quinta-feira, 29 de julho de 2010

[Resenha] Dias & Dias

Capa da obra
Inspirado na poesia “Dias após dias” de Rubem Fonseca, o romance-histórico Dias & Dias, de Ana Miranda é poético e surpreendente. A obra relata a vida do poeta e escritor do Romantismo brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864), o Antônio da apaixonada – e apaixonante – menina dos olhos “quase” verdes, Feliciana (Maria Feliciana Ferreira Dantas).
Narrado em primeira pessoa, a trama parte da infância dessas personagens em Caxias (cidade nordestina) a partir da ótica da menina; e nos conta sobre o preconceito vivido por Antônio – uma vez que ele era filho de uma escrava com um português, mulato, portanto – além de relatar o amor que o poeta sentiu por Ana Amélia (Ferreira do Vale) e sua amizade com Alexandre Teófilo (de Carvalho Leal).
Os costumes da época e do local chegam até o leitor por meio de personagens como o pai de Feliciana, além de João Manuel (pai de Antônio), da Negra (mãe biológica de Antônio), de Adelaide (madrasta de Antônio), de Natalícia (tia de Feliciana) e do Professor Adelino. Os sabiás da "Canção do Exílio" também permeiam e enriquecem a obra.
Ao contrário do que muitas vezes se espera de um romance-histórico, o livro não é maçante. A linguagem simples empregada pela narradora cativa os leitores. Além disso, os fatos inspirados nas cartas reais trocadas entre Gonçalves Dias e Alexandre Teófilo conferem um ritmo a sucessão de acontecimentos que desperta no leitor o desejo de não parar a leitura. Soma-se a isso, o lirismo Romântico que, por sua vez, deixa a narrativa harmoniosa, musical; sem se tornar, todavia, melosa e enjoativa. Aliás, poderia dizer que o fato de o livro ser romântico sem ser enjoativo foi o que me deixou apaixonada por esta obra.

“Então era aquilo o sentimento do adeus, a ventura do partir, os arpejos da liberdade tocavam meu coração e faziam meu corpo tremular, ventos e correntezas e cabelos, viver para o horizonte, então era aquilo a brisa favorável, a vasta amplidão do mundo que embriagava! As minhas horas passavam curtas e cheias de um inefável suspense, eu nunca havia experimentado aquela sensação de folha ao vento a esvoaçar sem custo, de respirar o espaço e galgar os escarcéus, nunca havia imaginado um mundo que mudasse a cada instante, nem que pudesse haver tanta amplidão de matas, e o coração impleido por algo que não era o amor, mas tão intenso quanto o amor, além das montanhas, além das nuvens, além da amplidão, partir, separa a alma da terra, deixar o pai, deixar o percurso de uma lua, uma rosa jogada às ondas do mar, palinódia!”


Ficha Técnica:
Obra: Dias & Dias
Autora: Ana Miranda
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 243
Ano da publicação: 2002

Um comentário:

  1. Adoro esse livro, um dos meus favoritos, mesmo. A Ana tem esse dom de transportar a gente pra outra época usando só as palavras, mesmo. Já leu Boca do Inferno?

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