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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

12 livros para ler no carnaval

quarta-feira, fevereiro 19, 2020 4
Imagem de Pexels por Pixabay
Olá, pessoal!
Não sei quanto a vocês, mas eu adoro aproveitar o feriado de carnaval para dar aquele gás nas leituras, principalmente nos livros que são grandes ou mais complexos, que levam mais tempo e energia para serem findados.

Pensando que este feriadão pode ser uma boa oportunidade para você criar ou desenvolver o hábito de leitura, fiz uma listinha com 12 livros que são ideais para o feriadão. Para facilitar, separei a lista em 6 categorias, cada uma delas com objetivos diferentes. Vamos lá?

Lista de livros para ler no carnaval
Imagem de Free-Photos por Pixabay

1. Para quem quer mais de uma história em um único livro

Minha sugestão para quem não tem muita paciência para ler uma história grande é começar lendo crônicas. Esse gênero textual costuma ser leve, descontraído e sempre se apresenta com narrativas mais curtas.  É ótimo para quem está começando a desenvolver o hábito da leitura ou para quem quer algo em tom de conversa, de causo. Minhas sugestões são: 

Trinta e Poucos, do Antônio Prata
Capa do livro Trinta e Poucos, de Antônio Prata (Companhia das Letras)

Sinopse: Mais que qualquer escritor em atividade, Antonio Prata é cultor do gênero - consagrado por gigantes do porte de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Nelson Rodrigues - que fincou raízes por aqui: a crônica. Pode ser um par de meias, uma semente de mexerica, uma noite maldormida, a compra de um par de óculos, a tentativa de fazer exercícios abdominais. Quanto mais trivial o ponto de partida, mais cheio de sabor é o texto, mais surpreendente é a capacidade de extrair sentido e lirismo da aparente banalidade. Trinta e poucos traz crônicas selecionadas pelo próprio autor a partir de sua coluna na Folha de S.Paulo. Um mosaico com os melhores textos do principal cronista do Brasil.
Editora: Companhia das Letras. | Resenha aqui


A arte de ser leve, de Leila Ferreira

Capa do livro A arte de ser leve, de Leila Ferreira (Editora Planeta)Sinopse:  Gentileza, bom humor, desaceleração e felicidade são alguns dos temas discutidos de formaA Arte de Ser Leve aponta para o perigo de emagrecermos o corpo, mas ficarmos com obesidade mórbida de espírito.
inteligente e divertida por Leila Ferreira. Exímia contadora de histórias e entrevistadora, Leila reflete, a partir de depoimentos colhidos por ela no Brasil e em outros países, sobre a possibilidade de vivermos de forma menos complicada e estressante. Ao fazer o leitor enxergar, de forma crítica, as ciladas que criamos para nós mesmos,
Editora: Planeta | Resenha aqui.



2. Para quem quer se preparar para o vestibular

Normalmente, cada universidade tem a sua lista de vestibular. Aqui, deixo duas sugestões da lista FUVEST 2020 (você pode ler as listas completas de 2020, 2021 e 2022 clicando aqui). Essas leituras são necessárias a todos que quiserem prestar o vestibular para entrar na USP (Universidade de São Paulo).

Poemas Escolhidos de Gregório de Matos, organização José Miguel Wisnik
Gregório de Matos é, historicamente, o primeiro grande poeta do Brasil. Sua obra, talvez a mais importante produzida pelo Barroco poético nas Américas portuguesa e espanhola, conserva ainda hoje grande parte de seu interesse, por força, sobretudo, da agudeza e do vigor com que o poeta soube fixar satiricamente, numa linguagem vivaz que já deixa transparecer o gênio local na exploração de sonoridades africanas e tupis e que, na sua mordacidade feroz, não recua nem diante da pornografia, a dissolução de costumes da Bahia do século XVIII. Nesta já clássica coletânea preparada por José Miguel Wisnik nos anos 1970, e agora revista pelo organizador, o leitor encontrará uma seleção dos melhores poemas de Gregório de Matos nas diversas modalidades que cultivou - a satírica, a encomiástica, a lírica amorosa e a religiosa -, de par com numerosas notas de esclarecimento do texto, um pequeno perfil biográfico do poeta e uma análise crítica de sua obra.

Sinopse: Gregório de Matos é, historicamente, o primeiro grande poeta do Brasil. Sua obra, talvez a mais importante produzida pelo Barroco poético nas Américas portuguesa e espanhola, conserva ainda hoje grande parte de seu interesse, por força, sobretudo, da agudeza e do vigor com que o poeta soube fixar satiricamente, numa linguagem vivaz que já deixa transparecer o gênio local na exploração de sonoridades africanas e tupis e que, na sua mordacidade feroz, não recua nem diante da pornografia, a dissolução de costumes da Bahia do século XVIII. Nesta já clássica coletânea preparada por José Miguel Wisnik nos anos 1970, e agora revista pelo organizador, o leitor encontrará uma seleção dos melhores poemas de Gregório de Matos nas diversas modalidades que cultivou - a satírica, a encomiástica, a lírica amorosa e a religiosa -, de par com numerosas notas de esclarecimento do texto, um pequeno perfil biográfico do poeta e uma análise crítica de sua obra.

Quincas Borbas, de Machado de Assis

Capa do livro Quincas Borbas, de Machado de Assis (Penguin Companhia)Sinopse: Publicado pela primeira vez em livro em 1891, depois portanto de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e antes de Dom Casmurro (1899), Quincas Borba é uma das obras mais marcantes da fase realista de Machado de Assis. Talvez por se situar justamente entre esses dois monumentos da obra machadiana, o romance muitas vezes foi considerado uma realização menor, uma espécie de mera continuação das Memórias póstumas - para irritação de seu autor, que em um raro comentário sobre a própria ficção afirmou que a presença do personagem Quincas Borba era "o único vínculo" entre os dois livros. Mais do que ao marco inaugural do Realismo no Brasil, porém, Quincas Borba remete ao Machado contista que começava a abordar temas historicamente mais próximos de sua época e a explorar os conflitos psicológicos de seus personagens com sua sofisticada e irônica narrativa em terceira pessoa presente em contos clássicos como "A cartomante" e "A causa secreta". Neste romance da maturidade do autor, a história do provinciano Rubião - herdeiro da fortuna do idiossincrático filósofo Quincas Borba - e dos tipos urbanos da corte que o levam à ruína é narrada com o distanciamento, o ceticismo e o senso de humor implacável de que só Machado de Assis era capaz.
Editora: Penguin Companhia

3. Para quem gosta de grandes histórias

As sugestões abaixo são para quem gosta de pegar um livro e se sentir preso a cada linha. Os romances abaixo são daqueles de tirar o fôlego de cada leitor.

Desonra,  de J. M. Coetzee

Capa do livro Desonra, de JM Coetzee (Companhia das Letras)Sinopse: Sucesso de público e crítica - foi publicado em mais de vinte países e ganhou o BookerDesonra é considerado o melhor romance de J. M. Coetzee. O livro conta a história de David Lurie, um homem que cai em desgraça. Lurie é um professor de literatura que não sabe como conciliar sua formação humanista, seu desejo amoroso e as normas politicamente corretas da universidade onde dá aula. Mesmo sabendo do perigo, ele tem um caso com uma aluna. Acusado de abuso, é expulso da universidade e viaja para passar uns dias na propriedade rural da filha, Lucy.
Prize, o mais importante prêmio literário da Inglaterra -,
No campo, esse homem atormentado toma contato com a brutalidade e o ressentimento da África do Sul pós-apartheid. Com personagens vivos, com um ritmo narrativo que magnetiza o leitor, Desonra investiga as relações entre as classes, os sexos, as raças, tratando dos choques entre um passado de exploração e um presente de acerto de contas, entre uma cultura humanista e uma situação social explosiva.
Editora: Companhia das Letras | Resenha aqui.

O pacifista, de John Boyne

Capa do livro O pacifista, de John Boyne (Companhia das Letras)Sinopse: Inglaterra, setembro de 1919. Tristan Sadler, vinte e um anos, toma o trem de Londres aO pacifista é uma história de amor e de guerra que se insere na tradição do romance Reparação, de Ian McEwan. Nada é o que parece nesta trama envolvente e vigorosa, que revela as consequências de uma vida tragicamente marcada pelo silêncio. Com uma abordagem original e relevante para o nosso tempo, o autor do best-seller internacional O menino do pijama listrado revisita neste romance o universo da guerra, tendo dessa vez como pano de fundo a Primeira Guerra Mundial. Sensível e engenhoso, John Boyne esmiúça um dos capítulos mais traumáticos da história da humanidade pela perspectiva de dois jovens soldados que lutam, acima de tudo, contra a complexidade de suas emoções.
Norwich para entregar algumas cartas à irmã mais velha de William Bancroft, soldado com quem combateu na Grande Guerra. As cartas, porém, não são o verdadeiro motivo da viagem de Tristan. Ele já não suporta o peso de um segredo que carrega no fundo de sua alma, e está desesperado para se livrar desse fardo, revelando tudo a Marian Bancroft. Resta saber se o antigo combatente terá coragem para tanto. Enquanto reconta os detalhes sombrios de uma guerra que para ele perdeu o sentido, Tristan fala também de sua amizade com Will, desde o campo de treinamento em Aldershot, onde se encontraram pela primeira vez, até o período que passaram juntos nas trincheiras do norte da França. O leitor testemunha o relato de uma relação intensa e complicada, que proporcionou alegrias e descobertas, mas também foi motivo de muita dor e desespero.

4. Para quem gosta de biografias

Biografias são sempre ótimas oportunidades de aprendizado com as experiências de outras pessoas. Eu, particularmente, gosto bastante (principalmente quando eu tenho uma grande diferença de idade com o biografado ou quando ele exerceu alguma das minhas profissões).

Eu sou Malala, de Malala Yousafzai com Christina Lamb

Capa do livro Eu sou Malala, de Malala Yousafzai com Christina Lamb (Companhia das Letras)Sinospe: Quando o Talibã tomou controle do vale do Swat, uma menina levantou a voz. Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou pelo seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012, uma terça-feira, ela quase pagou o preço com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus no qual voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria. Mas a recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no norte do Paquistão para as salas das Nações Unidas em Nova York. Aos dezesseis anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz.
Eu sou Malala é a história de uma família exilada pelo terrorismo global, da luta pelo direito à educação feminina e dos obstáculos à valorização da mulher em uma sociedade que valoriza filhos homens. O livro acompanha a infância da garota no Paquistão, os primeiros anos de vida escolar, as asperezas da vida numa região marcada pela desigualdade social, as belezas do deserto e as trevas da vida sob o Talibã. Escrito em parceria com a jornalista britânica Christina Lamb, este livro é uma janela para a singularidade poderosa de uma menina cheia de brio e talento, mas também para um universo religioso e cultural cheio de interdições e particularidades, muitas vezes incompreendido pelo Ocidente. “Sentar numa cadeira, ler meus livros rodeada pelos meus amigos é um direito meu”, ela diz numa das últimas passagens do livro. A história de Malala renova a crença na capacidade de uma pessoa de inspirar e modificar o mundo.
Editora: Companhia das Letras | Resenha aqui.

Prólogo, Ato, Epílogo, de Fernanda Montenegro com a colaboração com Marta Góes

Capa do livro Prólogo, Ato, Epílogo, de Fernanda Montenegro com a colaboração com Marta Góes (Companhia das Letras)Sinopse: Em Prólogo, ato, epílogo, Fernanda Montenegro narra suas memórias numa prosa afetiva, cheia de inteligência e sensibilidade. Com sua voz inconfundível, ela coloca no papel a saga de seus antepassados lavradores portugueses, do lado paterno, e pastores sardos, do lado materno. Lidas hoje, são histórias que podem "parecer um folhetim. Ou uma tragédia" – gêneros que a atriz domina com maestria. Na turma de jovens que circulavam pela rádio estava Fernando Torres, que ela reencontrou nos ensaios da peça Alegres canções na montanha, quando começaram a namorar. Fernando largou a Panair, Fernanda largou a Berlitz, e o casal se entregou de corpo e alma à arte, paixão de uma vida. Constituíram uma família e realizaram juntos um sem-número de peças, ao lado dos principais nomes do teatro brasileiro. Em páginas de grande emoção, ela relembra os desafios de criar os filhos sobrevivendo como artistas; a busca permanente pela qualidade; a persistência combativa durante os anos de chumbo; a capacidade de constante reinvenção; o padecimento de Fernando; o inesperado sucesso internacional nos anos 1990; a crença na terra que acolheu seus antepassados imigrantes e a devoção por esse país. Fernanda encarna o melhor do Brasil. Não surpreende que alguém que passou a vida memorizando textos tenha desenvolvido notável capacidade de rememorar com sutileza fatos ocorridos décadas atrás. A atriz que há anos encanta multidões em palcos e telas pelo mundo agora se mostra uma contadora de histórias de mão-cheia.
Editora: Companhia das Letras | Resenha aqui.

5. Para quem é ou quer ser escritor

Se você quer se aventurar no mundo da escrita, deixo abaixo duas sugestões muito gostosas de serem lidas e que podem ajudar na empreitada.

Capa do livro Crônicas para jovens: de escrita e vida, de Clarice Lispector (Rocco Jovens Leitores)Crônicas para jovens: de escrita e vida, de Clarice Lispector

Sinopse: Para Clarice Lispector escrita e vida eram as duas faces de um mesmo milagre: a vida cotidiana. Nesta seleta de reflexões sobre a escrita e o ato de escrever, extraídas de suas crônicas, alguns poderão encontrar as chaves para a compreensão das motivações profundas de sua obra. Ao passo que outros encontrarão certamente estímulo para escrever e, assim, adensar a história de suas próprias vidas. De escrita e vida não ilumina apenas a produção literária e a existência de Clarice, lançando também um esclarecedor foco de luz sobre as vidas dos próprios leitores.
Editora: Rocco Jovens Leitores | Resenha aqui.



Devoção, de Patti Smith

Capa do livro Devoção, de Patti Smith (Companhia das Letras)Sinopse: Por que escrevemos? De onde vêm as ideias para uma história? Como funcionam as engrenagens da inspiração e da literatura? Dividido em três partes, Devoção vai refletir sobre questões como essas. O relato se inicia com uma viagem da autora a Paris. Percorrendo as "ruas abstratas de Patrick Modiano" e lendo uma biografia de Simone Weil, Patti Smith começa a esboçar um conto, que vai se materializar no segundo capítulo do livro – a história de uma jovem patinadora, sua jornada em busca de si mesma e de suas origens. Ao fim, Patti volta à cena e narra uma visita à casa de Albert Camus, na cidade de Lourmarin, onde depara com o manuscrito de O primeiro homem, romance inacabado do escritor argelino. "Por que alguém se sente compelido a escrever?", é a pergunta que nos acompanha até o fim. "Para dar voz ao futuro, revisitar a infância. Para dar rédea curta às loucuras e aos horrores da imaginação", Patti diz. E porque, afinal, "não podemos apenas viver".
Editora: Companhia das Letras | Resenha aqui.

6. Para quem gosta de poesia

Poesia é, sem dúvida, um dos meus gêneros literários preferidos. O motivo? É lendo poemas que somos livres para sentir - sem a preocupação estrita de racionalizar tudo. Deixo abaixo duas sugestões: uma escrita pela grande Hilda Hilst; a outra, por mim. :) Espero que gostem.

Do desejo, de Hilda Hilst

capa do livro Do desejo, de Hilda Hilst (Globo - Biblioteca Azul)Sinopse: Lançado originalmente em 1992, Do desejo é uma reunião (não uma antologia, como se tem Do desejo (homônio do título do conjunto) e Da Noite. Concebida pela própria autora, a reunião desses livros oferece, na sua disposição não-cronológica, possibilidades originais de leitura que o tornam um livro único, bem diferente da soma de leituras de cada livro particular incorporado nele. Se fosse possível reduzir sua poesia de questões a uma única, Do desejo postula o dilema de sustentar o gozo de um amante particular e viciário em versos que buscam a eternidade e o absoluto.
divulgado) de sete livros de Hilda Hilst, produzidos num intervalo de seis anos. Dois deles eram então inéditos:
Editora: Globo - Biblioteca Azul | Resenha aqui.


A Intermitência das Coisas: sobre o que há entre o vazio e o caos, de Fernanda Rodrigues

Capa do livro A Intermitência das Coisas: sobre o que há entre o vazio e o caos, de Fernanda Rodrigues (Editora Penalux)Sinopse: A Intermitência das Coisas é um livro que reúne cerca de 45 poesias. Seus versos retratam a movimentação da poeta no espaço contemporâneo, suas mudanças e os aprendizados e, principalmente, como os ciclos que se iniciam e que se findam preenchem o vácuo que habita entre o vazio e o caos.
Editora: Penalux | Saiba mais aqui.






Gostou da lista? Já leu algum desses livros? Vocês têm a sua própria lista de leitura para o carnaval? Me conte tudo nos comentários! Vou adorar saber mais sobre o que vocês estão lendo.

Beijos e queijos :*


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terça-feira, 21 de agosto de 2018

BEDA agosto/2018 #21 — Como foi participar do curso de gramática para preparadores e revisores de textos

terça-feira, agosto 21, 2018 0
Material do curso.
Na semana passada eu participei de um curso de 12 horas na Universidade do Livro da Fundação da Editora Unesp, chamado Gramática para Revisores e Preparadores de Texto, ministrado por Ibraíma Dafonte Tavares. 

Este curso era voltado para pessoas que já tinham o conhecimento mínimo de gramática (sabia o que são classes gramaticais, sujeito, predicado e objetos, por exemplo) e, no meu ponto de vista, foi muito útil para relembrar pontos bem específicos da última flor do Lácio. 

A Ibraíma dividiu os conteúdos em quatro aulas. Sendo que, na primeira delas, abordou como é e em que se diferencia o trabalho do preparador e do revisor de textos dentro de uma editora. Ela também apresentou o caminho editorial de um livro traduzido, de um nacional e de um livro técnico e qual é o nível de interferência em cada um desses projetos. Por ter muita experiência na área, a cada hora surgia um exemplo — muitas vezes muito bem-humorado — de tudo o que pode dar errado e o porquê de adotar determinada conduta.

Foram abordados pontos como coesão e coerência, colocação pronominal, regência, concordância verbal, uso do artigo e uso da vírgula. Além de termos a oportunidade de testarmos os nossos conhecimentos com uma extensa lista de exercícios.

Esta experiência foi muito enriquecedora, e eu súper (sim, o certo é com acento!😂) recomendo!

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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

BEDA agosto/2018 #10 — Pequenas Reflexões sobre a Criatividade (Uma dicotomia entre o ser e o se declarar criativo)

sexta-feira, agosto 10, 2018 0
Você é criativo publicamente ou só às escondidas?
Sempre que eu digo que sou professora e escritora, as pessoas tendem a responder com entusiasmo: “te acho muito criativa!”. Confesso que a admiração exacerbada me faz rir por dentro, de forma muito zombeteira. Eu, criativa? Isso é motivo de piada ou de terapia.

O fato é que a recorrência neste assunto me fez querer entender o que as pessoas veem que eu não vejo, o que as levam a me ver como um ser criativo e a elas não. Recorri, então, ao meu método empírico-preferido de estudo: a observação pessoal-livresca.

Comecei uma saga de leituras, descobertas e ressignificação. Descobri que criatividade não é genialidade, que bloqueio criativo é algo relativo, que o ser criativo é passível de ser confundido com organização para a execução de múltiplas atividades e que – aí vem a constatação mais dolorida de todas – a escola mata a criatividade. Mas vamos por partes.

A palavra criatividade tem a mesma origem latina da palavra criança. Pode parecer curioso, mas vejo que talvez aí esteja a dicotomia de amor e ódio entre o ser criativo e o se declarar criativo, entre o tal do pensar fora da caixa e seguir todas as regras. Se olharmos bem para o estereótipo do artista (há alguém mais criativo que um artista?) e analisarmos de perto o que as pessoas definem comumente como o que é ser criança, as mesmas descrições vêm à tona: ambos veem o mundo com olhar de descoberta, quebram as regras em muitos momentos e, sobretudo, procuram o prazer e a diversão. Um google rápido nas imagens também demonstra o que as pessoas visualizam sobre os dois termos: muitas cores e sorrisos caminhando juntos.

Embora eu não seja psicóloga – e estas palavras sejam apenas algumas conjecturas minhas – pressinto que a ideia da felicidade livre, sem qualquer tipo de limite, é associada em nosso inconsciente coletivo tanto às crianças quanto à criatividade. Quem cria é livre e, assim como a criança, precisa de um “norte” para ser levado a sério.

Quando as habilidades de vida passaram a ganhar tanto espaço e importância quanto a carreira acadêmica na busca por um lugar ao sol, a procura pelo ser criativo virou um dos critérios de seleção natural no mercado de trabalho. Por consequência, isso acabou se estendendo ao ambiente escolar. Passou-se a exigir que os professores preparassem desde cedo pessoas que “pensem fora da caixa”. Os contratantes passaram a trazer cada vez mais este tema à tona, de uma maneira a princípio contagiante e, depois, exaustiva. Todo esse interesse e a necessidade crescente me fazem pensar: será mesmo que essa pressão vira prática?

Aqui passo para o outro lado da moeda: os adultos fugindo do ser criança. Se nos voltarmos para as expressões populares, veremos o medo, o receio e – por que não dizer – a vergonha do lado infantil que todos carregam dentro de si (em maior ou menor grau). A língua faz um registo claro disso quando alguém usa as palavras ou expressões “criancice”, “Fulano foi infantil”, “Para que tanta infantilidade?!”, de forma pejorativa. Como alguém pode querer mostrar o lado livre, quando se corre o risco de ser tachado como imaturo?

Seres criativos normalmente quebram regras. Não porque eles sejam desertores birrentos, mas porque carregam dentro de si o gosto pela experimentação. É como se eles nunca desligassem o “e se...” e se jogassem em uma empreitada investigativa. É justamente por causa desse “e se...” que a humanidade avançou até 2017 sem depender de abrigos em cavernas e caça em meio da floresta. É o “e se...” que nos move enquanto espécie.

