domingo, 31 de maio de 2026

Desconexo

domingo, maio 31, 2026 0


*Texto escrito em abril de 2022.

Sempre que algo importante está para acontecer, eu sonho comigo andando por aqueles corredores, naquele banheiro, naquelas salas de aula. Sempre que algo importante está para acontecer, eu volto à escola em que estudei por aqueles anos mais bonitos da minha infância.

Talvez aquela escola seja o meu forte, meu porto seguro, o lugar onde fui feliz sem saber que aquilo era felicidade. O local onde eu gostaria que todos estivessem lá comigo. Talvez eu só esteja sendo nostálgica, mesmo. Isso — ser nostálgica — é algo da minha natureza, sempre foi.

Estava no banheiro, falando com alguma amiga — qual delas, meu Deus?! — sobre o meu desejo de parar de usar sutiã e a necessidade de naturalizar o “farol aceso”. Trocava de roupa. Colocava uma regata de alça finininha. A blusa era amarela. A alça do sutiã, azul marinho. Dispensava o sutiã e me sentia dona de mim. Aquele era só um corpo. Aqueles eram só mamilos embaixo de uma blusa. Me sentia poderosa, porque estava livre. Algo de grandioso aconteceria ao sair dali. Algo profundo.

Acordei com dor de cabeça, sentindo as têmperas latejarem. Ainda há guerras e dores no mundo. Ainda há pandemias e lockdown. Ainda há mortes. Minha cabeça lateja em um dia de terapia, aulas e lives. Três semanas do ano já se foram. Algo de grandioso está chegando. Algo incrível.

Abro o YouTube, vejo a Patti Smith lendo trechos de Só Garotos e de O ano do Macaco. Ela não desiste e me ensina a não desistir também. People have the power, because the night belongs to us. O mundo há de dar certo. Pulo para o Chico Buarque e tento respirar enquanto tomo um gole do chá de boldo que fiz antes de apertar o play nesses vídeos todos. São mais 11 horas, “deveria estar trabalhando”. Deveria tantas coisas. Queria ser muitas, sou uma só. Algo de grandioso acontece. Algo magnífico.

Sinto saudades. Sinto vontade de falar do dia a dia. Sinto vontade de dizer que “sim, eu gosto pra caralho de você”. Sinto demais, tenho coração de poeta. Não sei fazer prosa, não sei fazer dramaturgia. O diálogo é sempre tenso. Eu sinto muito. 

Sinto demais, sinto demais, sinto demais. Algo de grandioso bate à porta. Algo maravilhoso. Você estará aqui para pegar na minha mão?
_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 24 de maio de 2026

Negativo

domingo, maio 24, 2026 2
Imagem por Markus Spiske, via Pexels.

não temos fotos.
o duende levou consigo o registro mágico do Natal.

não há memórias.
as doçuras foram levadas pela tempestade de verão.

não há amor.
como explicar a ilusão do que aconteceu,
quando o sentimento não era recíproco?

não há saudade.
como entender o que está acontecendo agora,
com uma comunicação inexistente?

em um tempo em suspenso,
o relicário segue pendurado no pescoço:

nele há dois lados que seguem vazios.
 
provavelmente nunca mais serão preenchidos.

💔📷💚

Texto escrito a partir da proposta do Vivenciando a Escrita,
cujo tema de maio de 2026 é relicário.
Para saber os outros temas e como participar, clique aqui.

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 17 de maio de 2026

Como trazer uma língua estrangeira para a nossa rotina

domingo, maio 17, 2026 6
Você tem dificuldade para estuda uma língua estrangeira? Vem que este post é para te ajudar!

Sou professora de inglês desde 2009. Além desse idioma, também tenho nível avançado no espanhol. Então, tanto amigos quanto alunos me perguntam como estudar quando falta tempo e, principalmente, quando falta energia para sentar, abrir um livro ou um caderno e fazer uma sessão focada de estudos.

