domingo, 11 de outubro de 2020

{Vamos falar sobre escrita?} Entrevista com o escritor Rafael Farina

Vamos falar sobre escrita com o Rafael Farina?! :)

Oi, pessoal!
Eu sempre fico muito honrada em trazer entrevistas aqui no blog, porque essa é uma forma de apresentar para todos vocês pessoas que eu admiro. Hoje, a conversa foi com o escritor Rafael Farina. Conversamos sobre a construção literária, sobre influências e projetos futuros. Confira! 

Algumas Observações: Quando você sentiu vontade de começar a escrever e em qual momento você passou a ver a sua escrita como arte? Comente um pouco como foi o seu despertar para a escrita e em qual momento você passou a se intitular escritor. 
Rafael Farina: Eu sempre fui tímido, na verdade sou ambivertido, que é a pessoa que pode ser extrovertida ou introvertida, dependendo do ambiente em que ela estiver e do assunto que estiver sendo discutido. Por outro lado, sou bastante emotivo, então vivo esse dilema de querer colocar as emoções para fora, mas nem sempre encontro a frequência verbal correta. Por isso encontrei refúgio na escrita. O primeiro poema que me lembro de ter escrito foi com 16 ou 17 anos, sobre um amor de verão. Mas minha ligação com a escrita vem desde a época da alfabetização. Minha mãe era quase esquizofrênica com caligrafia, daquelas que apagava toda a página ao invés de somente a letra que estava mais feia. Até hoje alguns amigos mandam poemas por Whatsapp para eu escrever à mão, e eles postarem nas redes sociais. Então meu primeiro gosto por literatura foi pela forma das letras. Se não tivesse feito Publicidade, provavelmente teria ido pro lado do Design, e me especializado em desenho de fontes. Sobre o despertar para a escrita, aconteceu sem eu perceber. Um dia peguei todos os caderninhos de frases soltas, reli e pensei: “Será que dá pra organizar algo aqui?”. Logo depois eu estava fazendo minha primeira oficina de escrita, com a Marina Wisnik, na Casa do Saber, acho que em 2011 ou 2012. A primeira vez que me apresentei como escritor foi recentemente, após o lançamento do meu primeiro livro de poesias Falhas que só existem no Sul, em 2018. Mas minha profissão não é escritor, não ganho a vida com meus textos, e acredito que nunca serei 100% somente escritor, no sentido de profissão.

AO: Como é a sua rotina de trabalho com a escrita? Você estabelece metas para si mesmo? Você tem outras ocupações profissionais além da literatura? Se sim, como concilia os dois?
RF: Não existe um dia sequer que eu não respire escrita. Mesmo que seja um sopro. Uma página lida, uma frase escrita, uma ideia anotada num caderno. Não costumo estabelecer metas, nesse sentido sou um virginiano não praticante (risos). Um dos meus autores favoritos é o Jack Kerouac, e por consequência, toda a geração beat. Uma vez ouvi o Eduardo Bueno (Peninha) falando do processo de criação do William Borroughs, chamado cut and paste, onde ele recortava várias partes de textos e juntava conforme as ideias iam se encaixando. 

AO: Você tem alguma formação literária, estuda por conta própria ou escreve de maneira intuitiva? Como é o seu processo de busca por aprimoramento profissional? 
RF: Fiz algumas oficinas, com escritores de alto gabarito. Além da Marina, que citei anteriormente, tive a oportunidade de aprender com Marcelino Freire, Xico Sá, Daniel Galera, entre outros. Já pesquisei alguns mestrados em escrita, inclusive fora do Brasil, mas prefiro seguir minha intuição e prestar sempre muita atenção na estrutura geral das obras clássicas. 

AO: Falando do texto em si, o que você mais gosta de escrever? Quais são as suas influências, os seus autores preferidos? 
RF: Poesia auto ficcional. Meu grande objetivo é deixar o entendimento, a conclusão de cada poema, para o leitor. Onde termina o personagem e começa o autor? Tenho também alguns contos rascunhados, umas crônicas. Qualquer hora me fixo neles e quem sabe lanço algo neste formato. As influências são muitas, e variadas. Como falei anteriormente, a Geração Beat sempre me fascinou. Talvez por eu ser um grande entusiasta dos anos 40/50. Sempre achei que eu deveria ter nascido naquela época, para ter chego nos anos 60 adolescente. No Brasil, os maiores influentes são Mario Quintana, Evandro Affonso Ferreira, Ferreira Gullar, arrudA. E não poderiam faltar os escritores latino americanos: Galeano, Julio Cortázar, Isabel Allende, García Márquez. Além das influências da música, cinema, e pintura. Pessoas como Bob Dylan, Al Pacino e Van Gogh me inspiram fortemente. 

