Cataclismo
Fernanda Rodrigues
segunda-feira, janeiro 21, 2019
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| Imagem: PublicCo. |
As ondas enfim cessaram. Assim pude ver o que sobrou do vilarejo. Apesar da bagunça, apesar da dor, apesar do desespero, havia algo de belo: a esperança que surgia cada vez que alguém era resgatado, cada vez que uma mãe abraçava a criança viva que já dava por sem alma, cada vez que uma foto ou documento era encontrado atestando que ali já foi um lugar comum um dia.
Sentei-me sobre a pedra mais alta da montanha mais alta - e que mesmo assim não tinha altitude o suficiente para deixar os meus pés secos quando o mar ficava revolto. Dali tinha a visão das pessoas , pequeninas por causa da distância, tentando reconstruir suas próprias vidas. Via-as remontando a cidade, tomando nas mãos cada tijolo como pecinhas de lego. A humanidade é tão insignificante quando se tem as profundezas como deusas.
Voltei-me às águas. Cristalinas, quase silenciosas, elas seguiam com seus moluscos e peixes e tartarugas e tubarões e baleias. O que será que acontece com essa bicharada toda, enquanto os homens se apavoram ao verem a grande onda se aproximando da orla? Não há ciência que explique o desespero de um tsunami, mas há cientista que diga para onde a baleia ruma com seu filhote ao sentir o efeito de um terremoto marítimo? Ou não há baleias sob o azul-esverdeado banhador da encosta da montanha que gentilmente me pega no colo e me toma como filho?
Falava sobre esperanças e filhotes, mas isso não significa que antes da destruição sentia coisas boas. Aliás, era justamente o caos do abandono - dos outros e de mim mesmo - que, antes do tsunami, me anulou qualquer forma de sentir. A calma, esta criança marota, só veio depois dele. Ela chegou de mãos dadas com a minha sobrevivência. A plenitude que me habita é fruto, sem dúvida alguma, do possessão entre o caos e a fúria.
Observei os que sofrem com a compaixão de quem sabe que agora eles compreendem a minha existência. Foi assim que o mar levou a angústia. Foi assim que renasci.
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| O tema da blogagem coletiva de janeiro de 2019 é: que o mar leve. Para saber mais sobre o Projeto Escrita Criativa, clique aqui. |
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