O que eu sempre digo é que quanto mais a gente aumenta o nosso tempo em contato com a língua estudada, mais fácil vai ficando. Sendo assim, o que trago aqui são estratégias para aumentar o tempo de contato com a língua que se está aprendendo. As estratégias listadas servem para quaisquer línguas e exigem poucos recursos (livros, cadernos, conexão com a internet).

A lista está dividida por nível da sua energia: coisas para você fazer quando estiver sem disposição, normal/ok, com disposição. A ideia é que você possa trazer a língua estrangeira para o seu dia a dia, mesmo quando não estiver tão a fim de estudar. Entretanto, já deixo a ressalva: nada como aprender com a mente descansada. Se você puder descansar, faça isso. 😉

Foto de Tim Gouw, via Unsplash.

Baixo nível de energia:

  1. No caminho para o trabalho ou para casa você pode nomear cada cor ou cada nome de lugar por onde passar na língua de estudo;
  2. Enquanto malha, você pode contar as suas repetições na língua de estudo;
  3. Nos seus momentos rolando nas redes sociais, você pode escrever um comentário para um produtor de conteúdo nativo;
  4. Enquanto cozinha, você pode colocar um programa de culinária na língua que está aprendendo e deixar tocando de fundo. (Quem é a Ana Maria do país que fala a língua que você está aprendendo?)
  5. Ao mesmo tempo em que você lava a louça, você pode dizer os nomes dos utensílios de cozinha e dos ingredientes usados na refeição que acabou em voz alta;
  6. Ao assistir filmes e séries, coloque a legenda no idioma estudado (mesmo que seja uma série ou um filme brasileiros, coloque a legenda em língua estrangeira!);
  7. Enquanto toma banho, coloque um podcast ou um audiolivro para tocar;
  8. Ao mesmo tempo em que escova os dentes, faça uma contagem regressiva na língua aprendida;
  9. Quando você tentar focar, faça uma meditação guiada na língua que você está estudando.
  10. Configure os seus equipamentos (computador, tablet, celular, TV etc.) para a língua que você está aprendendo.

Imagem via BrasilcomS.

Nível médio de energia:

  1. Se grave falando na língua estudada. Você pode falar como foi o seu dia, contar aquela história famosa que todo mundo conhece na sua família ou explicar qual é a sua profissão e os detalhes da sua rotina de trabalho;
  2. Faça exercícios de um livro de estudo ou de uma gramática;
  3. Escreva o seu planejamento diário ou semanal na língua estudada;
  4. Escreva a sua lista de compras do dia a dia ou a sua lista de desejos na língua que você está aprendendo;
  5. Crie uma lista ou um caderno só para estudo de vocabulário;
  6. Assista a vídeos na língua estudada e anote as palavras que você não conhecia ou não entendeu na sua lista ou no seu caderno de vocabulário;
  7. Grave um recado na língua estudada para você ver/ouvir no dia seguinte;
  8. Escreva um diário na língua estudada;
  9. Faça etiquetas com os nomes dos objetos / móveis na língua que você está aprendendo e cole nele;
  10. Leia um livro na língua alvo de estudo;
  11. Escolha uma música e cante-a lendo a letra ao mesmo tempo;
Foto de Unseen Studio, via Unsplash.

Alto nível de energia (ideal para longas sessões de estudo):

  1. Escolha um vídeo. Assista uma vez. Depois coloque o mesmo vídeo novamente. Dê pausa entre as falas. A cada pausa, repita o que foi dito;
  2. Faça o exercício de shadowing: coloque um vídeo e fale ao mesmo tempo que a pessoa. Repita várias vezes;
  3. Veja um vídeo na língua estudada sem legendas;
  4. Escolha um vídeo ou um podcast e escreva de 5 a 10 frases sobre o que você aprendeu com ele;
  5. Escolha uma palavra do seu caderno ou da sua lista de vocabulário. Escreva de 5 a 10 frases colocando-a no contexto do seu dia a dia, da sua rotina;
  6. Escreva um texto com o tópico gramatical que você está estudando;
  7. Leia um texto em voz alta. Se grave lendo. Ouça a gravação e corrija possíveis erros de pronúncia;
  8. Leia um artigo ou um capítulo de um livro em inglês. Usando uma cor, destaque as palavras que você não conhece. Usando outra cor, destaque as palavras-chaves do texto. Procure o significado delas no dicionário (há bons dicionários online);
  9. Faça um resumo do que você leu/assistiu/ouviu na língua estudada;
  10. Escreva uma carta para o seu eu do futuro. Escolha uma data para abri-la (último dia do ano, seu próximo aniversário etc.).
  11. Se cadastrar no site do postcrossing, escolher um endereço de destino na língua estrangeira e enviar um cartão postal físico pelo correio.
Foto de Becky Phan, via Unsplash.

