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domingo, 13 de abril de 2025

Entre rachaduras e frestas

domingo, abril 13, 2025 7

Gosto de registrar trivialidades do meu dia – destas que ninguém se importa. Documentalizar uma vida simples, sem importância, lenta. Uma vida vagarosa em meio ao vazio e ao caso. Sou lenta. Sempre fui. Mas também sou um paradoxo. Sempre fui também. Uma mente ansiosa – e, por vezes, catastrófica – para domar. Cada um tem o seu próprio desafio interno – e se acha que não o tem, é porque ainda não o descobriu.

Ano passado, em setembro, minha tia me deu um cacto de presente de aniversário. Muda nascida do cacto que ela mesma cuida há anos. Ela me deu. Eu agradeci, feliz com a singeleza, e procurei um lugar de honra no meio das minhas suculentas. O cacto? Bem, ele detestou. Um mês depois, a mesma tia estava em casa vendo a minha cara de “eu não sei mais o que fazer”, ao mostrar para ela as pontas amareladas e molengas da planta.

– Ele é bruto. Põe no sol. Ele vai ficar bem.

Gosto de cactos porque eles – de algum modo – me lembram dos poetas: ambos estão num mundo hostil, com pouquíssimos recursos, contudo dão um jeito não só de sobreviver, mas também de fazer isso com leveza. Poetas e cactos mudam a paisagem árida e trazem a boniteza para ela.

Meu cacto foi parar do lado de fora da janela da cozinha. Está ali: sujeito a todo tipo de intempéries (sol, chuva, vento, garoa, neblina…) e num lugar nada glamuroso, sem destaque algum. Vulnerável, entregue. A parte mole e amarelada, entretanto, aos poucos foi recuperando o verde, ganhando a firmeza perdida. Novos caules foram nascendo, crescendo. Chegou ao ponto de eu pensar em comprar um vaso novo. Preciso perguntar à tia como replantá-lo.

Há três semanas tive uma surpresa. Fui conversar com ele – sou da espécie que conversa com fauna e flora – e me deparei com um tímido botão.

– Mãããããe, acho que o cacto vai dar flor, vem ver! – Meus olhos brilhavam, claro.

Foi aí, então, que a minha mente lenta que gosta de ser ansiosa resolveu sair da maratona e correr um sprint: “Será que o botão vai crescer?”, “Será que vai abrir outro botão?”, “Será que a flor demora para abrir?”, “Que cor será a flor?” – emoções todas de alguém cujos outros cactos e suculentas nunca floresceram, tal qual mãe de primeira viagem.

A onda de calor veio e, por incrível que pareça, meu cacto amou! Apesar de tomar todo o sol da tarde, o botão estava a cada dia maior e maior e maior. Maior a ponto de minha mãe vir me dizer um “manda foto para sua tia e pergunta se isso é normal”. Mandei a foto só pra dizer que vinha uma flor por aí. Ela, claro, ficou feliz também.

Ontem de manhã fui lavar a louça do café da manhã e espiei o outro lado da janela. Algo havia mudado. O botão estava abrindo. Corri para destrancar a porta e atravessar a parede. Precisava observar mais de perto. Era verdade!!! Estava abrindo uma flor peluda e rajadinha – quase como a descrição de um gato. Tirei foto orgulhosa – não sem antes dizer ao cacto que sua flor é linda! – e mandei a imagem para a minha tia, que está em viagem, e para as minhas melhores amigas – que acompanham de perto as minhas trivialidades. Na conversa com elas surgiu a dúvida: que cacto é esse, afinal?

Usei o Google Lens para a pesquisa. Coloquei a foto que havia tirado. O primeiro link, em inglês, dizia que a espécie é sul-africana, que há variações nas cores da flor (podem ser roxas, brancas, amarelas e rosa) e que – apesar de parecer carnívora – por causa dos pelinhos na flor –, a planta não é. Aliás, ela é adequada para quem tem pets. Vir de um lugar quente explica ela ser o único ser vivo nesta casa a amar a onda de calor.

Duas horas mais tarde, fui pegar um balde no quintal, e ela já tinha aberto de vez. Florida em sua potência. Fiquei emocionada. Tirei uma nova foto. Mandei para a tia, para as amigas e postei nos stories do Instagram.

Gosto de registrar trivialidades que ninguém se importa. Elas me comovem e me lembram que – apesar de estar num mundo tão bélico – a poesia nasce das rachaduras e de frestas.

(Ainda bem.)

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Entressafra

quarta-feira, fevereiro 22, 2023 6
Foto de JT, via Unsplash.


Terra seca. Frutos ao vento. Sol na cabeça. Sede. Fome. Palavras ganhando o mundo. O oco, o vazio. Loucura. Infertilidade. Estado de quase morte que não mata, devora. Depois do caos, o vazio. Ciclo de yin e yang sem fim. Conto meses, dias, horas, minutos e segundos. Vejo os bem-te-vis cantarem. Sinto o verdejar querer desistir da clorofila. É verão, mas faz frio. Chuva, trovão e vento sendo sinais?


O período de travessia é truncado. Há cansaço do trabalho de parto. Há cansaço dos cuidados de um recém-nascido. Há orgulho também. Quem dá luz — a sementes, bichos, livros — conhece as dores e os prazeres. Contudo, esse espaço entre dois mundos que há entre o fim e o começo é escorregadio. Nem sempre é possível dar conta da vida, das ideias, do coração. Como já diria o poeta: “E agora, José?”.


