja voltada em mais um ou dois projetos que quero pôr para rodar ainda este ano, mesmo tendo o volume de trabalho que tenho. As incertezas várias e a vontade de entregar tudo incrível me deixou aqui paralisada, na chave da perfeição. 

Não falo da perfeição que quer me encaixar ou não em um padrão de moda e beleza e me faz pensar em como vou me apresentar ao mundo. Tampouco daquela que me faz organizar tudo por cores, ordem alfabética, localização e dados que se cruzam, como as pastas da Monica Geller, de Friends. Não falo da perfeição que me faz entregar tudo nos prazos previstos, mesmo que isso implique em noites sem dormir para dar conta de tudo. Falo de algo que vai mais além, da perfeição que me priva do mundo, da que me faz buscar o impossível, da que me impele ao desejo de algo que nunca fora visto antes. Falo da perfeição que me obriga ter que fazer tudo impecável sem margens ao erro, porque preciso disso para provar o meu lugar ao sol (uma vez que sou mulher, negra, vinda de uma classe que está engatinhando para ascender socialmente).

Ao mesmo tempo, eu sei, eu sei. Tenho a consciência do quanto esse conceito é ilusório: o que é perfeito para mim, não o é para você e vice-versa. Sei também que ele morre com o tempo e com toda a evolução tecnológica (o que era perfeito manuscrito, virou imperfeito datilografado, que virou imperfeito digitado, só para dar um exemplo). Que a validação do que o que está perfeito ou não passa por um viés das relações entre opressor e oprimido (o que é perfeito para o homem branco, hétero, cis, que está no poder, está longe de ser perfeito para as diversas minorias que não se encaixam nesse perfil). Que são muitas as variantes, os olhares e os primas. E que, e esse é o fator mais determinante para mim agora, eu não sou uma máquina que entrega tudo no padrão: tenho que me contentar, e sobretudo, me respeitar com o melhor que posso no momento.

Mas eu não mereço o que é mais pleno? Você não merece ver e ter o melhor de mim? Se tenho que fazer algo, não é melhor fazer bem feito? Será que consigo fazer bem feito? O que é fazer bem feito? Não há alguém que possa fazer isso melhor do que eu? O que eu preciso para melhorar cada vez mais nisso? Será que eu posso errar? Se eu errar como posso lidar com essa falha? O fluxo de consciência pode ser bem cruel com alguém que sempre se cobrou e foi cobrada pela excelência. É dessa crueldade que venho buscando me libertar, ainda que haja uma recaída aqui, outra acolá.

O perfeccionismo pode até ter me pegado, mas desta vez estou mais atenta. O que me guia agora não é mais a perfeição pura e simples, aquele horizonte que se afasta quanto mais a gente anda em sua direção. O meu farol agora é o meu limite interno que diz que o meu bem feito é aquilo que é feito com amor sem me causar angústia. Eu não sou uma máquina e, olha, está tudo bem em não sê-la.

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sábado, 7 de setembro de 2019

37 livros LGBTQIA+ para serem lidos no Brasil e no mundo

sábado, setembro 07, 2019 5
Foto por Jiroe, via Unsplash.

Diante de tudo o que aconteceu no ontem, 06 de setembro, com o prefeito do Rio de Janeiro querendo censurar a venda de uma HQ em uma das maiores feiras literárias do Brasil, porque há na publicação um quadrinho em que dois personagens homens se beijam, eu resolvi trazer aqui para o blog uma lista de 37 livros com personagens/de autores LGBTQIA+ como indicação para quem quiser ler mais ou iniciar esse tipo de leitura.

Como professora, acredito que qualquer governante (brasileiro ou não) deve se preocupar se as crianças e adolescentes têm todas as refeições, atendimento de saúde, áreas de lazer (sem um helicóptero apontando armas para as cabeças delas, como a gente sabe que acontece lá no Rio), e escolas dignas tanto para quem estuda, quanto para quem trabalha nelas. Como escritora e cidadã, repudio qualquer ato de censura e acredito na livre circulação de ideias e pensamentos. Por isso, vejo o quanto a diversidade na literatura e em todas as outras formas de arte é primordial em uma sociedade.

