{Resenha} Nu, de botas, de Antonio Prata

Foto do autor que aparece na orelha do livro
Em Nu, de botas, Antonio Prata resgata suas memórias de infância, com a experiência de um adulto e o olhar de uma criança. Esta forma de escrever prosa, que beira à poesia, faz com que o leitor sinta-se na varanda de casa, vendo o pôr-do-sol, enquanto conversa com um amigo.

Para quem nasceu nos anos 80 – ou antes – há um deleite um tanto assustador: perceber as mudanças no tempo e como tudo se transformou rapidamente. Prata nos faz lembrar alguns fatos já esquecidos por nós – ao menos por mim –, a exemplo de como ele andava praticamente deitado de ponta cabeça no banco de trás do carro, enquanto o seu pai dirigia estrada a fora (cinto de segurança para quê?) ou da expectativa que as crianças tinham para ligar e conseguir falar com o palhaço de TV, o Bozo.

O primeiro amor, as primeiras perdas, a chegada da irmã, a descoberta do sexo. Tudo é narrado de maneira tão bela; que, de certa forma, nos deixa com vontade de ser criança novamente. É impossível não resgatar o início da nossa própria vida, das nossas pequenas descobertas diárias, desbravando o mundo. Por isso, não há como não sorrir. É extremamente bela a maneira como o autor apresenta a visão da criança e a sua tentativa de compreender o mundo dos adultos – que nas memórias é a sua visão e a sua tentativa de entendimento; mas que, quem convive com crianças sabe, são pontos de vista e questionamentos universais do contexto infantil.

Por que determinados assuntos pode ser conversado com naturalidade com os pais, mas não com outras pessoas? Por que as mães são diferentes? Como é possível as casas teoricamente iguais terem seus cômodos e móveis em outros lugares? Por que a mãe do meu amigo não o deixa ver certos programas de tv? Os contrastes do mundo e a forma de organiza-los são narrados de maneira deliciosa que nos desperta para o automatismo em que vivemos. Quantas vezes, conforme vamos crescemos, deixamos de refletir sobre a trivialidade da vida?

Nu, de botas é um livro que enche o nosso coração de alegria. Ele é reflexo da pureza de um olhar novo para o mundo. Retratando o medo, o receio, a felicidade, as dúvidas e todas as suas inquietações infantis, a obra de Antonio Prata serve de reflexo para a nossa própria existência.

Livro: Nu, de Botas
Autor: Antonio Prata
Páginas: 144
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Em Nu, de botas, Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância. As memórias são iluminações sobre os primeiros anos de vida do autor, narradas com a precisão e o humor a que seus milhares de leitores já se habituaram na Folha de S.Paulo, jornal em que Prata escreve semanalmente desde 2010. Aos 36 anos, Prata é o cronista de maior destaque de sua geração e um dos maiores do país. São de sua lavra alguns bordões que já se tornaram populares - como “meio intelectual, meio de esquerda”, título de seu livro anterior e de um seus textos mais célebres -, bem como algumas das passagens mais bem-humoradas da novela global Avenida Brasil, em que atuou como colaborador de João Emanuel Carneiro. Prata também é um dos integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros, da revista inglesa Granta. As primeiras lembranças no quintal de casa, os amigos da vila, as férias na praia, o divórcio dos pais, o cometa Halley, Bozo e os desenhos animados da tevê, a primeira paixão, o sexo descoberto nas revistas pornográficas - toda a educação sentimental de um paulistano de classe média nascido nos anos 1970 aparece em Nu, de botas. O que chama a atenção, contudo, é a peculiaridade do olhar. Os textos não são memórias do adulto que olha para trás e revê sua trajetória com nostalgia ou distanciamento. Ao contrário, o autor retrocede ao ponto de vista da criança, que se espanta com o mundo e a ele confere um sentido muito particular - cômico, misterioso, lírico, encantado.

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