Ver o mundo com os outros olhos – outro clichê relativo a este assunto – fez com que pessoas descobrissem como voar, se transportar, conservar alimentos, combinar novas palavras, ângulos, texturas, sabores, ferramentas, elementos, ideias. Ser criativo relaciona-se com o que é amplo e que é o mínimo, com as tentativas e os erros de quem não quis e nem pretende fazer tudo sempre do mesmo jeito.
A escola – e o trabalho, por consequência – muitas vezes nos leva a agir e pensar da mesma forma todos os dias. A rotina faz isso com as pessoas. Mais uma vez lembro que não escrevo estas palavras com o respaldo do embasamento científico, ainda assim, o meu olhar – criativo? – me faz perceber o abismo entre a formalidade do dia a dia regrado no colégio e todas as minhas vivências errantes no campo literário.

Como professora, a rotina faz parte do meu trabalho – o que inclui a batalha contra o relógio. Como abordar todos os conteúdos previstos, dentro do tempo escasso e ainda deixar que os meus alunos tenham momentos de devaneios? Como permitir que eles testem diferentes hipóteses em apenas alguns minutos? Debates? Criações? Experiências. Uma enxurrada de possibilidades prazerosas – como as brincadeiras ou, usando um termo pedagógico, de aprendizados de forma lúdicas – que fazem as crianças saírem da sala, da rotina, do controle, da tal caixa. Há uma forma prática de combinar tudo isso sem prejuízo para o aprendizado? A imaginação ganha asas e – dependo do contexto e da forma que isso se dá – o professor ganha estresse.

Saí do curso de licenciatura com milhões de pesquisas. Queria ser a professora revolucionária que chegaria mudando a escola pelo avesso. Foram poucos os projetos que, efetivamente, saíram do papel. Ainda assim, a quantidade desses momentos foi maior do que os praticados por alguns dos meus colegas... Tempo. Tudo demanda tempo, apoio e estrutura.

A maior parte do que ficou no campo das ideias pedagógicas revolucionárias morreu por burocracia, pela falta de tempo para o conteúdo previsto (que é tido como “realmente” importante – veja que este conceito de importância é bem relativo) e pela preocupação com a minha capacidade de conseguir cuidar de tantas crianças tão pequenas ao mesmo tempo. Definitivamente, ter turmas numerosas também é outro fator que mata a criatividade na escola. Como supervisionar um grupo de 30, 40 alunos, todos pequenos? É uma responsabilidade grande, e sempre há aquele educando que, literalmente, sobe pelas paredes.

A escola mata o ímpeto de ser criativo não só dos alunos. Ela mata também a criatividade dos professores. A vida adulta por sua vez oculta o desejo genuíno de voltar a ser criança – o medo de ser ingênuo, infantil, insolente (em alguns momentos) se instaura em todos os lugares. Uma pena.

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sábado, 4 de agosto de 2018

BEDA agosto/2018 #4 — 4 coisas que não te contam sobre o curso de Letras

sábado, agosto 04, 2018 6
Imagem: HoliHo.

Olá, pessoal!
As pessoas sempre me perguntam como é a graduação em Letras, se vale a pena ou não, se é só para quem quer ser professor, se tem muita teoria e, principalmente, se é um curso indicado para quem quer escrever. Com a postagem de hoje, pretendo matar um pouco da curiosidade das pessoas, em relação a tudo isso.

1. Há vários cursos de Letras. Escolha o que for ideal aos seus propósitos.

Dependendo da Universidade há três modalidades do curso de Letras: o bacharelado, a licenciatura e o bacharelado com habilitação em tradução e interpretação. Dentro desses três modelos, o aluno pode escolher apenas uma língua (por exemplo, Língua Portuguesa), duas línguas (as mais comuns são  (Português/Inglês e Português/Espanhol, mas nas universidades públicas a lista das estrangeiras é longa) ou uma língua e linguística.

As áreas de atuação do profissional formado em Letras geralmente são:
  • no caso dos bacharéis: redação, revisão, preparação, tradução e versão de textos, crítica literária e ensino em não-formal (como em escolas de idiomas).
  • no caso dos licenciados: tudo que os bacharéis fazem e a possibilidade da docência no ensino formal (Ensino Fundamental anos finais — de 6° a 9° anos — e Ensino Médio).
  • no caso dos que têm a habilitação em tradução e interpretação:  tudo o que os bacharéis fazem, mais a interpretação (em eventos, por exemplo) e legendagem.

É importante ter muita clareza de qual das três opções seguir; porque, apesar de próximas, elas têm pontos distintos. No meu caso, cursei o bacharelado e depois a licenciatura. Portanto, não fiz as disciplinas relacionadas à tradução, interpretação e legendagem. Já meus colegas que optaram pela habilitação em tradução e interpretação tiveram uma carga horária menor das disciplinas de literatura e não cursaram as disciplinas relacionadas à docência.

É importante também conversar com as pessoas que cursam Letras na Universidade que você quer estudar. Eu escolhi a minha quando soube que teria a chance de escrever um livro durante o curso (acabei escrevendo dois: O cadarço da Lilica e o Getting to know the zoo — ambos de literatura infantil). Não conheço pessoas que cursaram Letras em outras faculdades que tenham passado por essa experiência. Se informar sobre as nuances que cada universidade traz para o curso é fundamental. Sendo assim, compare  grades curriculares antes de pagar a inscrição para o vestibular.

2. Não é um curso fácil. Se você não gosta de ler, esse curso não é para você.

Muita gente resolve cursar Letras, porque acha que será um curso fácil. Ledo engano. Se você escolher uma boa universidade, terá uma grade curricular com muitas leituras densas, difíceis e concomitantes. Logo, é imprescindível gostar de ler. Também é interessante se interessar por áreas de humanas que conversam com o curso, a exemplo da psicologia, da história da arte, da sociologia e da História, propriamente dita. Para quem cursa a licenciatura, há uma aproximação com o Direito, nas disciplinas ligadas à legislação educacional.
Em resumo: é um curso com uma carga teórica muito alta, que fala sobre assuntos muito intensos.

3. Cursar Letras apenas para aprender uma língua estrangeira.

Eu entrei no curso sabendo inglês, então não sofri. Entretanto, vi colegas de turma tendo que correr muito atrás, para conseguir atingir a média nas disciplinas relacionadas à Língua Inglesa. Se você quiser ter uma graduação minimamente tranquila, sugiro que entre sabendo ao menos um pouco (nível intermediário, talvez) da língua estrangeira que quer cursar — ou que opte por Língua Portuguesa (/ Linguística).

Dá para aprender do zero? Até dá. Mas se você pode facilitar o processo, por  não?

4. As graduações em Letras não incentivam a produção literária.

É uma pena, mas os cursos de Letras no Brasil incentivam mais a análise e crítica literária do que a sua produção em si. Não será na graduação que você escreverá muito. Entretanto, entender os mecanismos tanto de análise, quanto de crítica literária apoiam muito se você quiser se tornar um escritor. Os conhecimentos adquiridos durante a graduação podem ajudar na sua definição sobre o estilo que quer seguir, a fugir de erros que a maioria dos escritores principiantes cometem e, sobretudo, dar bagarem literária.
Costumo dizer que a graduação em Letras prepara o terreno para o escritor escrever boas histórias depois de findado o curso.

Acho que é isso. Se ainda houver dúvidas, deixe nos comentários. Juro que ajudo no que for possível!

Beijos, queijos e até amanhã!