Capa do jornal Folha de São Paulo de 07 de setembro de 2019.

  1. Ninguém nasce heroi, de Eric Novello;
  2. Conectadas, da Clara Alves;
  3. O Pacifista, de John Boyne;
  4. Devassos no Paraíso, de João Silvério Trevisan;
  5. Redemoinho em dia quente, da Jarid Arraes;
  6. Fera, de Brie Spangler; 
  7. Middlesex, de Jeffrey Eugenides;
  8. Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon;
  9. Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo, de Benjamin Alire Sáenz;
  10. Você é minha mãe?, de Alison Bechdel;
  11. Queer, de William S. Burroughs;
  12. Minha querida Sputnik, de Haruki Murakami;
  13. Orlando, de Virginia Woolf;
  14. Mil rosas roubadas, de Silviano Santiago;
  15. Fabián e o caos, de Pedro Juan Gutiérrez;
  16. O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer;
  17. Olívia tem dois papais, de Márcia Leite;
  18. Sergio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto;
  19. Muchacha, de Laerte Coutinho; 
  20. Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron; 
  21. O ministério da felicidade absoluta, de Arundhati Roy; 
  22. Fedro, de Platão; 
  23. Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr; 
  24. Tash e Tolstói, de Kathryn Orsmbee; 
  25. Supernormal, de Pedro Neschling;
  26. Will & Will, de John Green;
  27. Dois garotos se beijando, de David Levithan;
  28. Todo dia, de David Levithan
  29. Um milhão de finais felizes, de Vitor Martins;
  30. Quinze dias, de Vitor Martins;
  31. Você tem a vida inteira, de Lucas Rocha;
  32. Tudo o que nela brilha e queima, da Ryane Leão;
  33. E se eu fosse puta?, da Amara Moira;
  34. Ninguém vai lembrar de mim, da Gabriela Soutello;
  35. Calígula, do Allan Massie;
  36. Antologia Além do Arco-íris, vários autores;
  37. Antologia Todas as cores de Natal, vários autores.

Conhece mais livros para aumentar esta lista? Então deixe aqui nos comentários. 
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domingo, 1 de setembro de 2019

Miou o BEDA? | BEDA agosto/2019 #28-31

domingo, setembro 01, 2019 6
Voltei! (Foto: Bruna T. Russo)
Bora conversar?

Então, no começo do BEDA eu disse que não sabia se terminaria tudo. E até que, mesmo me perguntando um milhão de vezes por que eu havia me metido nessa de novo, eu consegui levar todos os posts sem atraso. Até que veio a crise de rinite e de enxaqueca e pá, atrasei os últimos posts. 

Se tem uma coisa que eu aprendi ao longo dos anos é que a gente tem que saber quais são os nossos próprios limites. Por isso, eu resolvi aproveitar o pouco tempo livre que tive disponível para ficar deitadinha, no escuro, tomando muita água e tentando me restabelecer. Até que deu certo. Depois de quase quatro dias inteiros, agora estou melhor. Peço desculpas a quem veio aqui todos os dias e eu deixei na mão.

Backstreet Boys durante a DNA Tour. Foto por Justin Segura.

Paralelo a isso, além da agenda cheia e da dor de cabeça, fiquei bem estressada com a quantidade de gente que surgiu do nada para me perguntar sobre a passagem dos Backstreet Boys aqui no Brasil no ano que vem. Por favor, não seja a pessoa que nunca conversa, nunca pergunta como você está e vem falar apenas para perguntar algo cuja informação está a menos de um segundo no google. Isso é extremamente desagradável. Se você está há mais de cinco anos sem falar com uma pessoa, seja ao menos educado e pergunte como vai a vida antes de pedir ajuda. É o mínimo que se pode esperar, não acham?

Setembro chegou por aqui, com suas águas. Eu, além de aliviada (meu sistema respiratório agradece), fico pensativa. Sempre acontece uma retrospectiva mental quando estou próxima a mais um ano novo. Você fica todo nostálgico também?

