segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Limpezas que vêm e vão

Foto por Jan Kopřiva, via Unsplash.

Quando as coisas doem, além de me voltar para dentro, preciso colocar a energia para fora. Normalmente, essa força motriz orbita em torno de duas atividades, a escrita e a faxina. Há tempos ando insatisfeita com algumas áreas da minha vida e, aos poucos, venho tentando colocar tudo no seu devido lugar, mesmo sem saber ao certo se o lugar escolhido é o adequado. Organização e a fórmula de “tentativa + erro/acerto” seguem reinando por aqui.

Sei que sou uma pessoa essencialmente mental, que vive ponderando o que e como e onde e, sobretudo, por quê. Então, é meio natural que eu saia da terapia alternando entre entusiasmo para fazer as coisas e dores de cabeça por pensar demais (às vezes as duas coisas ao mesmo tempo). Estou tentando aprender que não tenho respostas para tudo, que é possível planejar e ao mesmo tempo seguir o fluxo, que é impossível controlar a água entre as mãos. Isso é particularmente desafiador quando se vive uma pandemia em que cada um faz o que sente o que é certo, não o que é recomendado pelos órgãos de saúde. Nessas horas me lembro dos tempos de faculdade, de uma conversa com um amigo da Filosofia. “O que é a verdade?” Nos questionávamos há 10 anos. Ainda não encontrei uma resposta que me satisfaça.

Inspirações em uma parede torta. :) 
(Para quem quiser esses quadrinhos, a referência está no fim do post.

O que acontece é que, quando o meu mental fica sobrecarregado, normalmente isso se reflete do lado de fora: cabeça bagunçada, ambiente bagunçado. É aí também que entra a faxina. Às vezes é mais fácil organizar o que está fora do que o que está dentro. Nesse processo, sempre surge algum insight para resolver uma questão interior.


Em agosto, eu resolvi que faria uma grande faxina — antecipei aquela anual que sempre faço em dezembro, para a virada do ano. 2020 está sendo tão complexo, que decidi tirar o peso da vida abrindo espaço para o novo (novos saberes, novos olhares, novas relações). Uma grande faxina que deveria terminar antes do meu aniversário, em meados de setembro. Ao invés de focar em quem é próximo que está nem aí para a quarentena, resolvi focar na pessoa com quem mais convivo: eu mesma. Não dá para mudar os valores éticos e ideológicos dos outros, mas dá para eu ser uma pessoa melhor, dá para deixar um legado melhor para o mundo. Mais uma vez, a conversa filosófica surge na minha cabeça, com meu amigo me dizendo que cada um vive com a versão da verdade que lhe convém.

Cantinho de trabalho :)
Meu homeoffice pós-faxina. :)

A Thais costuma dizer que “não dá para organizar tralhas”, então eu comecei destralhando o guarda-roupas. Tudo o que não servia ou não ressoava mais com quem eu sou, eu resolvi doar. Depois passei para os sapatos e, por fim, cheguei aos livros — tudo com a mesma resolução. Destralhar para mim é algo interessante, porque, se for seguir o que diz a Marie Kondo e me perguntar se tal livro me faz feliz, a resposta provavelmente será “sim”. Tive que usar outros critérios. Foi difícil, mas consegui. A falta de espaço para os amantes do livro físico é uma problemática constante para quem vive em uma casa pequena. Sendo assim, encaixotei a minha biblioteca, deixando na estante apenas os de estudo, trabalho e alguns dos meus preferidos. Acho que deu certo.


Eu sou do tipo de pessoa que sempre atribui um valor sentimental ao que compro, ganho, leio. Então, fazer essa grande faxina é um eterno recordar, uma viagem ao túnel do tempo. Esta, em especial, me fez refletir sobre a minha caminhada e me fez grata pelos meus privilégios, ainda que muito do que eu sou seja fruto de muito esforço. Esses dias, conversando com algumas amigas sobre a minha opção de continuar sem quebrar a quarentena, disse a elas que tudo é uma questão de objetivo. O lance é que isso não se dá só a respeito de ficar ou não em casa, isso é para a vida, por isso o autoconhecimento é tão fundamental.


Quatro dias depois de pegar firme no propósito de terminar tudo, ficou faltando apenas uma pequena parte de um armário, cujas lembranças ainda não sei se estou pronta para encarar e destralhar. No geral, sinto-me orgulhosa por ter conseguido compreender parte do que vim fazer aqui — 2020 e sua inconstância me possibilitaram isso. Do vazio aocaos, sigo nas minhas intermitências: destralhando, organizando e curtindo a paz que reina como o cheiro de roupa de cama trocada que nos abraça para uma bela noite de sono.


Seguem as referências dos quadrinhos:

  • Os quadrinhos da Mafalda e o dos sueños, eu comprei em Buenos Aires (San Telmo e Caminito);
  • As citações do Ariano Suassuna e Paulo Freire são da Tertúlia
  • o quadrinho com desenho de unicórnio foi presente de uma amiga, vindo da Seja Único;
  • Born to be an unicorn e a gatinha sereia são da Mulher Vitrola;
  • O bastidor também foi presente de uma amiga, vindo da Artes da Cá;
  • O With mu whole heart, comprei na Daiso;
  • la vida es un viaje foi comprado em um stand de alguma Bienal do Livro (esse eu não me lembro exatamente qual era);
  • Para essa parede, ainda quero colocar um cartão poético meu e um dos sonhos da sou potiria.

 

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7 comentários:

  1. Mesmo com tanta confusão dentro da cabeça, você ainda consegue externar tudo de forma clara. Amo ver como você quer se tornar melhor a cada dia e busca isso sem desistir. Você é exemplo.

    E achei lindo o seu cantinho! Parabéns!

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  2. Oi
    bom o texto, essas limpezas também refletem nossas mudanças, eu limpei meu guarda roupa esses dias, mas foi pouca coisa, retirei algumas roupas que não queria, sapato, porque também não fazem mais o meu estilo.

    http://momentocrivelli.blogspot.com/

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  3. Oi. Fernanda como vai? Seu texto reflete muito o que acontece com o interior das pessoas. De forma lenta ou não, importante é que você consegue a faxina, outros não conseguem, infelizmente. Adorei o texto. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  4. Também preciso destralhar o meu guarda-roupa. Obrigado pelas dicas.

    Bom fim de semana!

    OBS.: O JOVEM JORNALISTA está de volta com novos posts. Não deixe de conferir!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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  5. ai que post perfeito
    acho que vou tirar um tempinho pra essa faxina também

    esses tempos eu peguei pra destralhar meu banheiro, dentro daquele armarinho de baixo da pia tinha tanta coisa esquecida, vencida, produtos que já tinham até acabado... e depois disso eu me senti tão bem.

    Vou começar pela cozinha, pq acho que nunca fiz esse tipo de faxina nessa área.

    Beijos
    Carol Justo | Justo Eu?!

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  6. "cada um vive com a versão da verdade que lhe convém" rapaz, profundo isso! e verdadeiro demais. também estou sentindo o mesmo em relação a pandemia (cada dia que passa um peso maior de ficar em casa, e cada dia que passa um peso ainda maior de ver os outros saindo). Mas é isso, cada um convive com a versão da verdade que lhe convem.

    Também sou dessas de destralhar as coisas quando minha vida ta bagunçada. Inclusive a proporção da bagunça do meu quarto é igual a da bagunça da minha vida, esses dias que meus dias estão corridos e eu estou atolada de tarefas, meu quarto está uma bagunça sem fim. E piora que quanto menos tempo tenho mais quero arrumar ele rsrs

    Também sou dessas que desenvolve valor sentimental aos objetos que convive. Inclusive é uma das minhas maiores dificuldades de destralhar. Eu me apego a tudo, qualquer coisa me faz feliz! O método konmari não me ajuda muito, geralmente uso um criteio subjetivo, tão subjetivo que não sei explicar: dou uma olhada naquilo e vejo se realmente vale a pena guardar ou não. tem funcionado. que vontade de destralhar que isso me trouxe

    Beijos!
    Serenar

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  7. Seu home-office ficou um mimo depois da faxina. Eu adoro fazer essas limpezas, fico até mais leve.

    Beijo.
    Cores do Vício

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