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domingo, 2 de junho de 2024

{Resenha} Clarice Lispector: pinturas, de Carlos Mendes de Sousa

domingo, junho 02, 2024 6


Descobri este livro por um acaso e foi amor à primeira vista: não só por se tratar de um estudo sobre a obra clariciana, mas também por se ocupar dessa obra por uma outra via, a das pinturas de Clarice Lispector.

Clarice não se considerava pintora, e a quarta capa do livro traz uma citação em que ela explicita isso. Entretanto, Clarice também não se designava escritora, apenas alguém que gostava de escrever, e aqui estamos, um século depois, lendo seus livros, transformando suas narrativas em filmes, sentindo sua obra nas nossas entranhas. 

O que você encontra neste livro.


A relação da não pintora com as artes é longa e duradoura. Nesse sentido, o trabalho de Carlos Mendes de Sousa é muito bom: antes de apresentar e de analisar as pinturas de Clarice, ele nos faz adentrar no universo das arts plásticas pela perspectiva da autora. Clarice Lispector: pinturas é dividido em duas partes: "I. O quadros de Clarice" e "II. Clarice pintora". 

Em "Os quadros de Clarice", os capítulos nos falam sobre a relação da escritora com as artes plásicas. Há uma pesquisa profunda, e os capítulos abordam várias perspecitavas, passeando sobre múltiplos assuntos: os livros que ela tinha em sua biblioteca pessoal sobre o tema, os pintores com quem ela tinha amizade ou a quem entrevistou, os quadros que ela tinha em casa, os retratos que foram feitos dela, os artistas que tentaram retratá-la e não conseguiram. Tudo isso embasado em textos (trechos dos romances, das crônicas, de entrevistas, dos contos e de declarações) da autora. 

Já a parte "Clarice pintora" analisa cada quadro propriamente dito feito por Clarice Lispector e nos mostra o quanto sua pintura está atravessada por sua literatura (e vice-versa). Figuras como o ovo e o cavalo são presentes em ambas. Além disso, a eterna procura por entender seu lugar no mundo, de expressar o não lugar, o que não se pode ser dito, o estranhamento artístico filosófico, o místico, tudo isso também está presente em suas pinturas.

Os capítulos trazem tanto as pinturas de Clarice quanto de outros artistas que são referenciados ao longo da obra em imagens coloridas, o que dá ao leitor mais aproximação devido à riqueza de detalhes nas imagens. Os capítulos são curtos e bem-escritos. Apesar de o livro ser fruto de uma tese de doutorado, a linguaguem está longe de ser enfadonha e cheia de academicismos. Isso contribui para uma leitura que é gostosa de ser feita, à medida que ela nos provoca, enquanto leitores, a querer saber mais. Além disso, Carlos Mendes de Sousa foi muito sábio em cada citação que escolheu para ilustrar e embasar o que dizia. A curadoria, sem dúvida, nos trouxe os melhores trechos de Clarice que se relacionam com as artes plásticas. 

O que eu vejo como um ponto alto deste livro é que ele é excelente tanto para quem já é estudioso de Clarice Lispector, quanto para quem apenas tem curiosidade sobre a autora ou para quem gosta ou se interessa por pinturas em geral. Como escritora, acho interessante como Sousa traça a ligação não apenas entre a produção literária e artística da autora, mas também como as influências das artes plásticas penetram no reino das palavras e das entrelinhas claricianas. É bonito como o processo de criação se revela nos dois âmbitos. Ler Clarice Lispector: pinturas nos estimula não só a querer mergulhar ainda mais no universo clariciano; mas, e por que não dizer, a querer produzir arte também.

Capa.


Livro: Clarice Lispector: pinturas
Autor: Carlos Mendes de Sousa
Páginas: 272
Editora: Rocco
Sinopse: Mais uma faceta pouco conhecida da escritora Clarice Lispector vem a público nesta obra, do português Carlos Mendes de Sousa. Grande admiradora das artes, Clarice tinha especial interesse pela pintura, conviveu com diversos artistas e produziu suas próprias pinceladas, cerca de 20 delas reproduzidas no livro. 'A atmosfera pictórica contamina a escrita de Clarice Lispector em aspectos mais ou menos visíveis', afirma Sousa, que reflete sobre a obra da escritora à luz de sua relação com a pintura.
Sobre o autor: Carlos Mendes de Sousa é um dos grandes nomes da crítica literária portuguesa. Natural de Angola, é professor de literatura brasileira na universidade do Minho, em Portugal. Sua dedcação à obra de Clarice Lispector, tema de sua tese de doutorado, deu origem ao volume Clarice Lispector. Figuras da escrita (IMS, 2012), livro de referência para os estudos claricianos.

