O roxo no meu braço
Fernanda Rodrigues
domingo, outubro 27, 2019
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| Foto: Janeb13. |
Passei um bom tempo em busca do assunto miúdo para escrever uma crônica. Como ele não veio, cá estou eu escrevendo sobre escrever. Todo bom cronista que se preze já fez isso, e eu — sendo boa nisso ou não — me dou ao luxo de fazer isso agora.
O lance é que eu até tenho assunto, o roxo no meu braço está aqui — depois de ter sido preto e verde — para atestar que tenho um tema: poderia escrever sobre o dia em que uma das minhas alunas surtou e me bateu. Reluto, contudo. Não quero falar sobre a dor, sobre o nervoso, sobre a impotência e a indignação. Ou quero?
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| O roxo no meu braço é real oficial. :( |
Sempre que alguém vem falar comigo sobre a minha profissão, ouço elogios: "você é inspiradora", algumas pessoas dizem; "acho linda a sua dedicação", outras completam. O que elas não fazem ideia é que alunos surtam e partem para cima dos colegas e que se eu falo "não", eles partem para cima de mim. Esta foi a primeira vez que o machucado foi visível, fisicamente visível. O que as pessoas não veem são as marcas do desrespeito diário, dos salários baixos, de gente que nunca estudou querendo das pitaco no que faço.
Minha aluna me feriu há duas semanas. Nenhum pedido de desculpas (nem dela, nem da família). A agressão já anda tão normatizada na nossa sociedade, que um roxo no braço já é normal.
Não quero inspirar, apenas. Quero ser vista como alguém que é digna de conciliar trabalho e respeito. Não quero escrever sobre roxos no meu braço e lágrimas na minha alma. Quero apenas poder exercer a minha profissão com segurança, dignidade e paz. Quando foi que ser professora fez de mim uma cronista tão gauche na vida?
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