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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

{Resenha} Prólogo, ato, epílogo, de Fernanda Montenegro com a colaboração de Marta Góes

quarta-feira, fevereiro 05, 2020 12
Fernanda Montenegro. (Imagem: Divulgação)
Poderia ser apenas mais um livro de memórias, mas Prólogo, ato, epílogo transcende todas as expectativas que seu leitor pode ter. No auge de seus 90 anos, Fernanda Montenegro traz em seu livro uma grande aula sobre a história do Brasil, sobre a história da arte brasileira (rádio, teatro, cinema e televisão) e, sobretudo, sobre como se viver bem a vida.

O livro, escrito em colaboração com a jornalista Marta Góes, está estruturado nas três partes que compõe o seu título. Em "Prólogo", Fernanda Montenegro resgata toda a história de seus quatro avós, italianos e portugueses, que imigraram ao Brasil. A genealogia apresentada é importante para que os leitores consigam entender como a família foi fonte de força e inspiração para este grande ícone da dramaturgia brasileira. Já a maior parte do livro, "Ato", narra como a Arlette passou a ser Fernanda. Viajamos do anonimato à fama, desde o primeiro emprego no rádio até a consagração da indicação ao Oscar. É interessante notar como o foco na carreira e a maternidade caminham juntos na vida da atriz. Ao mesmo tempo em que há esforço para o trabalho e para o estudo ao lado de grande nomes do rádio e do teatro (que trabalharam com a Fernanda seja atuando, seja na direção), há também a luta para garantir a intimidade no lar. Em nenhum momento nota-se uma família deslumbrada pelo sucesso, ao contrário, percebe-se que tanto a Fernanda Montenegro quanto o seu marido, Fernando Torres, batalharam para servir àquilo que sempre amaram: a arte teatral. Neste sentido, é possível perceber a tenacidade e o foco da atriz com sua carreira, que negou convites importantes, como o de ser Ministra da Cultura do governo Sarney. Na sequência temos "Epílogo", parte final da biografia, em que Fernanda Montenegro compartilha com o leitor as suas intuições acerca do que é viver uma vida tão longa e bem-sucedida.

Fac-símile da carta de recusa do ministério da cultura.
(páginas 156 e 157)


A obra não deixa de conter um registro histórico com grande lucidez crítica por parte da autora. Mais uma vez, não há glamour no processo de imigração familiar, nas produções teatrais (parte delas realizadas durante o período da ditadura militar), na criação cinematográfica. O livro quebra toda e qualquer expectativa de luxuosidade que um leitor possa ter de um ator global no quilates de Montenegro.

A linguagem da obra é muito atraente. Apesar de ser um livro com um grande volume de páginas, ele é gostoso de ser lido e, sobretudo, inspira o seu leitor a querer buscar mais da arte em si. Como já era de se esperar, há muitas referências de livros, peças, atores, diretores e filmes ao longo das suas 392 páginas. O projeto gráfico é impecável, trazendo letras com fontes grandes (que facilitam muito a leitura!), fotos dos principais momentos da vida e da carreira da atriz, uma lista com todos os trabalhos realizados por Fernanda Montenegro, uma lista em ordem cronológica dos prêmios e condecorações recebidas por Fernanda e um índice remissivo.

Prólogo, ato, epílogo é, assim como a própria Fernanda Montengro, uma verdadeira obra de arte.

