Paula e seus lisiantos


Não queria sair correndo para pegar o buquê, em meio às desconhecidas, mas ali estava a Paula, minha melhor amiga de infância, prestes a jogar seus delicados lisiantos para todas as solteiras. Conhecendo a Paula como conheço, preferi o meio minuto de disputa a todo o discurso que ela faria se eu não fosse. Portanto, me obriguei a me aproximar.

Me posicionei na frente — para que Paula pudesse me ver —, e aos poucos fui para o me deslocando para a direita. Fiz o movimento enquanto Paula brincava, fingindo que iria jogar as flores, mas não jogava. Acabei quase como um ser à parte daquela roda de mulheres que estavam prestes a se acotovelarem. Melhor assim.

De onde estava, tinha uma visão bonita da felicidade da Paula e, sobretudo, do olhar de Marcos para ela. Ele sem dúvida era louco por aquela mulher descalça em seu vestido branco. A festa chegava ao fim apenas para nós, meros convidados, porque podia sentir a energia que ele emanava em seu olhar: estava perdido em Paula e não queria se encontrar.

À direita e perdida na felicidade dos outros. Assim estava, quando senti o buquê se aproximando, caindo nos meus braços, enquanto as amigas e primas de Paula corriam em minha direção. Como os lisiantos me encontraram, eu não sei. Conexão entre amigas de infância, talvez. O fato é que Paula me abraçou como há tempos não fazia e sussurrou em meu ouvido um “que bom que foi você”, para depois voltar a dançar.

Me sentei novamente, agora com aquelas flores claras me encarando sobre a mesa e um futuro vazio gritando pelo meu nome. Vazio é uma palavra tão vasta, que evocava de forma profunda no meu ser. Como poderia ter chegado aos 30 anos sozinha, em uma festa de casamento em que eu conhecia apenas os noivos e os pais da noiva? Dizer que é patético é pouco. Era dolorido a ponto de ser físico, quase um tridente enfiado em minhas entranhas, se retorcendo. Queria chorar, mas o momento não permitia. Não poderia dizer que estava emocionada porque via todo mundo dançando. Não faria o menor sentido.

Pensei em correr para a saída, pedir um uber e ir embora. Tecnicamente, já havia permanecido em todas as fases daquelas formalidades: cerimônia, jantar, fotos, primeira dança, discurso, buquê, bolo. Não faria mais falta e poderia jogar a minha solidão para debaixo do tapete de novo. Era mais fácil seguir em frente assim.

Estava prestes a me levantar para me despedir dos noivos quando o Marcos veio em minha direção. Para a minha surpresa, ele não estava sozinho:

— Amanda, você concede a honra de dançar com esse rapaz aqui? — Seu tom era risonho quase bêbado, de quem está embriagado de álcool e de felicidade.

— Você sabe que eu não sei dançar... — senti minhas bochechas pegarem fogo. André era um dos amigos mais bonitos de Marcos.

— Ele dá um jeito. — Marcos piscou para André e nos deixou ali, comigo muda, sem saber bem o que fazer.

— Foi mal o jeito do Marcos, ele está tão feliz que quer ver todo mundo feliz também. — sorri ao mesmo tempo em que me condenava por dentro. Trinta anos sem saber flertar, pode isso, Amanda? Pode? André continuou — De qualquer forma, foi bom. Passei a festa toda querendo dançar com você.

Ele também estava tímido (ou, ao menos, fingia estar). Mas acabei cedendo, quando ele me estendeu a mão. Apenas torci para não pisar no pé dele e me entreguei para aquela que seria a primeira de muitas das nossas danças. Tudo culpa da Paula e seus lisiantos.

Texto produzido para o desafio criativo de setembro, cujo tema era a flor "lisianto".


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4 comentários

  1. Ooownt. Que crônica linda. Perceber que o amor nasce assim... Do nada. Eh revigorante. 💘❤💥

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    1. É bonito quando ele vem. :)
      É encantador quando ele fica.
      É devastador quando ele acaba...

      Beijos :*

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  2. Que texto mais fofo de se ler. A cada nova palavra lida eu ia imaginando a cena como se fosse um filme, e vamos combinar isso daria uma ótima comédia romântica, daqueles que fazem a gente acreditar no amor e seus acasos. Como sempre arrasando na escrita Fer!

    obs: Só eu fiquei curiosa para saber mais sobre o nome casal que se formou? kkk


    Blog Profano Feminino

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    1. uahahahah quem sabe eu não continue escrevendo sobre eles? Quem sabe?

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