Lembrando que:

Essas sugestões não substituem a aula com o professor, elas servem como complemento. No meu caso de professora, eu gosto quando os meus alunos implementam essas dicas, porque eles fazem aulas comigo apenas uma vez por semana e este é um jeito que eles encontram de seguir praticando. Já como estudante, faço isso tanto para as línguas que já sei (inglês e espanhol), quanto para as que quero aprender (alemão e italiano).

Outro lembrete importante é que tudo isso (e o que vou dizer vale para qualquer aprendizado) deve ser divertido. Pense nos seus piores momentos da escola e você vai ver que você não aprendeu (no máximo, memorizou). Isso porque é muito mais difícil aprender quando a gente considera algo chato. Tornar o aprendizado divertido é meio caminho andado para conseguir apreender e colocar a língua estudada em prática com confiança.

Agora me conte: o que você pretende implementar na sua rotina de estudos?
_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

domingo, 10 de maio de 2026

O amor é uma K-46

domingo, maio 10, 2026 7

*Texto escrito em 2019.


Definir o amor como uma arma é tão comum que a expressão, antes poética, agora não passa de um mero clichê. Mas o que não é um clichê, se não uma imagem que faz com que a gente a use até gastá-la, de tanto que se identifica com ela?

Essa semana, fui almoçar com uma das professoras que trabalha comigo. Quando a encontrei, ela estava pálida, tremendo mais que vara verde. Via em seu rosto que ela buscava uma forma de me explicar o que se passava, mas ela mesma estava tão passada que não conseguia encontrar as palavras. Passava o celular de uma mão a outra, tentava tirar o cabelo do rosto, enquanto caminhava rápido. Quando finalmente nos distanciamos do colégio, ela soltou em um atropelo:

— A Vânia disse que quer que o José morra, você acredita? Quando eu perguntei o porquê, ela respondeu que é porque ele é diferente, porque ele tem dois pais.

Senti o ar entrando em meus pulmões, mas não consegui fazer os meus neurônios se articularem. Como assim, uma aluna minha, uma criança de oito anos sendo tão homofóbica? Como pode uma criança desejar a morte de outra tão gratuitamente? Na hora, a imagem que veio na minha cabeça foi a de todos os meus amigos gays, lésbicas e bis, o quanto eles são maravilhosos, o quanto eles não deveriam sofrer por apenas existirem. Como o amor alheio pode incomodar tanto?

— Eu perguntei para a Vânia se ela acreditava de verdade nisso que dizia — completou a minha amiga — ela respondeu que não. Tenho certeza que isso é coisa que deve ter ouvido dos pais.

Coisa dos pais. Meu sangue ferveu na hora que concluímos isso. Adultos semeando o preconceito em pessoas tão pequenas. “Ninguém nasce odiando”, já diria o Mandela. Ninguém nasce odiando, mas aprende com os pais, com a sociedade, em todos os lugares. Isso é desesperador e pensar em tudo o que o pequeno José pode ter sentido ao ouvir um absurdo desses me deixou profundamente abalada.

Li que algum desses escritores famosos disse que um bom autor não pode escrever com raiva, porque assim o texto não fica bom. Fico me perguntando como escrever sobre ver outras pessoas sendo massacradas apenas por existirem sem ter sangue nos olhos. Sem sentir esta fúria que cresce em mim. Como amar em tempos de ódio?