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terça-feira, 5 de setembro de 2017

O comportamento desafiador das crianças e a Disciplina Positiva

terça-feira, setembro 05, 2017 4
Como ser legal e ensinar regras? Como não ser autoritário e ser gentil?
Imagem por Pexels, sob licença creative commons.

Olá, pessoal!
Raramente eu falo de Educação por aqui, mas tenho notado um número crescente de amigos que vêm me perguntando como eu lido com os comportamentos desafiadores dos meus alunos em sala de aula - principalmente das crianças pequenas. Então, resolvi contar um pouco de como eu faço isso.

Em 2013 eu migrei oficialmente dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio para a educação infantil e anos iniciais do fundamental. Foi uma época de incertezas e inseguranças, uma vez que a minha formação acadêmica era voltada para o público mais velho. Como ensinar crianças tão pequenas era a dúvida que pairava na minha cabeça.

Nessas horas a gente segue o conselho do tio Sherlie.

Entre milhões de pesquisas, acabei parando no curso de extensão universitária de Formação de Professores de Inglês para Crianças e Adolescentes, da professora Bete P. Rodrigues. Foi lá que, entre outras coisas, conheci a Disciplina Positiva.

Usando as palavras da professora Bete, a Disciplina Positiva é

é uma abordagem sócio emocional que ajuda pais e educadores a desenvolver nas crianças e adolescentes habilidades de vida, tais como: autodisciplina, responsabilidade, cooperação, habilidades para resolver problemas.

O que eu mais gosto nessa abordagem é que ela nos ensina a não ser firme demais, nem gentil demais. Além disso, ela nos leva a entender o outro de uma forma extraordinária. Com ela, deixei de focar só na indisciplina e passei a tentar compreender as razões que levam os meus alunos a serem indisciplinados. Entendendo as razões, consigo sanar o problema de forma efetiva (a longo prazo), ao invés de apagar o incêndio apenas. 

Fonte: Bete P. Rodrigues.

A minha identificação com a abordagem da Disciplina Positiva aconteceu porque ela é baseada em 5 critérios básicos que são muito coerentes com o que eu acredito que seja ideal na educação de uma criança:

1. Conexão com a criança (para desenvolver nelas um senso de aceitação e importância);
2. Respeito mútuo (é gentil e firme ao mesmo tempo);
3. Efetiva em longo prazo (considerar os efeitos da punição);
4. Ensina habilidades de vida valiosas para a formação de um bom caráter (cooperação, responsabilidade, autodisciplina, resolução de problemas entre outras);
5. Desenvolve autonomia porque a criança reconhece seu poder pessoal.

O resultado disso tudo é uma relação muito mais honesta e sincera entre mim e as crianças e um processo de aprendizagem em que todos se sentem encorajados a serem pró-ativos e a perceberem nos erros a oportunidade real de novas formas de ver o mundo.

Para quem quiser saber mais sobre o assunto, ficam as recomendações:

Livros:


  • Disciplina Positiva.
    • Autora: Jane Nelsen
    • Tradução: Bete P. Rodrigues e Samantha Schreier
    • Editora: Manole
  • Disciplina Positiva em Sala de Aula.
    • Autores: Jane Nelsen, Lynn Lott, H. Stephen Glenn
    • Tradução: Bete P. Rodrigues e Fernanda Lee
    • Editora: Manole

Cursos:

A professora Bete P. Rodrigues ministra cursos, palestras e workshops sobre o tema. Para saber mais, entre em contato com ela pelo site ou pela página do facebook. Além da formação de professores, já fiz alguns desses cursos sobre a Disciplina Positiva e recomendo. 😉

Beijos e queijos :*
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

{Resenha} A Terra dos Meninos Pelados, de Graciliano Ramos

terça-feira, fevereiro 21, 2017 10
Breve análise do conto de Graciliano Ramos.

Em 1939, Graciliano Ramos publicou A Terra dos Meninos Pelados, livro que inovou a literatura infantil e juvenil. Com sua linguagem baseada nos novos valores literários, o texto apresenta o predomínio do mundo fantástico, onde nada é impossível.

A narrativa mostra inovação desde o seu princípio, quando apresenta Raimundo: um protagonista descrito como um menino diferente – tem o olho direito preto, o esquerdo azul e a cabeça pelada – que é chacoteado pelas outras crianças. Ou seja, o autor principia o texto mostrando uma personagem que não pertence a um grupo social dominante e que sofre da exclusão sobre a qual é vítima.

Para aproximar o leitor do texto, Graciliano constrói a narrativa utilizando linguagem coloquial, como podemos ver no trecho em que os garotos zombam de Raimundo: “Como botaram os olhos de duas criaturas numa cara?”

Ao trabalhar o universo imaginário, o autor cria personagens antropomorfizadas. Em Tatipirun – a terra onde todos têm os olhos de duas cores e a cabeça pelada – os carros falam, riem, piscam e voam (“Mas o automóvel piscou o olho preto e animou-o com um riso grosso de buzina: - Deixa de besteira, Raimundo. Em Taipirun, nós não atropelamos ninguém”.), a “laranjeira que estava no meio da estrada afastou-se para deixar a passagem livre” e depois conversou com o menino. Além destes exemplos, pode-se citar ainda: o troco, a aranha (representante da indústria têxtil), a cigarra (que representa os artistas), a rã, as cobras corais e o vaga-lume – todos eles falantes.

Ainda para compor este mundo de fantasia, Graciliano Ramos trabalha a linguagem fazendo uso de neologismos. Nomes como o do lugar onde todos são iguais ao protagonista (Tatipirun), o sítio de onde veio a personagem principal (Cambacará) a serra que Raimundo atravessa para chegar à terra dos meninos pelados (serra de Taquaritu), os personagens humanos (Caralâmpia, Pirenco, Talima, Sira, Pirundo) e palavras que aparecem ao longo do texto - como “princesência” -, foram criadas para reforçar a magia e a perfeição vividas na terra de Tatipirun. Além deste recurso, o autor emprega ainda um estrangeirismo dito pela rã (“Parece até um meeting, disse a rã que pulou na beira do rio”.) e abusa das metáforas, como pode-se constatar no trecho a seguir: “ – E boa, interrompeu um menino sardento. Meio desparafusada, mas um coraçãozinho de açúcar. Aquela é Sira”, criando uma sensação de que tudo o que acontece no principado é real, pois cada ser tem sentimentos, nomes e pensamentos próprios.

O autor sabia da importância fundamental que a fantasia tem na vida das crianças. Ao criar a terra dos meninos pelados, Graciliano cria um local democrático, totalmente inversa a Cambacará – lugar de origem do Raimundo – onde há injustiças. Ao mesmo tempo, Tatipirun dá a força necessária ao pequeno menino pelado retornar ao seu lar se aceitando como ele é e não como os outros querem que ele seja. Por meio deste universo mágico os pequenos leitores podem ter como exemplo a personagem principal para enfrentar problemas do dia-a-dia (como o preconceito por ser gordinho, por usar óculos, por ser muito mais alto ou muito mais baixo que as outras crianças na escola, por exemplo).

Por fim, deve-se ressaltar que o texto apresenta uma intertextualidade com outra narrativa infantil clássica: Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll. Ambas as obras retratam de forma surreal a aventura de suas personagens principais em uma terra de fantasia, em um mundo encantado.


