Carta da despedida

by - 11:31 PM

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
(The road not taken - by Robert Frost)


Oi professor,
Acabei de ler a notícia sobre a sua morte. De súbito, todas as memórias daquele 2010 vieram a minha mente: desde o dia em que nos conhecemos, até o encontro casual no corredor da universidade (já quase em época de férias). Meu coração ficou apertado e triste por saber que você foi de maneira tão trágica, ainda mais porque sabia que você era tão cheio de vida. Não pude deixar de recordar do seu relato sobre quando morou em Israel... Sair de um lugar tão cheio de guerras para morrer em um acidente de carro... É isso o que as pessoas chamam de ironias da vida?! Definitivamente, não gostei nem um pouco disso...

Sei que parece estranho escrever sobre tudo isso agora (mas você foi um dos que me ensinaram que a escrita tem poder e eu preciso tentar diminuir este nó na garganta que me avassala o peito). Ainda mais uma pessoa que aproveitava as suas aulas para corrigir as tarefas dos meus alunos do learning center. Nada educado, eu sei (e desde já peço desculpas). Mas o fato é que sim, eu prestava a atenção em cada palavra que você dizia. E sim, eu me sentia privilegiada por ouvir uma pessoa com tantos conhecimentos como você. Depois, conversando com a professora Lilian, ela também demonstrou admiração por toda a sua trajetória profissional – o que me fez ver que eu deveria dar créditos ao professor marrento que assumiu a minha turma numa situação de emergência.

Sabe, ainda me lembro daquela dia em que a aula era última de uma sexta-feira fria e chuvosa – véspera de feriado prolongado – que não tinha quase ninguém. Estudávamos a constituição americana e você arrebentou! Até então nunca havíamos trocado palavras que não fossem estritamente necessárias, mas agora me sinto aliviada por ter voltado até a sala depois que todos foram embora (e você apagava a lousa) e ter te dito o quanto eu havia gostado daquelas horas em que estudávamos a importância da legislação americana não só para a constituição do país, quanto para a literatura. Sua cara surpresa valeu o dia e me fez voltar para casa feliz!

Depois vieram os sonetos de Shakespeare – o 20 em especial. Adorava quando você perguntava qual era a nossa interpretação para o que estava ali escrito. Muita gente não tinha coragem de falar e outros falavam até demais, como sempre acontece em salas numerosas... Gostava do debate. Debates enriquecem a nossa mente de sabedoria (e o seu tom, por vezes sarcástico, tornava tudo muito interessante. Você nos fazia pensar e querer estar sempre um passo adiante)... Mas voltando aos poemas, amei “The road not taken”. Acho que foi com ele a primeira vez que expus a minha visão/opinião (ou seria sentimento?) para todos na sua aula. Contudo, o que me deixou feliz mesmo foi ver a sua cara de aprovação ao ouvir o que eu disse. O seu pequeno e discreto sorriso foi muito significativo.

Quando veio o trabalho de análise de Death of a Salesman*, eu dei o meu melhor. Queria te provar que conseguiria sim fazer uma análise decente de uma obra importante. Era uma coisa de “questão de honra”, mas também era questão de reconhecimento. Bati o pé igual uma criança mimada, perdendo horas dos meus finais de semana (e de qualquer outra mísera sobra de tempo livre), porque queria ser reconhecida por você. Queria que o meu trabalho fosse um dos mais incríveis que você tivesse lido. Queria que você olhasse para mim não como uma qualquer que fez Letras porque não sabia o que queria da vida, mas como uma aluna de verdade que sempre amou o curso que escolheu. Infelizmente não estava no dia em que você devolveu os trabalhos aos, todavia foi extremamente recompensador ouvir os colegas chegando e dizendo que o “Feldman elogiou demais o seu trabalho”. Essa frase, por si só, serviria para fechar o ano e o curso com chave de ouro.

Voltando para todas as memórias que me vieram à mente, fico aliviada por ter te procurado lá na turma de psicologia - fora do horário da minha aula - para agradecer não só pelos elogios feitos na minha ausência no dia da entrega da análise de Death of a Salesman, como pelo ano como um todo. Foi ótimo poder reconhecer o seu papel como professor e foi incrível ter a sua aprovação enquanto aluna. Pensar neste dia, me faz sorrir até hoje e eu só tenho que agradecer mais uma vez por isto! Muito obrigada.

Enquanto escrevia esta carta, voltei de novo na notícia que anunciou a sua partida. Vi as imagens do seu carro destroçado... E doeu muito! Eu não quero imaginar a sua dor. Não quero imaginar a tristeza dos seus familiares, principalmente do seu filho – que você tanto amava (era lindo ver os seus olhos brilhando ao falar dele!). Não quero pensar na dor da sua namorada que te viu partir de forma tão trágica... Eu quero focar em você falando com entusiasmo da literatura canadense ou da vida em Israel. Quero me lembrar do seu sorriso ao me avistar no corredor e do meneio com a cabeça, dizendo oi. A partida dói demais, por isso prefiro ter o seu sorriso na minha memória.

Mais uma vez,
Obrigada por tudo!

Com amor,
a aluna (também) marrenta do 3ALEN de 2010.

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*Death of a Salesman = A morte do Caixeiro Viajante (escrito por Arthur Miller)

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4 comentários

  1. Fê, seu texto foi lindo, muito tocante. Logo eu, uma estudiosa da morte e do luto me fez encher os olhos de lágrima.

    Que triste a partida...

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    1. Suz, é sempre dolorido, ainda mais quando é de uma forma repentina e tão trágica. :/

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  2. Eu tinha visto no face e tive que passar aqui para conferir. Achei seu texto lindo, tocante e extremamente delicado. Também tive um professor muito marcante - mas no colégio - de literatura que morreu também em acidente de carro. Essas perdas marcam muito.
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. É difícil. É doloroso.
      Apesar de ter escrito tudo isso, não tenho palavras exatas para descrever, sabe?!
      :/

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