[Resenha] Uma história a três, de Jennifer Egan

by - 10:06 PM

Maravilhoso, envolvente, profundo. Talvez estas palavras não sejam suficientemente boas para descrever a densidade com que Jennifer Egan narra Uma História a Três. Um livro marcante, que nos faz pensar no rumo que, neste exato momento, estamos dando às nossas vidas. 

Todo o impacto dos anos 60 é descrito de forma crua, nua, sem as cores dos hippies. Os fatos se desenrolam quando a autora nos apresenta Phoebe O’Connor, uma jovem de 18 anos que vive atormentada pela memória intensa e viva de sua irmã – Faith – que morreu na Itália, no início da década de 70. 

A narrativa é dividida em quatro partes eletrizantes. Na primeira delas, somos introduzidos no mundo da família O’Connor, em que nos deparamos com um pai que é, ao mesmo tempo, um pintor por vocação e um engenheiro frustrado por trabalhar na IBM. Ele tem adoração por Faith; que, por sua vez, é venerada por Phoebe. Ainda neste cenário, conhecemos Barry, irmão das duas, e a mãe deles. A típica família reside feliz em São Francisco, até que o pai fica doente e morre. O impacto desta perda deixa a todos sem chão, principalmente a Faith, que não tem mais quem a adore. Isso, definitivamente, muda o rumo de suas vidas. 

Na segunda parte, Phoebe toma coragem e vai à busca da verdade, numa esperança secreta de que a morte de Faith fosse uma farsa – ainda que ela tenha visto as cinzas da irmã. Aqui, a história vai se afunilando, tornando-se mais densa a cada página. Quanto mais Phoebe tenta encontrar a verdade, mais se afunda em si mesma. A capacidade de Jennifer Egan de descrever a tormenta é tão alucinante, que você se sente como se fora a própria Phoebe, como se você tivesse correndo todos os ricos, como se a necessidade da verdade, fosse a SUA necessidade maior. Neste trecho, a descrição é tão intensa, que eu terminei a leitura com o coração acelerado, suando frio, esgotada, sem forças... 

A terceira parte começa com uma virada na história. Sorte, destino? A própria Phoebe discute como se lembraria deste momento. Temos então a aproximação da descoberta, a esperança de por um ponto final numa história que fora mal contada a Phoebe. Como entender o que acontecera a Faith? Quais peças faltam neste quebra-cabeça? Nesta parte, tudo faz sentido da forma mais intensa e dolorosa possível. As revelações se tornam tão perturbadoras, que o leitor sente a mesma vontade de chorar, que a personagem. É impossível não se comover! IMPOSSÍVEL!

A quarta e última parte traz um desfecho que beira ao poético e que lhe faz pensar em como as pequenas atitudes que temos podem mudar – ou não – a vida das pessoas. O ideal que Faith tinha, a admiração de Phoebe, as atitudes do pai... Quantas consequências elas não tiveram na vida da família O’Connor e dos que a cercavam? Até que ponto nossa coragem, nossa intransigência e nosso desejo podem ir? Até onde eles podem nos levar? 

Falar sobre a genialidade de Jennifer Egan ao escrever esta obra prima é pouco para descrevê-la. É incrível como esta autora tem a capacidade de surpreender seus leitores a cada dia. Cada obra que ela cria tem uma característica distinta, mas todas elas provocam uma reflexão profunda no leitor, um encantamento e aquela boa e velha sensação de “quero mais”. Uma historia a três é daquele tipo de livro que você quer devorar e que, quando não está lendo, lhe faz querer adivinhar qual será o passo seguinte – acredite, você pode cogitar a coisa mais mirabolante do mundo, ainda assim, Egan irá lhe surpreender! 

O jornal The New Yorker descreveu este livro usando as seguintes palavras: “Uma viagem que conduz o leitor por um terreno emocional extremamente belo”. Não é à toa que este livro virou filme, o periódico não mentiu.

Livro: Uma história a três (o circo invisível)
Título original: The Invisible Circus
Autora: Jennifer Egan
Tradução: Júlio Dias
Editora: Record
Páginas: 432
Sinopse: O CIRCO INVISÍVEL conta a história de Phoebe O'Connor, uma jovem de 18 anos que mora em São Francisco com a mãe viúva. Apesar de ter apenas nascido e não vivido nos anos 60, Phoebe é intensamente influenciada pelos "sixties", além de obcecada pela figura carismática da irmã mais velha, Faith - uma hippie que morreu no auge da juventude, na Europa, em 1970. Decidida a investigar o que aconteceu com a irmã durante sua temporada no Velho Continente, Phoebe atravessa o Atlântico e refaz todos os passos de Faith até encontrar o local exato onde a irmã teria se atirado no mar. No caminho, Phoebe vai descobrindo muito coisa sobre Faith, inclusive que ela tinha se envolvido com um grupo terrorista de esquerda e que a história que o ex-namorado - com quem ela tinha viajado - havia contado, não primava pela verdade. Muito mais do que a verdade sobre a trajetória de morte de Faith, Phoebe conhece também o que há por trás dos desejos e anseios de uma geração que tentou perseguir seus sonhos de liberdade, mas só conseguiu adiá-los.
Clique aqui para ler um trecho em inglês.

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2 comentários

  1. Fe!!! Fiquei completamente maluca para ler esse livro!
    Caramba, sua resenha foi SENSACIONAL!! Acho que me apaixonei, agora preciso adquiri-lo! Hahaha
    Beijos :)

    www.meumeiodevaneio.com.br

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  2. Mulher, to pra ver um livro da Egan que seja ruim!
    Pode ler todos que encontrar! :D

    Um beijo!

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