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

{Resenha} Como Clarice Lispector pode mudar sua vida, de Simone Paulino

quarta-feira, janeiro 18, 2023 10


Como Clarice Lispector pode mudar sua vida, de Simone Paulino além de ter sido a minha primeira leitura de 2023, foi uma grata surpresa. Encontrei este livro enquanto olhava a seção de literatura brasileira da biblioteca municipal do meu bairro e, só de bater o olho no índice, soube que precisaria lê-lo.

A obra conta com uma introdução ("A literatura que ajuda a viver"), 13 capítulos e uma espécie de epílogo, intitulado "Fim". Trata-se de uma espécie de um recorte biográfico em que Paulino narra a experiência de leitura que teve ao longo dos anos, desde seu primeiro contato com a literatura de Clarice Lispector até o momento da escrita da obra. 

Índice do livro. 



Todos os capítulos começam com "Como", de modo que o livro aborda temas filosóficos em um tom informal, que abre portas. Como uma boa clariciana, Paulino entende que a literatura de Clarice Lispector abre portas e corações e que, portanto, pode ser lida por todos. Chama a atenção, no entanto, que nem sempre ela sentiu assim. No primeiro capítulo, "Como deixar a vida ser o que ela é", Paulino narra uma experiência que foi vivida por muitos leitores: se deparar com uma leitura obrigatória para o vestibular e pensar que ler Clarice não era algo para ela. Em suas próprias palavras, 

"Minha história com Clarice começou com um não.
Como a maioria dos leitores brasileiros da minha geração, conheci Clarice na época do vestibular. Ela estava lá, em alguma lista obscura, entre os autores de leitura obrigatória. (...) Não. Eu não fiquei arrebatada por Clarice a primeira vez que li A hora da estrela, que peguei de empréstimo na precária biblioteca da escola estadual em que eu estudava no Ensino Médio. E não. Não entendi a grandeza da personagem Macabéa, uma nordestina de nome estranho e que mal corpo tinha, tamanha era a sua insignificância." (páginas 21 e 22)

Ao longo não só desse capítulo, mas do livro como um todo, a autora mostra como essa relação mudou, como houve uma aproximação que, de início, se deu de forma lenta, mas que capturou Paulino a ponto de ter livros da Clarice Lispector como companheiros de vida.

Livro Como Clarice Lispector pode mudar sua vida em primeiro plano.
Foto da Clarice Lispector em segundo plano.

"No começo não conseguia ler alguns livros inteiros, ia aos poucos, apalpando o escuro daquela estranha potência. Depois, tudo ficou diferente. Às vezes, totalmente fascinada, fazia mergulhos longos, lia ou relia um livro do começo ao fim numa manhã de sábado, sem intervalos para respirar o ar saturado da realidade que me cercava." (página 24)

Ao abordar temas cruciais da existência humana, a exemplo do amor, da felicidade, da compaixão, do medo, de Deus e da morte, Simone Paulino nos mostra como os livros da Clarice a ajudaram a compreender e a passar tanto pelos momentos bons, quanto pelos momentos desafiadores. E como essa relação literária a fez, de certo modo, se sentir em casa, em paz com sigo mesma, ainda que muitas vezes isso tenha vindo pela sensação de provocação que Clarice Lispector sabiamente lança no colo de seu leitor.

Um ponto abordado no livro — e de que concordo muito — é que a literatura escrita por Clarice Lispector nos faz desacelerar, nos joga em outro espaço-tempo. Ao mesmo tempo que nos puxa para longos mergulhos, em que queremos devorar todas as linhas ali escritas, fazemos uma pausa para nos olhar no espelho: o quanto daqueles personagens há em nós, leitores?

Por fim, vale dizer que Como Clarice Lispector pode mudar sua vida não vai dar um passo a passo para ler Clarice. Ele é mais uma conversa sobre a vida e como a literatura clariciana pode ser um abraço nessa jornada.

