Ressurreição

Imagem por condesign, sob licença creative commons.

O drama de todo escritor é encontrar a palavra exata para trazer a sua história à tona. Como fisgar o leitor, fazer arte e ainda conseguir se satisfazer? Quanto mais reflito sobre, mais desconforto sinto.

De novo – e já perdi a conta das vezes que fiz isso – encaro a página em branco. Há mais de um mês, vejo o cursor piscando na minha tela. Nada. Nenhuma ideia. Admito para mim mesma que talvez esse lance de eu querer ser escritora seja mesmo uma farsa.

O fato é que tudo se transformou naquela segunda-feira, a última de setembro, na saída para o almoço. “Droga, esqueci a carteira!”, ouvi minha própria voz dizendo, ao mesmo tempo em que meus dedos buscavam na tela, o número da minha mãe.

– Alô? Mãe? Olha, esqueci a carteira em casa. Pede pro pai trazer pra mim, por favor? O quê? Levou ela no médico? Entendi. Até mais tarde. Um beijo.

Minha irmã, toda geração saúde, voltou do trabalho querendo médico. Estranho. Muito estranho.

De lá para os piores dias da minha vida foi um pulo: passando mal ela estava, piorando ela continuava. Hospital público, observação, volta pra casa, internação, UTI. Tudo em um espaço de menos de cinco dias. Logo ela, que nunca sentia nem dor de cabeça!

Ideias não são bem-vindas quando você vê sua única irmã, no auge dos 20, praticamente morrendo. Nessas horas, a única coisa que se pode fazer é escolher entre a fé e o medo. E, embora eu tenha dormido e acordado tendo aquele soco no estômago me acompanhando, a esperança sempre foi o meu maior clichê. Portanto, me apeguei em Deus e segui entre tentar manter a vida dos meus pais o mais organizada possível e me desidratar de tanto chorar. Tentei ser forte. Não consegui.

Lá nas aulas de ciências, quando a gente estuda as bactérias, nunca imagina o tamanho do transtorno e do estrago que elas podem causar na vida de alguém. Depois de uma semana de terapia intensiva, lá se foi mais um mês no isolamento do hospital e muitas reflexões sobre a vida.

Aquela velha máxima de que só se dá valor quando perde passa a fazer sentido. Não brigar por coisas bestas e valorizar cada pequeno gesto, também. Aliás, tenho a impressão que é nessas horas que todo o inconsciente coletivo passa a ficar claro, como o rio que corre forçando todos os clichês a passarem diante dos nossos olhos.

Agora a minha irmã está em casa. A recuperação segue lenta, mas traz o alívio de não ter a morte nos rondando. Minha rotina ainda está em processo de voltar aos trilhos, por isso que encarar a folha em branco é uma tarefa quase impossível. O que antes era prazer, agora é um pequeno sacrifício.

Se escrever se revelou uma farsa, eu não sei, mas compreendo que de sacrifício em sacrifício tudo segue: pequenas mortes trazendo de volta a vida.

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8 comentários

  1. Talvez seja o momento perfeito para repensar seus novos passos... toda tribulação vem seguida de uma grande e merecida calmaria! <3


    www.carolvayda.com.br

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    1. Não vejo a hora que ela chegue! :)
      Deus sabe o que faz, não?

      Beijos!

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  2. Repensar atitudes é o que faz de nós seres humanos. Mas se martirizar de nada adianta. Melhorar talvez seja uma escolha.

    Seu texto ficou espetacular. Gostei muito.

    Um abraço.

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    1. Nossa, esse "espetacular" deixou o meu coração quentinho!
      Obrigada pelo carinho e pelo comentário!

      Beijos!

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  3. Nossa, Fê, que triste! Imagino que deve ser mesmo muito difícil ver alguém tão próximo passando por dificuldades, principalmente quando nos sentimos incapazes de ajudar.
    Que bom que ela está se recuperando! Que Deus abençoe para que tudo volte nos eixos.
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com.br

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    1. Apesar das dificuldades, Deus tem sido mto grandioso conosco. ♥

      Beijos

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  4. Flor...
    É uma fase.
    Eu li seu texto todo e só consegui pensar nisso.
    É uma maré ruim. E como toda maré ruim, ela chega, mas se vai. (Graças a Deus)
    Fico contente de ver que sua irmã tá bem.
    Quanto a escrever, seria uma farsa se você não escrevesse tão bem.
    Eu também escrevo e entendo bem desses bloqueios. O que a gente coloca no papel depende e muito do nosso estado de espírito no momento, disso eu entendo- infelizmente - muito bem.
    Quero pedir que você tenha calma, tudo vai voltar aos eixos.
    E o mais importante de tudo a se ter, você deixou em seu texto também: A fé.
    Nunca perca.
    Fique bem!

    Beijos :*
    Sankas Books

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    1. Oi, Thay!
      Obrigada pela força! :)

      É td uma fase, e a gente tem que ter paciência, não é mesmo?
      Nem sempre a vida é fácil, mas Deus não abandona.

      Beijos :*

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