Livro: Prólogo, ato, epílogo

Autora: Fernanda Montenegro com a colaboração de Marta Góes
Páginas: 362
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Memórias
Apresentação: Em Prólogo, ato, epílogo, Fernanda Montenegro narra suas memórias numa prosa afetiva, cheia de inteligência e sensibilidade. Com sua voz inconfundível, ela coloca no papel a saga de seus antepassados lavradores portugueses, do lado paterno, e pastores sardos, do lado materno. Lidas hoje, são histórias que podem "parecer um folhetim. Ou uma tragédia" – gêneros que a atriz domina com maestria. Na turma de jovens que circulavam pela rádio estava Fernando Torres, que ela reencontrou nos ensaios da peça Alegres canções na montanha, quando começaram a namorar. Fernando largou a Panair, Fernanda largou a Berlitz, e o casal se entregou de corpo e alma à arte, paixão de uma vida. Constituíram uma família e realizaram juntos um sem-número de peças, ao lado dos principais nomes do teatro brasileiro. Em páginas de grande emoção, ela relembra os desafios de criar os filhos sobrevivendo como artistas; a busca permanente pela qualidade; a persistência combativa durante os anos de chumbo; a capacidade de constante reinvenção; o padecimento de Fernando; o inesperado sucesso internacional nos anos 1990; a crença na terra que acolheu seus antepassados imigrantes e a devoção por esse país. Fernanda encarna o melhor do Brasil. Não surpreende que alguém que passou a vida memorizando textos tenha desenvolvido notável capacidade de rememorar com sutileza fatos ocorridos décadas atrás. A atriz que há anos encanta multidões em palcos e telas pelo mundo agora se mostra uma contadora de histórias de mão-cheia.

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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

"Amar, verbo intransitivo" no teatro | BEDA agosto/2019 #23

sexta-feira, agosto 23, 2019 4

Se tem uma coisa que eu amo fazer — e que há tempos não colocava em prática — é ir ao teatro. Sendo assim, aproveitei a noite de ontem para correr atrás disso e fui ver o espetáculo Amar, verbo intransitivo que está em cartaz no Teatro Eva Herz (aquele, localizado dentro da Livraria Cultura do Conjunto Nacional). A montagem é baseada na obra homônima de Mário de Andrade e foi adaptada pela Luciana Carnieli que também atua ao lado do ator Pedro Daher.


É interessante ver tanto o trabalho textual quanto cênico e como eles nos levam a refletir sobre os tempos em que vivemos. Se por um lado temos um Mário de Andrade dizendo que a Fräulein Elza não é fruto de imaginação, que ela apareceu para ele (em um retrato fiel da sociedade da época); por outro, percebemos que não estamos distante desse passado em que as mulheres são objetificadas para servirem ao homem. Carlos era um homem violento que às vezes machucava as mulheres "sem querer". À Fräulein não lhe cabia sonhar não viver o casamento, já que isso é coisa apenas para as mulheres ditas puras.

Além disso, outra coisa que me chamou bastante a atenção (e que, sejamos francos, também não mudou muito ao longo dos tempos) é a questão racial e de classe: sempre que os pais ou a própria Elza pensavam no futuro do Carlos, os anos vindouros eram imaginados em um casamento com uma mulher branca de mesmo nível ou de nível elevado (ditos cultural e economicamente). Na adaptação, vê-se bem como há hipocrisia social nesse sentido também. 

Se vocês tiverem uma noite de quinta-feira livre, recomendo. A peça fica em cartaz até o dia 26 de setembro.

🎭 Peça: Amar, verbo intransitivo
Texto: Mário de Andrade
Adaptação: Luciana Carnieli
Direção: Dagoberto Feliz
Elenco: Luciana Carnieli e Pedro Daher
Contrarregra em cena: Sérgio Marques
Em cartaz: quintas-feiras, às 21h, até 26 de setembro
Duração: 75 minutos
Faixa etária: 12 anos
Local: Teatro Eva Herz SP (Conjunto Nacional)
Av. Paulista, 2073 - 01311-940 Bela Vista - São Paulo/SP
Ingressos: R$50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia entrada)
Compras no site ou na bilheteria:
Terça a Sábado, das 14h às 21h
Domingos e feriados, das 13h às 19h (feriados sujeito a alterações)
Sinopse: A trama narra a história da governanta Fräulein Elza (interpretada pela própria Luciana Carnieli), que é contratada por uma família tradicional paulista nos anos de 1920 para fazer a iniciação amorosa e sexual de Carlos (vivido por Pedro Daher), o primogênito herdeiro. A partir desse encontro, os personagens vivem uma relação amorosa, revelando críticas sociais e comportamentais.