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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Aquele da síndrome da escritora de livros em plena crise, sem textos literários para o blog

sábado, fevereiro 18, 2017 7
Imagem: jarmoluk

Um dos meus maiores medos quando me inscrevi na pós-graduação era de me tornar escritora "de verdade" e deixar o blog de lado. Ainda que eu saiba que escritor é aquele que escreve, sei que há uma super valorização do autor de livros em detrimento do autor da web. A experiência me mostrou algumas amigas minhas publicando livros e deixando os seus blogs de lado (para escrever novos livros e ter novas obras publicadas em papel) de forma gradativa e um tanto natural. Por isso a inscrição na pós me acendeu o sinal de alerta. Se de um lado pensar em abandonar o meu blog é algo que me aterroriza, por outro, sempre soube do meu tempo escasso de leitura, escrita e trabalho (que ainda preciso dividir com a minha vida pessoal e social). Agora, aqui estou eu, com as minhas anteninhas de vinil detectando a presença do inimigo.

Para quem não sabe, meu curso tem o nome pomposo de Formação de Escritores (Núcleo Ficção) e é dividido em dois anos. No primeiro, estudamos e refletimos sobre ferramentos, modos e exemplos de como escrever ficção (e, às vezes, não-ficção e poesia, dependendo da disciplina escolhida como optativa), produzimos e debatemos sobre nossos próprios textos. No segundo, tudo isso acontece de novo - em outras matérias, claro - e temos que trabalhar no nosso projeto de conclusão de curso, um processo que também é conhecido como escrever o nosso próprio livro.

Quem me acompanha aqui sabe que eu amo escrever textos literários e compartilhar no blog. Este é o meu espaço oficial de comunicação com todos que me leem, ainda que eu use as redes sociais e o wattpad. Entretanto, como vocês puderam notar ao longo do mês de janeiro, produzi conteúdos não literários. A minha literatura - motivo de eu ter começado este blog há mais de dez anos - anda rareando.

Explico. Quando fiz a minha inscrição na pós, meu maior objetivo era escrever um romance. Sim, não precisava ser algo grandioso como os do Machado ou os da Clarice, mas queria escrever um romance. Queria desvendar os mistérios de planejar uma história que durasse mais de uma meia dúzia de páginas. Sabia que a minha experiência de blogueira já tinha me habituado às crônicas e às histórias curtas e desejava me forçar a algo mais épico na minha vida. 

Inscrições feitas. Aulas assistidas. Mudanças de planos. Primeiro: de alguma maneira não me identifico com a produção que anda popular no mercado editorial. Segundo: eu não consigo sentar e colocar num mapa/planilha/whatever todo o enredo e biografia dos meus personagens para depois escrever uma história. Sou daquelas que uma frase puxa a outra. E, embora isso não seja errado, torna as coisas um pouco mais complicadas (como entregar um planejamento de TCC se você não consegue planejar?). Terceiro: as três disciplinas que eu mais gostei de ter cursado foram Crônica, Poesia para Prosadores e Literatura Infantil e Juvenil. Ou seja, as três em que tive que produzir textos curtos. Quarto: quando a minha irmão ficou doente, acabei perdendo mais aulas do que queria, perdi o ritmo da vida e os rumos dos projetos literários. Em suma, meus planos de escrever um romance foram - ao menos por enquanto - por água abaixo.

Acabei entregando um projeto para a elaboração de crônicas inéditas. A princípio a ideia é escrever cinquenta delas. E isso me trouxe outras duas crises: tudo o que escrevia de literário para o blog agora está sendo destinado ao livro (até aí, tudo bem, vocês poderão ler tudo no futuro, basta terem paciência). E tudo o que escrevo está ruim (bem ruim). Acho que perdi o fôlego (e talvez, a vontade, para ser bem sincera), de fazer um projeto como esse. 

Fico me perguntando qual é a minha missão, afinal, e se isso dará certo. Queria - ou será que no fundo eu realmente quero? - desistir de tudo e viver um ano sabático. Mas como desistência nunca foi o meu forte e também me falta grana para um tempo só pensando na vida, continuo aos trancos e barrancos com os meus textos cheios de clichês (já sei que vou ouvir muito dessa crítica nas aulas, mas ainda não encontrei um modo original de fugir deles). Vamos ver até onde aguento.

Prometo que tentarei superar essa fase do escritor de livros em plena crise e que vou fazer o possível para voltar aqui em dezembro e dizer que sim, meu livro está pronto e lindo. Enquanto isso não acontece, o blog segue com as suas colunas e com textos mais pessoais - como este aqui.

Espero que a fonte literária não se esgote.

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terça-feira, 1 de março de 2016

Aquele da vontade de escrever (ou sobre os meus sonhos)

terça-feira, março 01, 2016 18

Hoje bateu aquela vontade de escrever sem pensar em nada. Sabe aquele lance de deixar o pensamento fluir no papel, sem ficar elaborando muito? Bem isso. Coloquei o meu lindo do Jamie Cullum para tocar e, cá estou eu, digitando freneticamente. 

A vida anda meio confusa deste lado da tela. Tenho me dedicado demais aos meus sonhos e menos a mim. Eu sei, paradoxal isso, afinal, os sonhos fazem parte de mim, não?

Meu primeiro grande sonho foi me tornar professora. Decidi quando tinha entre cinco e seis anos de idade e, desde então, corri atrás disso. Formei-me aos 26 anos, depois de muito esforço para conseguir dar conta de trabalhar, juntar dinheiro e estudar em um curso de uma universidade que valesse à pena (mesmo que isso significasse atravessar a cidade em transporte público por seis dias na semana, durante cinco anos...).

Ao fazer estágio, sempre ouvia das professoras um "você tem certeza?". Mas é aquilo, quem se escolhe ser professor atualmente, escolhe por ideal, por querer mudar o mundo de alguma maneira. Sim, tinha certeza. Ainda a tenho, embora - cinco anos depois - minha certeza carregue uma carga do peso, do cansaço e da indiferença. 

Você acha que o pior é a indiferença das pessoas quando você diz que é professor. É um lance de sorrisinho amarelo, seguido de um "admiro o seu trabalho" que soa mais como um "você é doido por escolher uma profissão que não dá dinheiro". Pois é, tudo se resume a isto: cifrões.... Então, você começa a enfrentar a realidade da sala de aula, e vê que há situações piores do que a família e os amigos te achando doido. São situações que muitas vezes vem seguida do "faça o que eu quero, porque meus pais pagam e me apoiam no que eu fizer" (sim, cifrões, mais uma vez) - às vezes o discurso vem implícito, às vezes, mais claro como água. E vale ressaltar que esta cultura, ao contrário do que muita gente pensa, não começa na adolescência, mas sim na infância, e segue ecoando por toda a vida. O que soa engraçado - se é que esta é a melhor palavra - e que isso vem justamente das crianças cujos pais dizem um "eu não sei o que fazer com o meu filho". Comportamento inadequado é reflexo de quê? Acertou quem disse "educação inadequada".

Eu sei, posso estar sendo cruel em demasia por querer que os pais acertem sempre. Todos nós somos humanos e, portanto, falhos, não? O problema é que esta empatia que se espera dos professores é uma via de mão única: os educadores tentam relevar as falhas dos pais; contudo, os pais esperam que os professores sejam além de docentes, psicólogos, babás, enfermeiros, assistentes sociais, atores, cantores, especialistas em toda a sorte de entretenimento (os alunos não podem sentir tédio) e ainda façam tudo à maneira de cada família; porque, afinal, estudamos Letras, Pedagogia, Matemática, Educação Física e qualquer outra licenciatura para fazermos como querem os pais engenheiros, advogados, médicos, contadores, vendedores, que não têm o preparo educacional que temos e que não estão nem disposto a ouvir por quais razões tomamos atitudes X e não Y... Diploma e anos de estudo para quê, mesmo? Se sou cruel é porque, sim, ter empatia e não senti-la de volta cansa. E muito.

