sábado, 14 de setembro de 2019

Eu não sou uma máquina

Foto: Patricia Rodrigues
O perfeccionismo me pegou e, mais uma vez, me traiu. Talvez seja por conta de mais uma volta ao redor do sol — a 33ª que se inicia virginianamente agora em setembro — ou porque eu esteja há duas semanas sem ir para a terapia, ou ainda porque a minha cabeça esteja voltada em mais um ou dois projetos que quero pôr para rodar ainda este ano, mesmo tendo o volume de trabalho que tenho. As incertezas várias e a vontade de entregar tudo incrível me deixou aqui paralisada, na chave da perfeição. 

Não falo da perfeição que quer me encaixar ou não em um padrão de moda e beleza e me faz pensar em como vou me apresentar ao mundo. Tampouco daquela que me faz organizar tudo por cores, ordem alfabética, localização e dados que se cruzam, como as pastas da Monica Geller, de Friends. Não falo da perfeição que me faz entregar tudo nos prazos previstos, mesmo que isso implique em noites sem dormir para dar conta de tudo. Falo de algo que vai mais além, da perfeição que me priva do mundo, da que me faz buscar o impossível, da que me impele ao desejo de algo que nunca fora visto antes. Falo da perfeição que me obriga ter que fazer tudo impecável sem margens ao erro, porque preciso disso para provar o meu lugar ao sol (uma vez que sou mulher, negra, vinda de uma classe que está engatinhando para ascender socialmente).

Ao mesmo tempo, eu sei, eu sei. Tenho a consciência do quanto esse conceito é ilusório: o que é perfeito para mim, não o é para você e vice-versa. Sei também que ele morre com o tempo e com toda a evolução tecnológica (o que era perfeito manuscrito, virou imperfeito datilografado, que virou imperfeito digitado, só para dar um exemplo). Que a validação do que o que está perfeito ou não passa por um viés das relações entre opressor e oprimido (o que é perfeito para o homem branco, hétero, cis, que está no poder, está longe de ser perfeito para as diversas minorias que não se encaixam nesse perfil). Que são muitas as variantes, os olhares e os primas. E que, e esse é o fator mais determinante para mim agora, eu não sou uma máquina que entrega tudo no padrão: tenho que me contentar, e sobretudo, me respeitar com o melhor que posso no momento.

Mas eu não mereço o que é mais pleno? Você não merece ver e ter o melhor de mim? Se tenho que fazer algo, não é melhor fazer bem feito? Será que consigo fazer bem feito? O que é fazer bem feito? Não há alguém que possa fazer isso melhor do que eu? O que eu preciso para melhorar cada vez mais nisso? Será que eu posso errar? Se eu errar como posso lidar com essa falha? O fluxo de consciência pode ser bem cruel com alguém que sempre se cobrou e foi cobrada pela excelência. É dessa crueldade que venho buscando me libertar, ainda que haja uma recaída aqui, outra acolá.

O perfeccionismo pode até ter me pegado, mas desta vez estou mais atenta. O que me guia agora não é mais a perfeição pura e simples, aquele horizonte que se afasta quanto mais a gente anda em sua direção. O meu farol agora é o meu limite interno que diz que o meu bem feito é aquilo que é feito com amor sem me causar angústia. Eu não sou uma máquina e, olha, está tudo bem em não sê-la.

_____________________________________________________________

12 comentários:

  1. Olá, Fernanda como vai? Que belíssimo texto, uma forma prazerosa de desabafar sua angústia em se libertar do ser "perfeita", aos olhos da sociedade. Talvez o fato de você ser virgiana acrescente muito o seu lado perfeccionista em sua forma de ser e agir, fazendo você "provar" para os outros o quanto você é capaz. Eu adorei o seu desabafo e, realmente você não é uma máquina, aliás ninguém o é. Você e todos temos o direito de errar e falhar, até por sermos humanos, e como tal somos criados para errar e falhar, mesmo que inconscientemente às vezes até aprendermos com os nossos erros e imperfeições até a evolução. Um abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  2. O perfeccionismo parece ser uma coisa tão simples, mas é tão complexa... Ele me faz achar que nada é suficiente para/em mim.
    Niceness Beauty

    ResponderExcluir
  3. A nossa cobrança para ser perfeito e fazer perfeito as vezes nos sugam, e comigo, nesse caso me deixa muito pilhada.

    Sou sua fã, desde sempre!
    Beijos.

    ResponderExcluir
  4. Eu não conhecia o seu blog ainda e tô encantada com a qualidade dos textos. Sério. Você domina demais as palavras. Sei que vou virar leitora assídua!