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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Lojinha do Algumas Observações | BEDA agosto/2019 #27

terça-feira, agosto 27, 2019 6

Acredito que os leitores mais atentos já devam ter percebido que eu abri uma lojinha aqui no blog. A princípio, o objetivo era de vender tanto os meus livros, mas não é que tive algumas ideias no meio do caminho?

Cartão Poético em processo de confecção.

Agora, quem quiser, além das obras literárias, pode adquirir os marcadores do A Intermitência das Coisas e peças de um projeto experimental feito artesanalmente: os Cartões Poéticos. Além disso, em breve, eu também disponibilizarei os Embrulhos Poéticos e mais umas outras ideias que estão morando na minha cabeça. Será bem legal, e eu estou muito empolgada para isso!

Foto: Bruno Andrade.

Então, quem quiser conhecer o meu trabalho e ter um livro ou um texto autografado, dê um pulo na lojinha clicando aqui.

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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

3 canais do YouTube para você chamar de seu! | BEDA agosto/2019 #26

segunda-feira, agosto 26, 2019 7
Foto por John Schnobrich via Unsplash.

No começo do BEDA, eu recomendei 3 podcasts para você chamar de seu. Agora, eu venho aqui para compartilhar 3 canais do YouTube que são os meus queridinhos da vida. Então pegue o balde de pipoca e vamos lá! ;)

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Isa Gateira

Isa Gateira

Quando eu contei como me preparei para a adoção da Poesia, eu mencionei o quanto o canal da Isa Gateira me ajudou a entender o universo dos gatos. Agora, mais de um ano depois de ter as minha bichanas, continuo ligada nas dicas que a Isa traz sobre os felinos. Até hoje, os vídeos dela SEMPRE me salvam de algum modo. Algumas playlists do canal são muito relevantes e vale a pena conferir:
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Casa do Saber

Casa do Saber
O que eu mais gosto do canal da Casa do Saber é que eu consigo relacionar bem as minhas áreas de interesse (Literatura, Filosofia, Psicologia, História e Política) em um único lugar, com fontes confiáveis. Todos que falam lá são especialistas em suas áreas e, ao meu ver, trazem os assuntos de modo muito didático. Abaixo, algumas das minhas playlists preferidas:
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Lilia Schwarcz

Lilia Schwarcz
O canal da Profª Lili é tão maravilhoso e didático quanto os livros dela. É incrível como a Lilia tem a capacidade de esmiuçar temas complexos de forma tão clara. Para quem não sabe, ela é antropóloga, historiadora e escritora. Tenho profunda admiração não só pelos livros, mas pela paciência com que a Lilia usa dados históricos para esclarecer as bobagens ditas por um certo senhor aí... #notmypresident

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E você? O que você tem visto no YouTube? Me conte nos comentários! ;)

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domingo, 25 de agosto de 2019

4 poemas de Paulo Leminski que você precisa conhecer | BEDA agosto/2019 #25

domingo, agosto 25, 2019 2
Paulo Leminski.
Ontem foi aniversário de nascimento do poeta curitibano Paulo Leminski e como ele é um dos meus poetas preferidos nesta vida, resolvi fazer deste sábado e domingo um final de semana leminskiano aqui no Algumas Observações. 

Fala de Paulo Leminski sobre os poetas, publicada na edição 248 da revista Cult.
Se no post de ontem eu abri o meu coração em uma carta, no de hoje eu resolvi separar quatro poemas do autor para que vocês possam conhecê-lo um pouco melhor. Selecionei parte dos meus textos preferidos, então espero que vocês gostem. Os poemas apresentados abaixo estão no livro Toda Poesia, publicado pela Companhia das Letras, entre parenteses seguem as páginas onde estão cada texto.



pareça e desapareça

      Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
      O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
       Até parece mentira,
tudo parecia alguma coisa.
      O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
      A dor, sobretudo,
parecia prazer.
      Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
      O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
      quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
      Mas vice-versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
      A fita não coincide
Com a tragédia encenada.
      Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.
                                      (página 207)

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     um bom poema
leva anos 
     cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
      seis carregando pedra, 
nove namorando a vizinha,
      sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
     três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
     uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
                                      (página 245)