A falta de apoio dos pais e a falta de respeito por parte dos alunos desgasta muito qualquer ser humano. Aliás, talvez seja justamente este o problema: as pessoas se esquecem que professores são, antes de tudo, seres humanos. Nós amamos, odiamos, sentimos raiva, fome, sede, alegria e tristeza. E se somos como qualquer um, por que a sociedade insiste em nos ver como seres impassíveis do sentir? Sim, eu me magoo com a falta de apoio dos pais. Sim, eu me entristeço quando meus alunos não fazem a tarefa de casa. Sim, eu dou o meu melhor e quero ver até o aluno com a maior dificuldade aprendendo. Dou meu coração, meu intelecto, minha vida em sala. O mínimo que espero de volta é um pouco de respeito. Não precisa me amar, só me respeitar como eu procuro fazer com todos. Será que é tão difícil perceber que eu sinto o meu sonho e que não consigo realizá-lo sozinho? Não há professor sem aluno. Não há bom aprendizado sem apoio dos responsáveis. Sinto o peso e doem-me as costas.

É claro que tudo tem o seu lado bom da moeda. Ver alunos me adotando como "Mom" (porque, muitas vezes, os pais trabalham tanto que não sabem minimamente quem são seus filhos) é uma honra para mim. E ouvir um "I love you" ou receber um retrato meu... Ouvir aquele "teaaaaaaaacheeeeeeeeeeeeeer", seguido de um abraço de urso e ver o brilho nos olhos de quem aprende. É por isso que vale a pena. O mundo inteiro é muito grande para eu conseguir mudar sozinha, mas mudar alguns mundinhos já me faz querer continuar neste caminho, mesmo que ele tenha muitas pedras em si.

O meu segundo grande sonho tornou-se mais claro nos últimos anos: a escrita. A prova disso é a recorrência deste tema por aqui. Por que escrevo e a minha relação com a escrita ganhou três posts (este, este e este aqui) no último ano e foi por isso que resolvi tentar aprender mais com quem é escritor de carreira reconhecida. No ano passado, comprei alguns livros sobre escrita e criatividade - alguns que ainda não li, como o do Umberto Eco, e alguns que estou lendo aos poucos, como o do James Wood - numa tentativa de amadurecer o meu processo e tornar os textos melhores - inclusive para o blog.

Foi assim que dei um google em "cursos para escritores" e encontrei uma reportagem sobre aquela que, sem dúvida, seria a pós-graduação da minha vida. Formação de Escritores de Ficção. Este foi o nome que fez os meus olhos brilharem e o meu coração sambar dentro do peito. 

O processo de inscrição por si só já exigia coragem. Além da ficha de inscrição, o envio de textos literários para a análise. Enviei só para saber o que aconteceria. Honestamente, estava mais preparada para o não do que para o sim. E qual foi a minha surpresa quando recebi o e-mail dizendo que havia sido aprovada? Estupefata, foi assim que eu fiquei. 

O segundo ato de coragem foi efetuar, de fato, a matrícula. Confesso que perdi a primeira semana de aula por "estar pensando" se iria ou não. Os amigos todos me incentivaram ao ponto de dizer um "ou você vai lá, ou I'm gonna kick your ass" (sutileza de elefante, que me fez ir com medo mesmo). 

É claro que tremi na base. Colegas de sala com experiências das mais diversas áreas de publicação (jornais, revistas, editoras), com anos de estrada, leituras e maturidade. E eu, ali no meio. Eu sei, quase dez anos de blog e um #75 no wattpad não são dados ruins, mas, mesmo assim... Pensei em desistir. Meus amigos - sempre eles! - não deixaram. Segui.

A primeira tarefa compartilhada era escrever sobre a leitura e a escrita. Passei um certo tempo à frente do computador digitando sem parar, até que fiz um texto que considerei bom. Publiquei aqui no blog e fui para a aula. Lá, ouvi três textos de colegas diferentes. O primeiro foi arrebatador. O segundo, visceral. O terceiro, extremamente criativo. Senti-me um bebê tentando falar as primeiras palavras diante de um gênio da oratória. É claro que resolvi mudar tudo. Na prática, não mexi tanto quanto pensei que seria, mas mudei a estrutura de prosa para carta. Na aula de ontem, entreguei uma cópia para cada colega. Com as faces coradas de vergonha, mas entreguei. É incrível como é muito mais fácil publicar aqui do que ver pessoas que são desconhecidas - ou pouco conhecidas - recebendo o meu texto. Aqui, mais um paradoxo, uma vez que, eu não conheço todas as pessoas que me leem no blog...

O dia hoje foi puxado. A manhã foi conturbada com alunos inquietos. A parte da tarde também não foi simples: crianças que normalmente são calmas, estavam fora do eixo. Atendimento individual com uma mãe. Reunião extraordinária com pais para ser planejada e claro, aquela turma em que ninguém faz lição de casa... Foi em meio a tudo isso que recebi três e-mails com comentários do meu texto. Meu coração sambou novamente. O que viria? Esperava a educação, mas o carinho foi tão gostoso e tão querido e surpreendente que, honestamente, ainda não encontrei palavras para agradecer. Leitura e escrita salvando o meu dia, mais uma vez.

Levar esta pós não será fácil. Ir para uma aula em que discutimos Clarice Lispector, Walter Benjamin, Dostoiévski, Freud, James Joyce, Virginia Woolf, depois de dar 10 aulas e - literalmente - atravessar a cidade, é um tanto exaustivo. Junta o cansaço psicológico da profissão ao cansaço físico. Junta o desejo de aprender ao desânimo de correr contra o tempo. Ler e reler várias vezes o mesmo texto só porque dormi pouco e trabalhei demais também não estava no script. De qualquer forma, sou cara de pau e pretendo vencer mais este desafio. 

Finais de semana, qualquer tempinho livre. Tudo tem girado em torno de leituras e escritas, com frases que giram em torno de "isso é para segunda" e "isso é para quinta". Lazer tem ficado um pouco de lado, leituras que não fazem parte da bibliografia também - ganhei dois livros de literatura infantil e comprei a biografia da Clarice Lispector, fora as duas leituras de cabeceira, que estão estacionadas... Escrever no blog também será um processo de encontrar um espaço numa agenda quase impossível (mas eu não vou abandonar o meu divã!).

Tenho me dedicado demais aos meus sonhos e menos a mim. Espero que os planos sejam bem-sucedidos ao final, mesmo que eu tenha que ouvir o famoso "escritor? Mas isso vai te levar aonde?". 

Dreams come true, they do.
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domingo, 21 de fevereiro de 2016

{Vamos falar sobre escrita?} Meu histórico com a leitura e com a escrita – um relato cronológico

domingo, fevereiro 21, 2016 0
*Nota: comecei a fazer uma pós-graduação chamada "Formação de Escritores - Ficção". O texto abaixo foi solicitado por um dos professores. Resolvi publicá-lo nesta coluna, porque acredito que entender a sua própria relação com a literatura faz parte do processo de ser um bom escritor. Fiquem à vontade para ler e compartilhar nos comentários a sua relação com a leitura e com a escrita.

Imagem por Pauline Mak, sob licença creative commons.