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sexta-feira, 3 de março de 2017

{Resenha} Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna

sexta-feira, março 03, 2017 5
Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

Escrito pelo paraibano Ariano Suassuna, em 1955, o Auto da Compadecida é um texto teatral em que o humor permeia profundas reflexões sobre a condição humana, principalmente aquela vivida no sertão nordestino brasileiro. 

Tendo sua primeira montagem no teatro em 1957 e três adaptações cinematográficas (a mais famosa, de 1999, com direção de Guel Arrais e roteiro de Adriana Falcão), o Auto conta a história de Chicó e João Grilo, de como eles se enrolavam em suas mentiras e de como isso levou João à morte, carregando consigo um bispo, um frade, um padre, um sacristão, o padeiro e sua fogosa esposa e um cangaceiro. O desenrolar da trama se dá no julgamento para decidir se os personagens irão para o céu, para o inferno ou para o purgatório.

Página de rosto.

Quem já assistiu ao filme já sabe que Chicó e João Grilo trazem consigo um humor refinado e sarcástico de quem muito sabe, mesmo sem ter a instrução escolar. A leitura do texto da peça é tão dinâmica quanto os personagens e é impossível não rir das atrapalhadas da dupla e dos argumentos de João Grilo durante o julgamento. Esse dinamismo causa no leitor uma vontade de não parar a leitura até que ela se finde. Levados por este humor, vamos até o último ponto final.

Suassuna conseguiu tocar em pontos significativos em sua dramaturgia. Baseando-se na literatura de cordel, o autor convoca para dentro de seus textos a tradição literária nordestina. Sem negar as falas, as fábulas, as lendas, os temas, o motes e o contexto, Suassuna realiza literatura de uma complexidade sem tamanho, numa simplicidade infinita, se apropriando de suas raízes. E, embora escreva um texto leve e gostoso de ser lido, ele não se exime de ir ao cerne de algumas questões importantes como o racismo (que os mortos sentem ao ver um Jesus negro), o papel da mulher (como os comentários sarcásticos que o diabo faz em relação ao poder que a Nossa Senhora tem, em contraste com a autoridade que ela exerce durante o julgamento das almas), a corrupção e a super valorização do dinheiro (que aparecem nas posturas dos religiosos e do padeiro), a seca, a fome, a pobreza e a violência do sertão (representadas pela malandragem de Chicó e João Grilo e pelo cangaceiro). 
Detalhes da uma das ilustrações de Romero de Andrade Lima.

Não é à toa os sucessos das montagens e dos filmes no Brasil e no mundo. Não é à toa que Ariano Suassuna conquista a todos com o seu jeito simples, porém profundo de se expressar. Não é à toa que o Auto da Compadecida se tornou um clássico do nosso teatro e faz com que tenhamos orgulho da nossa literatura e de sermos brasileiros (apesar da dificuldade relatada na própria peça). O texto é realmente fabuloso e merece ser lido por todos.

Livro: Auto da Compadecida
Autor: Ariano Suassuna
Gênero: dramático
Editora: Agir | Nova Fronteira
Ilustrações: Romero de Andrade Lima
Posfácio: Braulio Tavares
Páginas: 192
Sinopse: O Auto da Compadecida consegue o equilíbrio perfeito entre a tradição popular e a elaboração literária ao recriar para o teatro episódios registrados na tradição popular do cordel. É uma peça teatral em forma de Auto em 3 atos, escrita em 1955 pelo autor paraibano Ariano Suassuna. Sendo um drama do Nordeste brasileiro, mescla elementos como a tradição da literatura de cordel, a comédia, traços do barroco católico brasileiro e, ainda, cultura popular e tradições religiosas. Apresenta na escrita traços de linguagem oral (demonstrando, na fala do personagem, sua classe social) e apresenta também regionalismos relativos ao Nordeste. Esta peça projetou Suassuna em todo o país e foi considerada, em 1962, por Sábato Magaldi "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro".
Livro no Skoob.

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terça-feira, 10 de maio de 2016

{Vou por aí} Theatro Municipal do Rio de Janeiro

terça-feira, maio 10, 2016 12
Hey, pessoal!
Há tempos não trago nada na coluna Vou por aí, então resolvi postar sobre mais um passeio que fiz na minha última visita ao Rio de Janeiro, em setembro do ano passado.

