O curioso caso de Michelle C.

Imagem por Foundry, sob licença creative commons.

Ali está ela, atrasada como sempre. Michelle C. é aquele tipo de pessoa extravagante: chama a atenção pela roupa que veste, pelo modo que fala – gesticulando suas pequenas mãos, cujas unhas pinta de vermelho –, pela maneira com que sorri. Michelle C. sempre quis grande em seu 1,63 de altura.

Entrou na sala depois de todos, porque gosta de receber olhares. Como faz frio, optou por um longo sobretudo de onça. Adora aquela vestimenta, ainda que a amiga considere a estampa da pele sintética um tanto cafona. Os detalhes são tudo, meu bem, afirma em sua superioridade.

Mas nem sempre foi assim. Durante a infância passada dentro da igreja, seu pai conseguiu conter ao menos parte do espírito tempestuoso. Ali, nada de batons ou decotes. A filha do religioso tem que dar exemplo aos demais fiéis: ser a primeira a chegar e a última a sair, conter a vaidade em saias longas, falar manso. Mal sabia ele, que a Michelle adulta seria um oposto disso tudo.

É claro que a experiência traz certo filtro. Com nossa protagonista não seria diferente. Em casa, a boa moça imperava. Fora dela, era a devassa que saía a caça. O motivo daquele atraso em específico, na aula de Literatura Portuguesa, com o batom um pouco borrado, se traduz uns amassos na escada de emergência: ora com o estudante de engenharia, ora com o rapaz do laboratório de anatomia.

Vez ou outra discute com a amiga de opinião diferente que sempre a questiona o porquê de se dizer santa, quando a luxúria era parte de seu dia a dia. Não há como ser apenas uma? Michelle ri com a destreza que o prazer da dupla identidade lhe proporciona. Pensa que a amiga é inocente demais para entender o incêndio de seu corpo.

Nas aulas, ela sempre tem opinião para tudo. Muitas vezes, tenta fazer uso de vocabulário rebuscado e inter-relacionar os assuntos, porque quer que todos notem sua capacidade de articulação. Ao perceber que algumas pessoas aos poucos se afastam dela, passa a dizer que seus colegas têm inveja de sua inteligência. Michelle C. tinha que ser sempre a melhor em tudo. Modéstia nunca fez parte do vocabulário da pequena mulher de longos cabelos negros e muitas pulseiras. Formou-se, mas nunca seguiu a área escolhida.

Anos mais tarde, encontrei-me com alguns colegas de turma da faculdade. Eles me perguntaram se ainda era amiga de Michelle C., disse que não e fui sincera: não aguentei a inconstância de sua dupla personalidade. Eles sorriram aliviados: Como você suportava aquela menina? Ela era toda espalhafatosa numa tentativa de te ofuscar. No fundo, tinha inveja de sua inteligência.

Surpreendida com a afirmação, senti pena da pequena Michelle, que sempre quis o mundo e não conseguiu sustentar seu próprio castelo.

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