"Não quero obviamente oferecer um manual de como ler Clarice, porque os livros dela são uma materia viva e pulsante que não admitem prescrições de nenhum tipo. Mas quero compartilhar com os leitores as transformações que determinadas palavras de Clarice Lispector operaram na minha vida pessoal e no meu pensamento. Quem sabe, a partir destes breves fragmentos, os leitores se identifiquem, se sintam tocados, e possam mais cedo do que eu dizer sem medo um grande SIM a Clarice." (Página 26)



Capa. 📖


Livro: Como Clarice Lispector pode mudar sua vida
Autora: Simone Paulino
Páginas: 122
Editora: Buzz
Apresentação: Quando passei a ler apenas com a emoção, Clarice entrou e se instalou de forma definitiva na minha vida. Até se tornar quase tão indispensável para mim quanto meu pão de cada dia.
Aos poucos, ela se transformou num apoio indispensável para os meus momentos de dor. Uma espécie de oráculo para as minhas dúvidas existenciais. Sempre a palavra justa a conferir sentido ao que me acontecia. Mesmo que a palavra justa estivesse às vezes encoberta no meio de uma escrita muito mais vertiginosa do que meu pensamento era capaz de alcançar.

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

{Vou por aí} Constelação Clarice — a exposição de Clarice Lispector no IMS

terça-feira, fevereiro 08, 2022 4
Vem visitar a Clarice Lispector comigo!


No final do ano passado, aproveitei que tinha acabado de me vacinar com a segunda dose (agora já tomei a terceira) para ir à exposição Constelação Clarice, instalada no Instituto Moreira Salles de São Paulo até 27 de fevereiro deste ano.

Mergulhar no universo artístico sempre é ganhar asas.


Esta mostra tem curadoria de Eucanaã Ferraz e Veronica Stigger (dois estudiosos de literatura) e apresenta ao público as múltiplas facetas de Clarice Lispector. Ali, é possível ver desde documentos pessoais, a manuscritos, pinturas e objetos pessoais da autora. Além disso, também são apresentadas obras de outras mulheres, também artistas visuais, contemporâneas de Clarice (que atuaram principalmente entre as décadas de 1940 e 1970).

As máquinas de escrever de Clarice Lispector e eu. :)


As músicas nos livros de Clarice.

Objetos da casa de Clarice Lispector.

Curriculum Vitae da Clarice Lispector
(sim, até ela teve que fazer um CV na vida!)


A exposição é muito bonita e muito interessante. Por conter cerca de 300 itens da vida da autora, ao visitá-la nos sentimos como se estivéssemos visitando a própria Clarice em sua completude: a escritora, a jornalista, a apreciadora de música, a pintora, a viajante, a mãe, a mulher. Nesse sentido, os dois andares em que a mostra está instalada nos serve de aconchego ao universo da autora e aproxima todos os tipos de leitores, desde os apaixonados aos que sempre disseram ter medo de ler Clarice e aos que ainda não mergulharam na obra dela.

Clarice Lispector na praia.



Algumas cadernetas de anotações.

Documentos da Clarice.

Cartas do Carlos Drummond de Andrade para a Clarice Lispector.

Quadros sem títulos — pintados por Clarice Lispector.

Quadros Pássaro da Liberdade e Ao amanhecer — pintados por Clarice Lispector.


Eu, particularmente, fiquei muito emocionada, porque sempre que dou aulas sobre processos criativos ou sobre literatura, mostro aos meus alunos fotos dos manuscritos da autora (como acontece na videoaula abaixo que elaborei com a Aline Caixeta). Vê-los ali, de verdade, me trouxe lágrimas (sou dessas) e me inspirou demais!

Aula sobre a crônica "A morte de uma baleia", lecionada por mim e pela Aline Caixeta.


Manuscrito de A hora da Estrela.

Manuscrito de A hora da Estrela.

Manuscrito de A hora da Estrela.


Antes que alguém venha aqui dizer "ai, mas que letra feia", vale dizer que o livro A hora da Estrela foi o último escrito por Clarice Lispector. Antes disso, ela sobreviveu a um incêndio em que teve a mão queimada. Esse acidente prejudicou muito os movimentos da mão da autora.