Hoje eu acordei com a notícia que o prefeito do Rio de Janeiro mandou apreender uma HQ da Marvel que estava sendo vendida na Bienal Internacional carioca, porque em um dos quadrinhos, dois personagens homens se beijam. Segundo ele, esse material continha “conteúdo pornográfico”. Pleno 2019, e eu tendo que lidar com censura no Brasil. Mais uma vez meu o sangue ferveu.

Como escritora (e tendo amigos que também o são), quero poder escrever sobre o que eu quiser. Quero que os meus leitores possam ler o que eles quiserem. Quero que meus amigos e desconhecidos possam existir. Sem represálias, sem medo, com o direito de amar quem eles quiserem. Quero que as pessoas vivam à base do amor. Por isso escrevo esta crônica. Porque preciso me juntar a todos que acreditam que compartilhar bons sentimentos é válido e ir à luta.

Vamos produzir, sim. Vamos consumir, sim. Vamos amar. O amor é o nosso combustível e a nossa arma. Ele é a nossa K-46. Por mais que dizer isso soe o maior clichê dos clichês, é amando que venceremos todo esse preconceito.
_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

6 on 6: linhas

quarta-feira, maio 06, 2026 16


Ao longo do mês de abril, nosso grupo do 6 on 6 foi atrás das linhas. Linhas que (nos) sustentam, linhas que se cruzam, linhas que levam a lugares nos juntando ou nos separando de quem amamos (ou odiamos, vai saber?). 

Sendo assim, eu trouxe seis visões das minhas linhas queridas. 

Aula de canto. 

Lousa da aula de canto. Cantar (certo) tem sido uma descoberta e um desafio. É muito legal aprender novas habilidades e, ao mesmo tempo, tem sido muito difícil. A parte teórica é muito complicada pro meu cérebro abstrato. Neste dia, a professora explicou algumas coisas sobre escala e clave de Sol.


🎶All my troubles seemed so far away🎵

Estamos ensaiando três músicas. Uma delas é Yesterday, dos Beatles. A professora toca no piano, e nós todos cantamos. É difícil soar bem, mas sigo. Na foto, as linhas do teclado e da partitura da música.


Linhas no parque.

Amo o fato de fazer aula de dança dentro de um parque. Adoro poder ver as árvores e respirar um pouco de ar puro. 

Pau Brasil.

Lá no parque tem esse jovem Pau Brasil. Sempre que eu vejo uma árvore dessa espécie, fico feliz. É algo que não é tão comum; mas, pra mim, é um símbolo de resistência. Nós ainda existimos, apesar de tanta pressão, de tanta destruição, continuamos aqui. 

Camomila ao sol de outono.

Sempre que as pessoas me perguntam como diferenciar a Poesia da Camomila, eu digo que a Poesia é a minha onça (ela não tem listras, mas manchas na pelagem). Já a Cacá é a minha tigresa, cheia de listras. Acho bonito como a pelagem dela é cheia de linhas bem definidas. Camomila é uma gata elegante, que ama sol e não se submete ao que os outros querem. Aprendo demais com ela.

Manta do Clima.

Fiz um monte de fotos da minha manta do clima, porque quero fazer um post sobre ela aqui no blog e um vídeo lá no canal, mostrando o resultado final depois que a terminei. Quem quiser ver mais e saber mais de como foi o processo de tecitura, pode ver a playlist lá no canal.

Estas foram as minhas linhas. O que você fotografaria?

📷📷📷

Equipamentos usado no post:

Todas as fotos deste post foram feitas com o celular, exceto as duas últimas (da Camomila e da manta), que foram feitas com a minha Nikon D3100.

Mais 6 on 6:

Veja os outros posts integrantes deste 6 on 6 em: ReticênciasSweet LulyInventando assuntoCamila por aí e Adriel Christian.

Confira as outras edições do meu 6 on 6:
01 📷 02 📷 03

_____________________________________________________________
Gostou deste post?
Então considere se inscrever na Newsletter para receber boletins mensais 
ou me acompanhar nas redes sociais: