sábado, 7 de maio de 2016

Into the dark: quando nada é bom o suficiente

Imagem por Pezibear, sob licença Creative Commons

Diga-me o que sente e te direi quem és

Nos últimos meses passei por um período intenso de questionamentos. Foi assim que todas as minhas habilidades, escolhas e sentimentos foram colocados à prova pela juíza mais rigorosa de todas: eu mesma. Nada me parecia - e confesso que às vezes ainda não parece - bom o suficiente, belo o suficiente, interessante o suficiente. Minha autoestima desceu ladeira abaixo sem olhar para trás.

Em um mundo em que tudo é perfeito de forma aparente, cheguei naquele ponto em que este mesmo tudo era exagero: “você pensa demais”, “você é dramática demais”, “você é sentimental demais”. Aliás, pelo o que me lembre, tudo começou aos quinze anos, com um “por que você é tão clichê?” acompanhado de um olhar de desprezo que, como notam, nunca esqueci. Os questionamentos nascem, muitas vezes, de tanto ouvir pessoas queridas julgando cada passo e, sobretudo, cada sentimento seu. Por que, afinal, é tão ruim ser intensa?

Dois pontos chamam-me a atenção neste momento de autoanálise. O primeiro diz respeito a como as pessoas (e eu me incluo nesta) não estão preparadas para lidar com os sentimentos dos outros. É muito mais fácil julgar o par, considerando-o histérico, dramático, pensativo, depressivo, ou qualquer outro adjetivo usado de forma pejorativa, do que tentar se colocar no lugar do outro. Falta empatia. Falta querer aprofundar as relações. Sair do lugar comum e da zona de conforto e, por consequência, parar de ter medo de se expor. Porque, sim, quando alguém se abre para você, a reciprocidade vira a marca de gentileza e afeto, construtora de pontes.

O segundo ponto relaciona-se com a sociedade em que vivemos. Como se sentir seguro para ser você mesmo em um mundo que, além de viver de aparências, é extremamente opressor em julgamentos? As pessoas estão em um patamar que impõe: ou você é X ou você é Y. O meio termo não existe. As discordâncias viram motivos para brigas (e amizades desfeitas nas redes sociais). Só o que é significante do ponto de vista do Fulano importa, não cabendo os sentimentalismos do Beltrano na conversa.

Bate certa revolta por ver os rumos que nós estamos seguindo, em que a frieza, a pressa e o egoísmo tomam conta de tudo e de todos. Porque hoje o sentir é visto como algo piegas, frágil, feio e inútil. Esta desvalorização de ser um humano em sua totalidade é um grande soco em meu estômago, daqueles que me deixam sem ar por um bom tempo, quase me levando a nocaute.

E eu disse quase. Explico: talvez seja justamente a desvalorização dos sentimentos que tenha me deixado nesta crise existencial-de-baixa-autoestima. Eu, que sempre admirei as pessoas pelo o que elas sentem, percebi que não tinha os meus sentimentos valorizados desta forma (seja pelos outros ou por mim). Foi isso que fez com que eu me calasse e me afastasse de muita gente, foi isso que me levou de volta ao meu casulo (é duro você festejar as vitórias dos outros durante anos e notar que a sua é um nada para aqueles mesmos outros). Mas é justamente esta falta de empatia que me força a querer ser empática. Quando estou quase apagando, não me rendo ao nocaute...

Eu sei. Os autores de autoajuda de plantão - e seus respectivos leitores - dirão que é errado se importar com que os outros pensam, que é ruim dar forças a todas essas vozes inquisidoras e negativas. Concordo. Mas também sei que nenhum homem é uma ilha. E, como ser sociável que sou, gosto de poder compartilhar as minhas dúvidas, inseguranças, vitórias, derrotas e sonhos com quem amo.

O que fazer com tudo isso, depois de tanto pensar? Cair e levantar. Acho que todo artista tem um paradoxo dentro de si, e o meu está no fato de eu ser uma cética esperançosa. Diria mais, sou uma cética radicalmente esperançosa e é isto que me faz querer lutar pela humanização da vida - a começar pela minha. Sou cética a ponto de saber que não consigo transformar o mundo todo, por mais que eu queira. Sou esperançosa por saber que posso mudar o meu mundo, basta encontrar uma maneira criativa para isso.

Ando me aprofundando no minimalismo. Se for para estar em um lugar para ser apenas um número, se não puder ouvir e ser ouvida, se não houver troca, apoio, torcida e boas vibrações, simplesmente caio fora. Por mais que me doa romper alguns laços, é melhor ter qualidade do que quantidade, sentimentalismo a superficialismo. São relações empáticas que me fazem querer sair do abismo e querer ser uma pessoa melhor.

Fácil? Claro que não é. Muitas vezes deparo-me com situações que me fazem crer que a vida é um jogo de tentativas e erros. Quando se fala de relacionamentos (sejam eles amorosos ou amistosos), tendo a acreditar que ninguém entra em um, pensando no dia em que tudo acabará. Sou feita de felizes para sempre que não duraram e sei que isso faz parte. Falar de sentimentos não exclui os ruins.
 
