segunda-feira, 18 de abril de 2016

Futuro

Imagem por tpsdave, sob licença creative commons.

Na cidade, é um náufrago: perambula pelas ruas. Sente enjoo da pobreza, da indiferença. Ver aquelas crianças pedintes, os idosos a andar com um gigantesco saco de latinhas nas costas, os adultos puxando carroça. Cães e decadência ao redor. Todos invisíveis. Poeira ao relento. Como tantos seres humanos podem ter na desumanização a sua identidade? Muita gente. Muito barulho. Trânsito. Protestos (a favor de quem?). Caos.

Ir e vir sem destino é mais difícil na metrópole em que tudo custa e as distâncias não são vencidas à pé. Uma légua: 3 reais e 80 centavos. Uma longa distância: muito mais. Gasolina é cara, voos também o são. E já diria Cazuza: o tempo não para.

Os caminhos em meio a tantos prédios são claustrofóbicos. Nunca soube lidar bem com este amontoado de gentes, andar após andar, piso sobre piso. A falta de horizonte o deprime. Como é difícil ter que se acostumar com procurar a vista para ver o horizonte sem fim. O azul-esverdeado lhe faz falta, uma falta tão agigantada quanto a cor das correntes e o balanço da maré.

Agora, depois de tantos anos, resolveu fazer o que seu chamado sempre exigiu. Pela última vez, desceria a serra. Sua grande morada era no embalo das ondas. Entrou em seu grande e solitário barco e respirou fundo, para nunca mais voltar.

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9 comentários:

  1. Oi Fê,
    Esses são contos são curtinhos, mas tão intensos. É sempre algo para refletir, aprender e querer voltar aqui.

    Realmente as vezes a cidade deixa a gente com essa sensação de sufocamento, muita gente em volta, mas quase ninguém realmente perto. É um desafio viver por aqui.

    Um beijo!
    Inventando Assunto

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    1. É um desafio nos manter humanos em meio a este caos.
      A gente tenta até conseguir!

      Beijos!

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  2. oi, oi.

    Fê, que texto maravlhoso! não vou dizer que me identifiquei com a realidade descrita no texto pq a minha vidinha é tão calma aqui no interior. na verdade, sempre quis passar por essa movuca de sentimentos, ver muitos prédios e uma cidade movimentada. mas... creio que, às vezes, deve ser bem perturbador tudo isso: você tá no meio de tanta gente precisando de ajuda e não tem condição/tempo pra ajudar. foda demais.

    amei o texto, como sempre!

    bjs!
    Não me venha com desculpas

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    1. É complicado encarar a desigualdade de forma tão intensa. A cidade grande tem disso: muita gente e muita solidão.
      Não sei como é em cidade pequena que todos se conhecem, mas se sentir solitário em meio a muita gente é meio desesperador!

      Beijos

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  3. Sis, sei que a barra está pesada mas você está em uma fase como autora que está me surpreendendo. Amo seu estilo e amo você!

    www.carolvayda.com.br

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    1. A barra está pesada demais, mas eu sei que uma hora td dá certo... ou é isso ou é morrer tentando...

      Tbm amo vc! ♥
      Beijos

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  4. Isso é angustiante, não quero que o tal progresso da cidade grande chegue aqui no interior.Amo a paz que a calmaria trás.

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  5. Que angustiante. Eu não quero que esse tal progresso da cidade grande chegue aqui no interior. Amo a paz que a calmaria trás.

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    1. Tudo tem seu lado bom e ruim... O progresso tem isso de ruim, mas tem tantas coisas boas! :D
      Não tenha medo!

      Beijos!

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