domingo, 15 de dezembro de 2019

Sexta-feira, 13

Imagem de engin akyurt, por Pixabay.
Comprei a água errada e só me dei conta depois de pagar. Já estava na rua, embaixo de um sol de 35ºC, quando ouvi o “tchiiiiiiiiiiiii” do gás saindo ao desrosquear a tampa. Comprei a água errada. Paciência. Já havia me atrasado. Meus pés estavam inchados na sandália plataforma, e a semana... ah! A semana! Ela tinha sido a própria personificação do que é o caos. Então qual era o problema de sentir sede ou de tomar a água errada?

De uns tempos para cá, a minha vida parecia um eterno looping de comprar a garrafa de água com gás. “Nada acontece que a gente não esteja permitindo”. Se não foi isso, foi algo parecido o que a minha psicóloga me disse. “Preciso dar um jeito em tudo isso”, penso coçando a cabeça, enquanto um carro buzina querendo apressar o meu atravessar de rua.

Como se dá um jeito na vida quando o seu coração diz A, sua cabeça diz B e as circunstâncias exigem X,Y, Z? Olho o céu em busca de respostas. Deus, Universo, Deusas, Natureza. Preciso de help! Ouço o silêncio e guardo a informação.

Entro no metrô. As pessoas estão imersas em seus dramas, com semblantes abatidos. Não sei se é a minha exaustão que se reflete, mas ninguém parece feliz ali. Fico pensando se os problemas delas são maiores ou menores que os meus (existe um modo de mensurar problemas?). A mulher sentada à minha frente parece entediada. Um tédio triste, de quem não sorri há muito tempo. Não reparo quando ela desce, mas logo noto o casal de idosos apaixonados que tomam o lugar dela e o banco ao lado. A serenidade dos dois, com os dedos entrelaçados, me diz que eles já superaram muitos dos perrengues da vida e que um problema hoje é apenas isso: um problema. “Isso é uma fase. Tudo o que vem passa, é isso que me ajuda hoje”. A lembrança da minha própria voz ecoa de forma duvidosa na lembrança da sessão de terapia de meia hora atrás.

Tiro o celular da bolsa e abro o Google Maps. Preciso descobrir se a minha memória estava boa e se o banco ainda é onde eu acho que é. É. Tinho que ir até lá, sacar dinheiro e correr para a dentista. Por que eu não coloquei no planner “sacar dinheiro para a dentista”? Talvez tenha colocado. Não me lembro. Sempre me sinto hipócrita quando coloco algo na agenda e não olho. Cobro tanto dos meus alunos para fazer isso.

Desço na estação. O céu, que estava cinza quando saí de casa, agora é preto. O chumbo das nuvens. Sempre achei que a natureza reflete um tanto do meu estado interno, o que é muita pretensão, mas me conforta. Corro entre as pessoas. Quero chegar na dentista antes da chuva. Detesto a sensação de pé molhado. Corro, porque minha consulta é em dez minutos. Corro até que paro.

Um homem está deitado na sarjeta, como se estivesse dormindo. Suas mãos estão ensanguentadas. MUITO ensanguentadas. Por sorte, se é que a podemos chamar de sorte, um grupo de mulheres está ao seu redor, com o celular na orelha, chamando o Corpo de Bombeiros. Aquela imagem me atinge em cheio. Não paro, porque me parece que já há muita gente ali, entretanto fico com aquela pessoa na cabeça.

Saio do banco. Caminho os dois quarteirões de volta à estação e mais dois até a dentista. No meio do caminho reparo na quantidade de pessoas – homens, mulheres, idosos, jovens e crianças – dormindo nas ruas, pedindo ajuda. O grupo de mulheres ainda prestavam assistência ao homem das mãos ensanguentadas. Já os outros transeuntes ignoravam as outras pessoas das sarjetas.

Mais uma vez, olho para os céus em busca de respostas. Eu nunca sai bem o que fazer, como agir. Sempre me bate uma sensação de que ali, tendo a rua como casa, poderia ser um dos meus. Isso sempre me angustia. E o nó no peito cresce quando vejo como essas pessoas são ignoradas, como elas são invisibilizadas. O que fazer para tornar uma situação tão desumana menos dura? Como acabar com esse terror?

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12 comentários:

  1. Oi, Fernanda como vai? Que texto maravilhoso, eu adorei! A propósito acredito que não existe solução de acabar com as situações desumanas no planeta, infelizmente. Esse mês de Dezembro costuma ser um terror para este que vos escreve, não gosto do último mês do ano, apesar de nele haver Natal e Reveillón não gosto de Dezembro, pois é um mês muito corrido e estressante, teve até uma sexta-feira 13 nele acredita. Pois é! Um forte abraço e boas festas.

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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    1. Oi, Luciano!
      Infelizmente essas situações desumanas independem do mês. Elas estão cada vez mais escancaradas ao longo do ano.
      Quanto a dezembro, adoro o Natal, mas entendo o quanto essas festividades de fim de ano podem ser difíceis para algumas pessoas. :( Espero que você consiga ficar bem. ;)

      Um beijo

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  2. Adorei o texto, tanto que até ficou aquela vontade de ler mais um pouco! :) Beijinhos
    --
    O diário da Inês | Facebook | Instagram

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    1. Oi, Inês!

      Fico feliz que você tenha gostado!
      Quem sabe essa reflexão não surja de novo?

      Um beijo

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  3. Realmente as pessoas estão vivendo tormentos atualmente. Que possamos encontrar em Deus sabedoria para ajudá-las.
    Boa semana!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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  4. Amiga,
    Que texto! Eu me questiono isso quase sempre. Como a gente pode ficar em paz sabendo que tem tanta gente vivendo em condições tão precárias e perigosas?

    Ver como essas pessoas são desumanizadas e muitas vezes passam por invisíveis me dá um nó no peito também.

    Um beijo,
    Line

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    1. Ai, Line,
      Quanto mais eu me pergunto isso, menos eu encontro respostas. É um nó que carrego para cima e para baixo. Espero que ele se desfaça.

      Um beijo :*

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  5. É um texto incrível o seu. Confesso que passo por pessoas que moram nas ruas e acabo passando direto, mas elas não saem da minha cabeça. Me pergunto o motivo de terem ido parar ali, por que não saeam dali, por que ninguém as nota. E se fosse eu? Será que alguém notaria? Será que passariam direto por mim sem nem olhar? São perguntas que me faço sempre, mas ainda não achei a resposta para elas... :/

    Mundinho da Hanna | Instagram | Skoob

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    1. Ai, Hanna!
      Entendo o seu desconforto. Eu me pego me perguntando como posso trazer humanidade sem me colocar em risco, sabe? Porque tem tudo aquilo de ser mulher numa sociedade machista. Como lidar com essas pessoas e apoiá-las de algum modo?

      É difícil.
      :/

      Um beijo :*

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