Me forço a, pelo menos, procurar palavras. No meu tempo, mas me forço. Saio farejando o mundo, um passo após o outro, numa tentativa de voltar. Voltar para onde? À gênese de tudo: uma ideia que seja, um sentimento que baste. Sinto muito e se tudo é bastante, nada sobra. Pedras sobre pedras desmoronam no aqui e no agora. Sou estrangeira às minhas lembranças. Me agarro às dores do mundo. Dizem que um dia isso passa. Eu professo: Será?


Se fosse Pandora, ao menos me restaria uma esperança. Não sou. A terra segue seca. Meus frutos seguem ao vento. Minha garganta arranha na aridez. Transito na estéril incógnita.

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domingo, 25 de setembro de 2022

Avesso

domingo, setembro 25, 2022 2
Nebulosa. Foto por NASA, via Unsplash.


hoje o dia nasceu estranho, 
rastejando,
confinado.
hoje o dia nasceu querendo não nascer.

faz sol,
mas as horas anseiam por retornar ao útero,
ventre cósmico em que tudo é silêncio-semente.

hoje o dia nasceu de parto a fórceps:
obrigado,
compelido a se arrastar.

e arrastado segue arrastando tudo por onde passa.
e arrastando tudo, o dia desnasce.

hoje o dia não nasceu:
ele se despediu tragado na escuridão.

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terça-feira, 12 de abril de 2022

Incertezas

terça-feira, abril 12, 2022 6
Imagem por lillolillolillo, via Pixabay.


Faço poesia para driblar o tempo. O futuro é tão incerto que até o segundo seguinte hesita em chegar. Escrevo, porque quero entender as faltas — de segurança no mundo, de um amor romântico, de saúde pública, da dor vista — e que fazer com elas. 

Faço poesia justando palavras como gostaria de juntar as pessoas que amo e admiro — estejam elas aqui ou na China, vivas ou não. Crio odes aos meus antepassados e cartas ao meu futuro latente em esperança vindoura. Escrevo, rasuro rascunho, não sei se publico ou se guardo, mas não desisto de montar esse quebra-cabeça infinito de pensamentos.

“Ando desnorteada, sem compreender o que me acontece e sobretudo o que não me acontece” — leio no fim de uma das crônicas de Clarice. Suas palavras me abraçam e, mais uma vez, sou Poesia.

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sábado, 30 de outubro de 2021

Sísmico

sábado, outubro 30, 2021 18
Foto por Matt Hardy, via Unsplash.


E eis que eu estou aqui novamente, na angústia de escrever e apagar e rescrever este post mais de uma vez. Poderia culpar conta da crise de enxaqueca que me acompanhou ao longo da semana ou o projeto grande de trabalho que tem me tirado o sono. Mas não. De novo, não. A razão do fazer e desfazer perpassa por outros caminhos.

Algumas pausas são mais necessárias que outras. Não há como mergulhar fundo sem o equipamento adequado. No caso da palavra, ela só é ouvida se houver fôlego e silêncio. No meio de uma explosão, ficará para sempre perdida. Talvez seja isso: tenho explodido para dentro. Como o eremita, busco fôlego na luz do mar do meu casulo. Sonhos me mandam sinais. Anoto tudo que lembro no meu diário, numa tentativa de descobrir ali a passagem secreta que me desague numa ilha paradisíaca. O problema é que não quero ser ilha, meu desejo é de continente! Terra firme depois de tantas moléculas de H²O... Isso é mais uma das minhas contradições.

Os encontros literários, mesmo que através de uma tela, me levam cada vez mais a perceber as minhas fragilidades. Meus calcanhares de Aquiles (assim mesmo, no plural) são mais fortes do que eu. Noto o quanto é cansativo lutar contra o moinho submerso e carcomido por águas que sempre mudam de direção e aparecem arrastando tudo para os lugares mais inusitados. Por algum tempo, desisto.

Até agora escrevi sobre marés hiperbólicas, repletas de incertezas e da aspiração do ser mais. Contraditoriamente foi justamente essa pressão de ser gente que não me permitiu ser eu. Como quase tudo na vida, a escrita me é âncora pesada e distante: há responsabilidade em parir algo para o mundo — mesmo que seja um pequeno post para um blog insignificante. Será que estou contribuindo? 

No fundo, parei momentaneamente de olhar para trás e de tomar cafés com os amigos. Parei de publicar textos para tentar entender como lidar com essa pressão em meus ouvidos. Nesse impasse de represar e transbordar, minhas palavras nadam no meu útero. Não há ar nos meus pulmões, mas paro de lutar contra a minha angústia. No meio desse maremoto todo, mesmo sem saber nadar, eu continuo tentando dar minhas braçadas.

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terça-feira, 29 de setembro de 2020

Fênix

terça-feira, setembro 29, 2020 8
Foto por Andrew Stickelman, via Unsplash.

Às vezes eu acho que perdi a mão. A vontade que dá é a de jogar tudo para o alto, desfazer dos sonhos e seguir o fluxo sem ficar elaborando muito. O problema surge quando eu me lembro de que não tenho a menor vocação para engolir sapos, de que não consigo conviver com a minha infelicidade e — principalmente — de que o mundo não merece as patadas do meu mal humor.

Sou uma idealista melancólica e, talvez por isso mesmo, que escolhi as profissões que tenho. Como idealista, sou professora e acredito que o mundo só se transforma quando há acesso a educação de qualidade para todos. Como escritora, mergulho na minha própria existência melancólica que busca entender o que está fazendo aqui.