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ouverture la vie en close

     em latim
"porta" se diz "janua"
     e "janela" se diz "fenestra"

     a palavra "fenestra"
não veio para o português
     mas veio o diminutivo de "janua"
"januela", "portinha"
     que deu nossa "janela"
"fenestra" veio
     mas não como esse ponto da casa
que olha o mundo lá fora,
     de "fenestra", veio "fresta",
o que é coisa bem diversa

     já em inglês
"janela" se diz "window"
      porque por ela entra
o vento ("wind") frio do norte
      a menos que a fechemos
como quem abre
     o grande dicionário etimológico
dos espaços interiores
                                      (página 248)

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Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo 
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui.
                                      (página 356)

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E você? Conhece o trabalho do Leminski? Gosta das produções dele? Me conte nos comentários! Vamos conversar. ;) 

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sábado, 24 de agosto de 2019

Feliz aniversário, Leminski | BEDA agosto/2019 #24

sábado, agosto 24, 2019 0
75 anos de Paulo Leminski. 
"Poesia é um ato de amor entre o poeta e a linguagem".
(Paulo Leminski)

Querido Paulo Leminksi,

Talvez você não saiba, mas você é um dos meus poetas preferidos. Não sei bem como explicar o que me fisgou no seu texto. Já te conhecia de outros carnavais, mas desde que a Companhia das Letras reuniu toda a sua poesia em um único livro, o volume laranja com o bigodão na capa é meu companheiro de cabeceira e de vida. Sendo assim, obrigada, Paulo, por me acompanhar nesta jornada.

Seus versos me ensinaram a ser poeta; mas, sobretudo, me fizeram acreditar que a poesia é para todos. Essa sua obsessão passou também a ser minha. Quebrar esta barreira de que a literatura é algo  apenas para seres iluminados, canônicos e eruditos faz parte da minha jornada como escritora e, sobretudo, como poeta. 

Poesia é música, poesia é necessidade, poesia é comunicação, poesia é inovação e você sempre garantiu e defendeu que fosse assim. A poesia tem a sua profundidade mesmo sendo pop. Há coisa mais legal que isso?

Obrigada pela presença, pela influência, pelos ensinamentos. Obrigada pela companhia, pelas palavras, pelo afago e pelos socos poéticos no estômago. Obrigada por me colocar para pensar, por ser magnífico e por se perpetuar em sua obra. No que depender de mim, muitas pessoas mais entrarão em contato com você.

Feliz aniversário! 

Fernanda
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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

"Amar, verbo intransitivo" no teatro | BEDA agosto/2019 #23

sexta-feira, agosto 23, 2019 4

Se tem uma coisa que eu amo fazer — e que há tempos não colocava em prática — é ir ao teatro. Sendo assim, aproveitei a noite de ontem para correr atrás disso e fui ver o espetáculo Amar, verbo intransitivo que está em cartaz no Teatro Eva Herz (aquele, localizado dentro da Livraria Cultura do Conjunto Nacional). A montagem é baseada na obra homônima de Mário de Andrade e foi adaptada pela Luciana Carnieli que também atua ao lado do ator Pedro Daher.


É interessante ver tanto o trabalho textual quanto cênico e como eles nos levam a refletir sobre os tempos em que vivemos. Se por um lado temos um Mário de Andrade dizendo que a Fräulein Elza não é fruto de imaginação, que ela apareceu para ele (em um retrato fiel da sociedade da época); por outro, percebemos que não estamos distante desse passado em que as mulheres são objetificadas para servirem ao homem. Carlos era um homem violento que às vezes machucava as mulheres "sem querer". À Fräulein não lhe cabia sonhar não viver o casamento, já que isso é coisa apenas para as mulheres ditas puras.

Além disso, outra coisa que me chamou bastante a atenção (e que, sejamos francos, também não mudou muito ao longo dos tempos) é a questão racial e de classe: sempre que os pais ou a própria Elza pensavam no futuro do Carlos, os anos vindouros eram imaginados em um casamento com uma mulher branca de mesmo nível ou de nível elevado (ditos cultural e economicamente). Na adaptação, vê-se bem como há hipocrisia social nesse sentido também. 