    "(...) que é perfeito para o homem branco, hétero, cis, que está no poder, está longe de ser perfeito para as diversas minorias que não se encaixam nesse perfil)."
    Essa é uma frase que resume bem algo que eu venho pensando a muito tempo, lendo e ouvindo. É fato que para quase tudo que nos envolvemos - ainda mais no trabalho e academicamente -, temos que fazer 3x mais que qualquer homem (principalmente aqueles que estão no poder, majoritariamente branco) para sermos reconhecidas. E mesmo assim, ainda vem dúvida e questionamento. Eu estava ouvindo um podcast sobre isso outro dia, da Obvious com a Stephanie Ribeiro (ela é demais), sobre como nós mulheres estamos cansadas, exaustas. Naquele limite mesmo, e muitas vezes isso fica intrinsecamente ligado com termos a missão de entregar tudo perfeitamente.

    Muito bom o texto.
    Abraço, Ana.

    ResponderExcluir
  5. Vivo ouvindo aquela frase de que feito é melhor que perfeito e é sempre uma linha tão tênue... temos que lembrar de pausar, mas também não podemos ser negligentes. Nesse meio termo, é exatamente assim que me sinto, como você descreveu tão bem e com tanta sensibilidade. Espero chegar a esse patamar mais equilibrado, como você exclamou. Lindezura de texto!

    semquases.com

    ResponderExcluir
  6. adorei o post, hoje em dia a gente tem cobrança demais pela perfeição, por produtividade de tds os lados inclusive de nós mesmos

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

    ResponderExcluir
  7. Olá, Fê.
    Que texto lindo. Você disse tudo no final. Acredito que nada melhor do que chegar ao fim do dia e ter aquela sensação de realização dentro da gente, independente de termos alcançado a "perfeição".

    Prefácio

    ResponderExcluir
  8. Que bela reflexão! Temos que seguir a nossa essência e a tua é a perfeição, mas sem pressões e stress. :) Beijinhos
    --
    O diário da Inês | Facebook | Instagram

    ResponderExcluir
  9. Oi Fê,

    Adorei o texto, pois acabamos no identificando e não há nada melhor do ter a sensação de estar tudo certo dentro de nós e que estamos bem assim.

    Bjs e uma boa semana!
    Diário dos Livros
    Conheça o Instagram

    ResponderExcluir
  10. Que texto mais perfeito e real! A sociedade as vezes acaba com a gente.
    www.achatadebatom.com

    ResponderExcluir
  11. Oi Fernanda,
    Eu sofro MUITO MUITO MUITO com meu perfeccionismo. Me cobro mais que todo mundo e sou a única prejudicada, pois eu fico mal, eu choro e isso atrapalha até minha ansiedade.
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com

    ResponderExcluir
  12. Oi Fê!

    Que texto bonito, achei lindo a forma como você escreveu ♥

    Tenho uma obsessão com o "jeito certo" que me paralisa às vezes. Fico procurando a forma certa de fazer as coisas, de expressar, de escrever, de falar... e é claro, esse jeito certo nunca é o meu. Quase sempre estou girando em círculos em torno dessa questão, às vezes até sem perceber. Acho que tem a ver um pouco também com a ideia de perfeccionismo, e o que é nosso, nunca é bom. Compartilho da sua vivência de ser mulher, apesar de ainda estar em uma condição completamente diferente da sua (você negra, eu branca), e entendo como nós não somos o "padrão" de como as coisas devem funcionar, ou o ideal de perfeição nunca é partido do nosso ponto de vista (e imagino que pra você isso deve ser ainda pior, porque você é atravessada pelo padrão de gênero e padrão de raça)...

    Tomar consciência disso, mesmo que aos poucos, é libertador. Quando penso no quanto peso já carreguei, por cobranças assim, me sinto muito livre, mesmo sabendo que existem muitas outras que me prendem. Mas é aquilo, uma coisa de cada vez, porque não somos máquinas



    Beijos!
    Serenar

    ResponderExcluir

Olá!

♥ Quer comentar, mas não tem uma conta no Google? Basta alterar para a melhor opção no menu "Comentar como:". Se você não tiver uma conta para vincular, escolha a opção Nome/URL e deixe a URL em branco, comentando somente com seu nome.

♥ É muito bom poder ouvir o que você pensa sobre este post. Por favor, se possível, deixe o link do seu site/blog. Ficarei feliz por poder retribuir a sua visita.

♥ Quer saber mais sobre o Algumas Observações? Então, inscreva-se para receber a newsletter: bit.ly/newsletteralgumasobservacoes

♥ Volte sempre! ;)

Algumas Observações | Ano 13 | Textos por Fernanda Rodrigues. Tecnologia do Blogger.