Às vezes, como parte desse entendimento, preciso me distanciar. E nesse distanciamento sinto que perco a mão e não sei mais o que escrever, como parir aquilo que precisa ser dito. É difícil domar a linguagem quando é preciso reorganizar — uma vez mais — as peças de um quebra-cabeças de uma figura comum e, ao mesmo tempo, desconhecida.

Nesses tempos em quem não escrevo, torno-me azeda. Como diria Clarice, é como se eu morresse nesse meio tempo. De pequenas mortes em pequenas mortes a vida luta em criar palavras para ressurgir.

Às vezes acho que eu perdi a mão. Mesmo assim, me debato. Mesmo assim, sigo tentando.


O tema da blogagem coletiva de setembro de 2020 foi: a voz.
Para saber mais sobre o Projeto Escrita Criativa, clique aqui.


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quarta-feira, 17 de junho de 2020

{Vamos falar sobre escrita?} Lives sobre escrita enquanto não podemos nos abraçar e outras coisas mais

quarta-feira, junho 17, 2020 4

{Vamos falar sobre escrita?} Lives sobre escrita enquanto não podemos nos abraçar e outras coisas mais
Foto por Nick Morrison via Unsplash.

Olá, pessoal!
Como contei aqui, no fim de abril e no início de maio, eu participei de duas lives no Instagram. A primeira foi com a Patrícia Castilho, no perfil do grupo teatral Na Companhia do Útero, e a segunda foi com a Maria Vitória, do blog A Estranhamente. Essa experiência foi muito interessante, porque ali estava eu, sem firula alguma, falando sobre aquilo que mais amo na vida: ler e escrever.

Lives

Recebi feedbacks muito positivo dos dois momentos e fiquei pensando o quanto essas participações foram cruciais na minha vida. Estou vivendo um processo grande de mudanças — na semana que vem já poderei falar mais abertamente sobre isso — que me fez pensar no quanto quero e, sobretudo posso, viver uma vida mais autoral. 

Acho — e, de verdade, espero que isso tenha acontecido com você também — que a quarentena está mudando a minha vida do avesso. Quando escolhi coragem como a palavra do ano, quando anotei um "free yourself to be yourself*" na capa do meu planner, não fazia ideia do quanto esta libertação seria intensa. 

Mudar dá medo, exige coragem, nos faz perder o controle de muita coisa (ainda que eu faça tudo planejado); mas, mesmo assim, tenho notado o quanto esse friozinho na barriga é o que me move. É ele que tem me mantido viva. Nos momentos que esse friozinho foi embora, me senti um tanto morta (e isso é assinto para outro post, quem sabe).


YouTube

Por conta de tudo isso, estou com um desejo gigante de conversar com vocês mais vezes. Essa experiência das lives foram encantadoras demais para mim e, ainda que eu tenha que vencer a vergonha da câmera, a vontade de voltar a gravar com regularidade para o YouTube está falando mais alto.

Quem me acompanha no Instagram, viu que eu perguntei lá nos stories o que vocês gostariam que eu falasse no canal. Aproveito e deixo essa pergunta aqui também: sobre o que você gostaria de me ver falando em vídeo? Deixe as respostas aqui nos comentários, porque a sua sugestão é muito importante para mim, depois aproveite para clicar aqui e já se inscrever lá no canal.

 


Portal Catarinas | Chicas que escrevem

Fernanda Rodrigues e o livro A Intermitência das Coisas para a coluna Chicas que Escrevem, do Portal Catarinas.
Imagem por Laura Elizia Haubert.

Voltando a falar sobre escrita, além de compartilhar os links das lives sobre escrita de que participei, quero trazer também o link da entrevista, esta por escrito, que concedi à coluna da Laura Elizia Haubert, Chicas que Escrevem, do Portal Catarinas. Você pode lê-la clicando aqui.

E-book grátis da Toni Morrison, na Companhia das Letras

"É sempre preciso ler e reler os livros de Toni Morrison. Todos eles são transcendentais. Você vai me agradecer depois da leitura". — Barack Obama
"Racismo e fascismo" e "O corpo escravizado e o corpo negro", de Toni Morrison, para download gratuito.
Imagem: Companhia das Letras.

Aproveitando o assunto do post retrasado e conectando-o com o de hoje, aproveito para avisar que a Companhia das Letras disponibilizou gratuitamente um e-book com dois textos da Toni Morrison. São eles: "Racismo e fascismo" e "O corpo escravizado e o corpo negro”, ambos foram extraídos do livro A fonte da autoestima. Abaixo, deixo um texto informativo para que você saiba mais do que se trata o e-book.

Uma das escritoras mais célebres e reverenciadas de nossos tempos, Toni sempre foi uma hábil observadora do mundo. Suas palavras são sublimes não só nos romances, mas também nas obras de não ficção. A autora, que recebeu em 1993 o prêmio Nobel de literatura, analisa as linhas tênues que separam "nós" e "o outro", principalmente no que diz respeito ao corpo negro. Esse e-book traz dois textos essenciais para entender melhor esse debate: "Racismo e fascismo" e "O corpo escravizado e o corpo negro". Os textos deste livro brilham com a elegância literária e intelectual que fizeram a voz de Toni Morrison ecoar até os dias de hoje.

Para baixá-lo, acesse o site da Companhia das Letras, clicando aqui. Mas corra! Esse livro ficará disponível gratuitamente até o dia 28 de junho de 2020.

