BEDA agosto/2018 #16 — Último Segundo


A sessão fotográfica estava no fim. Depois das quase oito horas trocando de roupas e fazendo poses, tudo o que eu mais queria era o soltar de cabelos ao vento. Não dava mais para sorrir forçadamente e viver aquele universo que não era o meu.

Estava vestida de noiva. Uma noiva linda, nas palavras dos que me rodeavam. Estava de noiva, enquanto tentava esquecer as diversas tentativas frustradas de amar. Alta expectativa? Sempre na defensiva? Insegurança? Tudos e nadas que se convertem em solitudes, dia após dia.

Não via a hora do presente se converter no meu presente. Por isso, suspirei aliviada quando finalmente ouvi os agradecimentos da equipe. Vesti meu jeans surrado, minha camiseta cinza e meu all star vermelho. Coloquei a branquitude no cabide e entreguei à responsável pelo figurino. Em silêncio, peguei a bicicleta estacionada estrategicamente perto à porta do estúdio e parti.

Enquanto segurava o guidão com a mão esquerda, usava a direita para soltar os grampos do cabelo. Os fios, por sua vez, se desgrenhavam de forma esquisita por causa do laquê usado no penteado. Via a minha própria sombra no chão, imaginava o que os transeuntes pensavam e ria sozinha da cara de louca que sabia que tinha.

“Finalmente te alcancei”. A voz vinha da bicicleta atrás de mim. Era doce e firme, como uma música em que o cantor tem certeza do que sente. Não queria olhar para trás, embora meu coração saltasse com tal novidade. Ele emparelhou. “Vamos tomar um café?”

Aquele foi último segundo. Depois dele, deixei de ser parceira do vazio.



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