quarta-feira, 15 de junho de 2016

A rua



Na rua,
a chuva que inunda os boeiros públicos
leva as mágoas de tanta gente:
passantes, com seu pesar doente
de quem sente o que não se vê.

Na rua,
as pessoas vem e vão sem destino certo:
a maior parte deslocada e descontente,
sem o seu "felizes para sempre"...

Na rua,
a (des)esperança.
Apenas sua audácia:
Água, temor, falácia.

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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Às vezes, simplesmente não dá

Imagem do meu instagram.

Acordei com vontade profunda de desistir. Sim, era madrugada, quase inverno, frio de rachar, tudo propício a um sono profundo e aconchegante, mas eu tinha que acordar com aquela vontade louca de simplesmente desistir. Ou, como consta no Houaiss de “não prosseguir em um intento, abrir mão voluntariamente de (algo); abster-se, abdicar, renunciar”. Não conseguia pensar em mais nada. Este o meu desejo mais íntimo às 4h40 da manhã de quarta-feira, 08 de junho.

2016 tem sido um ano difícil. Não que a minha vida tenha sido sempre um mar de rosas, mas estes últimos seis meses têm pesado nas costas. Não sou de deixar meus sonhos para trás, mas meu lado perfeccionista – seja culpa da criação ou da astrologia – tem feito com que eu me sinta a pior das espécies que a raça humana poderia ter. Vejamos com mais atenção:

Lá em janeiro, havia prometido a mim mesma que cuidaria mais do blog, afinal, este é o ano em que ele completa uma década de existência. Prometi a mim mesma que cuidaria das pessoas ao meu redor, que me dedicaria mais aos amigos, que estaria mais sociável com algo que não fosse minha cama, meus travesseiros, edredons e livros. Jurei que seria uma professora empenhada, dessas que têm fôlego para criar ações inovadoras dentro do colégio. Disse que cuidaria mais de mim e voltaria à minha rotina de exercícios. Além disso, seria uma aluna exemplar. Junho chegou e o que aconteceu?

Estamos na metade do ano e eu não consegui pensar em absolutamente nada para comemorar o aniversário do blog (as postagens até que aumentaram na frequência, mas o blogger planner só funciona quando estou de férias :/). Conseguir um espaço para os meus amigos anda complicado, porque eu ando esgotada mental e fisicamente. E claro, isso é reflexo da minha vida sedentária. Aluna exemplar? Então, com a rotina insana que ando levando, não tenho conseguido ler tudo na velocidade que preciso. Falta tempo, falta energia, falta coragem. Quanto ao trabalho, professora empenhada até tento ser (vale colocar na conta fazer os alunos falarem com os gringos?), mas se tudo estivesse dando certo, o 4º ano não seria a razão da minha primeira noite insone nestes quase 30 anos de vida.

Queria ser positiva, queria dizer que tudo está dando certo, que estou empolgada. Queria dizer que amo tudo o que estou fazendo, que me sinto cada vez mais envolvida. Queria muito falar que consigo mudar a chave, que é só questão de ficar atenta ao que vem de negativo na cabeça (eu juro que estou me esforçando quanto a isso!). Entretanto, há momentos em que simplesmente não dá, que a única coisa que quero fazer é dormir ou chorar ou desistir (ou um combinado dos três). Começo a pensar que seja qual for o motivo – estresse, depressão, agenda lotada, TPM – às vezes, não dá para carregar o mundo nas costas.

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quarta-feira, 1 de junho de 2016

O curioso caso de Michelle C.

Imagem por Foundry, sob licença creative commons.

Ali está ela, atrasada como sempre. Michelle C. é aquele tipo de pessoa extravagante: chama a atenção pela roupa que veste, pelo modo que fala – gesticulando suas pequenas mãos, cujas unhas pinta de vermelho –, pela maneira com que sorri. Michelle C. sempre quis grande em seu 1,63 de altura.

Entrou na sala depois de todos, porque gosta de receber olhares. Como faz frio, optou por um longo sobretudo de onça. Adora aquela vestimenta, ainda que a amiga considere a estampa da pele sintética um tanto cafona. Os detalhes são tudo, meu bem, afirma em sua superioridade.

Mas nem sempre foi assim. Durante a infância passada dentro da igreja, seu pai conseguiu conter ao menos parte do espírito tempestuoso. Ali, nada de batons ou decotes. A filha do religioso tem que dar exemplo aos demais fiéis: ser a primeira a chegar e a última a sair, conter a vaidade em saias longas, falar manso. Mal sabia ele, que a Michelle adulta seria um oposto disso tudo.

É claro que a experiência traz certo filtro. Com nossa protagonista não seria diferente. Em casa, a boa moça imperava. Fora dela, era a devassa que saía a caça. O motivo daquele atraso em específico, na aula de Literatura Portuguesa, com o batom um pouco borrado, se traduz uns amassos na escada de emergência: ora com o estudante de engenharia, ora com o rapaz do laboratório de anatomia.

Vez ou outra discute com a amiga de opinião diferente que sempre a questiona o porquê de se dizer santa, quando a luxúria era parte de seu dia a dia. Não há como ser apenas uma? Michelle ri com a destreza que o prazer da dupla identidade lhe proporciona. Pensa que a amiga é inocente demais para entender o incêndio de seu corpo.