Acho que é isso!
Aguardo as sugestões de todos nos comentários. ;)
Beijos e queijos :*

*Free yourself to be yourself é um verso que aparece em duas músicas do U2. São elas: Iris e Lights of home. Em tradução livre, seria algo como "liberte a si mesmo, para ser você mesmo".
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segunda-feira, 15 de julho de 2019

{Vou por aí} Relato de viagem literária: FLIP 2019

segunda-feira, julho 15, 2019 28
Paraty, Rio de Janeiro.
"O que me fez escrever foi o desejo de compreensão do mundo".
(Conceição Evaristo, 12 de julho de 2019, Casa Tag, FLIP)

"A literatura trata do que é a confusão das nossas vidas".
(Eliana Cardoso, 13 de julho de 2019, Casa Livre & Santa Rita de Cássia, FLIP)

Sabe quando você decide algo de última hora, se joga e só vai? Foi assim com a minha primeira vez na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Resolvi viajar na terça de manhã, aos quarenta e cinco do segundo tempo, quando uma amiga disse que tinha uma vaga sobrando na hospedagem em que ela iria ficar, que não era longe do centro histórico e que não estava tão cara.

Paraty: pense numa cidade linda! :)

Corri com tudo o que era preciso adiantar de projeto de trabalho, fiz a minha mala, coloquei os meus livros para vender na mochila e parti na quinta de manhã para Paraty, sem ter muita certeza do que fazer. Além de não ter dado tempo de pesquisar da programação (um milhão de coisas pipocando na minha timeline, porque um milhão de amigos participaram tanto da programação oficial, quanto da extra-oficial, tudo ao mesmo tempo!), também acabei não pesquisando sobre a cidade e entendendo como ela funciona.

Antonio Prata e Djamila Ribeiro, na mesa Incorretamente Políticos, realizada na Casa Folha.

Na chegada, encontrei a Aline e entrei na fila com ela para ver a mesa Incorretamente Políticos, promovida pela Casa Folha, com a Djamila Ribeiro e o Antonio Prata. Costumo brincar que o meu eu-cronista sempre vai buscar respirar o mesmo ar que o Antonio Prata, para a inspiração literária vir. Já a Djamila me instiga de outro jeito, como mulher negra que conseguiu acessar um espaço que é tão preconceituoso e de difícil entrada para todos nós, negros, que é a academia. Ouvi-la, sobretudo, me dá forças para continuar a caminhada. 

O politicamente correto é um assunto que abrange complexidade com o advento das redes sociais. No Brasil, ser correto às normas  [racistas, homofóbicas etc.] não é ser correto. O recalque volta como sintoma. A eficácia do termo "politicamente correto" está enfraquecida dos dois lados, porque [esse termo] é mal visto. É uma maquiagem e um tapume contra o discurso de ódio. [Me pergunto] há uma solução? 
(anotações sobre a reflexão trazida pelo Antônio Prata) 

A Casa Folha estava lotada, e eu achei um pouco ruim a disposição dos convidados e do público, mas deu para ouvir e anotar bastante coisa, então foi válido mesmo assim.

Lugar de fala é diferente de representatividade. A representatividade é importante. Todo mundo é localizado socialmente. O homem branco não está acostumado a se localizar socialmente. O que significa fazer parte de um lugar em que tudo gira em torno do privilégio? Lugar de fala é, portanto, uma postura ética. As consciências dos lugares sociais são um processo de construção de empatia. O processo é doloroso, é incômodo, porque muitas vezes você se vê no lugar de opressor e tem que repensar as próprias atitudes.
(anotações sobre a reflexão trazida pela Djamila Ribeiro) 

Stéfhanie, do blog Nosso Relicário, e eu em frente ao projeto Ocupa Beauvoir.

Depois, voltei à Casa da Porta Amarela para comer algo e, sem querer, acabei conhecendo a Stéfhanie, do blog Nosso Relicário. A gente já se lia há algum tempo, então foi legal demais tê-la conhecido e me inteirar do clube de leitura que ela modera (vamos!). Foi com a Sté que eu fui a minha volta de reconhecimento pela cidade. A ideia era ver uma mesa da Natalia Timberman, no barco da FLIPEI, mas a programação se atrasou. Então fomos tomar um café, o que foi bacana, porque a nossa mesinha virou um mini ponto de encontro: primeiro, apresentei a Sté para a Jarid Arraes; segundo porque encontrei a Fernanda, uma professora amiga minha, que não via há uns 10 anos, pelo menos.

Nesse ponto, cheguei à conclusão que estar na FLIP é como viver longos dias de festa em que todos os seus amigos estão juntos. Tem coisa melhor que isso?

Socorro Acioli e Noemi Jaffe, na Casa Tag.

No dia seguinte dormi até um pouco mais tarde e acabei pegando metade da mesa da Noemi Jaffe com a Socorro Acioli na Casa Tag. Vi da janela mesmo (a casa estava lotada) e fiquei bem contente porque consegui perguntar a Socorro se ela virá à Flipop desse ano deu alívio saber que ela vem e que vou poder ouvi-la com mais calma de novo. 

O conselho dado por ambas escritoras é leia muito. Leia tanto obras de outros escritores, quanto o seu próprio texto, para trabalhar a reescrita. Para Noemi, é importante que o autor brasileiro conheça a Literatura Brasileira desde os primórdios até o que é produzido na contemporaneidade. Só assim: lendo e reescrevendo, que é possível se tornar um bom escritor. Já a Socorro acrescentou que é importante saber qual é a história que só você pode contar no lugar de seguir o que está na onda da vez do mercado editorial. 
(anotações sobre as falas de Socorro Acioli e Noemi Jaffe)


Mel Duarte abrindo a mesa com a Conceição Evaristo e Jarid Arraes. 