Divã. Talvez, se tivesse que definir como me relaciono com a literatura de uma forma geral, “divã” seja a palavra apropriada. Que meus amigos psicólogos e psicanalistas me perdoem desde já. Não estou desmerecendo o trabalho deles, de forma alguma, mas tenho certeza de que, se fosse fazer terapia, a literatura os ajudaria muito a me desvendar. É lendo que me entendo, é escrevendo que me reorganizo. A literatura definitivamente é o meu divã.

Não sei ao certo quando que penetrei surdamente no reino das palavras. Em casa, acreditamos que este chamado tem herança materna. Meu avô tudo escrevia, minha mãe tudo escreve, eu tudo escrevo – porque se não o fizer, não sobrevivo. Simples assim. Identificar minha relação com a escrita é um pouco mais fácil, uma vez que os momentos de escrita estão mais delimitados na minha memória do que os de leitura.

Ter avós e tios que moravam a mais 2610 km de distância no início dos anos 90 foi, para mim, sinônimo de ver minha mãe se deleitar com uma caneta azul e um maço de papel almaço. Suas cartas, sempre tão detalhadas – em uma época em que ligações telefônicas eram caríssimas –, eram conhecidas por todos pelo apelido carinhoso de “jornal”. Ver minha mãe escrevendo, despertava em mim o desejo de escrever também. Àquela época, mal conhecia as letras, mas já queria rabiscar.

De fato, a tradição das cartas prosseguiu, seguida da troca de cartões de natal. O início da adolescência foi recheado delas, mesmo tendo como destinatários os amigos de todos os dias. As leituras, por sua vez, eram esparsas e excêntricas: desde aquela época me descobri chata com o gostar do que todo mundo gosta. Até hoje me pergunto se deveria ter trocado a poesia de Cecília Meireles pela série do Pedro Bandeira que todo mundo leu, menos eu.

É claro que a literatura foi um combustível que alimentou o meu amor pelas Letras. E é claro que, como todo aluno de escola pública, tive o meu exemplo de como não ensinar Língua Portuguesa. Na sétima série fui obrigada a ler uma adaptação de O Guarani, feita pelo Moacyr Scliar, que me bloqueou para qualquer outro livro dele. Culpa da professora que queria que todos nós soubéssemos o nome do sanduíche da lanchonete da história...

Foi no Ensino Médio que eu realmente notei que eu precisava da Literatura como forma de sobrevivência. Foi neste momento da minha vida em que ler e escrever deixaram de ser meras tarefas do cotidiano para se configurarem em alimento de alma. Quando se é adolescente a vida pode ser um tanto complicada. Quando se muda de escola e se vê todos os seus amigos mudando para tentarem ser populares, tudo fica muito confuso. O fato é que eu não me adaptei. Na escola nova, meus amigos ganharam muitos novos amigos – eu, apenas alguns poucos – e, por mais que fosse uma boa aluna, tudo era motivo de sofrimento e isolamento... Até eu descobrir como usar a biblioteca!

Àquela época, não estava escrevendo, mas todos os dias pegava livros emprestados na biblioteca, a ponto de fazer amizade com a bibliotecária e chamar a atenção das professoras de Língua Portuguesa. Segundo as anotações da minha agenda daquele ano – a única antiga que guardo até hoje – foram 256 livros lidos em um ano. Às vezes penso que nunca vou conseguir repetir este feito! Aquilo que os meus amigos achavam estranho e que era motivo de orgulho dos meus pais, na verdade, era uma tentativa de aplacar um pouco da dor que a falta de adaptação à escola nova me trazia – os livros eram uma rota de fuga contra a depressão que eu sentia. De certa forma, fico feliz por ter escolhido este caminho. Foi nesta época em que li alguns dos cânones, que me enveredei pela literatura do leste europeu, que provei dos mestres da literatura latina. Os livros eram o meu refúgio, a forma que eu encontrei de estar em paz comigo mesma. Além disso, dei muita sorte de ter professoras incríveis que me incentivavam a cada dia não apenas na minha paixão pela leitura e pela escrita, mas também pela docência.

Janeiro de 2006. Esta foi a data em que escrevi o meu primeiro poema. Com muita vergonha, mostrei para uma amiga de infância – que anos mais tarde se formaria em Letras comigo – e ouvi de volta um “por que você não faz um blog e o publica?”. Assim comecei na internet. Assim sigo até hoje. Em junho, o Algumas Observações fará dez anos e eu me sinto muito orgulhosa por poder ver o quanto eu evoluí seja como leitora, seja como escritora. Ler as postagens antigas e ver o quanto eu amadureci é algo bem bacana.

No curso de Letras, as minhas maiores notas sempre foram relacionadas à Literatura e Redação - reflexo da minha paixão pela leitura, escrita e análise literária. Tive a feliz oportunidade de escrever dois livros como trabalho de estágio: O cadarço da Lilica e Getting to Know the Zoo. Esta foi a primeira experiência de pensar em um livro como um todo, não só na história em si, mas nas ilustrações, na faixa etária, na ficha catalográfica e em tudo o que envolve a sua impressão. Nenhum dos dois foi publicado, mas mesmo assim me orgulho muito deles.

Apesar de ter passado uma vida envolta com a Literatura, uma dúvida me corroeu até o ano passado: o que, afinal, faz de uma pessoa escritora? É o ato de escrever em si? É a publicação de um livro? É escrever com a qualidade do Machado de Assis? Como delimitar isso em um mundo que hoje é virtual? A coragem de me assumir escritora surgiu apenas no ano passado. Às vezes, ela ainda some, oscila, mas venho tentando me afirmar com consciência, não considerando o status quo que as pessoas esperam do escritor: aquele ser superiormente mágico. Relendo uma postagem que fiz no ano passado no meu blog, encontrei a seguinte reflexão:

O que me levou a escrever - e consequentemente a abrir este blog – foi o amor pelas palavras e, muitas vezes, a dor da vida. Escrever sobre a dor liberta. Escrever sobre o amor alimenta... Voltando à questão, conforme o tempo foi passando, o amadurecimento chegou e a visão, a relação com a escrita se transformou. Perdi-me, numa tentativa de me encontrar...
Passei a reler textos antigos – não tão bons, decerto –, contudo, muito apaixonados. A paixão estava no processo libertário de escrever. Era o resgate necessário que me remete ao fato de a questão em si não ser a escrita, mas a coragem. Coragem de me jogar no processo. Coragem de bater no peito e assumir que as minhas tolas palavras fazem de mim uma escritora, sim. Resolvi voltar às origens. Não importa se as pessoas leem. Não importa se já fui ou não publicada. Sou escritora porque é assim que eu luto, é assim que me levanto, é assim que me transformo. Sou escritora porque é assim que junto os pedaços espalhados e me torno eu mesma.

Como parte do processo de me assumir escritora, resolvi publicar um livro de poemas no wattpad. Para minha surpresa, os meus Poemas para o amor que já se foi chegou a estar entre os cem livros mais lidos da categoria Poesia do site. Isso me faz pensar que, de alguma forma, estou no caminho certo.

Eu ainda tenho aquela síndrome de ter vergonha de mostrar o que escrevo. Ainda fico vermelha quando as pessoas dizem que leram algo no meu blog. De qualquer maneira, o sonho de transformar a vida das pessoas por meio das palavras – como a minha foi tantas vezes transformada – é maior. Quero, mesmo que por meio da prosa, presentear o mundo com a poesia. Preciso retribuir o que todos os bons autores fizeram por mim.

Em resumo, posso dizer que a leitura me abre para outras perspectivas, para outros mundos. Já a escrita, bem, ela me reconstrói. E é assim que sou grata, é assim ganhei asas e que cheguei até aqui.

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