Finais e começos são termos que sempre me deram calafrios. Nunca gostei de mudanças bruscas, de recalcular a rota. Culpo o meu sol em Virgem na casa 10 por isso — é mais divertido dizer que isso é responsabilidade da astrologia, do que nomear de rigidez cognitiva ou por qualquer outro termo da Psicologia que o valha. Sempre quis pés no chão, estabilidade, planos de longo prazo que se cumpram, sem vertigem, sem surpresas. Lutei e continuo lutando por isso com unhas e dentes.
O que é presumível — e, portanto, tedioso — para a maioria das pessoas me fascina: a certeza da previsibilidade, de saber que o encontro acontecerá na hora e no local exatos, com um roteiro friamente calculado que segue o script tantas vezes pensado e repensado e que é à prova de problemas. Eu já pensei em tudo. Já está tudo certo. É pra isso que serve ter uma mente ansiosa, não? É isso, no fim das contas, que faz com que as borboletas que habitam o meu estômago voem alto.
Já conversamos sobre isso algumas vezes. Sobre como este ano tem sido de morte de algumas certezas e de nascimentos de começos promissores. Como essa montanha-russa pode ser linda e exaustiva. Como às vezes isso me deixa azeda ou sorrindo à toa. Falamos como você me tira do eixo, me faz repensar a vida, me apresenta novas perspectivas. O final fatídico morrendo e a esperança renascendo — tudo ao mesmo tempo. Tudo agora. É piegas, eu sei. Mas já te disse, fui direta: sou piegas, dramática, amorosa em demasia. Nem todo mundo aguenta o tranco. Você também não vai fugir, vai?
Eu jurava que você fugiria. Homem é homem desde que o mundo é mundo. Quantos deles gostam de pessoas intensas como eu? Quase nenhum. A maioria me taxou de doida, de exagerada, de emocionada. Um ser incapaz de ser feliz seja sozinha, seja com alguém. Eu jurava que você fugiria. Que erraria o caminho. Que arranjaria uma desculpa qualquer. Não é esse o modus operandi?
O fato é que você não fugiu. Eu ainda não acredito. Talvez, sendo muito sincera, isso seja o que mais me assuste. Você ficou. Ficou porque quer e ainda falou não só para mim, mas para todo mundo que ficaria. Coisa de relacionamento sério, apresentar a família, os amigos. Você aqui. Existe pra sempre? Você ficou porque quis. Se eu queria? Você jogou a bola nas minhas mãos. Era a minha vez de decidir. E eu quis. Quis você e quis a gente. Eu quero esse terremoto gostoso que desestabilizou algumas das minhas convicções e que me fez sonhar um tantinho — coisa que eu nem lembrava mais como fazia. Desde que você chegou, recalculei a rota passei a começar a mudar o caminho.
Aliás, mudo e mudo com gosto. Ainda que haja medo pelo que fica para trás, sinto que juntos damos existência a uma vida totalmente nova. Esta descoberta tem, em si, seus percalços e sua beleza. Explorar todo este universo tem sido amorosamente divertido, e eu me sinto grata.
Muito se diz sobre ressignificar, palavra essa tão saturada na internet (e fora dela). Talvez eu esteja mais do que dizendo, vivendo a tal da ressignificação. Finais e começos são termos que já não me dão mais calafrios. Eles apenas me mostram o quanto eu estou viva, o quanto seguimos vivendo.
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