À tarde, voltei a Casa Tag  e, enquanto estava na fila para ver a Jarid mediando a mesa com a Conceição Evaristo, vi a performance feita na rua pelas escritoras do Slam das Minas RJ. Os poemas declamados foram tão impactantes que vale a pena passar no Instagram delas e ver os destaques "flip 2019".

Voltando à Jarid e à Conceição, o que dizer desse encontro? Ao estar entre autoras negras me sinto como se fizesse parte de uma grande família (e faço, não?). Momentos como esse é sempre viver dentro de um eterno abraço. Tão maravilhoso! Conceição disse que "foram os nossos que legitimaram a nossa voz", a fala dela endossa esse sentimento tão bom de ver alguém com tanta sabedoria compartilhando o que sabe (de literatura, de militância e de vida) com o público que estava ali presente.

Conceição Evaristo e Jarid Arraes autografando na Casa Tag.
'O discurso literário pretende mostrar o rosto de uma nação'. A literatura deve ser, portanto, completa em termos de representantes e vivências. A FLIP muda o rosto porque nós reivindicamos. (...) Nós sempre falamos, mas há vozes que falam mais alto que nós'. A autoria negra só chega à universidade com mais veemência a partir das afirmações, com acesso do público negro às universidades. Isso tem relação com as disputas de narrativa e com o medo com que nos colocamos. (...) Sendo assim, 'o nosso texto não pode ficar dentro do nosso limite. O texto de outro escritor faz parte da literatura brasileira, como o nosso [de autoria negra também faz]'. (...) 'O texto de autoria negra mostra um Brasil que as pessoas não querem ver. (...) A gente não quer colocar no branco um sentimento de culpabilidade, mas sim de responsabilidade, porque ainda são as pessoas brancas que estão no comando'.
(anotações sobre a reflexão trazida pela Conceição Evaristo) 

Retrato que fiz da americana Kristen Roupenian.

Permaneci na Casa Tag para ver a mesa seguinte, com a escritora americana Kristen Roupenian, autora do livro Cat Person e outros contos. Foi interessante demais para mim, que estou conectada a tantos escritores nacionais, entender como funciona o processo criativo de alguém que tem outra origem e vive outra cultura. Além de ser simpática ao extremo, Kristen relatou como lida com timidez em ter os seus textos lidos por tantas pessoas ao redor do mundo e como cria as suas narrativas. 

A questão é 'O que fazer com o desconforto? Como leitora, eu gosto de me sentir desconfortável'. Portanto, o processo criativo se dá a partir de algo ou de uma situação que instiga, que provoca, não a partir de um tema específico. Há histórias que nascem das duas formas: mais estruturadas, planejadas (mesmo que seja um planejamento apenas mental) e outras surgem de modo mais espontâneo. 
(anotações da fala da autora Kristen Roupenian) 

Estava tão fan girl que não tirei foto com a Lili.
Segue a dedicatória cheia de amor que ela me fez, deste livro que já estou devorando. 

Saindo da Kristen, fui tomar café com a Aline. Depois disso, voltei à Casa da Porta Amarela e lá conheci a Liliane Prata, que autografou o seu lançamento mais recente para mim, O mundo que habita em nós. Eu dei um exemplar do meu A Intermitência das Coisas para ela. Esse foi, sem dúvida alguma, o meu momento fan girl da FLIP, porque eu acompanho a Lili há muito tempo e foi legal dizer a ela o quanto tenho curtido o podcast (Proibido Fritar Pastel) e o quanto ainda estou impactada pelo episódio de estreia sobre o nada (ouçam e tirem as suas próprias conclusões!).

Talita Taliberti, do KDP, a escritora Eliana Cardoso e a editora Janaina Senna, da Nova Fronteira.

O meu terceiro dia de FLIP, começou na Casa Libre e Sta. Rita de Cássia, com a mesa da Eliana Cardoso, vencedora da 3ª edição do Prêmio Kindle de Literatura e a Janaina Senna, editora da Nova Fronteira. Eliana venceu a premiação com o romance Dama de Paus, que narra um assassinato e um suicídio numa cidade fictícia do noroeste de Minas Gerais. 

Durante a mesa, Janaina contou como funciona o processo de seleção da obras do Prêmio Kindle desde a inscrição no KDP até a publicação da obra (inscrições para o prêmio deste ano entre 15 de agosto a 15 de outubro, saiba mais aqui). Já a Eliana compartilhou de forma muito fofa como é o processo de escrita dela e o que é preciso para ganhar a premiação. 


Na ficção, a ideia nasce mais desordenada, por isso é importante ter um arco narrativo. Também é necessário estar aberto às críticas dos leitores e dos editores e ler, ler muito.  Aceitar o que o editor diz e fazer os cortes e adaptações necessários são impressindíveis para tornar o livro melhor. Indicação de leitura: O tempo envelhece depressa, de Antonio Tabucchi.
(anotações sobre a fala da escritora Eliana Cardoso) 

Poesia em outras margens, com Flávia Péret e Dennis Radünz.

Uma pausa para o almoço e, depois disso, caminhadinha com direito a sorvete e fotos pela cidade na companhia da Sté. Foi nessa voltinha que acabamos entrando no SESC (Unidade Santa Rita), e vendo o café literário "Poesia em outras margens", com Dennis Radünz e Flávia Péret. Pensem na grata surpresa. A Flávia, além de poeta, dá aulas de escrita criativa e vê-la compartilhando os seus conhecimentos como docente me trouxe muitas ideias para as oficinas de escrita criativa que eu leciono. Já o Dennis estabeleceu o paralelo entre a literatura e as outras formas de arte.