Escadaria no interior, toda trabalhada no mármore.

A decisão de ir ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro aconteceu meio ao acaso. Gisela e eu estávamos na Biblioteca Nacional (que será assunto em outro post), quando resolvemos ver se o teatro estava aberto. Como um é muito próximo do outro, fomos à pé e demos sorte: conseguimos comprar ingressos para a última visita monitorada do dia, que aconteceria em uma hora.

O ingresso custou dez reais, e lá foi único lugar em que não paguei meia entrada por ser professora.

Vitrais.

Arte e lustre da sala de espetáculos.

O grupo é dividido no início da visita pelos idiomas de seus participantes: português com um monitor, inglês com outro e espanhol com um terceiro. Isso é feito de forma bem organizada, de modo que um não atrapalhe o roteiro de visitação do outro e todos visitem os ambientes de forma completa.

Pinturas expostas em um dos salões.
Composição em azulejo em uma das sacadas.

O início da construção se deu em 1905, depois da mobilização feita pelo dramaturgo Arthur Azevedo. Foi ele o primeiro a mostrar a necessidade carioca de se ter um grande teatro de moldes franceses. Seu projeto é dos arquitetos Francisco de Oliveira Passos e do francês Albert Guilbert, tendo como inspiração a Ópera de Paris, de Charles Garnier.

Escultura em uma das namoradeiras (é assim que chamam este tipo de sofá).

Sim, é confortável (aliás, saudades, cabelo curto).

Seu interior é marmorizado e conta com diversas obras de artes (esculturas e pinturas) dos artistas brasileiros renomados na época da construção: Eliseu Visconti, Henrique Bernardelli, Rodolfo Amoedo, Rodolfo Bernardelli. Em seu subsolo, destaca-se a decoração assíria do salão do restaurante.

Uma das paredes de decoração assíria.

Vista do salão assírio.

Detalhe de uma das colunas do salão assírio.
Gisela e eu, pagando de turistas.

Toda esta suntuosidade se traduz em uma regra do espaço, conforme afirma o seu próprio site:
Não é permitida a entrada de pessoas trajando bermuda, short, top, camisa sem manga e chinelos.
Vista de uma das janelas.
Para ver todas as fotos que tirei lá, acesse o flickr. ;)

Quer conhecer mais? Então anote aí:
Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Endereço: Praça Floriano s/n° - Centro - Rio de Janeiro
Informações: (21) 2332-9191
Bilheteria: Boulevard Avenida Treze de Maio  (entrada pela Rua Evaristo da Veiga)
Horário da bilheteria: Segunda a sexta, sábados, domingos e feriados – 10h às 18h.
Nos dias de espetáculos, das 10h até a hora do início da apresentação.
Vendas na Bilheteria, no site Ingresso.com ou pelo telefone (21) 4003-2330
Site | Facebook
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domingo, 3 de novembro de 2013

Halloween 2013 e 101 coisas

domingo, novembro 03, 2013 2
Jack, meu parente distante, e eu. LOL
Ser professora é viver em uma via de mão dupla entre viver um prazer imenso de ver os outros aprendendo
e de ter muito trabalho mesmo para que isso aconteça. Quando escolhi esta profissão, sabia que não seria fácil, mas não tinha ideia do volume de trabalho e de emoções que teria...

Passei o mês de outubro um tanto sumida, porque o Halloween me exigiu ao extremo. O desafio de organizar quatro festas sem nunca ter participado de uma foi algo que me levou a exaustão extrema (nem os backstreet boys, nem as duas apresentações no mesmo dia, na semana de letras da universidade me deixaram tão cansada assim). 

É claro que, no final, tudo deu extremamente certo. A gincana que fiz com os students do fundamental II e do médio foi linda e me deixou plenamente feliz porque percebi que consegui fazer diferença na vida deles. As festas com as crianças foi diversão pura para eles. :)

Entre mortos e feridos, minhas chefes ficaram felizes com o resultado, todo mundo aprendeu e - embora exausta - também consegui me divertir. 

