domingo, 27 de fevereiro de 2022

Seu Ed

Foto por Yu Jinyang, via Unsplash.


Ali estava ele: cadeira em frente à porta, pernas cruzadas, coluna ereta, revista de cruzadinha no colo e uma Bic preta nas mãos. De dentro do quarto saía o som da TV, com a voz do Datena, invadindo o corredor contando sobre o caos que as tempestades de verão sempre causam na cidade de São Paulo.

Todos os dias, a rotina era a mesma: no fim da tarde, eu ia até o hospital visitar a minha irmã que estava internada e, entre uma caminhadinha e outra, passei a acenar para (e depois cumprimentar) o simpático senhor do corredor.

A cada ida e vinda, reparava em um detalhe diferente: a corrente no pescoço, a camisa de pijama semiaberta, a falta de quatro dedos na mão direita, sendo o único inteiro justo o do meio. História. Aquele homem tinha muita história para contar.

A quebra do gelo surgiu um dia, quando meu pai brincou, chamando-o de segurança do andar:

— Já assumiu o posto?

— Opa! Claro!

Foi assim que soubemos que aquele era o senhor Edson, que eu, automaticamente, passei a chamar de Seu Ed. Não sabia o que o tinha levado à internação, mas isso foi irrelevante para que a gente estabelecesse um pequeno laço de amizade. Entre um “boa tarde” e outro, descobrimos que temos um ponto em comum: o amor profundo pela comilança sem fim.

Minha irmã estava no hospital preocupada com os quatro quilos adquiridos em sua internação. Enquanto ela negociava com a nutricionista, tentando diminuir a quantidade diária de calorias ingeridas e negando dois dos três pães que lhe eram servidos, lá estava o seu Ed, defensor eterno do “quanto mais rango melhor”.

Foto por Charles Chen, via Unsplash.


Certo dia, no vai e vem do corredor com a minha irmã, vi três marmitas, quatro pães e três copos de café com leite na bancada do quarto do seu Edson. Ele riu ao ler a expressão assustada no meu rosto:

— Seu Ed, mas o senhor dá conta de comer tudo isso?

— Opa! Levanto meia-noite, três da manhã, e rapo tudo.

— Mas a comida esfria, não?

— E eu lá ligo?

O sorriso era desdentado, mas genuinamente feliz.

***

Tudo mudou numa quarta-feira, quando entrei no hospital e me deparei com o corredor vazio. Fui recebida pela minha irmã — um tanto cabisbaixa — me informando que o Seu Ed tinha se dado alta.

— E pode isso?

— Ah, os médicos queriam ele aqui, mas ele preferiu ir embora, disse que ia atrás da comida de uma moça que ele chamou de Baiana.


Sábio é o seu Ed que busca experimentar todos os sabores da vida.

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4 comentários:

  1. E essa é a maior experiência de vida que Seu Ed poderia nos proporcionar, aproveite os prazeres que a comida te dá, haha.
    Beijo, Blog Apenas Leite e Pimenta ♥

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  2. Muito legal essa estória. Gostei muito de ler.

    Boa semana!

    O JOVEM JORNALISTA está em Hiatus de verão de 18 de janeiro à 04 de março, mas comentaremos nos blogs amigos nesse período! Mesmo em Hiatus, o blog tem um post novo. Não deixe de conferir!

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