domingo, 15 de fevereiro de 2026

Os ventos do carnaval não movem moinhos



Parecia vinda de algum invisível moinho de vento. Era incontrolável. Depois de tantas cores, tantas músicas, tantos estímulos, o silêncio. Ao longe, um bêbado ou outro se equilibrando em uma esquina, buscando um lugar menos ruim para vomitar. Cidade no limbo entre fim de festança e volta ao trabalho. Aquilo era hora de parir uma explosão interna e incontornável? O azul-petróleo já ganhava tons de luz no horizonte ao leste, e o olhar profundo de Fátima desaguava em mar. Tormenta. Abraço que é casa, mas que também é despedida. Mesmo depois de tanto tempo, o fim ainda era tão gritante na cabeça dela. Principalmente em momentos em que apenas os pássaros cantam na selva de pedras.

(Como ninguém percebia: juras? Mentiras? Tudo tão visível quanto a luz solar.)

A Quarta-Feira de Cinzas anunciava a calmaria de sua aurora. Um novo dia, um novo começo. A sabedoria popular diz que o ano só começa mesmo depois do carnaval. E de um corte (radical) de cabelo. Entre um soluço e uma fungada, estava decidido: ligaria no salão, marcaria um horário o mais breve possível. Cabelo curto. Roupa curta. Fim de verão e nascimento de uma paciência cada vez mais restrita, a única possível para quem teve o coração partido tantas vezes que não sabe nem como ele ainda continua bombeando sangue no peito.

Peito pequeno. Apesar dos pesares, coração gigante. Sangue latino. Fátima seguiria sozinha, assumindo os pecados dela e de Álvaro (ainda que vivo, ele seria um de seus mortos?). Seguiria quebrando lanças, povoando generosidade, sendo os ombros do mundo: aquela que sempre ama demais, com sua alma cativa. A última noite morria. O sol já despontava. Era Quarta-Feira de Cinzas, e ela entendia as lágrimas. Todo carnaval tem seu fim, rompe com os velhos tratados, leva milhares de fios de cabelo, buscam por guinadas. O desaguar sempre fez sentido em todos os caminhos, que apesar de serem tortos, sempre a levaram para casa — mesmo que como em um grito, num desabafo.

🌙🌟🌞



Conto inspirado na canção de Ney Matogrosso e no tema "a última noite".



Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de fevereiro de 2026 é a última noite.
Para saber os outros temas e como participar, clique aqui.


Para ler sobre a primeira aparição de Fátima e Álvaro aqui no blog, clique aqui.


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16 comentários:

  1. Por mais que em sentido literal essas quebras (ano novo, segunda feira, "depois do Carnaval") sejam apenas o dia seguinte, é incrível como de alguma forma eles impulsionamento alguns movimentos desejados e/ou necessários.

    E na história de Fátima, que com o fim do Carnaval, ela possa dar fim às dores que atravessam seu coração!

    Um beijo!

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    1. Rituais são sempre necessários, né? É incrível o efeito que eles têm em nós!
      Um beijo, amiga!

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  2. Oi Fê, tudo bem?
    Amei conhecer a sua escrita e adorei o conto.
    Conseguiu transmitir muito bem o sentimento de fim de Carnaval, daquela sensação da pós-euforia. Ansiosa pra ler os próximos!
    Beijos,

    Priih
    https://infinitasvidas.wordpress.com

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  3. Fê, adorei o tema da vez. ♥ E achei bem interessante esse trecho "ainda que vivo, ele seria um de seus mortos?". Para refletir, sem dúvida!

    Bom Carnaval!
    Beijos, Carol
    www.pequenajornalista.com

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    1. Algumas pessoas morrem pra gente, mesmo vivas, não?
      Um beijo :*

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  4. Oi, Fê! Como vai? Adorei o conto, aliás você como sempre arrasando na escrita, não é mesmo? Um abraço!

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    1. Oi, Lu!
      Obrigada pelo elogio! Fico feliz que você tenha gostado. :)
      Um beijo!

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  5. Bela reflexão sobre o carnaval. Gostei de ver.

    Boa semana!

    O JOVEM JORNALISTA está em Hiatus de verão entre 03 de fevereiro à 09 de março, mas comentaremos nos blogs amigos. Mesmo em Hiatus, o JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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  6. Fátima é uma mistura de fragilidade e força. A forma como ela fala de Álvaro traduz, com delicadeza, essa dor de perder alguém que continua existindo no mundo, mas não na nossa vida. E a maneira como ela segue, mesmo em meio à dor, por caminhos tortos, mostra que, no fundo, ela sabe que vai chegar em casa.

    É isso que nos faz terminar a leitura com a sensação de que, apesar de tudo, ela vai seguir. E isso é bonito demais.

    Blog Profano Feminino

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    1. Seguir, apesar de tudo. Isso é importante demais! :)
      Obrigada pelo comentário, Ane! :)

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  7. Adorei o texto. Ele passa muito bem essa sensação de ressaca emocional depois do carnaval, quando o barulho acaba e a gente fica só com o que está sentindo por dentro.
    Gosto especialmente da forma como você liga a Quarta Feira de Cinzas a um recomeço pessoal. O corte de cabelo funciona como um símbolo simples e muito real de mudança.

    www.saidaminhalente.com

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    Respostas
    1. Os pequenos rituais de recomeço são sempre muito importantes, não é mesmo?
      Obrigada pela leitura tão atenta!
      Um beijo

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