AO: Ainda falando sobre o seu processo de criação, quais são os desafios diários de ser escritor? (Como você lida com a procrastinação? Com medo de não corresponder às expectativas? Às vezes bate aquela sensação de insegurança, sensação de não ser bom o bastante? Como você vence os bloqueios criativos de modo geral?) 
RF: Acredito que os maiores desafios são provocados por elementos externos. A falta de incentivos por parte dos governos, o sumiço cada vez mais crescente das livrarias de bairro, o desinteresse médio do brasileiro em leitura. Estão todos interligados, e nós temos obrigação de seguir lutando, cobrando, divulgando novos escritores e escritoras. O cansaço é grande, mas não podemos baixar a cabeça. Em relação ao meu processo criativo, depende muito do tipo de projeto. Esta entrevista, por exemplo, estou respondendo com bastante antecedência, já que está sendo feita à distância. Se for algo de um dia pro outro, ou mais urgente até, prefiro não me preparar muito, e deixo a criatividade vir no seu ritmo, na hora. Eu tenho um truque para checar se um poema está bom ou não. Leio para algum amigo ou familiar que não respira tanta literatura, e no final digo que é de algum poeta famoso. Geralmente o feedback é positivo, aí eu vou perguntando o que mais gostou, se não entendeu alguma parte, se mudaria alguma coisa. Anoto mentalmente e trabalho no poema mais tarde. 

AO: Como funciona o seu processo de pré-publicação dos seus escritos e o que você acha importante fazer antes de soltar um texto no mundo? 
RF: Às vezes publico um texto nas redes sociais, sem muita preocupação com a qualidade. No caso de um livro, acho que poderia ter tido um pouco mais de cuidado com os detalhes no primeiro livro. Fui muito afoito, empolgado com a possibilidade de lançar o quanto antes. A revisão ortográfica é básico, e sempre vale à pena ter um revisor, sem esperar somente que a editora faça esse trabalho. O equilíbrio entre o título e a capa, a dedicatória, e a própria disposição da sequência dos poemas faz com o livro tenha uma unidade, uma sequencia de leitura que dá um peso maior para a obra. 

AO: Qual é o papel das redes sociais para o seu trabalho de escritor? Como é a sua interação com seus leitores na Internet? 
RF: O Marcelino Freire uma vez comentou que a maior editora do país é a Editora Suvaco. Ou seja, coloque seu livro embaixo dos braços e saia fazendo divulgação. Neste ponto, as redes sociais aproximam as distâncias e podem estimular bastante tanto a criatividade quanto as vendas. É importante ir construindo uma rede de contatos com outras cidades, estados, e até países. Mas acho importante buscar membros para sua gangue na sua cidade. Quem são as pessoas que sofrem das mesmas dores que você no seu bairro? Quem também tem a mesma tara por um cheiro específico na sua rua? Minha interação é bastante reduzida, já que não sou muito ativo e tenho aproximadamente 750 seguidores, e a grande maioria não transita no universo literário. 

Rafael Farina e seu Falhas que só existem no Sul.


AO: Quantos livros você tem publicados? Você pode falar um pouco sobre as suas obras? Você vê diferença entre publicar em livro e na internet? 
RF: Apenas o Falhas..., em 2018. Tenho um poema publicado na Revista Rusga, e fui convidado para duas antologias poéticas, que decidi não participar, pois se revelaram duas grandes caça níqueis que dariam muito dinheiro para a editora e nada para os escritores. Sobre o livro, são poemas que escrevi durante muito tempo, quase um diário, focado principalmente em desilusões amorosas que tive ao longo da vida. Existe uma questão geográfica forte, com paisagens em Garopaba, São Paulo, Porto Alegre, e Buenos Aires, para citar as principais. Gosto de imaginar que nestes lugares, neste exato momento, tem alguma pessoa desiludida e cheia de dúvidas, assim como eu estive. 