Se vocês tiverem uma noite de quinta-feira livre, recomendo. A peça fica em cartaz até o dia 26 de setembro.

🎭 Peça: Amar, verbo intransitivo
Texto: Mário de Andrade
Adaptação: Luciana Carnieli
Direção: Dagoberto Feliz
Elenco: Luciana Carnieli e Pedro Daher
Contrarregra em cena: Sérgio Marques
Em cartaz: quintas-feiras, às 21h, até 26 de setembro
Duração: 75 minutos
Faixa etária: 12 anos
Local: Teatro Eva Herz SP (Conjunto Nacional)
Av. Paulista, 2073 - 01311-940 Bela Vista - São Paulo/SP
Ingressos: R$50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia entrada)
Compras no site ou na bilheteria:
Terça a Sábado, das 14h às 21h
Domingos e feriados, das 13h às 19h (feriados sujeito a alterações)
Sinopse: A trama narra a história da governanta Fräulein Elza (interpretada pela própria Luciana Carnieli), que é contratada por uma família tradicional paulista nos anos de 1920 para fazer a iniciação amorosa e sexual de Carlos (vivido por Pedro Daher), o primogênito herdeiro. A partir desse encontro, os personagens vivem uma relação amorosa, revelando críticas sociais e comportamentais.


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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Conheça o Meu Trampo Plus: entrevista com a blogueira e influenciadora digital Carol Vayda | BEDA agosto/2019 #22

quinta-feira, agosto 22, 2019 4
Foto por Marvin Meyer via Unsplash.
Quem me segue lá no Instagram viu que, em julho, eu participei como palestrante da primeira edição do projeto Meu Trampo Plus. Esta experiência para mim foi incrível; mas, mais do que ouvir de mim, eu queria que vocês conhecessem o projeto da sua idealizadora. Sendo assim, convidei a Carol Vayda para uma entrevista aqui no blog. Vamos saber mais?

Meu Trampo +.

Algumas Observações: Gostaria que você contasse um pouco do que é o Meu Trampo Plus e de onde surgiu a ideia de criar um evento como esse.
Carol Vayda: O Meu Trampo Plus surgiu da minha necessidade, como blogueira, de fazer algo além de postar looks do dia. Durante uma treinamento com outros influenciadores, vi que pauta maior ainda era autoestima, looks do dia, se olhar no espelho e se sentir bonita… não existia uma conversa sobre a gordofobia corporativa que, imagino, boa parte daquelas pessoas sofriam ou sofreram em algum momento da vida e também não se davam conta. Semanas depois resolvi fazer uma enquete em meus stories sobre o tema e vi que não poderia não falar sobre isso e não fazer alguma coisa.
O projeto tem como objetivo qualificar e mostrar novas perspectivas profissionais para pessoas gordas. A princípio com cursos e vivências e, com o tempo, auxiliando em colocações em vagas de trabalho.

AO: Nesse sentido, como a sua experiência como gorda e sua trajetória pessoal de vida influenciam no trabalho que você desenvolve seja no Meu Trampo Plus, seja como influenciadora digital?
CV: Ser gorda pra mim sempre foi um problema, e só consegui entender que não havia nada de errado em não ser magra depois de muito lutar contra a balança e apoiar discursos gordofóbicos. Sempre vivi na pele a gordofobia, pressão estética e todo o tipo de discriminação com o meu peso e fiquei quieta - tanto que tudo isso me renderam crises de pânico e ansiedade. Com o tempo (e com muita informação) consegui me enxergar como uma mulher capaz, linda, inteligente E gorda. Foi a informação que me trouxe para a luz. Hoje, como criadora de conteúdo digital, tenho o poder de levar conhecimento e compartilhar experiências para pessoas que talvez ainda estejam nas trevas. O Meu Trampo Plus nasceu para criar conexões e também ser um catalisador de experiências e criador de conexões, levando informação, bem estar e segurança para as pessoas gordas.

Registro de parte da minha oficina, em um momento de significação do eu no grupo.