Eu embaixo de umas das muitas citações que permeiam as paredes da exposição.
Esta, retirada do livro Água viva.




As três imagens acima mostram documentos e fotos de quando a Clarice foi convidada a participar de um congresso de bruxaria, na Colômbia. Ela foi e apresentou um conto chamado "O ovo e a galinha".


Algo que muito me impressionou foi a parede com boa parte dos manuscritos do livro Um sopro de vida. Dá vontade (e eu fiz isso!) de ficar ali lendo palavra por palavra, de levar a versão final e comparar com cada trecho que está ali (isso não fiz, mas fotografei tudo para, quem sabe, fazê-lo um dia).

Manuscritos de Um sopro de vida.


"(Autor) Será que Angela sente que é um personagem? Porque, quanto a mim, sinto de vez em quando que sou o personagem de alguém. É incômodo ser os dois: eu para mim e eu para os outros." Manuscritos de Um sopro de vida.


"Solidão. Dessas solidões em que se quer inventar Deus e não se consegue"
Manuscritos de Um sopro de vida.


Neste post eu trouxe uma pequena mostra das mais de 200 fotos que eu tirei da exposição (se você quiser ver mais, diga nos comentários). O post é só para deixar aquela vontadezinha de conferir tudo com os próprios olhos. Se você estiver em São Paulo, visite e me conte o que achou!

Retrato de Clarice Lispector (por Claudia Andujar) e eu superfeliz por estar ali.

Já se você não estiver em São Paulo, ou quiser um spoiler desta lindeza, pode assistir ao vídeo do Instituto Moreira Salles com uma visita guiada pelo curador, Eucanaã Ferraz, pela exposição:


Constelação Clarice

De: 23/10/2021 a 27/2/2022
Quando: Terça a domingo e feriados (exceto segunda) das 10h às 20h. (Última admissão: 30 minutos antes do encerramento.)

Galerias 1 e 2 — 6º e 7º andares
Avenida Paulista, 2424
São Paulo/SP 

Bem próximo às estações Consolação (linha 2 — verde) e Paulista (linha 4 — amarela) do metrô.
Entrada gratuita (mediante apresentação de certificado de vacinação, documento oficial com foto e uso correto de máscara).

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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

{Aula Gratuita} Clarice Lispector e a Morte de uma Baleia: Leitura de uma Crônica

sexta-feira, outubro 23, 2020 14
Vem desvendar esse mundo com a gente!

Olá, pessoal! 
Tudo bem?! 

Escrevo para compartilhar com todos um projeto muito especial em que participei com a minha amiga e escritora, Aline Caixeta. Juntas nós gravamos uma aula chamada Clarice Lispector e a Morte de uma Baleia: Leitura de uma Crônica. Este encontro foi disponibilizado gratuitamente no canal Oficinas Culturais do Estado de São Paulo do YouTube e é a nossa homenagem neste ano de centenário de nascimento da autora.

(Eu sei, eu sei! Muita gente tem medo/receio da literatura clariceana. Mas vem comigo, garanto que você vai gostar!)

Estrutura da Aula



A crônica como gênero literário

Começamos o encontro tratando um pouco sobre o que é a crônica, resgatando as suas características, como ela nasceu. Também contamos um pouco como a crônica consegue absorver vários outros gêneros textuais, quem são os seus principais autores e por que esse é um gênero tão querido pelo leitor brasileiro.

Vida e obra de Clarice Lispector

A Clarice é uma escritora que muitos leitores tem um certo medinho, porque seus contos e romances são tidos por muitos como herméticos, difíceis de serem lidos. As crônicas vão na contramão disso, falando do cotidiano da autora. Sendo assim, apresentamos aos nossos expectadores a vida e a obra de Clarice para que todos possam se aproximar mais dos textos escritos por ela.

Morte de uma baleia

Por fim, fizemos a leitura da crônica "Morte de uma baleia" e batemos um papo trazendo uma análise crítica baseada nos pontos apresentados anteriormente, observando na prática como as características do gênero textual e da vida da autora estão presentes no texto.

Aperte o play! ;)


Para continuar estudando

Na descrição do vídeo há um link para o material utilizado na aula. Você pode fazer o download e continuar os seus estudos.


Espero que vocês gostem!
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