AO: Nos seus textos você costuma falar sobre as relações humanas. Como você vê a relação do seu público com a obra que você produz, uma vez que vivemos em um mundo tão caótico e violento? 
RF: Sim, costumo falar bastante sobre relações, não somente humanas, mas também geográficas. O local onde estou sempre tem forte influência no meu comportamento. Isso é uma característica muito forte do ambivertido. O meu prisma de emoções contém desde banho de mar numa praia vazia do Uruguai, até a lembrança do cheiro do metrô de Londres. E não necessariamente irei escrever algo positivo sobre isso. Posso sentir saudades de quem tomou esse banho de mar comigo, por exemplo, e criar um poema triste, amargo. Neste sentido, espero que os leitores entendam que a poesia serve para mexer conosco, às vezes nos alegra, mas, principalmente, precisa questionar quando estamos numa posição confortável. E acho importante não vivermos felizes o tempo inteiro. Tristeza é algo positivo, se a usarmos como trampolim para reflexão, amadurecimento, e crescimento. Ter uma válvula de escape na família ou no círculo de amizades, que esteja disposta a nos escutar, é muito importante. Mas como somos cada vez mais condicionados a segurar nossas emoções, automaticamente estamos perdendo nossa capacidade de ouvir. Empatia é quase uma utopia. Certa vez li que cerca de 80% das discussões não começam por divergências de opiniões, mas por um tom de voz errado. Agora tu imagina este cenário no ambiente social e político nacional. Óbvio que pessoas irão brigar por serem de partidos opostos, por gostarem de gêneros diferentes.

AO: Como você recebe as críticas em relação ao seu trabalho? 
RF: Engraçado, mas eu sempre lidei melhor com as críticas negativas do que as positivas. Nunca falei sobre isso com meu terapeuta, talvez seja hora (risos).

AO: Como você vê o mercado editorial para os novos autores? Quais são os principais desafios para quem quer publicar? Quais conselhos você daria para um escritor em início de carreira? 
RF: Antes de publicar, é preciso escrever. E antes de escrever, é necessário ler. Ler muito. Todo mundo tem um estilo que mais gosta, porém volta e meia precisamos beber de outras fontes. O mercado editorial está em crise, mas a literatura não. O brasileiro lê pouco, mas não por desinteresse, mas porque o preço de um livro não ajuda, e os bons livros geralmente não chegam para as grandes massas. Por isso, sugiro buscar uma editora pequena, local, mas que vá te dar um respaldo, vai ajudar na divulgação, não vai deixar teu livro abandonado em um catálogo enorme. Claro que sempre vale a pena tentar contato com as grandes editoras, mas não se apegue somente nisso. Em paralelo, repito o que falei numa pergunta acima: comece a fazer contato com outras pessoas que escrevem perto de você. Junte-se aos malucos da sua rua, do seu bairro. Quem escreve não participa de grupo, comitê, ou confraria. Quem escreve forma gangue, matilha, bando. 

AO: Quais são os seus planos futuros? Já pensa em um próximo projeto? 
RF: Estou terminando meu próximo livro de poemas, se tudo der certo lanço no começo de 2021. Ainda não tenho editora, e o título provisório é Clube do zíper no peito. Além do livro, estou dando uma oficina de poesia. Para o futuro, gostaria muito de juntar forças com algum fotógrafo e fazer um livro de poesia ilustrado. 

AO: Deixe o seu recado para os leitores do Algumas Observações. 
RF: Continuem lendo a Fernanda, e ouçam as dicas que ela dá. Quando sobrar um tempo, me sigam nas redes sociais. Espero que tenham gostado das minhas palavras.

Gostaram? 
Então acompanhe o trabalho do Rafa lá no Instagram: @rafael.com.f e no Twitter: @rafaelfarina.  
Participe dos encontros sobre o fazer poético:




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4 comentários:

  1. Oi, Fernanda! Adorei a entrevista, muito legal. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Amei a entrevista, não conhecia o autor e o livro dele já entrou na minha lista literária (que só aumenta, help hahaha).

    Beijinhos
    Renata

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  3. Oi,
    amei a entrevista. Acredito que os elementos externos atrapalha sim nossa concentração mas, tudo se dá um jeitinho e cabe a nós escolhermos a melhor hora para ficar só e escrever.
    Amei conhecer o autor.
    Beijos.



    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

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  4. Não o conhecia, mas achei essa entrevista tão interessante.

    Beijo.
    Cores do Vício

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Algumas Observações | Ano 14 | Textos por Fernanda Rodrigues. Tecnologia do Blogger.