"Poesia tem muito mais relação com artes visuais, com música, do que com literatura, com muitas aspas na palavra literatura. (...) Quando a gente está falando de poesia ou de artes visuais, a gente está falando de política". 
 (Fala de Dennis Radünz sobre o fazer poético) 

Praia do Pontal, Paraty, Rio de Janeiro.
Já era o meio da tarde quando eu resolvi descansar um pouco. Estava exausta, cada amigo estava com uma programação diferente, e eu percebi que não conseguiria mais acompanhar nada de tão cansada. Então fiz o melhor que podia: caminhei até a praia, me sentei em uma das pedras, e passei boa parte da tarde contemplando a natureza. Há tempos não fazia algo assim e me reconectar com a essência foi ótimo para me reenergizar.

Sarau no barco Embarque na Poesia. 

Tinha planejado mais um sarau e uma mesa para o sábado à noite, entretanto, o frio me pegou de um jeito que, mesmo de casaco, comecei a passar mal. Fiquei triste de ter que sair no meio do sarau, porque três amigos meus estavam apresentando os seus poemas, mas senti que tinha que respeitar o meu corpo. Sendo assim, voltei, tomei um banho quente, depois fui comer e dormir para aguentar a viagem de volta no dia seguinte.


Admirando a cria o A Intermitência das Coisas em Paraty.
(📷: Stéfhanie Fanticeli)

Apesar de inesperada, a minha primeira Flip foi bacana. Ainda que não tenha ido com o propósito de vender os meus livros, consegui fazer algumas vendas, o que me deixou feliz por ter feito parte do evento também como autora. Ao voltar para casa, vi que a lista dos livros mais vendidos foi composta por negros e indígenas em sua maioria, o que é um marco para o mercado editorial brasileiro. Além de ser uma conquista e tanto para todos nós, dá orgulho de ter uma amiga ali no meio!

Enfim, a Flip foi um bom presente de férias. Agora, que venha a edição do ano que vem!

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Ah! Para quem quiser ver boa parte desses momentos, acesse os stories do meu Instagram, no destaque FLIP 2019. 
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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Uma potência em mim

segunda-feira, outubro 15, 2018 4
Imagem: pexels.
Escrevo numa tentativa de recompor a minha liberdade. Às vezes, eu a sinto ameaçada de tal forma, que parece que eu a prendo pelo pescoço no alto de uma árvore. Quando o apoio dos pés estão prestes a falhar, escrevo.

Este momento não é sempre tão claro. A necessidade emerge nas horas mais inóspitas, ganhando uma força que nem mesmo reconheço. Esta potência mora, um tanto adormecida, dentro de mim e ganha asas por meio das palavras que escrevo.

Não planejo a minha escrita. Ela surge, simples e pura, à minha frente, berrando para que lhe dê vida. Pulsando até que as ideias apareçam — no papel ou na tela — e sejam lidas por outrem. Fisgadas pelas entrelinhas, o texto ganha forma. Não há controle ao longo do processo, mas há beleza. E o que é a arte se não algo belo em sua estranheza?

Tudo parece mágico, eu sei, e a verdade é vital: escrever é o que mantém a minha sanidade e é o que marca a minha existência no mundo.

Não sei até que ponto isso reverbera nos outros. Só sei que sou livre, sou luta, sou assim.
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sábado, 15 de setembro de 2018

{Vamos falar sobre escrita?} Clube de Escrita da Biblioteca Paulo Duarte

sábado, setembro 15, 2018 8
(Imagem: freephotocc)
Olá, pessoal!

Post passado comentei com vocês que algumas coisas estavam começando a dar certo. Na postagem de hoje, aproveito para compartilhar a primeira novidade e lhes fazer um convite.

A novidade é que convidada para mediar o Clube de Escrita da Biblioteca Paulo Duarte! E o convite é justamente esse: que tal vir escrever conosco?

Façamos juntos a dancinha da alegria.

Vou explicar direitinho como funciona:
Nos reuniremos uma vez por mês (sempre às sextas-feiras) na Biblioteca Pública Paulo Duarte, para falarmos sobre a profissão de escritor e, claro, para escrever. Cada encontro será gratuito e durará duas horas. 

A minha ideia é discutir como criatividade, cotidiano e autopublicação podem caminhar juntos nesta era em que o escritor não precisa, necessariamente, de uma grande editora para poder produzir os seus livros. 

Abaixo seguem as informações mais detalhadas. Também deixo aqui o link para o evento no Facebook.


Sobre:
Clube de Escrita da Biblioteca Paulo Duarte busca romper com o mito de que os autores são “seres iluminados”, distantes e “intocáveis” por quem os leem através de encontros que buscam ampliar o conhecimento cultural de quem convive com as obras disponíveis na biblioteca, bem como estimulando a produção literária contemporânea, por meio de rodas de conversa e vivências no campo da escrita criativa. Essa troca ocorrerá em quatro encontros: 28 de setembro, 19 de outubro, 9 de novembro e 7 de dezembro.

Objetivos:
• Refletir sobre o mito de que o fazer literário é apenas para determinadas pessoas;
• Compreender que uma pessoa não precisa necessariamente publicar um romance ou um livro físico para ser um escritor;
• Estimular os participantes a perderem o medo do fazer literário;
• Desenvolver o olhar do escritor para se inspirar a partir do seu próprio cotidiano;
• Propiciar momentos de reflexão a partir de exercícios práticos de escrita criativa;
• Produzir textos de prosa curta que permeiem diversos gêneros literários (autoficção — narrativas baseadas em memórias —, cartas, contos, crônicas, poemas, poemas em prosa etc.);
• Sensibilizar os participantes a frequentarem a biblioteca e a conhecer o seu acervo.