Quando nada é bom o suficiente é sinal de que entramos naquela roleta-russa de ignorar os nossos sonhos, desejos, anseios e de querer sentir menos, porque o mundo dita que é melhor assim. Precisei de meses para pôr o pé no freio e perceber que não há mal algum em pensar demais, sentir demais, em ser clichê e piegas demais. Sou diva. Sou princesa. Sou poeta. Sou intensa. Sonhadora. Sou o que quiser, porque é isso que me faz ser incrível. Viver nesta toada é uma superação edificante. Então, por qual motivo tenho que deixar isso lado para agradar quem insiste em me ver mal?

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15 comentários:

  1. Sempre uma pressão, sempre a espera de que alguém vai achar alguma coisa... ser o que a gente realmente é uma missão difícil já que até pra isso temos ficais: "o seu vc não é tão legal. Apenas não seja." :/


    www.carolvayda.com.br

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    1. Desligar esse radar negativo é que é o lance. Como fazê-lo?
      Fica aí o X da questão...

      Beijos pra vc, Sis.
      :*

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  2. oi, oi.

    fê, que texto maravilindo! <3 me identifiquei do início e, agora, acho que somos muito parecidos. de verdade.

    assim como tu, eu sou o tipo de pessoa que sempre tá disposto, vibra sempre quando o outro alguém consegue algo. mas, quando a situação é inversa, simplesmente me dizem "eba!", "legal", "ihul". é um total descaso.

    tbm já passei muito por esse lance das pessoas desvalorizarem quem ainda acredita no amor, é romântico, um pouco inocente... que culpa temos, se preferimos enxergar as melhores coisas, ao invés só das tretas?

    amei, amei, amei. acho tão bom quando parece que tu tá escrevendo sobre a minha vida. <3

    bjs!
    Não me venha com desculpas

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    1. Esse descaso dói mais do que qualquer outra coisa. É por isso que me afastei de muita gente...

      E é bem isso: enxergar as belezas da vida.
      Porque elas estão aí, em algum lugar, basta procurarmos!

      Fico feliz que você tenha se identificado tanto assim!

      Beijos,

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  3. Exatamente isso! Você vibra, torce, dá o ombro pra pessoa chorar, empresta os ouvidos e quando chega sua vez...*grilo cantando*
    Infelizmente, esse afastamento de muitas pessoas também aconteceu comigo nos últimos meses, principalmente depois da minha decisão de demissão. Um por um foi se afastando e eu entendi que não deveria correr atrás.
    O que muita gente não entende é que essa necessidade de companheirismo não é carência, é apenas uma troca, uma doação.
    É duro você SER amiga e não TER amigos, é duro você receber aquela msg: "Oi gata,tá sumida! Deixa eu te pedir um favor?!".
    Mas o que mais acontece comigo desde sempre, já te contei isso muitas vezes.
    Hoje eu penso que talvez a mudança precisa começar em mim, ser a minha prioridade é só depois pensa/fazer pelos outros. Penso que não é egoísmo mas sobrevivência. Cansei de chorar por pessoas que não merecem ( e aqui nem falo de crushs e Boys), não vou mais gastar energia com isso. Vou viver!

    Beijos <3

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    1. É, Moni!
      Aqui vai além de "omi fazendo omice". Isso é o que mais me entristece. De alguma forma, a gente acaba aprendendo a lidar com isso e tenta tirar uma lição.
      Espero que consigamos e que vivamos mais felizes!
      Beijos,

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  4. Fê, que texto!
    Passei e tenho passado por algo parecido nos últimos tempos. E minha queixa é a mesma que a sua, falta empatia. Inclusive estava rascunhando algo sobre isso porque esse individualismo das pessoas está destruindo a coisa mais bonita que uma sociedade pode ter que são as conexões entre os indivíduos. Passei meses conversando de verdade somente com a psicóloga porque não me sentia a vontade dividindo meu sentimentalismo com as pessoas próximas. Isso não é bom, demorou algum tempo para eu encontrar as pessoas que deveriam permanecer ao meu lado e me afastar daquelas com quem já não haviam conexões...

    Não devemos mudar o que consideramos ser nosso melhor. O mundo precisa de mais nós e menos eus... Devemos nos ter como prioridades sim. Mas não podemos nos fechar em ilhas porque viver em sociedade não é isso. A questão é manter por perto quem nos faz bem apenas, assim diminuem bastante as chances de vivermos de aparências...

    Beijos
    Aline

    Inventando Assunto

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    1. É complicado ver isso tudo acontecendo. Ainda não sei bem como lidar com isso...
      O lance é não desistir de tentar ser empático!
      Beijos!

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  5. Oie,
    nossa complicado, sempre temos que enfrentar essas coisas.
    Gostei muito do texto, principalmente do começo.

    bjos
    http://blog.vanessasueroz.com.br

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    1. Oi, Vanessa!
      Espero que você volte mais vezes! :)

      beijos!

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  6. Texto perfeito! Realmente... a vida é uma caixinha de surpresas!!!

    Blog AmigaDelicada.com ❥

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  7. Fezoca, eu tenho esses momentos tbem ( na verdade qse 100% do tempo), mas acho inportante refeltir sobre td de vez em quando, pensar demais ou até se cobrar demais (não sempre, claro), faz parte, nos faz melhor.
    Tudo que mexe um pouco aqui dentro, de maneira ruim ou não, nos evolui.

    Bjao!

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  8. Momentos de reflexão, cobranças, estresses, td faz a gente evoluir uma casinha, destravar una etapa do jogo.
    A gente só saca essas coisas depois que a onda passa.
    Um bjao querida!

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