*Texto escrito em 2019.
Definir o amor como uma arma é tão comum que a expressão, antes poética, agora não passa de um mero clichê. Mas o que não é um clichê, se não uma imagem que faz com que a gente a use até gastá-la, de tanto que se identifica com ela?
Essa semana, fui almoçar com uma das professoras que trabalha comigo. Quando a encontrei, ela estava pálida, tremendo mais que vara verde. Via em seu rosto que ela buscava uma forma de me explicar o que se passava, mas ela mesma estava tão passada que não conseguia encontrar as palavras. Passava o celular de uma mão a outra, tentava tirar o cabelo do rosto, enquanto caminhava rápido. Quando finalmente nos distanciamos do colégio, ela soltou em um atropelo:
— A Vânia disse que quer que o José morra, você acredita? Quando eu perguntei o porquê, ela respondeu que é porque ele é diferente, porque ele tem dois pais.
Senti o ar entrando em meus pulmões, mas não consegui fazer os meus neurônios se articularem. Como assim, uma aluna minha, uma criança de oito anos sendo tão homofóbica? Como pode uma criança desejar a morte de outra tão gratuitamente? Na hora, a imagem que veio na minha cabeça foi a de todos os meus amigos gays, lésbicas e bis, o quanto eles são maravilhosos, o quanto eles não deveriam sofrer por apenas existirem. Como o amor alheio pode incomodar tanto?
— Eu perguntei para a Vânia se ela acreditava de verdade nisso que dizia — completou a minha amiga — ela respondeu que não. Tenho certeza que isso é coisa que deve ter ouvido dos pais.
Coisa dos pais. Meu sangue ferveu na hora que concluímos isso. Adultos semeando o preconceito em pessoas tão pequenas. “Ninguém nasce odiando”, já diria o Mandela. Ninguém nasce odiando, mas aprende com os pais, com a sociedade, em todos os lugares. Isso é desesperador e pensar em tudo o que o pequeno José pode ter sentido ao ouvir um absurdo desses me deixou profundamente abalada.
Li que algum desses escritores famosos disse que um bom autor não pode escrever com raiva, porque assim o texto não fica bom. Fico me perguntando como escrever sobre ver outras pessoas sendo massacradas apenas por existirem sem ter sangue nos olhos. Sem sentir esta fúria que cresce em mim. Como amar em tempos de ódio?
Hoje eu acordei com a notícia que o prefeito do Rio de Janeiro mandou apreender uma HQ da Marvel que estava sendo vendida na Bienal Internacional carioca, porque em um dos quadrinhos, dois personagens homens se beijam. Segundo ele, esse material continha “conteúdo pornográfico”. Pleno 2019, e eu tendo que lidar com censura no Brasil. Mais uma vez meu o sangue ferveu.
Como escritora (e tendo amigos que também o são), quero poder escrever sobre o que eu quiser. Quero que os meus leitores possam ler o que eles quiserem. Quero que meus amigos e desconhecidos possam existir. Sem represálias, sem medo, com o direito de amar quem eles quiserem. Quero que as pessoas vivam à base do amor. Por isso escrevo esta crônica. Porque preciso me juntar a todos que acreditam que compartilhar bons sentimentos é válido e ir à luta.
Vamos produzir, sim. Vamos consumir, sim. Vamos amar. O amor é o nosso combustível e a nossa arma. Ele é a nossa K-46. Por mais que dizer isso soe o maior clichê dos clichês, é amando que venceremos todo esse preconceito.
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