Cegueira epidêmica

Imagem por SFerrario1968, sob licença creative commons.
Carrego no olhar a recusa em acreditar na belicosidade humana. Meus olhos não conseguem crer na indiferença social que assiste passiva a quem dorme invisível nas ruas, às notícias de corrupção que aparecem na TV, ao ódio gratuito a quem for gordo, mulher, gay, negro, índio, pobre, criança. Carrego no olhar a dor de quem enxerga justamente a crueldade de quem finge não ver. O desdém alheio me enoja.

Aquilo que os olhos dos outros não veem é o que mais me coloca para pensar, é o que ata o nó no meu peito. Como ser indiferente ao moço que, ajoelhado na estação, suplica por uma ajuda para continuar a existir? Como não reparar no seu olhar quase infantil, no seu corpo raquítico, nas suas roupas velhas e sujas? Como não notar o sorriso aliviado, não porque alguém lhe deu dinheiro, mas sim porque alguém — na raridade da correria da metrópole — teve a capacidade de reconhecer ali outro ser humano?

A falta de segurança para sair de casa. A falta de uma educação que leve as pessoas a pensarem de modo reflexivo. A competição. O ser mais, o ter mais. A polaridade partidária. A corrupção em que todos se metem e ninguém se salva. A busca do poder desenfreado que não se fundamenta em um motivo. Servir sem nunca ser servido. A falta de sentimentos. A ausência da empatia. Tudo como sintoma de uma mesma doença: a cegueira que se alastra em um salve-se quem puder epidêmico, que extingue a solidariedade na velocidade da luz. 

Estamos todos contaminados em maior ou menor grau, defendendo apenas os nossos interesses mesquinhos, os nossos desejos narcisistas. É cômodo fingir que não se vê. É cômodo empurrar o problema para o Estado, ignorando que este Estado é composto por políticos que nós escolhemos. É cômodo agir sem pensar, sem querer ser um exemplo, sem se ver como modelo para as gerações que estão chegando. Estamos todos à mercê desta cegueira epidêmica, mas não buscamos um médico, um tratamento, nem ao menos um remédio paliativo, que nos permita seguir em frente de forma digna. Nossa sociedade está doente, e é mais cômodo não se curar. A cura é dos utópicos, dos sonhadores, dos ingênuos, dos inocentes.

Talvez seja por isso que eu escreva sobre algo que tanto me apavora. Talvez seja por isso que, em um lapso de lucidez, pergunto-me se um dia os meus olhos verão na sociedade a justiça e a generosidade que tanto lhe falta.  Meu desejo e minha luta se convertem, então, em vislumbrar aquilo que os meus olhos não veem.

O tema do mês de julho de 2017 é: Aquilo que meus olhos não veem.


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16 comentários

  1. Olá amiga, gostei do que escreveste sobre o livro e tem muito a ver com a postagem do meu blog Profª Lourdes Duarte, que é o mais antigo. Na lateral deste blog tem o linque se desejares conhecer será um prazer.nesta sociedade atual, esta cegueira, muitos tem infelizmente. Abraços, tenha uma linda noite.

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    1. Olá, professora!
      É sempre uma honra para mim ter uma leitora que também é colega de profissão (e de luta por um mundo melhor). Visitarei o seu blog sim, obrigada pelo convite!
      Beijos

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  2. Inteligente!

    https://juliamodelodemodelo.blogspot.com.br/

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  3. Oi, Fê!

    Muito lindo o seu texto! Dói ver muitas dessas coisas e não poder fazer nada. É fazer muita oração para dias melhores!

    Beijinhos

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  4. Cara, que texto forte! É bem como você disse: a nossa sociedade tá extremamente doente e é mais cômodo continuar assim. Tanto que aqueles que querem mudar e que põem a mão na massa pra isso são vistos como loucos, né? É uma pena. Enfim, o que nos resta é começar a mudar nós mesmos e aí sim tentarmos mudar o mundo! Amei muito a tua reflexão <3
    Um beijão,
    Gabs | likegabs.blogspot.com ❥

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    1. Oi, Gabi!
      Eu espero que as coisas mudem um dia. Vamos lutar para isso, não é?

      Beijos :*

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  5. Mulher, que texto maravilhoso! É realmente triste que tantas pessoas não notem esse tipo de coisa. Não faz muito tempo que eu estava escrevendo sobre isso também. É triste. E como você bem disse, essa resolução dos problemas acaba se tornando propriedade dos utópicos, dos sonhadores, dos ingênuos. É uma reflexão maravilhosa e necessária essa que você nos trouxe. Obrigada.

    Beijo!
    CONTROVÉRSIAS.

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    1. Acho que é essa inquietação com a indiferença que nos faz escrever!
      Espero que os nossos textos ajudem as pessoas a, ao menos, pensarem um pouco sobre esse assunto.

      Um beijo!

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  6. Ótimas palavras!
    Reflito sobre as mesmas coisas
    Um povo que não tem educação e cultura não pode eleger um governo sério e honesto
    bju
    Karina Pinheiro

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    1. E é justamente isso que os governantes querem. :(
      Um caos. :(

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