Nas aulas, ela sempre tem opinião para tudo. Muitas vezes, tenta fazer uso de vocabulário rebuscado e inter-relacionar os assuntos, porque quer que todos notem sua capacidade de articulação. Ao perceber que algumas pessoas aos poucos se afastam dela, passa a dizer que seus colegas têm inveja de sua inteligência. Michelle C. tinha que ser sempre a melhor em tudo. Modéstia nunca fez parte do vocabulário da pequena mulher de longos cabelos negros e muitas pulseiras. Formou-se, mas nunca seguiu a área escolhida.

Anos mais tarde, encontrei-me com alguns colegas de turma da faculdade. Eles me perguntaram se ainda era amiga de Michelle C., disse que não e fui sincera: não aguentei a inconstância de sua dupla personalidade. Eles sorriram aliviados: Como você suportava aquela menina? Ela era toda espalhafatosa numa tentativa de te ofuscar. No fundo, tinha inveja de sua inteligência.

Surpreendida com a afirmação, senti pena da pequena Michelle, que sempre quis o mundo e não conseguiu sustentar seu próprio castelo.

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terça-feira, 31 de maio de 2016

Um dia em silêncio

Imagem por IgorShubin, sob licença creative commons.

Acordei naquele dia e fiz o que sempre faço: cobri a cabeça com o cobertor, pensando no feriado que viria. Mais um na companhia da internet, sem colocar a vida para tocar. Não tinha a menor pretensão de sair da cama. A casa estava vazia e não havia ninguém com quem conversar, portanto, fiquei curtindo aquele aconchego de quem tem a preguiça como parceira.

Meia hora mais tarde, meu relógio biológico disse que era de sair do quentinho e ir ao banheiro. Ali notei que algo estranho acontecia. A chuva caia lá fora, sem o som característico dos pingos se chocando no chão, no telhado, nas janelas. Assustada, baixei a calça, a calcinha e comecei o meu xixi. Mais uma vez, não ouvi o barulho da minha urina se misturando à água do vaso sanitário. Um arrepio me percorreu a espinha. Me sequei, dei descarga, lavei as mãos. Nada, nada e nada. Nenhum som.

Caminhei pela casa com um nó na garganta. Queria gritar, mas tinha medo que meus próprios decibéis não chegasse aos meus ouvidos. Liguei o rádio e a TV, ambos no último volume. Nenhum ruido. Nem um suspiro. Já aos prantos, peguei o telefone. Pensei em recorrer à minha mãe, mas como entenderia a mensagem dela do outro lado da linha?

Joguei as coisas na bolsa, liguei o carro. Iria rezando até o hospital, torcendo para que lá eu conseguisse encontrar algum especialista em surdez repentina. Como pode, Senhor, eu ir dormir bem em um dia e acordar sem um único som no outro? Mais uma vez, liguei o rádio sem sucesso.

A chuva, então, se transformou em tempestade. Liguei o limpador de para-brisa; que, por sua vez, não dava conta de tanta água. Era chuva, era lágrima, era trânsito, era desespero... E então a falta de tempo para reagir: aquele ônibus se chocou no meu carro, que deu piruetas no ar, enquanto minha cabeça tentava se desprender do corpo preso ao cinto de segurança. Os vidros se estilhaçaram em silêncio com o impacto na lataria no chão. Câmera lenta. Silêncio. Dor. Senti a vista escurecendo enquanto lutava com a minha necessidade de sobrevivência, meu desespero de sair dali, antes que o pior acontecesse. Impossível.

Estrondo. Acordei com o som do despertador, me dizendo que era hora de ir trabalhar. Nunca me senti tão feliz por isso.


Este texto faz parte do Projeto Escrita Criativa, que reúne escritores e blogueiros para colocarem no “papel” suas ideias. Quem quiser conhecer mais, acesse a página ou o grupo do projeto. Lá há a lista de todos os blogs participantes. O tema da blogagem coletiva de maio era "Um dia em silêncio".
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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Coragem, amiga

Imagem por Alexas_Fotos, sob licença creative commons.

Coragem, amiga. Coragem com mais este dia, mais este ano. Coragem para ser quem você é, sem olhar para trás. Coragem para aguentar o fardo, para seguir no aguardo. Coragem para a luta, tão mortífera quanto a sua própria paz. Coragem para a ação. Se você não o fizer, quem o fará? Tenha coragem para ter medo. Coragem para ter coragem. Levante a cabeça, deseje, se mova (ou não). Faça silêncio no barulho; barulho no silêncio. Reflita. Deseje. Tenha coragem para amadurecer. Mudar de ideia, de cabeça, de lugar exige mais coragem do que acatar. Coragem no incômodo. Coragem na quietude. Ter coragem em face ao medo é fácil. Difícil - e motivo de orgulho - é se encorajar todos os dias pela manhã, todas às noites antes de dormir. Reflexo em frente ao espelho encoraja ou seria a coragem que te faz olhar no espelho? Coragem, amiga, coragem. Coragem com as lembranças. Elas são capazes de nos prender no tempo, quando querem. Coragem para os dias em que você não quer arrumar a própria cama: um passo de cada vez. Todos os sonhos para você. E coragem! Coragem para encarar o amor dos outros, espelhando a sua falta de romance. Coragem para desenvolver o tal do amor próprio. Coragem na oração e na condução lotada. Coragem para as pessoas vazias. Te desejo amiga, ah, minha grande amiga, coragem para existir. Somos sobreviventes, sobreviventes na dor e na coragem... Coragem, amiga minha, muita coragem.

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