AO: Você considera o seu trabalho na internet é voltado apenas às pessoas gordas? Por quê?
CV: Mais ou menos. Obviamente que o meu alcance entre pessoas gordas é maior, por enfrentarmos as mesmas dificuldades, mas cada dia mais tenho alcançado pessoas que não são gordas. Recentemente uma amiga me contou que estava compartilhando meu conteúdo com grupos de pessoas magras e que eles começaram a conversar sobre como a sociedade odeia a pessoa gorda. Isso pra mim foi mágico - além de uma grande prova de amizade. Angela Davis disse que “não basta não ser racista, devemos ser antirracistas”, acredito que este posicionamento de encaixa para qualquer tipo de discriminação.

Palestrantes da primeira edição do Meu Trampo+.
Da esquerda para direita: Jennifer Nascimento, Bia Lombardi, eu, Carol Vayda, Gabi Menezes e Mari Clamarroca

AO: Voltando a falar especificamente do Meu Trampo Plus, como foi o processo de escolha dos parceiros do projeto?
CV: Ahhhh minhas parceiras <3
Primeiramente, a escolha das palestrantes foi pensando no conteúdo que gostaria que os participantes tivessem acesso. Mas, no fundo, a escolha foi por posicionamento perante as causas das minorias. Queria muito que o time fosse composto de pessoas que fossem bem sucedidas em suas atividades profissionais, referências, além de apaixonadas por pessoas. Não poderia ter sido tão certeira! 
O conteúdo das palestras se complementaram, criaram um ambiente acolhedor e ainda proporcionou experiências individuais nas participantes. Isso foi incrível! 


AO: E como foi a escolha dos participantes? Teve algum critério em específico?
CV: Definitivamente foi a parte mais difícil do processo! 
Tive que ser prática e, primeiramente, considerar quem morava menos longe do local do evento. Com isso, dividi as vagas de forma que conseguisse atender pessoas negras, mães-solo, pessoas LGBTQI+, pessoas com e sem experiência profissional e, também, priorizar quem não estava trabalhando. O mais lindo deste processo foi ver que 100% das inscrições foram feitas por mulheres! 

AO: Quais são os próximos passos do Meu Trampo Plus? 
CV: Dominar o mundo, óbvio! hahahha
A primeira turma ainda não encerrou, temos mais três encontros entre a nossa psicóloga e nossas participantes. Mas, a próxima edição já está no forno e em breve abriremos turmas! 

AO: E quais são os seus outros projetos futuros?
CV: Até o final do ano, esperamos abrir turmas para empreendedores, profissionais de áreas pontuais e cursos pagos - para conseguir atender, também, quem está trabalhando e pode investir uma graninha na sua carreira. Agora, para o ano que vem, estamos sonhando com algumas parcerias com RH e, quem sabe um podcast sobre carreiras...

AO: O que você, como pessoa gorda, gostaria que a sociedade entendesse de uma vez por todas?
CV: Que ser gordo não é um problema e ponto. Ser gordo não significa ser doente, preguiçoso, esfomeado e coitado. Ser gordo é apenas uma característica física como ser magro, por exemplo.

Palestrantes e participantes da primeira edição do Meu Trampo Plus.

AO: Quem quiser conhecer mais do seu trabalho como influenciadora digital e o que você desenvolve no Meu Trampo Plus pode te acompanhar de qual forma?
CV: Quem quiser acompanhar de perto o projeto, basta nos seguir no instagram.com/meutrampoplus que tudo acontece primeiro por lá. Agora, quem quiser falar sobre amor próprio, autoestima, rolêzinhos plus size e moda, pode me seguir no instagram.com/carolvayda e acessar o www.carolvayda.com.br

AO: Por fim, mas não menos importante, deixe o seu recado para os leitores do Algumas Observações.
CV: Comecem suas próprias revoluções! Fazer o que a gente ama é o maior ato transformação e rebeldia que podemos praticar! Acreditem naquilo que te faz bem que o mundo vai começar a girar a seu favor! <3

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Algumas Observações | Ano 13 | Textos por Fernanda Rodrigues. Tecnologia do Blogger.