quarta-feira, 13 de novembro de 2019

{Resenha} Ninguém vai lembrar de mim, de Gabriela Soutello

Da tarde em que eu devorei um livro como há tempos não o fazia.

"Eu quero sentir o nascer de uma cicatriz". (página 71)

Já conhecia a escrita da Gabriela Soutello das reuniões do Clube da Escrita para Mulheres, mas ler o livro de estréia dela, intitulado Ninguém vai lembrar de mim, foi uma experiência à parte. A obra apresenta ao leitor lugares incomuns para tratar de sentimentos tão humanos, que sinto este livro como um convite duplo para uma viagem dentro das narrativas e dentro de nós mesmos.

Com a Gabis, no dia do lançamento dela.

"Quanto mais só eu me sinto, mais me grudo à solidão. Quero permanecer às raízes de suas terras. Como um apego. Um torpor um tanto novidade, essa necessidade; não quero deixá-la. Passo invisível pelas texturas dos caminhos. Quanto menos existente, melhor".
(página 21)

Dividida em três partes  — "Estar só é o meu maior medo e minha maior verdade"; "O sexo entre duas mulheres não é assim tão simples; é assim" e "Eu acostumava associar aos fins a decadência da falha" —, a prosa da autora é extremamente poética e, por isso mesmo, consegue acessar lugares que os próprios leitores desconhecem. A sinceridade é, no meu ponto de vista, o grande carro-chefe dos contos-crônicas. Nota-se que há um compromisso da narradora-cronista em ser sincera consigo mesmo e com os seus leitores. As coisas são como são e isso não traz peso aos fatos; pelo contrário, as histórias são cálidas e, ao mesmo tempo, de uma profundidade sem tamanho. O efeito disso é a humanização das personagens. Humanização esta que faz o dia a dia narrado ganhar amplitude e conexão, humanizando também os leitores.

Meu exemplar autografado. 💗

"Eu não te olharia sem medo se não fosse a sua vontade enorme de se fazer presente e ficar. Minha boca meio torta meio de lado meio rindo (pra você, e não de você, como você pensou que fosse naquele dia em que quase foi embora), meio bastante eufórica, já não escondia a tensão dos bruxismos, a secura no canto, 'é tudo stress', eu não diria, na fantasia de buscar na sua o mesmo sem-jeito; minha boca tremia acima e baixa, sim, bastante baixa, tremia certa também por não saber o que dizer a cada vez que você sorria dizendo: fico". (página 50)

Ninguém vai lembrar de mim é um livro que conecta pessoas aos próprios sentimentos. Não importa qual seja o tipo de relação que este leitor cultive. Amor e desamor transcende a atração, e a autora consegue mostrar isso com precisão em sua narrativa. É impossível ler este livro sem desenvolver o de sentimento de empatia.

Além das três partes citadas, a obra conta com dois epílogos que muito me agradaram — "O que há de pior em me mostrar enquanto eu" e "Eu nunca vi a cara de deus, mas não estranho".  Ali há, mais uma vez, um rasgo que abre as portas para o fundo da alma: medos, esperanças, angustias todos desvelados como são para quem quiser acolher e explorar o sentimento.

"Há anos eu olho bem no fundo do olho da pior parte de mim e não consigo sustentar o olhar". (página 92)

Aliás, por falar em rasgo, a cor vermelha e as rachaduras estão presentes em todo o projeto gráfico da obra. Desde a capa, há o convite para mergulharmos tanto na narrativa quanto em nós mesmos.

"Os fins de ciclos sempre me soaram como a iminência certa de um vazio; uma mensagem por si negativa; a concretização de uma falha; o oco oposto ao Dar Certo, escancarado. Se me ausenta o prazer da entrega, os pedaços que são meus e que desvendo em transformação, são antes as não-partes necessárias. Entortar o olhar. Adentras o feio. Aceitar os músculos contritos de mim". (página 83)
Foto do dia em que devorei o livro!
Livro: Ninguém vai lembrar de mim
Autora: Gabriela Soutello
Páginas: 104
Editora: Pólen | Ferina
Apresentação: Em seu livro de estreia, Gabriela Soutello estica as paredes da solidão e do que se compreende sobre relações entre mulheres. São toques de corpos, rasgos feitos por dedos e a certeza do esquecimento caminhando pelas ruas de São Paulo, mergulhando nas águas do Pará, observando o cotidiano de paixão e silêncio. Este é um livro que pede afundamento. Surpreende pela voz segura e autêntica que se torna referência enquanto também desafia a noção de afetos entre mulheres.
Contemplada com a 1ª Edição do Edital de Publicações de Livros para Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, a obra entrega, em seus contos rítmicos, uma interpretação honesta da individualidade – que pede para ser descoberta. 
(Jarid Arraes, escritora e curadora do Selo Ferina)

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Nota: no dia 08 de dezembro o clube de leitura Coletivo Escreviver fará um encontro para discutir a leitura de Ninguém vai lembrar de mim, com a presença da autora, Gabriela Soutello. Para saber o horário e o local, acompanhe as publicações do coletivo no Instagram, clicando aqui.
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9 comentários:

  1. Oi, Fernanda como vai? Belíssima resenha. Já li um livro da autora, no entanto este me despertou pela profundidade enraizada na obra, muito me atrai obras assim, com essa amplitude de sentimentos colocados no papel para deleite do leitor(a). Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Não conhecia a autora, mas parece ser um livro bem interessante! :) Beijinhos
    --
    O diário da Inês | Facebook | Instagram

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  3. Uau, gostei muito da sua resenha. Não é o tipo de livro que costumo ler mas adoro obras que me fazem refletir e olhar para mim mesma, que nos fazem pensar em nós e no todo então acho que essa obra me deixaria apaixonada por ela. Adorei a indicação de livro e da autora, porque eu não conhecia ambos.

    Abraço,
    Parágrafo Cult

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  4. nossa eu ouvi falar pela primeira vez desse livro ha pouco tempo e fiquei super interessada nele, um maximo essa sua edição com dedicatória e tudo

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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  5. Não conhecia a autora, nem o livro. Mas é realmente um daqueles que te faz pensar e marca a vida.
    Bjks!

    Mundinho da Hanna | Instagram

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  6. Que coisa mais linda! Não conhecia a autora e surtei com os detalhes tão fortes - desde a parte gráfica que vem fazendo metáforas sobre tanto da trama. Que resenha mais linda, repleta de observações fundamentais sobre as entrelinhas e já nos fazendo tanto mergulhar. Amei <3

    semquases.com

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  7. Simplesmente adorei a sugestão e a resenha. Eu gosto muito de acompanhar autores novos, principalmente mulheres e LGBTQI+. Eu costumava não ler muito poesia, mas nos últimos dois anos me apaixonei e se tornou um dos meus gêneros favoritos. Fiquei com muita vontade de ler!

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  8. Ah Fernanda. O que eu faço com essas suas resenhas que me fazem querer todos os livros que você lê?

    Adorei a proposta do livro e a intensidade. Com certeza vou deixar esse livro numa listinha de aquisições pra quando eu conseguir pelo menos diminuir pela metade os livros que tenho pra ler...

    Um beijo!
    Line

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