Pequenas reflexões sobre ser mulher e feminismo necessário de cada dia

A caminhada é longa...

Voltava no metrô com minha amiga da pós. Era mais de meia noite, e ela estava preocupada: teria que andar a pé da estação até em casa em uma rua deserta. Sugeri que ela pegasse um táxi, mas a resposta foi instantânea: “tenho medo”. Sorri amarelo. Eu também sinto o mesmo.

De uns tempos para cá, me peguei pensando em tudo o que antes considerava normal e enquanto anormal essas coisas são. Por que eu tenho que ter medo de andar na rua ou de pegar um táxi ou de usar um vestido curto (principalmente se for à noite)? Por que eu não posso escolher uma profissão dita masculina? Por que eu não posso viajar sozinha? Por que eu não posso escolher ser diferente do padrão capa de revista? Tudo só por que meus genes são XY?

Estava lendo um texto que a Bia Lombardi compartilhou no Facebook dela. Uma jornalista que sofre de compulsão alimentar porque – dentre os motivos que a levou a esse quadro – ouviu um homem dizendo que “gorda não é mulher”. Também vi um vídeo da Carla Nascimento, em que ela era questionada por ter o cabelo com ele é. Esse tipo de coisa me faz pensar “até quando?”.

Tudo o que sei sobre feminismo é de um estudo autodidata. Leio tudo o que cai nos meus olhos, converso com algumas pessoas com quem me sinto mais à vontade, sei que tenho muito o que aprender sobre isso e, sobretudo, sinto vontade de lutar (mesmo que ainda não saiba direito como).

Esta semana falava um pouco sobre isso com a Cah. Ela questionava a sororidade seletiva. Eu dizia o quanto a gente ainda precisa caminhar. Acho positivo demais que as mulheres estejam ganhando cada vez mais força para usar as mídias sociais para falar sobre seus medos, seus traumas e suas superações. Contudo, a caminhada ainda é longa, porque as pessoas estão começando a se questionar com mais força agora. Se a gente parar para comparar há quanto tempo os homens se acham superiores por serem homens e há quanto tempo as mulheres conseguiram ter forças para lutar pela igualdade, teremos uma discrepância grande. Se as pessoas ainda têm preconceito com o feminismo; isso, em consequência, distorce a sororidade.

O assunto com a Cah surgiu por causa da polêmica que houve no Big Brother Brasil. Não assisto ao programa e tudo o que sei é o que leio sobre no Twitter e no Facebook. O que me espanta nessa história toda, contudo, é que as pessoas gostem de ver – seja em um reality show, em um filme, ou em qualquer outro lugar – cenas de violência física e psicológica e fiquem fomentando tudo isso. Acho que isso também gera a sororidade seletiva – que só defende a quem convém. Quando se faz qualquer coisa para se ter audiência, não se pode esperar compaixão.

A caminhada é longa, mas não é por isso que devemos desistir. Eu acho formidável conseguir perceber que não é normal eu sentir medo, que não é normal eu ter que pensar onde e como vou me vestir com medo de ser atacada, que eu não preciso me matar para caber em um modelo. Digo que acho formidável, porque antes engolia essas imposições todas – e sofria com elas – sem me dar conta do quanto isso é inaceitável. Hoje, graças ao feminismo, eu não me calo.

Em um mundo tão caótico, eu sinto uma dose de esperança quando eu vejo minhas alunas, que estão entrando na pré-adolescência, conscientes de que elas podem, sim, ser o que elas querem. Fico feliz quando percebo que elas estão apoiando umas às outras nesta jornada. Talvez a sororidade indiscriminada nasça dessa geração.

PS: Para quem quiser saber mais sobre o feminismo, recomendo o site da Universidade Livre Feminista. Também recomendo o Guia Prático para Entender a Cultura do Estupro e Como Combatê-la, do site AzMina.
PS²: Para saber mais sobre os conteúdos produzidos pela Bia Lombardi e pela Carla Nascimento, acesse o Incendeie seu gênio criativo e o Faltou Açúcar.

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2 comentários

  1. Oiii
    concordo em tudo que você disse, sou feminista também.
    Acredito que estamos aos poucos conquistando mais direitos e poderes.
    O problema é que as próprias mulheres agem contra as outras mulheres
    Quem propaga o machismo são as próprias mulheres, o que é lamentável.
    A própria mídia incentiva isso o tempo todo com esses programas que não apresentam nenhum nível educativo ou social, como você mesma disse as pessoas gostam de ver violência física e psicológica.
    Talvez eu ou você não precisamos do feminismo, mas talvez a nossa vizinha precise, a nossa amiga que sofre abusos de qualquer natureza.
    Adorei o post
    Bju
    Karina Pinheiro

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  2. oi, oi.

    Fê, o feminismo ainda é uma luta que tá ganhando espaço no país justamente por mais pessoas estarem conversando sobre. juro pra ti que me dói tanto quando vejo outras mulheres banalizando o movimento. poxa, tem gente ali lutando pelos direitos delas também.

    eu apoio o Feminismo, mas já tive uma experiência com um grupo daqui da cidade que não foi boa. eu estava num grupo de militantes, gostava de conversar e participar dos debates e, infelizmente, me tiraram do tal grupo pq eu era homem. o argumento usado era de que eu não sabia de nada do que elas passavam... fiquei com preguiça e decidi propagar mais o tema nas rodinhas de amigos. sempre quando surge espaço, trago o assunto pra debatermos. se vejo algum cara com ideia machista, já dou aquela sambada na cara acordando-o pra realidade.

    texto maravilhoso que fez me refletir sobre a minha realidade. btw, propague mesmo o feminismo. <3

    bjs!
    Não me venha com desculpas

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