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| O texto abaixo nasceu das minhas páginas matinais. |
Ter fé não é ter religião, é ter confiança.
A vida é um mistério a ser atravessado.
Se o meu aprendizado ao longo dos 20 foi não mendigar
amor; o dos 30 é este: a vida é um mistério a ser atravessado, não a ser
desvendado.
Como observadora, atravesso o
mistério coletando dados que compartilho com os mais novos ou com quem queira.
Não há capacidade humana para desvendar o mistério por completo, porque ele é
divino. Por mais que sejamos parte dessa centelha, não temos a visão de todo,
do tudo. Isso é muito mais do que poderíamos suportar. A visão de tudo, em seus
mínimos detalhes, com todas as suas nuances, com o que é pregresso e com as
possibilidades de futuro, com todas as linhas do tempo se cruzando¼ Isso é mistério. Não há
como desvendá-lo.
(¼)
O caminho do não sofrimento não é
o mistério. Penso que ele, o mistério, é maior e mais soberano do que apenas o
não sofrer, é mais e vai além. O mistério é a explicação de tudo: da gênese de
cada espécie, à descoberta da cura de uma doença rara; das guerras e desigualdades
sociais, aos sistemas econômicos; das estações do ano, às chuvas do El Niño; da
criação de máquinas que constroem e destroem, aos animais mais diferentes
vivendo em lugares mais remotos; do porquê raios a minha linha do tempo se cruzou
a de M., porque eu me apaixonei por ele, porque ele diz que gosta de mim há
tantos anos, mas não se mobiliza e não se importa com o que sinto, a porque
estou refletindo sobre tudo isso agora. O mistério é criação divina, mas também
é Deus, Deusa, Criador, Força Maior, Universo, entidade cujo nome é impronunciável,
Natureza ou qualquer outro termo que queiramos usar. O mistério é indecifrável,
nossas diversas linguagens não o alcançam. O máximo que é possível é viver em
aceitação radical do que o atravessaremos ao longo da vida, até alcançarmos seu
ponto máximo: a morte.
Há mais de uma semana chove sem
parar aqui em São Paulo. Vivo o luto da semente de um relacionamento que tinha
tudo para ser lindo e duradouro, mas que morreu afogado na covardia de M. Leio
sobre prognósticos de inteligências artificiais destruindo a humanidade em
menos de uma década e do início de uma terceira grande guerra. Tudo isso, na
semana do meu aniversário de 40 anos.
“Espere o inesperado.
Respire.
Devagar se ganha a corrida.”
Sigo atravessando o mistério com
uma tentativa de sorriso no rosto. No fim, a vida sempre dá certo — seja lá o
sentido que damos à palavra “certo”. “Todos os caminhos levam na direção de
casa” e é aí que mora a beleza: atravessar o mistério sem se deixar ser engolido
por ele.


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