domingo, 21 de fevereiro de 2016

{Vamos falar sobre escrita?} Meu histórico com a leitura e com a escrita – um relato cronológico

*Nota: comecei a fazer uma pós-graduação chamada "Formação de Escritores - Ficção". O texto abaixo foi solicitado por um dos professores. Resolvi publicá-lo nesta coluna, porque acredito que entender a sua própria relação com a literatura faz parte do processo de ser um bom escritor. Fiquem à vontade para ler e compartilhar nos comentários a sua relação com a leitura e com a escrita.

Imagem por Pauline Mak, sob licença creative commons.


Divã. Talvez, se tivesse que definir como me relaciono com a literatura de uma forma geral, “divã” seja a palavra apropriada. Que meus amigos psicólogos e psicanalistas me perdoem desde já. Não estou desmerecendo o trabalho deles, de forma alguma, mas tenho certeza de que, se fosse fazer terapia, a literatura os ajudaria muito a me desvendar. É lendo que me entendo, é escrevendo que me reorganizo. A literatura definitivamente é o meu divã.

Não sei ao certo quando que penetrei surdamente no reino das palavras. Em casa, acreditamos que este chamado tem herança materna. Meu avô tudo escrevia, minha mãe tudo escreve, eu tudo escrevo – porque se não o fizer, não sobrevivo. Simples assim. Identificar minha relação com a escrita é um pouco mais fácil, uma vez que os momentos de escrita estão mais delimitados na minha memória do que os de leitura.

Ter avós e tios que moravam a mais 2610 km de distância no início dos anos 90 foi, para mim, sinônimo de ver minha mãe se deleitar com uma caneta azul e um maço de papel almaço. Suas cartas, sempre tão detalhadas – em uma época em que ligações telefônicas eram caríssimas –, eram conhecidas por todos pelo apelido carinhoso de “jornal”. Ver minha mãe escrevendo, despertava em mim o desejo de escrever também. Àquela época, mal conhecia as letras, mas já queria rabiscar.

De fato, a tradição das cartas prosseguiu, seguida da troca de cartões de natal. O início da adolescência foi recheado delas, mesmo tendo como destinatários os amigos de todos os dias. As leituras, por sua vez, eram esparsas e excêntricas: desde aquela época me descobri chata com o gostar do que todo mundo gosta. Até hoje me pergunto se deveria ter trocado a poesia de Cecília Meireles pela série do Pedro Bandeira que todo mundo leu, menos eu.

É claro que a literatura foi um combustível que alimentou o meu amor pelas Letras. E é claro que, como todo aluno de escola pública, tive o meu exemplo de como não ensinar Língua Portuguesa. Na sétima série fui obrigada a ler uma adaptação de O Guarani, feita pelo Moacyr Scliar, que me bloqueou para qualquer outro livro dele. Culpa da professora que queria que todos nós soubéssemos o nome do sanduíche da lanchonete da história...

Foi no Ensino Médio que eu realmente notei que eu precisava da Literatura como forma de sobrevivência. Foi neste momento da minha vida em que ler e escrever deixaram de ser meras tarefas do cotidiano para se configurarem em alimento de alma. Quando se é adolescente a vida pode ser um tanto complicada. Quando se muda de escola e se vê todos os seus amigos mudando para tentarem ser populares, tudo fica muito confuso. O fato é que eu não me adaptei. Na escola nova, meus amigos ganharam muitos novos amigos – eu, apenas alguns poucos – e, por mais que fosse uma boa aluna, tudo era motivo de sofrimento e isolamento... Até eu descobrir como usar a biblioteca!

Àquela época, não estava escrevendo, mas todos os dias pegava livros emprestados na biblioteca, a ponto de fazer amizade com a bibliotecária e chamar a atenção das professoras de Língua Portuguesa. Segundo as anotações da minha agenda daquele ano – a única antiga que guardo até hoje – foram 256 livros lidos em um ano. Às vezes penso que nunca vou conseguir repetir este feito! Aquilo que os meus amigos achavam estranho e que era motivo de orgulho dos meus pais, na verdade, era uma tentativa de aplacar um pouco da dor que a falta de adaptação à escola nova me trazia – os livros eram uma rota de fuga contra a depressão que eu sentia. De certa forma, fico feliz por ter escolhido este caminho. Foi nesta época em que li alguns dos cânones, que me enveredei pela literatura do leste europeu, que provei dos mestres da literatura latina. Os livros eram o meu refúgio, a forma que eu encontrei de estar em paz comigo mesma. Além disso, dei muita sorte de ter professoras incríveis que me incentivavam a cada dia não apenas na minha paixão pela leitura e pela escrita, mas também pela docência.

Janeiro de 2006. Esta foi a data em que escrevi o meu primeiro poema. Com muita vergonha, mostrei para uma amiga de infância – que anos mais tarde se formaria em Letras comigo – e ouvi de volta um “por que você não faz um blog e o publica?”. Assim comecei na internet. Assim sigo até hoje. Em junho, o Algumas Observações fará dez anos e eu me sinto muito orgulhosa por poder ver o quanto eu evoluí seja como leitora, seja como escritora. Ler as postagens antigas e ver o quanto eu amadureci é algo bem bacana.

No curso de Letras, as minhas maiores notas sempre foram relacionadas à Literatura e Redação - reflexo da minha paixão pela leitura, escrita e análise literária. Tive a feliz oportunidade de escrever dois livros como trabalho de estágio: O cadarço da Lilica e Getting to Know the Zoo. Esta foi a primeira experiência de pensar em um livro como um todo, não só na história em si, mas nas ilustrações, na faixa etária, na ficha catalográfica e em tudo o que envolve a sua impressão. Nenhum dos dois foi publicado, mas mesmo assim me orgulho muito deles.

Apesar de ter passado uma vida envolta com a Literatura, uma dúvida me corroeu até o ano passado: o que, afinal, faz de uma pessoa escritora? É o ato de escrever em si? É a publicação de um livro? É escrever com a qualidade do Machado de Assis? Como delimitar isso em um mundo que hoje é virtual? A coragem de me assumir escritora surgiu apenas no ano passado. Às vezes, ela ainda some, oscila, mas venho tentando me afirmar com consciência, não considerando o status quo que as pessoas esperam do escritor: aquele ser superiormente mágico. Relendo uma postagem que fiz no ano passado no meu blog, encontrei a seguinte reflexão:

O que me levou a escrever - e consequentemente a abrir este blog – foi o amor pelas palavras e, muitas vezes, a dor da vida. Escrever sobre a dor liberta. Escrever sobre o amor alimenta... Voltando à questão, conforme o tempo foi passando, o amadurecimento chegou e a visão, a relação com a escrita se transformou. Perdi-me, numa tentativa de me encontrar...
Passei a reler textos antigos – não tão bons, decerto –, contudo, muito apaixonados. A paixão estava no processo libertário de escrever. Era o resgate necessário que me remete ao fato de a questão em si não ser a escrita, mas a coragem. Coragem de me jogar no processo. Coragem de bater no peito e assumir que as minhas tolas palavras fazem de mim uma escritora, sim. Resolvi voltar às origens. Não importa se as pessoas leem. Não importa se já fui ou não publicada. Sou escritora porque é assim que eu luto, é assim que me levanto, é assim que me transformo. Sou escritora porque é assim que junto os pedaços espalhados e me torno eu mesma.

Como parte do processo de me assumir escritora, resolvi publicar um livro de poemas no wattpad. Para minha surpresa, os meus Poemas para o amor que já se foi chegou a estar entre os cem livros mais lidos da categoria Poesia do site. Isso me faz pensar que, de alguma forma, estou no caminho certo.

Eu ainda tenho aquela síndrome de ter vergonha de mostrar o que escrevo. Ainda fico vermelha quando as pessoas dizem que leram algo no meu blog. De qualquer maneira, o sonho de transformar a vida das pessoas por meio das palavras – como a minha foi tantas vezes transformada – é maior. Quero, mesmo que por meio da prosa, presentear o mundo com a poesia. Preciso retribuir o que todos os bons autores fizeram por mim.

Em resumo, posso dizer que a leitura me abre para outras perspectivas, para outros mundos. Já a escrita, bem, ela me reconstrói. E é assim que sou grata, é assim ganhei asas e que cheguei até aqui.

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