*Texto escrito em abril de 2022.
Sempre que algo importante está para acontecer, eu sonho comigo andando por aqueles corredores, naquele banheiro, naquelas salas de aula. Sempre que algo importante está para acontecer, eu volto à escola em que estudei por aqueles anos mais bonitos da minha infância.
Talvez aquela escola seja o meu forte, meu porto seguro, o lugar onde fui feliz sem saber que aquilo era felicidade. O local onde eu gostaria que todos estivessem lá comigo. Talvez eu só esteja sendo nostálgica, mesmo. Isso — ser nostálgica — é algo da minha natureza, sempre foi.
Estava no banheiro, falando com alguma amiga — qual delas, meu Deus?! — sobre o meu desejo de parar de usar sutiã e a necessidade de naturalizar o “farol aceso”. Trocava de roupa. Colocava uma regata de alça finininha. A blusa era amarela. A alça do sutiã, azul marinho. Dispensava o sutiã e me sentia dona de mim. Aquele era só um corpo. Aqueles eram só mamilos embaixo de uma blusa. Me sentia poderosa, porque estava livre. Algo de grandioso aconteceria ao sair dali. Algo profundo.
Acordei com dor de cabeça, sentindo as têmperas latejarem. Ainda há guerras e dores no mundo. Ainda há pandemias e lockdown. Ainda há mortes. Minha cabeça lateja em um dia de terapia, aulas e lives. Três semanas do ano já se foram. Algo de grandioso está chegando. Algo incrível.
Abro o YouTube, vejo a Patti Smith lendo trechos de Só Garotos e de O ano do Macaco. Ela não desiste e me ensina a não desistir também. People have the power, because the night belongs to us. O mundo há de dar certo. Pulo para o Chico Buarque e tento respirar enquanto tomo um gole do chá de boldo que fiz antes de apertar o play nesses vídeos todos. São mais 11 horas, “deveria estar trabalhando”. Deveria tantas coisas. Queria ser muitas, sou uma só. Algo de grandioso acontece. Algo magnífico.
Sinto saudades. Sinto vontade de falar do dia a dia. Sinto vontade de dizer que “sim, eu gosto pra caralho de você”. Sinto demais, tenho coração de poeta. Não sei fazer prosa, não sei fazer dramaturgia. O diálogo é sempre tenso. Eu sinto muito.
Sinto demais, sinto demais, sinto demais. Algo de grandioso bate à porta. Algo maravilhoso. Você estará aqui para pegar na minha mão?
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