Biblioteca Pública Paulo Duarte, temática em Cultura Afro-brasileira.
O que me deixou mais empolgada com o convite é que eu cresci frequentando a Biblioteca Pública Paulo Duarte, logo, será uma forma de retribuir o tanto que ela já contribuiu para a minha carreira literária. Vale dizer que há algum tempo, ela é temática em Cultura Afro-brasileira, então vale a pena ir até lá  também por isso.

A Biblioteca Pública Paulo Duarte está localizada dentro do Centro de Culturas Negras, no bairro do Jabaquara, próxima à estação do metrô (clique aqui para ver como chegar).
Vamos escrever juntos?

Espero por vocês! 😉

PS: Fiquem de olho na agenda aqui do blog. Mais novidades virão. 😉
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sábado, 25 de agosto de 2018

BEDA agosto/2018 #25 — Manifesto

sábado, agosto 25, 2018 0
Imagem: edar.
Estou aqui. Sim, aqui. 

Diante da tela em branco, me dispo enquanto a tela ganha vida. Às vezes, isso é tudo que tenho vontade de fazer: ficar nua de palavras, vendo o sentimento transbordando de mim, por mim. 

Não sei se faz sentido ou se é para ter um sentido. Ao passo que o texto nasce, o coração desacelera e o tremor que vem de fora é barrado pelas paredes da casa. É deste modo que texto ganha vida e nada mais me abala. Sou forte, sou mulher, sou escritora, poeta. Sou a que luta. Sim, luto. Luto e reafirmo meus passos cada dia que pulo da cama querendo ficar nela, a cada dia em que não desmorono. 

Estou aqui e aqui fico. Não quero deixar de ocupar o lugar que me foi roubado. Estou aqui porque a minha marca no mundo é poderosa: ela é feita, não de armas, mas de palavras que ecoam e que tocam o peito do outro lado do planeta, que atravessam a tela fria de um celular, que fazem outras pessoas pensarem um "poxa, eu posso fazer isso também".

A literatura é minha garra. Minha espada. Meu escudo. Com ela, sou mais forte. E você, também.
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sábado, 11 de agosto de 2018

BEDA agosto/2018 #11 — {Vamos falar sobre escrita?} 11 dicas de como começar o seu texto literário

sábado, agosto 11, 2018 0
Imagem: Katrina_S.

Olá, pessoal!
Hoje eu vi aqui para dar algumas dicas de como começar um texto literário. É claro que, para cada escritor este processo se dá de maneira distinta, mas nada como se ter algumas cartas na manga, não é mesmo? As dicas abaixo estão aí para serem testadas e aprovadas (ou não) por vocês! 

1. Leia muito!

Esta parece óbvia, mas acreditem: já conheci pessoas que querem escrever sem ler. Então, resolvi começar por aquilo que eu acho que é o ponto de partida para qualquer pessoa que se propõe a escrever: a leitura. Quanto mais se lê, mais se aprende. Por isso, observe como o seu escritor preferido abre os livros dele. Há algum padrão na apresentação da cena, dos personagens ou do conflito? Se sim, qual? É algo que você pode aproveitar na sua escrita? Anote tudo e reflita como esse padrão pode servir para você.

2. Por que você quer ser escritor?

Você já parou para pensar por que você escreve? Refletir sobre isso pode ser uma ferramenta poderosa para começar um texto literário. Entender por que você escreve pode te ajudar a pensar em quais são os tema que você gostaria de falar, sobre quais são as suas grandes paixões e, sobretudo, sobre qual é a mensagem que você gostaria de passar aos seus leitores.

3. A razão por que você escreve te leva a um assunto específico

Normalmente, ficar pensando na razão da sua escrita leva a um assunto com aquele tema. Se uma pessoa quer muito escrever sobre o feminismo, por exemplo, isso fará com que ela pense muito sobre as situações em que as pessoas precisam dele, o que leva a nossa sociedade a ser machista (independentemente de justificativas plausíveis ou não) etc. Esta reflexão toda pode ser o começo de uma narrativa.

4. E as outras observações?

Observar o mundo e tê-lo como fonte de inspiração também é algo que é de grande valia. Neste sentido, as possibilidades são infinitas: o caminho do trabalho para casa, as pessoas que transitam pela cidade, as músicas, os filmes, as leituras, as fotografias e obras de arte (e todo o sentimento que elas nos despertam) e, até mesmo, os sonhos podem servir como fonte de ideias.

5. Faça pesquisas

Quer escrever sobre algo que não domina muito bem ou colher ideias novas sobre algo que você já conhece? Pesquise. Faça uso do Google e as redes sociais (os grupos e páginas do facebook são ótimos para se aprofundar em determinado assunto ou descobrir o ponto de vista de outras pessoas sobre determinado algum tema em específico). 

6. Torne o comum improvável

Tente escolher uma situação ordinária (um café da manhã, um dia de trabalho no escritório, uma conversa ao telefone, etc) e pense como o seu personagem poderia vivenciar isso de maneira mais inusitada. O desdobramento desta situação pode ser um bom começo para o seu romance.

7. Comece escrevendo sobre aquilo que já conhece

Para domar a insegurança, escreva sobre um assunto que você já domina ou sobre um lugar que você já conhece. Isso ajuda a explorar todas as possibilidades de ideias, evitando o branco que o bloqueio criativo pode trazer. Dê inicio pelo conhecido e, quando estiver mais à vontade, migre para algo mais difícil.

