BEDA agosto/2018 #9 — Livro de adulto, história infantil

Imagem: Jacques-Louis David/Domínio Público.
"Tudo passa rapidamente sobre a terra, exceto a opinião que nós deixamos impressa na história".
(Napoleão Bonaparte)

Os vestidos, eram os vestidos que me fascinavam. Meio fotografia, meio pintura, aquele livro com capa dura chegou às minhas mãos de forma inesperada: um tio o largou lá em casa.

– Mãe, o que está escrito? – apontava com meu dedinho gordinho para as letras douradas da capa.

Os grandes da história: Napoleão. – Minha mãe lia e relia o título com ternura e tentando me explicar: – ele foi um homem importante em um país chamado França. Eu, no auge dos meus quatro anos, me senti importante por saber que havia um lugar fora do meu quarto, muito, muito longe, com esse nome.

Embora ainda não decifrasse aquelas letras miúdas que narravam toda a revolução em detalhes (e muito menos pudesse suspeitar que o tal do Napoleão fez com que o rei de Portugal viesse parar aqui, influenciando de algum modo a trajetória brasileira), conseguia ler aquelas imagens em papel brilhante. E era com essa leitura que inventava outras histórias para o próprio imperador e seus familiares.

Além das roupas de cores vibrantes, a expressão das pessoas me prendia. Era capaz de passar horas a fio olhando para todas elas. Sentia dó do olhar triste que Josefina trazia consigo na página 55, enquanto estava sentada em seu trono. Por isso a imaginava contando histórias para o pequeno bebê de Napoleão e Maria Luísa, da página 59. Ele, que dormia como um anjo, se parecia comigo, quando a minha mãe decidia cantar até eu dormir.

O papa Pio VII e o cardeal Caprara, da página 33, me assustavam um pouco. Como alguém da igreja poderia ter uma expressão tão má? Aquele pintor só poderia ter errado na mão, só pode! Esses dois acabavam não entrando na história. Era mais fácil assim...

Meu tio não era o melhor amante dos livros, então o que ele fazia com um exemplar daqueles era um mistério que hoje, quase trinta anos depois, ainda não decifrei. De qualquer forma, o tal do Napoleão me intrigou de uma maneira, que me despertou o interesse nos livros. E, ainda que até hoje eu não tenha lido este livro, acho curiosa a influência que a leitura das imagens me causou. 

Quem diria que o Bonaparte formaria uma leitora?

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