É claro que esta loucura toda me fez deixar muitas tarefas de lado. Meu quarto está aquele fuá todo - parece que passou o Katrina por lá -, meu cronograma capilar se resumiu à hidratação com a máscara de minuto do Head & Shoulders e a história de focar em beber 2 litros de água por dia foi esquecida. Por isso, chegou a hora de repensar tudo... E novembro "chegou chegando":

Resolvi retomar a tarefa de beber a água e, além dela, lá fui eu tentar participar do NaNoWriMo (item 52 da minha lista de 101 coisas). Na verdade, não estava pensando em fazer isso em 2013, mas a Cah insistiu; e, vocês sabem, adoro desafios!

Já não bastasse tudo isso, comecei mais um projeto fotográfico lá no instagram. Já ouviram falar no #fmsphotoaday? Bem, a Chantelle, do blog Fat Mum Slim, propõe todos os meses um desafio de uma foto temática por dia. Preciso dizer que adoro a ideia?! 

O mais legal destes desafios todos é que minhas amigas estão fazendo também, então todo mundo se apoia e se incentiva!

Acho que é isso. E vocês, como estão?
Beijos e queijos! :*
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sábado, 10 de março de 2012

{Resenha} Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen

sábado, março 10, 2012 0
Capa
Escrita em 1879, pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, Casa de Bonecas, causou grande controvérsia literária na ocasião. O motivo deve-se ao fato de Nora, protagonista da história, romper os padrões sociais da época. 

A peça de teatro conta o dia a dia do casal Helmer, Nora e Torvald, pais de três filhos, retratando o perfil da sociedade da época: a mulher como dona de casa, criada para cuidar da família e da casa (coordenando os trabalhos da babá e da empregada); o marido, chefe da família, autoritário (à medida que decide tudo sozinho), que crê ser responsável por educar a esposa. 

HELMER: (...) descanse tranquila, tenho amplas asas para protegê-la. (Andando de um lado para o outro, sem se afastar da porta) Ah, como o nosso lar é aconchegante e encantador, Nora! Aqui você está segura! Eu a guardarei como a uma pomba que foi acolhida depois de ser retirada sã e salva do abutre. Saberei aquietar o seu pobre coração palpitante. 

O drama gira em torno da atitude de Nora perante a atitude do marido: por estar doente, Torvald deve descansar em outra cidade, de clima mais propício. Nora, então, dá um jeito de conseguir dinheiro com um agiota, Krogstard, para realizar a viagem, sem que o marido saiba. Tempos depois Krogstard passa a chantageá-la e a trama se desenvolve nos desenlaces desta chantagem. 

Entre idas e vindas, Nora recebe a ajuda de sua amiga, Senhora Linde, para lidar com a chantagem de Krogstard; mas, enquanto a peça acontece, a Senhora Helmer percebe que nada é como deveria ser. Temos, então, um momento de epifania em que há o rompimento com a visão machista em que Nora está confinada. 

Com seu texto curto e direto, Ibsen consegue passar sua mensagem para a sociedade. E isto é um ponto de atenção. Andei lendo algumas resenhas no skoob, em que muitas pessoas disseram que a peça é ruim, por ser machista. De fato, para se escrita nos dias de hoje, a história de Ibsen não seria bem aceito – ainda que ele tente libertar as mulheres da visão inferiorizada. Entretanto, não podemos ignorar o contexto histórico em que o autor nasceu, viveu e escreveu tal dramaturgia. Se levarmos em consideração que um homem escreveu este texto em 1879, podemos inferir que a obra é libertadora, não machista. Quando todos acreditavam que a mulher não tinha opinião, Ibsen nos apresenta Nora tendo um momento de epifania. Isso é extremamente louvável e revolucionário. 

Livro: Casa de Bonecas 
Autor: Henrik Ibsen 
Tradução: Gabor Aranyi 
Gênero: teatro 
Editora: Veredas 
Série: Veredas em Cartaz 
Páginas: 104