8. Desordenamento não é proibido

Por mais que a sua história siga uma ordem cronológica, nem sempre você precisa escrever seguindo o começo, o meio e o fim. Se tiver uma ideia que faz parte do meio de uma história, coloque no papel. Depois você pensa no que fazer com ela. O importante é registrar o máximo que puder sobre a sua história.

9. Trace o perfil do personagem

Se você não sabe direito o que a sua história vai contar, talvez ajude pensar em um personagem. Quem é ele? Como ele é? Como ele fala, anda, age? Qual é a sua idade? Com quem ele mora e se relaciona? Qual é o ponto de vista desse personagem em relação ao mundo que ele vive? Ele tem algum sonho, alguma ambição? Qual é o tempo desse personagem? (século XI, Século XXI?) 
Ao responder a essas perguntas, uma pequena narrativa já se formará na sua cabeça.

10. Tenha papel e uma caneta por perto

Mantenha um caderninho catalizador de ideias ao seu lado - nem que seja para ir à esquina! - e anote qualquer ideia que surgir. Ele servirá de inspiração para quando bater aquele branco, servindo como um banco de dados da criatividade.

11. Escreva

Às vezes, tudo o que um escritor precisa é começar pela primeira palavra. Então, escreva. Coloque as ideias no papel sem pensar em como o texto ficará. Deixe a edição para um segundo momento, se focando apenas no começo.


E você, como começa os seus textos?
Me conte aí nos comentários! 😉

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domingo, 29 de abril de 2018

{Vamos falar sobre escrita?} Oficina de Autopublicação no Clube da Escrita para Mulheres

domingo, abril 29, 2018 16
Imagem por Jarid Arraes.
Entrei naquela sala e me sentei na cadeira que estava próxima à parede. Depois de tanto tempo fazendo curso em um único lugar, estar em um ambiente completamente desconhecido era intrigante e estimulante.

Estava cercada de mulheres. Todas diferentes, carregando não apenas suas histórias de vida, mas também sua singular criatividade. Em comum, a escrita. Todas éramos escritoras. O encontro foi mediado pela Dani Costa Russo e pela Jarid Arraes — coordenadora e fundadora, respectivamente, do Clube da Escrita para Mulheres. As quatro horas que passamos juntas foi um montar de quebra-cabeças. Desconstruíamos os velhos paradigmas para remontar novas esperanças. Ao mesmo tempo em que passamos a entender como o mercado editorial é cruel com os autores desconhecidos, vimos como é possível ser melhor mesmo estando longe de uma grande editora. O sonho de ver o livro publicado não é impossível.

Nós, mulheres, sempre somos questionadas ao dizermos que somos escritoras. A nossa sociedade ainda aceita melhor um homem que escreve, do que uma mulher. Quando dizemos que escrevemos, recebemos um olhar de dúvida, de desaprovação e o questionamento da quantidade de livros que já publicamos — como se precisássemos comprovar que escrevemos. Em uma era pautada pela tecnologia, uma das reflexões que surgiu na oficina é justamente relacionada a isso: precisamos publicar um livro físico para dizer que escrevemos? Apesar de ter o desejo de finalmente ver o texto em um objeto-livro na prateleira, não é isso que determina quem é ou não escritor. Escritor(a) é aquele(a) que escreve. Portanto, ser mulher e se posicionar como escritora é, em si, um ato político que transpõe o paradigma machista que prega que escritor “de verdade” é apenas homem.

Repost do instagram da Jarid Arraes.

Talvez o parágrafo anterior lhe pareça um exagero. Então, volto com um dado estatístico que uma colega apresentou quando chegamos a essa discussão na oficina: 95% dos escritores que publicam nas principais editoras tradicionais do Brasil são homens. Sim, você leu certo. Noventa e cinco porcento. Ouço esse dado e penso na minha turma de pós-graduação e nos total de participantes do Projeto Escrita Criativa, ambos compostos por pelo menos 90% de mulheres. São contas que não fecham. E por que não fecham? Porque ainda vivemos em uma sociedade extremamente machista.

Enquanto compartilhavam a experiência de se autopublicar, Dani e Jarid davam mais e mais exemplos de pessoas que tentaram fazê-las desistir e de como elas enfrentaram o mundo nesse processo. Para mim, o que ficou de importante é que se faz necessário ter em mente que ser independente é, de alguma forma, ter mais trabalho (não que isso seja ruim, pelo o contrário, você se desenvolve mais em diferentes aspectos). Ser independente não é ser escritor apenas, mas sim editor, preparador de texto, revisor, social media, diagramador, capista, fotógrafo, produtor de eventos, gerente de vendas, mediador de uma pequena equipe (normalmente formada por parceiros e amigos que acreditam no livro tanto quanto nós). É preciso disponibilidade mental para dar conta de tudo isso. Por outro lado, é válido lembrar que ter o contrato com uma grande editora não garante que o escritor não tenha que assumir uma ou várias dessas funções.

Ainda não sei como vou publicar o meu livro — não mencionei, mas se você me segue no Instagram sabe que ele acabou de ficar pronto —, o que posso dizer é que participar desta oficina me deixou mais forte como mulher que apoia outras mulheres e como escritora que vai fazer minhas palavras se tornarem realidade. 

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Quer saber mais sobre o Clube da Escrita para Mulheres?
Então acesse a Página do Facebook e o Instagram do Clube.
Para conhecer o trabalho da Jarid Arraes clique aqui; já para saber mais sobre a Dani Costa Russo, acesse aqui.

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